ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro


ASPAS

CARLOS NELSON COUTINHO
Valor Econômico

"Intelectuais em extinção", copyright Valor Econômico, 24 a 26/11/00

"Ele admite que, por continuar marxista, corre o risco de ser um ‘animal em extinção’. Mas nem por isso deixa de atiçar controvérsias ao defender uma cultura nacional-popular em plena era da globalização e ao qualificar de ‘transformistas’ antigos intelectuais de esquerda (entre eles o presidente Fernando Henrique Cardoso e o ministro da Cultura, Francisco Weffort) que teriam se convertido ao neoliberalismo. Não pense que as opiniões polêmicas do cientista político Carlos Nelson Coutinho param por aí. Em entrevista ao Valor, ele sustenta que a década de 90 não produziu um único grande escritor no Brasil nem um movimento comparável ao Centro Popular de Cultura (CPC), que atuou nos anos 60. ‘Hoje prevalece uma cultura ornamental e intimista, desligada dos problemas do povo brasileiro’, avalia.

Aos 57 anos, professor titular de teoria política da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Coutinho publicou, recentemente, dois livros: uma versão revista de um de seus principais trabalhos, ‘Cultura e Sociedade no Brasil’ (DP&A), com ensaios sobre os dilemas de nossa formação cultural e estudos sobre Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes, Graciliano Ramos e Lima Barreto, e ‘Contra a Corrente’ (Cortez, R$ 18), coletânea sobre a conjuntura política nacional. No momento, coordena a edição em português dos primeiros seis volumes dos ‘Cadernos do Cárcere’, do filósofo italiano Antonio Gramsci, do qual foi o primeiro tradutor brasileiro e a quem dedicou uma obra clássica, ‘Gramsci: um Estudo de Seu Pensamento Político’ (Civilização Brasileira).

Coutinho diz que o ‘ascetismo cultural’ e ‘posições ideológicas neutras’ são marcas negativas de intelectuais cooptados pelo poder. Mas destaca exceções que contrariam a regra: ‘Apesar dos vínculos com a máquina governamental, Graciliano Ramos, Lima Barreto e Carlos Drummond de Andrade sempre questionaram as estruturas sociais.’ Para ele, os novos autores que fazem carreira na televisão ‘estão se transformando em intelectuais orgânicos da mídia, com menos autonomia crítica e criatividade’. Por fim, dá um puxão de orelhas nos marxistas ortodoxos, que relutam em aceitar ‘a essência do marxismo’: a necessidade de renovação de idéias inspiradas em Marx. ‘Para ser marxista, é preciso ser um animal em mutação’, sentencia.

O sr. sempre defendeu uma cultura nacional-popular. Na era da globalização, continua acreditando na pertinência desse pensamento?

Carlos Nelson Coutinho – O sociólogo Renato Ortiz, que trabalhou e ainda trabalha com Gramsci, já decretou o fim da cultura nacional-popular. Segundo ele, estaríamos na fase internacional-popular. É preciso voltar a Gramsci e ver o que ele entendeu por cultura nacional-popular. Gramsci disse claramente que são nacional-populares os clássicos gregos e Shakespeare. Ou seja, nacional-popular nada tem a ver com nacionalismo, muito menos com populismo. Para Gramsci, o autor vinculado à problemática do povo e da nação é capaz de oferecer uma representação mais ampla e concreta do real. Faz parte da ideologia da globalização reacionária a idéia de que o Estado nacional acabou, de que a nação deixou de ser um espaço de tomada de decisão. Para mim, a nação continua sendo uma referência obrigatória. Com as adequações ao período em que vivemos, a cultura nacional-popular segue expressando a idéia de que um artista deve ter vínculos com o povo e responder aos problemas de um ponto de vista que reflita interesses da nação e do povo.

Alienação e descompromisso político estariam entre os traços predominantes da cultura brasileira contemporânea?

