EXCERTO
Telejornalismo no Brasil
Este é o quarto capítulo do livro Telejornalismo no Brasil – Um perfil editorial, de Guilherme Jorge de Rezende, lançado no final de 2000 pela Summus Editorial. A obra apresenta pesquisa comparativa do perfil editorial de três telejornais brasileiros multitemáticos, de alcance nacional e transmitidos no horário nobre da TV: Jornal Nacional, TJ Brasil e Jornal da Cultura.
O poder da palavra
Guilherme Jorge de Rezende (*)
Uma imagem muda é perigosa, porque a busca de seu sentido fica livre. [Eduardo Coutinho]
Tudo o que já se expôs e comentou até aqui refere-se à linguagem da TV de um modo geral. Interessa saber agora como a relação verbal versus icônico se expressa em circunstâncias mais específicas, particularmente no campo do telejornalismo. A esse respeito, convém inicialmente recordar que, em termos sensoriais, o que distingue a TV (e o cinema também) dos demais veículos de comunicação de massa é o fato de dispor do código icônico como suporte básico de sua linguagem. A prioridade concedida, às vezes excessivamente, ao elemento visual transparece também nos programas jornalísticos.
Conforme certa concepção de telejornalismo, predominante no Brasil, à imagem se confere uma função primordial no processo de codificação das notícias, enquanto que a palavra cumpriria um papel secundário, quase de mero complemento e suporte da informação visual. Embora ressalte que a "TV funciona a partir da relação texto/imagem", a jornalista Vera Íris Paternostro justifica a soberania do icônico, afirmando que "É com a imagem que a televisão compete com o rádio e o jornal, exercendo o seu fascínio" para prender e prende a atenção das pessoas." (PATERNOSTRO, 1987: 41)
A função prioritária que a imagem ocupa na comunicação telejornalística requer uma preparação especial do jornalista de TV para que ele tire maior proveito das potencialidades expressivas do veículo. É indispensável o conhecimento de todo o processo de codificação e decodificação mensagens visuais, especialmente no que diz respeito às características semânticas das imagens em movimento.
Ao analisar o conceito de notícia, verifica-se que a TV adota critérios próprios na seleção do fato noticioso, conferindo prioridade ao aspecto visual das informações que se pretende divulgar.
Nesse contexto de soberania do icônico, a palavra assume um lugar de submissão à imagem, sobretudo quando o jornalismo adquire a aparência de show.
"A televisão precisa da imagem, o texto é secundário e fica a mercê da imagem. Mesmo no noticiário internacional, por causa do pequeno espaço que recebe, acaba prevalecendo a imagem do espetacular, do sensacional, sem muita preocupação em situar o fato num contexto, explicar o que provocou tudo aquilo, as conseqüências. De vez em quando, dá para acrescentar alguma coisa e, quando isso acontece, é muito bom". (BIAL, Apud. OUTSUKA, 1997: 15)
A fonte de inspiração para esse modelo que atribui lugar de comando ao código das imagens é o manual de telejornalismo da Rede Globo de Televisão que, por sua vez, se espelha nas normas do "Television News", receituário do telejornalismo norte-americano que a TV brasileira adaptou à nossa realidade.
"Respeitar a palavra é muito importante no texto da televisão. Imprescindível, no entanto, é não esquecer que a palavra está casada com a imagem. O papel da palavra é enriquecer a informação visual. Quem achar que a palavra pode competir com a imagem está completamente perdido. Ou o texto tem a ver com o que está sendo mostrado ou o texto trai a sua função." (Rede Globo de Televisão, 1984: 11)
Indagado por este autor sobre o lugar da palavra no telejornalismo, Boris Casoy afirmou:
"Trata-se de um assunto controvertido na televisão brasileira. A tendência tem sido dar ênfase à imagem em detrimento do conteúdo, da palavra. Existe até um jargão que vive sendo repetido e é visto como postulado nas redações: "Entre uma boa imagem e uma boa notícia, fique com a imagem." Na verdade, essa supremacia não ocorre em todas as áreas. Por exemplo, na narração de futebol, basta constatar que os narradores considerados de primeira qualidade, prestigiados por suas chefias e por patrocinadores, superpõem sua narração às imagens, descrevendo minuciosamente os lances. Há quem atribua isso à necessidade de animar a transmissão. Ou mesmo a um resquício do rádio. Entretanto, no geral, a TV, repito, tende mesmo a marginalizar a palavra, o texto, em benefício da imagem." (CASOY, 1997)
Apesar de ressaltar a preponderância da imagem, o manual de telejornalismo da Globo abre uma pista para que se possa ter uma compreensão mais abrangente desse problema ao afirmar que "imprescindível é não esquecer que a palavra está casada com a imagem". Tal como no casamento entre duas pessoas, na dinâmica das relações cotidianas tudo é possível. Ora a imagem impõe-se em sua plenitude, ora basta a palavra para a transmissão de uma notícia televisiva. Entre esse pólos desponta uma grande variedade de alternativas. todas elas constituindo-se como expressões legítimas do telejornalismo. Em vez de se proclamar o império do icônico no discurso televisivo, parece mais factível a hipótese de que a construção da mensagem da TV reflita uma complexa intervenção de signos de natureza diversa e em contínua interação.
