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OTTO LARA RESENDE
É Otto ou oitenta

Luís Edgar de Andrade (*)

Parece que foi ontem ou melhor agora de manhã. Naquele tempo, em Fortaleza, ia-se à praia de calça comprida, calção na mão. Eu tinha 16 anos, talvez 17. O ônibus Praia do Meireles, já lotado, subia sem pressa a Avenida Santos Dumont. Lembro-me de que, ao virar à esquerda na rua Carlos Vasconcelos, parou na primeira esquina para pegar um passageiro de terno branco. Era o poeta Filgueiras Lima, dono do Colégio Lourenço Filho, que me agradeceu o lugar sentado e disse: "Estive no Rio, há uma semana, com o escritor Otto Lara Resende. Sabe, Edgar? Vocês se parecem um pouco. Deve ser o nariz".

Onde anda aquele nariz? Pela primeira vez, em muitos anos, abro desconfiado o velho album para descobrir que, aos 17 anos, tinha nariz fino. Antes de operar o desvio de septo, ele fazia no meu rosto um suave ponto de interrogação. Para o adolescente magrinho, autor secreto de dois ou três poemas, O. L. R. não era uma abstração. Eu comprava, toda segunda-feira, o semanário Comício, publicado no Rio, onde ele gozava, com seriedade, a Constituinte. Otto Lara Resende, esse nome ficou no meu inconsciente.

Pulo para o dia 28 de dezembro de 1992. Em pé na sala, ainda de pijama, eu olhava a maçã no quadro: uma grande maçã branca recortada na madeira. O telefone tocou. Passaram-se três segundos para eu perceber que minha mulher estava pálida, igual à maçã. Aquele branco inundou a sala, a casa, minha rua, o Jardim Botânico e o universo. Dez anos depois, o quadro de Miriam Attala continua na parede. Ele me avisa, calado, que a morte existe.

Otto Lara Resende tinha feito 70 anos no dia 1º de maio de 1992. Acreditava com firmeza que ia morrer velhinho, velhinho, perto dos 100, como o pai: "Nunca fui hospitalizado. É uma bênção, não é? Confio no meu coração, mas tenho medo de enfarte. Tenho medo de morrer de repente, no fundo desconfio, tenho certeza de que não vão fazer isso comigo. Deus companheiro, agüenta aí."

No dia em que Antônio de Lara Resende agonizava, 17 de novembro de 1988, sentou-se à máquina e bateu uma carta desesperada a Moacir Werneck de Castro que começava assim: "Estou tentando escrever e meu pai está morrendo". Foram 50 laudas de uma tacada sobre o livro "Mário de Andrade no Rio" que o amigo tinha publicado — ao cabo das quais, Moacir disse de si para si, desconsolado: "Ou escrevo um livro de mil páginas ou jogo o meu no lixo".

Houve uma época em que a coleção de contos Velórios, de Rodrigo M. F. de Andrade, pai do Joaquim Pedro, era nosso livro de cabeceira. Em meados dos anos 70, final do governo Médici, início do governo Geisel, quando voltei de São Paulo para o Rio, deu-me algumas dicas: "No regime militar, não há melhor programa, no Rio de Janeiro, do que velório no São João Batista". Tomei a brincadeira ao pé da letra. Na primeira semana, toda noite, às dez horas, quando ele saía do Jornal do Brasil e eu ia jantar depois da reunião do Jornal Nacional, marcávamos encontro numa capela da Real Grandeza, qualquer uma, em Botafogo.

Dizia-se um apóstolo das pequenas causas. Leitor fiel da página fúnebre, ficou indignado quando O Globo acabou com o obituário: "Os convites-missa têm mais gente conhecida do que a coluna social. Os colunáveis estão nos avisos fúnebres." Sentiu muito quando o jornal, na morte de Alves Pinheiro, deu três parágrafos com título em uma coluna. Duvido que, hoje, no Globo, alguém de 30 anos saiba quem foi Alves Pinheiro. O homem passou mais de 30 enfurnado na redação, como secretário, sem ver a luz do dia. Herdeiro do Otto nas pequenas causas, quando Merval Pereira substituiu Evandro Carlos de Andrade, transferido para a TV, escrevi de Zurique pedindo para O Globo restabelecer o obituário.

Só divergíamos quanto à ortografia oficial dos nomes próprios Tanto que tirei o d mudo do Edgar. Por que Otto com t dobrado? "Quando você morrer, eu lhe dizia, passará a ser Oto para sempre com um t só". Ele se punha vermelho: "Nesse caso prefiro que me esqueçam, não me citem". Pois bem. Como eu moro no alto da Lopes Quintas, quase todo dia, indo para ao trabalho, sou obrigado a parar o carro no sinal fechado de Pacheco Leão com Jardim Botânico. Nos 80 anos dele, evito olhar à esquerda, mas a placa do Largo Otto Lara me contempla, vitoriosa, com dois tt.

(*) Jornalista e escritor, autor do romance Bao chi, bao chi, no prelo.



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