Coutinho – Nos anos 90, ocorreu um refluxo do processo de forte ativação da sociedade civil verificado entre o final dos anos 70 e a eleição presidencial de 1989. Esse refluxo foi, em boa parte, motivado pela hegemonia política e ideológico-cultural do neoliberalismo. O conjunto das propostas neoliberais voltou-se para a despolitização geral da sociedade e, conseqüentemente, da cultura. Tivemos a transformação da sociedade civil nessa coisa amorfa e despolitizada chamada terceiro setor. Gramsci entendia a sociedade civil como arena da luta de classes, um espaço político por excelência. A hegemonia neoliberal bloqueou a floração de uma arte nacional-popular, que se anunciou nos anos 60, manteve-se surda mas latente durante a ditadura e reapareceu em fins dos anos 70 e parte dos anos 80. Pergunto: quem é o grande artista surgido na década de 1990? Que eu saiba, nenhuma produção literária marcou época ou teve a importância, por exemplo, de ‘Quarup’, de Antonio Callado, de 1967, e ‘Viva o Povo Brasileiro’, de João Ubaldo Ribeiro, de 1984. Temos bons autores em atividade - Ubaldo, Moacyr Félix, Moacyr Scliar, Ferreira Gullar. Apareceram nomes interessantes como José Roberto Torero e Ana Miranda, além da permanência de Rubem Fonseca. Mas nenhuma grande figura surgiu nos últimos anos. Do mesmo modo, não vejo nada tão significativo em termos de movimento cultural quanto as propostas do Centro Popular de Cultura (CPC), no início dos anos 60. Hoje prevalece uma cultura ornamental e intimista, desligada dos problemas e aflições dos brasileiros.

Em ‘Cultura e Sociedade no Brasil’, há ensaios sobre as obras de Florestan Fernandes e Caio Prado Júnior. Que peculiaridades o sr. identifica sobre a nossa formação social e política?

Coutinho – Caio Prado Júnior e Florestan Fernandes criaram importantes categorias de análise dos processos elitistas e antipopulares que caracterizaram as transformações sociais no Brasil. As mudanças sempre foram feitas a partir de arranjos entre os setores das classes dominantes, com o objetivo de excluir uma participação popular. Caio Prado e Florestan demonstram que o Brasil conservou traços coloniais e não conseguiu se configurar efetivamente como nação. O nosso déficit de cidadania é por demais conhecido; o problema agrário nunca foi resolvido. Com a política neoliberal da última década, o país perdeu instrumentos de fixação de uma política nacional, autônoma e soberana; regrediu, de certo modo, à situação colonial denunciada por Caio Prado e Florestan.

O sr. poderia explicar o que chama de ‘intimismo à sombra do poder’ para caracterizar a cooptação de intelectuais pelo poder?

Coutinho – Uma das tendências marcantes em nossa história é a cooptação da intelectualidade pelos mecanismos de poder. Entretanto, devemos observar que essa cooptação não implica, necessariamente, que o intelectual cooptado defenda posições políticas e ideológicas explícitas da classe dominante. Implica que eles sejam levados a um certo ascetismo cultural, adotando posições culturais e ideológicas ‘neutras’. Algo que eu, utilizando uma expressão de Thomas Mann, chamei de intimismo à sombra do poder. O sujeito não contesta o poder; pode até cultuar a sua subjetividade, mas não põe em jogo as relações de poder e a estrutura da sociedade. A cooptação dificulta, mas não impossibilita a elaboração de um pensamento crítico. Um bom exemplo é o de Lima Barreto. Funcionário do Ministério da Guerra, escreveu dois devastadores romances antimilitaristas - ‘Triste Fim de Policarpo Quaresma’ e ‘Numa e a Ninfa’. Poderíamos citar Graciliano Ramos, que esteve ligado à máquina do Estado Novo e publicou artigos na revista ‘Cultura Política’. Não obstante, Graciliano tem uma obra de profundo caráter crítico. Carlos Drummond de Andrade dizia que há diferença entre servir a uma ditadura e servir sob uma ditadura.

As formas de cooptação de intelectuais vêm se alterando com o passar dos anos?

Coutinho – Eu diria que uma forma perigosa de cooptação dos intelectuais é exercida hoje pela indústria cultural e pela mídia. Nos anos 70, a mídia recrutou intelectuais já formados. Eram pessoas conhecidas e respeitadas, como Dias Gomes, Oduvaldo Vianna Filho e Armando Costa. Claro que havia limites estéticos e políticos para a criação cultural nos meios de comunicação. Pressões da sociedade civil sobre a mídia abriram brechas que ajudaram esses intelectuais de esquerda a produzir coisas significativas na televisão. Seria um equívoco imaginar que a mídia manipule sistematicamente contra a opinião pública. A diferença é que, agora, a mídia está criando o seu intelectual orgânico, alguém que ela projeta como intelectual, com menos autonomia e menos criatividade.

A democratização da cultura ainda é uma utopia possível?

Coutinho – É possível, mas creio ser fundamental insistir em um ponto: a democratização da cultura no Brasil tem como ponto de partida uma democratização dos meios de comunicação. Os grupos privados de comunicação levam em conta certas demandas da sociedade, mas operam sem controles efetivos. É preciso um maior controle pela sociedade desses poderosos instrumentos de criação, difusão e ação cultural.

