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ARMAZÉM LITERÁRIO
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MEMÓRIAS DAS TREVAS
Os segredos do editor
Luiz Egypto
Antes de ser lançado na semana de 20-28 de janeiro, o livro Memórias das Trevas uma devassa na vida de Antonio Carlos Magalhães, de João Carlos Teixeira Gomes, percorreu uma via-crúcis por diversas editoras iniciada em setembro de 1999 e encerrada no segundo semestre de 2000, quando os originais foram aceitos pela Geração Editorial e finalmente publicados no início deste ano. A resistência em editar o livro tem um motivo óbvio: personagem cujos métodos e ação política são dissecados do catatau de 766 páginas, o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) é useiro e vezeiro da truculência no trato com seus críticos. Ademais, quando comandou o Ministério das Comunicações no governo Sarney, e dali por diante, ACM vem aprimorando uma bem azeitada rede de relações com empresas de mídia e com profissionais do jornalismo que lhe garante um pacto de silêncio em torno de fatos desabonadores em sua trajetória como ex-prefeito de Salvador, ex-governador da Bahia e atual senador da República.
O editor Luiz Fernando Emedito, contudo, não aceita participar desse pacto. Publicou Memórias das Trevas com as precauções que julgou necessárias e não se arrepende de ter investido no livro. Sustenta que sua editora, a Geração Editorial, é "eclética, polêmica, pluralista e independente". Com cerca de 100 títulos em catálogo, a Geração publicou livros como Mil Dias de Solidão, de Cláudio Humberto Rosa e Silva; O Paraíso Perdido, de Frei Betto; A Conquista da Modernidade, de Luiz Antonio de Medeiros; Sérgio Motta, um Trator em Ação, de José Prata e Nirlando Beirão, além de romances, poesia e biografias. "Publico o que quero, do jeito que quero, quando quero, pensando unicamente no leitor, sem dever nada a ninguém", diz o editor.
Luiz Fernando Emediato, 49 anos, é jornalista e escritor com 8 livros publicados. Trabalhou no Jornal do Brasil e no Estado de S. Paulo neste, como repórter especial e editor, tendo liderado a equipe que criou o Caderno 2. Com o jornalista Marcos Wilson, dirigiu o jornalismo do SBT quando da contratação do âncora Boris Casoy. Em 1991, deixou as redações para montar sua empresa e "ser dono do próprio nariz". Nesta entrevista, Emediato revela o que esteve por trás do lançamento de Memórias das Trevas, livro comentado na edição nΊ 106 deste Observatório [veja remissões abaixo].
Por que você deixou as redações para tornar-se editor de livros?
Luiz Fernando Emediato Em 1992, depois de cinco anos no Jornal do Brasil, onde fui repórter especial; dez anos no Estado de S.Paulo, onde fui editor de quase tudo, além de criador e primeiro editor do Caderno 2; e de dois anos e meio dirigindo o jornalismo do SBT, onde contratei o Boris Casoy, eu estava entediado do jornalismo. Eu já tinha ganhado o Prêmio Esso, em 1982, e o Prêmio Rei de Espanha de Jornalismo Internacional, em 1981. Tinha viajado quase o mundo inteiro, escrito sobre quase tudo e galgado todos os postos. Não queria mais ser empregado, mas dono de alguma coisa. Como não tinha dinheiro para comprar um grande jornal, abandonei o jornalismo, se é que se pode abandonar o jornalismo, e criei uma empresa chamada Geração de Comunicação. Era uma agência de propaganda especializada em marketing político. Fiz duas campanhas eleitorais, tomei nojo desse negócio e criei a Geração Editorial, um sonho que tinha desde os anos 80, quando fui dono da EMW Editores, um projeto amador que não vingou até porque, como eu vivia nas redações, não tinha como cuidar dela. Nesse meio tempo uma tragédia na família matou meu irmão, que era empresário, e herdamos dele, eu e meus irmãos, uma empresa na área financeira. Meus irmãos tocam esse negócio, que dá um bom dinheiro, e me dá independência para ser talvez o único editor deste país que não precisa de um banco para financiar seu ideal. Não preciso de dinheiro e posso fazer o que eu quero. É por isso também que, por puro gosto, eu sou assessor da Força Sindical. Aos 49 anos, sou uma pessoa muito feliz. Consegui aquilo com que todo profissional sonha: ser independente, ser dono do próprio nariz. Às vezes até acho que não mereço isso.
