|
ARMAZÉM LITERÁRIO
Autores, idéias e tudo o que cabe num livro
ACADEMIA
Grandezas e misérias
V. G.
Miséria do Jornalismo Brasileiro: as (in)certezas da mídia , de Juremir Machado da Silva, Petrópolis, Vozes, 155 pgs
Um metrô chamado Marta, de Daniela Dariano, Porto Alegre, Editora Sulina, 101 pgs
Dois gaúchos lançaram recentemente livros sobre a imprensa. Um, pretensioso, trata das "certezas da comunicação no Brasil". Outro, ligeiro e despretensioso, relata as experiências de uma jovem como estagiária na CNN, em Atlanta (EUA).
Juremir Machado da Silva escreve fácil e fluente. Trabalha com alguns raciocínios mais complexos, mas simplifica-os estereotipando seus personagens. Com três personagens, deu conta de um livro chamado Miséria do Jornalismo Brasileiro: as (in)certezas da mídia. Os estereótipos cansam e fragilizam os argumentos do autor. A denúncia de que a imprensa se repete, se apóia sobre estruturas viciadas e serve ao esquema dominante se apequena pela simplificação dos argumentos, se bem que a tese também não seja propriamente original.
A obra não chega a ser desinteressante. É crítica de mídia da boa, daquelas que apresentam as coisas como elas de fato são. Quem pegar o livro para ler tende a ir até o fim.
Uma pena que toda argumentação do autor se baseie na certeza comportamental de três tipos ideais – que o autor chama de esquerdista ilustrado, aluno-modelo dos cursos de jornalismo aplicado e idiota tecnológico. Felizmente, no Brasil, hoje temos esquerdistas e direitistas para todos os gostos, ilustrados ou não. Pode até ser verdade que esses cursinhos de adestramento de focas que a grande imprensa promove pretendam produzir alunos-modelo, mas não creio que o consigam. Por fim, fazemos – nós, os brasileiros – todo tipo de uso da tecnologia, penso até que o idiota é dos menos votados.
A imprecisão alcança alguns panegíricos de Machado da Silva: "Assim, a crítica da mídia não pode converter-se em ‘diabolização’ da imprensa e em desculpa para as falhas internas de estruturação política das correntes de esquerda" (pág. 27). A arenga até que é justa, pena que o autor não identifique quem estaria "diabolizando" a imprensa. Seria o nosso Observatório da Imprensa? Lamentavelmente, não! O autor, francófilo assumido, dialoga apenas com autores franceses. Críticos da mídia são Serge Halimi, Pierre Bourdieu e outros. Críticos da mídia brasileira?! A bibliografia cita 45 obras e 24 autores; brasileiro, apenas Mario Sergio Conti e seu Notícias do Planalto.
Ora, quase tudo o que Juremir fala da imprensa, com a qual chegou a conviver, também ocorre na vida acadêmica, na qual hoje o autor se sustenta em estruturas viciadas que "se apóiam sobre grupos que se autoprotegem". Juremir vai além e afirma que "na Europa discute-se apaixonadamente o sistema autárquico da mídia, no qual um jornalista elogia o outro e todos vivem felizes para sempre" (pág. 17). Ah, se discutíssemos com a mesma paixão como esse processo se dá tanto na mídia como na academia!
Cheguei a pautar um professor para fazer a resenha do novo livro. A resposta foi sintomática: "Não posso, Juremir é meu amigo, de repente ele se incomoda com algumas palavras minhas".
Rotina americana
Daniela Dariano é endiabrada. Aos 24 anos, publica seu primeiro livro, relatando suas experiências como estagiária na CNN, em Atlanta, nos Estados Unidos. Um metrô chamado Marta é o livro de estréia desta jovem que promete no jornalismo.
Daniela já fizera o segundo grau na Nova Zelândia e iniciara um curso superior de Medicina, do qual chegou a cursar três anos. Abandonou-o pelo Jornalismo na PUC-RS. Ainda estudante na PUC, foi estagiar na RBS. E por intermédio da RBS Daniela pôde viver as experiências que relata em seu livro.
O texto é fluente, agradável, inteligente. Como relato de viagem chama a atenção a capacidade de observação de Daniela. Sua experiência não é grande coisa: ficou um curto período estagiando no site em português da CNN. O livro vale pelo texto, pela disposição de relatar e pelas pequenas surpresas em interessantes comentários da autora provocados por determinados fatos aparentemente banais da rotina americana e de Atlanta.
Para o jovem que deseja ser jornalista, o exemplo de Daniela mostra que não há limites para a vocação e a persistência.
Volta ao índice
Armazém Literário – próximo texto
Armazém Literário – texto anterior

|
|