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ARMAZÉM LITERÁRIO
REFLEXÕES SOBRE A
GUERRA Sylvia Moretzsohn (*) Guerra em directo, de Carlos Fino, 296 pp., Editorial Verbo, Lisboa, 2003; <http://www.editorialverbo.pt/loja/produto.asp?produto=1410>; 17,49 euros A guerra ao vivo, de Carlos Fino, 296 pp., Editora Verbo, São Paulo, 2003; nas livrarias em 17/11; lançamentos com a presença do autor de 9/12 a 16/2 (São Paulo, Rio e Brasília). Preço: R$ 42É um indiscutível sucesso editorial: lançado no dia 3 de novembro em Lisboa, A guerra em directo, do jornalista Carlos Fino, já está na terceira edição. Em apenas uma semana, a tiragem alcançou 9.400 exemplares. O lançamento no Brasil será em dezembro, mas a obra deverá estar disponível nas livrarias ainda esta semana. E como em português nos entendemos, mas não muito, aqui o título será A guerra ao vivo, e o texto também apresentará algumas adaptações. Enviado especial da RTP ao Iraque, com vasta experiência como correspondente internacional, Carlos Fino anunciou em primeira mão o bombardeio americano a Bagdá, pelo videofone, e foi esse prestígio que levou tantos brasileiros a acompanhar suas reportagens a partir de então. O livro que acaba de lançar em Portugal é um relato dos conflitos mais importantes do pós-11 de setembro de 2001 (Afeganistão, Oriente Médio e o Iraque em particular), entremeado por reflexões sobre as condições de trabalho nessas guerras e sobre o papel do jornalista diante das tecnologias do "tempo real". Na noite de 3 de novembro, após o lançamento da obra, Carlos Fino foi entrevistado pela apresentadora Alberta Fernandes, do Jornal 2, da RTP2. Abaixo, a transcrição da entrevista. *** Nesse seu livro, uma parte importante é dedicada às dúvidas que colocas devido ao imediatismo do nosso trabalho... Carlos Fino – São dúvidas que estão no ar, nossa profissão é uma profissão débil, nós não podemos nada, ao contrário da idéia sobre o quarto poder... aquilo que os jornalistas de facto podem fazer às vezes em situações excepcionais pode ser muito, como foi no Watergate, em que chegaram a derrubar um presidente americano, mas depois, no dia-a-dia, é essa situação, e em particular em Portugal: os jornalistas são muito dependentes, dependentes das estruturas, dependentes das empresas, dependentes dos poderes, e ao longo dos anos vamos nos interrogando, e quando chegamos a uma certa maturidade não podemos deixar de nos colocar essas questões: afinal, quem somos, o que estamos aqui a fazer, qual o sentido do nosso trabalho? São essas questões que se levantam agora também, até porque, com o 11 de setembro de 2001, e com a maneira frontal, brutal com que a administração americana colocou a questão, os que não estão conosco estão contra nós... nessa situação qual é o papel do jornalista? É fazer propaganda da política americana, ser funcionário do Pentágono, ser funcionário da administração americana e fazer propaganda da política global americana, ou é manter, como lhe compete, os olhos abertos e dizer a verdade? E como é que consegues manter os olhos abertos e dizer a verdade quando toda a informação está manipulada ou trabalhada pelos norte-americanos... C.F. – ...e pelos outros poderes, não é? Cada um procura puxar a brasa para a sua sardinha, e o jornalista está no meio, somos uma profissão de fronteira, entre a informação e a propaganda, e corremos sempre o risco de estar mais do lado da propaganda do que do lado da informação. Para que isso não aconteça é preciso uma série de coisas, é preciso que as universidades formem melhor os jornalistas que por elas passam antes de eles chegarem ao mercado de trabalho, é preciso que haja organismos da classe atentos, provavelmente... eu neste momento inclino-me para a criação de uma Ordem dos Jornalistas, para além do sindicato, eu julgo que seria uma contribuição dos próprios jornalistas para conferirem alguma orientação e exigência ao seu próprio trabalho, e são esses mecanismos e circunstâncias que podem contribuir para que mantenhamos os olhos abertos e possamos dizer a verdade e sucumbamos menos à tentação de alinhar com os poderes instituídos, ou de ser manipulados, às vezes sem nos darmos conta. Gostava que esclarecesse essa expressão "embedded", as pessoas talvez não saibam do que se trata. C.F. – Os embedded foram os jornalistas levados pelas tropas americanas, que tiveram que assinar um papel em