Como você conheceu Memórias das Trevas uma devassa na vida de Antonio Carlos Magalhães? Por que decidiu publicá-lo? L.F.E. O livro chegou pelo correio, por volta de agosto ou setembro do ano passado, recebeu o número 526 e eu tinha pelo menos uns 40 livros para examinar antes de chegar nele. Mas o João Carlos Teixeira Gomes, que tinha sido recusado por uma dezena de grandes editoras, ligava todo dia e falava com minha assistente, Solange, que eu precisava ver aquele livro, que, se eu desse uma olhada, tirava-o da fila e lia logo. Foi o que aconteceu. Não precisei ler o livro todo para decidir pela publicação. Na verdade, só terminei de ler o livro quando tirei 10 dias de férias. Quanto terminei de ler, fora do Brasil, ele já estava impresso e sendo distribuído. Não me arrependi de ter publicado sem ler por inteiro. O livro vale o que pesa, um quilo e trezentos gramas. É a primeira vez que se reúne em um só volume, num texto quase romanceado, toda a história da vida de um dos políticos mais autoritários e atrasados deste país, que sem dúvida causou muitos prejuízos aos cidadãos de bem.
Como avalia a recusa dos originais de João Carlos Teixeira Gomes por parte de várias editoras? O que a sua editora tem de diferente das outras? L.F.E. Não quero comentar o que levou as outras editoras a recusar o livro. Uma delas sei que recusou porque não tinha dinheiro para investir. Outra, porque preferia um livro que tratasse só do senador Antonio Carlos, e o livro é mais amplo, é na verdade a autobiografia do jornalista baiano João Carlos Teixeira Gomes, cuja vida, infelizmente para ele, girou durante muitos anos em torno da perseguição a ele movida pelo coronel baiano. Outras podem ter recusado porque não gostaram do livro. E outras, claro, por medo. O que minha editora tem de diferente das outras acho que é apenas o fato de ser dirigida por um jornalista que gosta de polêmica, não tem medo de ter prejuízo, e é, como já disse, 100% independente, além de pluralista. Publiquei livros de Cláudio Humberto, ex-assessor de Collor, de Frei Betto, de Cristovam Buarque, de Luiz Antonio de Medeiros, de José Prata, ex-sócio de Sérgio Motta. Publico o que eu quero, não devo nada a ninguém. Todos os impostos estão em dia, posso ser fiscalizado a qualquer momento. Isso não é pouco num país em que muitos empresários não pagam todos os impostos.
A decisão de publicar o livro, e bater de frente com o trator ACM, implicou algum cuidado contra eventuais represálias do senador? L.F.E. Só tomamos o cuidado de distribuir o livro primeiro, antes de anunciar que ele existia. Ao contrário do que sempre fazemos, não enviamos provas para jornalistas e críticos. A revista IstoÉ teve o privilégio de receber uma cópia dois dias antes de nossa campanha publicitária, com o livro já distribuído. Confiei no empresário Domingo Alzugaray, que se comprometeu a guardar sigilo até o início da campanha, e não me arrependi, ele cumpriu o trato. Eu queria distribuir cópias do livro para meus colegas jornalistas, mas como já tive três livros apreendidos, e a justiça só libera sempre libera meses depois, fui obrigado a tomar essas precauções. Valeu a pena, pois soube que o pessoal do ACM desistiu logo de alguma medida judicial. Era impossível apreender todos os exemplares, que foram pulverizados pelo país inteiro. O desgaste seria maior. Quanto a outro tipo de represália, não acredito. Se eu morasse na Bahia e fosse sonegador de impostos, certamente teria que enfrentar os fiscais do Estado. Como não moro na Bahia e, como já disse, pago os impostos em dia, não tenho o que temer.
