ARMAZÉM LITERÁRIO

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POESIA
Canções do exílio

Carlos Vogt

O exílio nos acompanha. A nós, homens e mulheres da humanidade, expulsos que fomos do paraíso, pela temeridade ancestral de nossos pais míticos – Adão e Eva – que se entregaram à sedução do conhecimento sem limites e geraram, para sempre em nossa cultura, este sentimento inalienável de perda metafísica.

É de Juan Carlos Onetti a sentença seminal:

"Devo terminar referindo-me ao exílio definitivo a que estamos condenados pelo simples fato de vir ao mundo. Daqui seremos exilados, não sabemos para onde nem quando."

No Brasil e em Portugal carregamos tão fortemente o fado da migração, pela materialidade histórica de seu acontecimento e pela imaterialidade ideológica de suas representações, que Fernando Pessoa exila-se em nada mais, nada menos que no próprio português, ecoando, além-mar, em Caetano Veloso, o verso consagrado "minha pátria é minha língua".

E foi em Portugal que Gonçalves Dias, em 1843, estando em Coimbra, em exílio voluntário e estudantil, escreveu, estampando Goethe como epígrafe, o que se tornaria o leitmotiv mais presente da literatura brasileira por gerações e gerações de escritores e de leitores:

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Os jovens que integraram as forças expedicionárias do Brasil na Itália, na Segunda Guerra Mundial, cantaram com todo o país os versos que o hino tomou emprestado à última estrofe da "Canção do Exílio":

Por mais terras que eu percorra,

Não permita Deus que eu morra

Sem que eu volte para lá...

Mas antes, muito antes, Casimiro de Abreu, romântico como Gonçalves Dias, cheio de saudades da infância e de sua terra natal, ecoou, no calor da contemporaneidade, os versos do poeta maranhense:

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,

Meu Deus! Não seja já:

Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,

Cantar o sabiá!

Ou ainda, em outro poema, em que o sabiá, que lá em Gonçalves Dias cantava nas palmeiras, e já havia mudado para a laranjeira, agora se encontra aqui, mais genericamente, em seus retiros:

Eu nasci além dos mares:

os meus lares,

Meus amores ficam lá!

– onde canta nos retiros

Seus suspiros

o sabiá.

Mas não se pense que só românticos, poetas ou jovens em causa alheia, como os que foram para a guerra, recitaram os versos nacionalisticamente nostálgicos da nossa primeira "Canção do Exílio".

A sua fortuna crítica seguiu em rota de sucesso passando por modernos e modernistas que a referiram, mencionaram, lembraram, parodiaram, num ritual de renovação constante e de vitalidade perene.

Cassiano Ricardo quis transcendê-la no sentimento adulto e algo conceitual da saudade:

Esta saudade que fere

mais do que as outras quiçá,

Sem exílio nem palmeira

onde cante um sabiá...

Carlos Drummond de Andrade finge, poeticamente, distância e esquecimento, para entregar-se em afeto de homenagem e envolvimento:

Meus olhos brasileiros se fecham saudosos

Minha boca procura a ‘Canção do Exílio’.

Como era mesmo a ‘Canção do Exílio’?

Eu tão esquecido de minha terra...

Ai terra que tem palmeiras

onde canta o sabiá!

Oswald de Andrade canta o regresso à pátria, troca as palmeiras por Palmares e pontua o movimento da volta com a cadência contrária das marcas futuristas do progresso de São Paulo:

Minha terra tem Palmares

onde gorjeia o mar

os passarinhos daqui

não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas

E quase que mais amores

minha terra tem mais ouro

minha terra tem mais terra

Quero terra amor e rosas

Eu quero tudo de lá

Não permita Deus que eu morra

sem que volte para lá

Não permita Deus que eu morra

sem que volte para São Paulo

sem que veja a rua 15

E o progresso de São Paulo

Murilo Mendes enfia o cotidiano no esquema da nostalgia e o efeito poético de distanciamento do modelo, que obtém, não elide, contudo, a reverência – irônica, é verdade – à matriz da saudade nacional:

Minha terra tem macieiras da Califórnia

onde cantam gaturamos de Veneza

Eu morro sufocado

em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas

nossas frutas mais gostosas

mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola

de verdade

e ouvir um sabiá com certidão

de idade!

Jô Soares, que não é poeta, mas humorista, dos bons, não resistiu à melodia da canção e, virando-a pelo avesso, encheu a sua resistente ossatura com a carne generosa da política de regalias e privilégios do presidente cassado:

Minha Dinda tem

cascatas

onde canta o curió.

Não permita Deus que

eu tenha

de voltar pra Maceió.

Minha Dinda tem

coqueiros

da ilha de Marajó.

As aves, aqui,

gorjeiam

não fazem cocoricó.

José Paulo Paes, no melhor estilo do sintetismo antidiscursivo das grandes vanguardas modernistas, fez da canção o resumo, em pílula, facilitando-lhe o instantâneo e despojando-a de acessórios:

Lá?

Ah!

Sabiá...

Papá...

Maná...

Sofá...

Sinhá...

Cá?

Bah!

Caulos, outro humorista, também dos bons, fez o sabiá migrar dos versos saudosistas para a denúncia ecológica, no grafismo leve e tocante do exílio de sua própria palmeira. E é essa palmeira, que já não há, que ressuscita em uma das mais lindas canções da música popular brasileira, de Tom Jobim e Chico Buarque, trocando agora o sabiá histórico pela sabiá amada:

Vou voltar, sei que ainda

Vou, vou voltar para o meu lugar

Foi lá e ainda é lá

Que eu hei de ouvir cantar

Uma sabiá

Cantar, uma sabiá.

É como se todos tivéssemos escrito, cada um, a sua própria canção do exílio.

Na minha, escrevi:

Quando os sinos tocarem os funerais de minha vida,

eu já terei sido menino, moço, adulto, velho e morto,

se tiver a chance de assistir correr meus anos

da hora de nascer curto e espremido como um choro

à hora de partir longo e doído como um sopro.

E assim me encontro, aqui, com Onetti, que foi nosso anfitrião nessa viagem ao redor do exílio, cujo porto de chegada não pode ser outro senão o de uma das cidades invisíveis que Ítalo Calvino deu a Marco Polo para visitar na incansável narrativa em que as contava ao Grande Khan. Quem sabe esta:

Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça. Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.

– Você viaja para reviver o seu passado? – era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira: – Você viaja para reencontrar o seu futuro?

E a resposta de Marco:

– Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.



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