Em seu livro ‘O Estruturalismo e a Miséria da Razão’, o sr. atacou intelectuais que, na década de 70, aderiram acriticamente ao estruturalismo. Faria objeção semelhante a antigos intelectuais de esquerda que apóiam ou participam do governo Fernando Henrique Cardoso?

Coutinho – Embora mantenha a posição de que, filosoficamente, o estruturalismo é reacionácio, na medida em que esvazia o pensamento social das questões historicistas e humanistas, fui injusto ao atacar tão duramente alguns estruturalistas que eram de esquerda e se opunham à ditadura. Georg Lukács dizia uma frase interessante: ‘Existem intelectuais que têm uma epistemologia de direita e uma ética de esquerda.’ A maioria dos estruturalistas talvez tivesse essa posição, e eu ignorei o lado ético e bati forte no lado teórico. Com mais justiça se deve combater os intelectuais do tucanato. Eles têm uma epistemologia de direita e uma ética de direita. São casos de transformismo intelectual. Veja a produção teórica de Fernando Henrique Cardoso dos anos 60 e 70. Malgrado os vários pontos discutíveis de seu pensamento, ninguém poderia imaginar que aquele intelectual de esquerda e marxistizante, que pregava uma alternativa socialista ao caráter dependente e associado da burguesia brasileira, viesse a ser o político que faz a associação da burguesia brasileira com o capital internacional. Não posso entender também o movimento de um Francisco Weffort, meu amigo pessoal, que até me levou para o PT. De repente, ele, que era uma pessoa de esquerda e usava Gramsci, adere a esse governo de uma maneira acrítica. E realiza uma gestão pífia como ministro da Cultura. Aliás, não me parece casual termos um Ministério da Cultura apagado. O neoliberalismo assume a política deletéria de despolitizar o espaço cultural. Ao citar Fernando Henrique e Weffort, gostaria de remarcar que não se trata de um fenômeno de traição individual. Um conjunto substantivo da intelectualidade brasileira assumiu, após a ditadura, posições mais à direita.

No prefácio de ‘Cultura e Sociedade no Brasil’, o senhor afirma que, correndo o risco de ser considerado um ‘animal em extinção’, mantém a convicção no marxismo. É difícil, hoje em dia, ser um marxista assumido?

Coutinho – Talvez seja mais difícil do que nos anos 60. Naquela época, pelo menos metade dos intelectuais ou era marxista ou simpatizava com o marxismo. Em contraste com outros países, o marxismo aqui resistiu melhor. Enquanto na Europa você observa um refluxo dos partidos comunistas e social-democratas nos anos 80 e 90, no Brasil, ao contrário, tivemos o surgimento e a expansão de um partido de esquerda, o PT, que, embora não se declare marxista, é certamente influenciado pelo marxismo e contém em seu interior vários marxistas. Note bem: ser marxista não é repetir o que Marx disse. Ele defendeu coisas que estão superadas e outras que eram erradas já no tempo dele. Ser marxista é ser fiel ao método de Marx, à capacidade que ele revelou de entender a dinâmica contraditória do real e as tendências da realidade moderna. Como digo no prefácio, para ser marxista é preciso ser um animal em mutação. Tenho insistido, chocando marxistas mais ortodoxos, que a essência do método de Marx é o revisionismo.

O preconceito contra o marxismo diminuiu no país?

Coutinho – O preconceito contra o marxismo nunca foi excessivamente forte entre os intelectuais. Na sociedade, sim, sem dúvida. Mas, na medida em que o anticomunismo perdeu o sentido como ideologia que atravessa a sociedade, creio que a abertura ao marxismo se tornou maior. É verdade que existem alguns intelectuais que ainda se comportam como na Guerra Fria. Surgiu, com enorme respaldo dos meios de comunicação, um intelectual de extrema-direita, de uma agressividade completa contra o marxismo. Tenho um amigo que o considera um intelectual orgânico da Idade Média. Refiro-me ao senhor Olavo de Carvalho. Curiosamente, ele se deu conta de que Gramsci é o inimigo principal. Metade de um livro dele é sobre Gramsci, aliás um besteirol, que revela uma leitura absolutamente superficial de Gramsci. Ele lê o conceito de hegemonia como lavagem cerebral! Sintomaticamente, Olavo de Carvalho é uma figura isolada. Você não pode dizer que ele é expressivo de nada, a não ser da Idade Média, que felizmente não existe mais."



Volta ao índice

Armazém Literário – próximo texto

Armazém Literário – texto anterior



Mande-nos seu comentário




Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você