ACM afirma que o livro não fere a sua honorabilidade e que a edição foi patrocinada pelo PMDB. O que o editor tem a dizer sobre isso? L.F.E. O livro realmente não traz nada, sobre a vida de Antonio Carlos Magalhães, que não tenha sido publicado ao longo dos últimos 40 anos. Mas quando se lê tudo aquilo, reunido, é impossível não ficar horrorizado. Só quem aceita o autoritarismo, a violência, a arbitrariedade, pode considerar aquilo normal.
E quanto à afirmação de que a edição foi patrocinada pelo PMDB? L.F.E. Não se sustenta. Como já disse, a Geração Editorial não depende de ninguém para publicar seus livros. Aliás, sempre recusamos editar os livros "patrocinados" que nos aparecem. Refiro-me ao patrocínio legal, via legislação de incentivo cultural, com base em renúncia fiscal. Sou contra, acho que o Estado deve patrocinar é museus, patrimônio hístórico, esse tipo de coisa. Cinema, música, teatro, livro, isso é coisa do mercado. O melhor patrocínio para isso é o povo enfiando a mão no bolso para comprar livros ou ingressos para ver filmes. Tenho horror de patrocínio. Quanto ao PMDB, só posso rir. Costumo votar no PT. Meu modelo de senador se chama Eduardo Suplicy. Acho o senador Antonio Carlos Magalhães uma figura prejudicial para a democracia e os bons costumes. Não admiro o senador Jader Barbalho. Acho o senador Pedro Simon um grande maluco, apesar de honesto. Mas até entendo que Antonio Carlos Magalhães afirme isso. Sendo ele quem é, não pode mesmo passar pela cabeça dele que o livro foi publicado em virtude de seus próprios méritos, e que um editor decidiu investir nele unicamente por causa de sua qualidade. Coincidentemente, o livro saiu no contexto de uma disputa pelo poder no Congresso. Isso foi muito bom para vender o livro, mas prejudica uma análise profunda da obra. Até agora ninguém avaliou o livro pelo que ele realmente é. E como saíram outros "livros", que na verdade são dossiês malfeitos sobre corrupção, nosso livro ficou no meio dessa podridão toda. Isso eu acho que foi ruim.
Como avalia a cobertura que Memórias das Trevas mereceu da mídia? Concorda que há uma espécie de "pacto do silêncio" em torno das denúncias envolvendo ACM? L.F.E. Como a editora não distribuiu o livro previamente, também não posso reclamar da cobertura da imprensa. É preciso dar tempo para que as pessoas leiam o livro. Se dentro de uns 15 dias nada sair de mais profundo sobre o livro, alguma crítica, mesmo que negativa, aí sim, poderemos afirmar que há um "pacto de silêncio", como você diz, em torno de denúncias envolvendo o senador. Mas nós, que somos jornalistas, já podemos dizer, mesmo antes disso, que pelo menos uma revista de São Paulo e um jornal do Rio foram muito cautelosos e não deram nem mesmo uma notinha, um registro, dizendo que o livro existe.
Como explica a ascendência de ACM sobre parte da mídia? E como avalia as relações às vezes muito próximas do senador com profissionais de imprensa? L.F.E. Vou dizer algo que talvez decepcione alguns colegas jornalistas, mas é o que penso. Relações íntimas entre o poder e jornalistas sempre foram e sempre serão comuns. Samuel Wainer foi o que foi porque Getúlio Vargas o apoiou. Chateaubriand cresceu chantageando políticos e empresários e relacionando-se com eles. Naqueles tempos as relações eram menos refinadas do que hoje, quando jornalistas trocam favores com políticos traficando informações (ou sonegando informações) e donos de publicações em dificuldades trocam apoio ou silêncio por cotas de publicidade do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e da Petrobras. Isso é inevitável, faz parte do jogo. Um ministro, um senador, um deputado influente, toda essa gente se aproxima de jornalistas e de empresários do ramo. Eles "ganham" a simpatia do jornalista ou do órgão de imprensa muitas vezes apenas sendo simpáticos. Mas muitas vezes entra é mesmo o jogo bruto do dinheiro e do poder. Estive nas redações ao longo de 18 anos e nunca recebi nenhuma proposta indecente, ninguém teve coragem de oferecer nada mas tenho certeza de que seu eu tivesse pedido eu seria atendido. O que o sr. Antonio Carlos Magalhães faz não é diferente do que outros fazem. Talvez a única diferença seja que ele foi ministro das Comunicações numa época em que a democracia era incipiente e usou como ninguém o poder que tinha de comprar políticos, com concessões de rádio e TV, e de "comprar" jornalistas, com informações.