que assumiam uma série de limitações ao seu próprio trabalho e que, por esse preço, ganhavam o prêmio de ir à boléia das tropas americanas. São condicionalismos, eu também no fundo estava embedded no regime iraquiano, pois para podermos trabalhar em Bagdá tínhamos de aceitar certas regras, aceitamos certas regras para ter o visto para lá chegar, depois tínhamos que fazer um compromisso e um jogo de cintura para poder continuar a trabalhar em Bagdá, tivemos que subornar pessoas para poder continuar a ter o prolongamento dos vistos, que caducavam de 10 em 10 dias e que precisávamos renovar, portanto de alguma forma eu também estava embedded, "incluído" no outro lado... foi muito contestada essa situação de se ir na tropa americana, mas se isso é o preço a pagar para poder estar mais perto das situações eu acho que é legítimo, embora seja discutível, mas eu acho que é legítimo pagar esse preço, desde que os telespectadores saibam as condições em que estamos a fazer as reportagens. Isso tem de ser dito, tem de ser explicado, que é pra se saber que essas reportagens têm aquelas condicionantes, para não estarmos a dar gato por lebre, não é? E tens tido esse cuidado de chamar a atenção para essas limitações durante o teu trabalho? C.F. – Procuro, procuro... Mea-culpa, mea-culpa, mea-culpa, eu não... não sou totalmente isento de algumas falhas. Às vezes, por falta de tempo... C.F. – Por falta de tempo e pela própria pressão das redações de hoje em dia, quer dizer, as possibilidades que há, pelas novas tecnologias, de podermos entrar em directo de qualquer parte em qualquer momento dá-nos a ilusão de termos a informação e de estarmos a ver a história em directo, dá-nos essa sensação de ubiqüidade, de sermos quase deus, podemos estar em todo lado em qualquer tempo, mas isso levanta questões em relação ao jornalismo, quer dizer, como é que pode haver distanciamento, algum distanciamento crítico, que é marca de qualquer bom jornalismo, se estamos ali em directo? Por outro lado, às vezes não se passa nada, mas há a pressão das redações, é preciso alimentar o sistema, falar, o que importa é mostrar que se está lá e que se está a dizer qualquer coisa, seja o que for. Portanto, são essas questões que essas novas tecnologias e que esta nova maneira de fazer informação, digamos, não colocam questões inteiramente novas mas eu diria que acentuam as velhas questões do que é que nós somos, do que é que estamos aqui a fazer, e como é que estamos a fazer. Gostava que me recordasse o Iraque, os momentos mais complicados da cobertura, enquanto jornalista e enquanto ser humano. C.F. – É difícil, eu tenho de fazer sempre uma marcha atrás nessa questão, porque o Iraque não foi o primeiro cenário de guerra onde eu estive. Quando se desfez a União Soviética eu tive de cobrir vários conflitos armados, Tchetchênia, Geórgia, Afeganistão, Moldávia, em várias guerras civis e às vezes em situações de maior perigo do que esta do Iraque... esta guerra no Iraque ultrapassou tudo no grau de tensão e daquilo que estava em jogo, porque os EUA partiram para a guerra contra a opinião de seus mais próximos aliados, a França e a Alemanha, e isso suscitou grande polêmica. Portanto, o que estava ali em jogo era o próprio futuro do direito internacional, porque a ação foi levada a cabo à margem das Nações Unidas, e isso coloca questões terríveis que ainda hoje os Estados Unidos estão a sentir, pela forma como desencadearam o conflito. A magnitude dessas questões tornou de facto o Iraque um conflito central dos nossos dias, mas em termos de situações reais de perigo eu já tinha passado por outras mais perigosas. Embora o risco seja sempre grande, quer dizer, aquele canhão que
dispara contra o hotel [Palestina, onde estavam os jornalistas]
e acerta no 15º poderia ter acertado no 17º, que era onde eu estava mais
o Nuno Patrício, foi uma mera questão de sorte, não
é? Outra situação foi essa em que nos vimos raptados
por um grupo armado que era suposto ser uma milícia e que se estava
a transformar rapidamente num simples bando de ladrões que nos
queriam extorquir e extorquiram o que puderam. Essas foram as situações
de maior perigo, não é? Mas havia sempre a possibilidade
de vir um míssil na nossa direção e que não
fosse propriamente controlável, quer dizer, quando se entra naquele
terreno tudo é imprevisível.
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