O fato de lançar o livro no calor da batalha pela renovação da Mesa do Senado, e às vésperas da saída de ACM da presidência da Casa, foi uma jogada de marketing ou um estratagema político? L.F.E. Por incrível que pareça, foi apenas coincidência. Se o autor tivesse encaminhado o livro primeiro para a Geração Editorial, em setembro de 1999, ele teria saído no início do ano 2000 e talvez não tivesse tanta repercussão. Mas quis o destino que o livro andasse de editora em editora e só chegasse à nossa já quase no final do ano passado. Foi um tremendo azar para o sr. Antonio Carlos Magalhães e talvez tenha ajudado o senador Jader Barbalho. Mas a editora não tem nada a ver com isso, acredite ou não o senador baiano. Mas se eu estivesse no lugar dele também não acreditaria.
ACM reagiu de forma branda à publicação e praticamente não falou sobre o livro. Mas na imprensa têm aparecido notas que desqualificam o trabalho de João Carlos Teixeira Gomes, sob o argumento de que o livro não traz novidade alguma e todos os fatos que revela já são sobejamente conhecidos. Por que o senador não reagiu com a truculência habitual a essa devassa em sua vida? E qual é, afinal, a originalidade do livro? L.F.E. Essas notas são uma tentativa desesperada de levar as pessoas a não comprar o livro, que é de leitura realmente difícil, tanto pelo tamanho, quase 800 páginas, quanto pelo estilo, que não faz concessões. A novidade que o livro traz é o relato do jornalista baiano João Carlos Teixeira Gomes, que, em linguagem serena, erudita, sem ressentimento, conta a história de sua vida, que é exemplar, e a história de seu conflito com um personagem nada exemplar, que é o sr. Antonio Carlos Magalhães. Realmente, para um político ou assessor iletrado deve ser difícil ler o livro. Quanto a não trazer "novidades", façam-me o favor! O que se relembra, com documentação comprobatória, já é um escândalo! Quanto à reação do senador, ele primeiro anunciou que iria entrar com uma ação judicial contra o livro, até porque a editora usou uma foto dele na capa. Se recuou depois, é sem dúvida porque a ação seria pior. Primeiro, porque não fica bem para um senador da República espancar a Constituição que ele próprio ajudou a elaborar, e que garante a liberdade de expressão. Depois, porque ele fatalmente perderia na Justiça. Ele sabe que a Geração já foi acionada pelo ex-ministro Bernardo Cabral, por causa do livro Mil Dias de Solidão, do Cláudio Humberto; por um bandido, estuprador, um tal Vilmar Nascimento, condenado a 250 anos de prisão, que afirmou ter sido sua "imagem" comprometida pelo livro Psicopata, do jornalista Luiz Carlos Tavares; e pela Igreja Universal do Reino de Deus, por causa do livro Nos Bastidores do Reino, do ex-pastor Mário Justino. A editora ganhou todas! Desistir da ação e ficar mais ou menos quieto foi uma atitude inteligente do senador pefelista. Mas o jornal dele em Salvador, o Correio da Bahia, tem insultado minha editora e minha própria pessoa, inclusive publicando entrevistas de bandidos condenados por calúnia. Nosso advogado está avaliando a necessidade de acionarmos o Correio da Bahia por isso.
Quem tem medo de Antonio Carlos Magalhães? L.F.E. Acho que só tem medo de Antonio Carlos Magalhães quem é covarde e pusilânime, quem vive na Bahia e não paga impostos (porque ele manda mesmo os fiscais devassar a contabilidade) e quem tem a consciência pesada, pois se o homem insulta, acusa e vilipendia até quem não deve nada a ninguém, imagine quando deve. Quanto a mim e à minha editora, pode vir que não tem problema. Estamos limpos. O livro de João Carlos Teixeira Gomes, que vive na Bahia, é um exemplo de que ninguém honesto deve ter medo de Antonio Carlos Magalhães.
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