"Nessa medida, por mais que a mensagem transmitida pela TV seja banal, superficial e esquemática, sua complexidade semiótica é sempre grande. Tudo se dá ao mesmo tempo : som, verbo, imagens que podem adquirir feições as mais diversas e multifacetadas, além do ritmo, dos cortes, junções, aproximações e distanciamentos que provavelmente se constituem num dos aspectos mais característicos dessa mídia." (SANTAELLA, 1992: 28)
Rádio ilustrada
Embora nada possa assegurar, com certeza absoluta, que um sentido – visão ou audição – impõe ao outro, não deixa de ser no mínimo instigante a afirmação de que "a televisão é fundamentalmente uma rádio ‘ilustrada’, além disso com imagens, onde o som já tem o seu lugar fixo, que é fundamental e obrigatório (uma televisão muda é inconcebível ao contrário do cinema.)" (CHION, 1993: 155)
O autor francês esclarece que nessa modalidade de rádio "ilustrada" o som da palavra em especial exerce um papel central na condução da narrativa, sobretudo quando a programação televisiva se estende por todo o dia e é captada em diferentes situações, no trabalho, em casa. O "clip" musical é o formato que melhor se aproveita desse potencial radiofônico da TV, pois favorece que se ouça uma música enquanto se trabalha ou lê, com a possibilidade de dar rápidas olhadelas no vídeo, de tempo em tempo.
Com base em outras referências, o diretor de TV Walter Avancini salienta que, por privilegiar o gesto e a palavra, as bases do modelo brasileiro de produção televisiva estão muito mais enraizadas "nas expectativas histriônicas do circo e discursivas do rádio" do que no cinema e no teatro. (AVANCINI, 1988: 162-163)
Apesar de desvinculadas, as observações de Avancini encontram reforço no comentário de Ciro Marcondes, quando este confronta a função da palavra na linguagem da tevê e do cinema.
"Na narrativa da tevê, o que importa é o diálogo, a fala, as palavras. Há um atrofiamento das demais formas expressivas (o silêncio, a linguagem dos ambientes, das paisagens, das cenas por si) em favor do texto. No cinema é diferente: os efeitos visuais podem até desprezar as palavras já que o ambiente (e a concentração) da exibição permite que se ampliem as formas de expressão." (MARCONDES FILHO, 1994: 16)
Ao se considerar a palavra na condição de condutora da narrativa televisiva, fica mais fácil entender a definição de "rádio ilustrada" que Chion atribui à TV. Para se ter uma idéia clara disso, basta recordar passagens de nosso cotidiano. Quem ainda não testemunhou, em sua própria casa, a irmã, a mãe ou o pai, entretidos na cozinha, com a leitura de uma revista ou tricotando uma peça para o netinho, e ao mesmo tempo acompanhando programas de TV "com os olhos". Ao serem estimulados por uma motivação sonora – música, ruído ou fala de alguém – ou por ato mecânico, de vez em quando se rendem à atração das imagens correspondentes.
"... diante de um vídeo que transmite, sem som, cenas de uma novela ou de uma entrevista, não haveria condições de continuarmos mais que meio minuto sem o apoio das vozes. Pensando agora, no contrário: teríamos o som mas estaríamos sem as imagens. Apesar de certamente termos perda de várias circunstâncias da emissão, estaríamos, no entanto, em totais condições de seguir os lances ficcionais de uma novela, como também conseguiríamos seguir o processo de interlocução de uma entrevista." (FRAGA ROCCO, 1991: 242)
De uma lembrança à outra, sob o pretexto de exemplificar a função da palavra no discurso da TV. A palavra escrita (quando repete a falada) em alguns comerciais de televisão (Coca-Cola, por exemplo) se transforma no elemento vital da forma – e conteúdo – da mensagem. Nesse caso, a palavra, além de essencial na comunicação sonora, constitui-se na própria imagem exibida pelo vídeo.
Novamente se é transportado para uma outra situação. Em filmes ou programas de TV em língua estrangeira, assistidos no cinema ou pela televisão, "perder" uma pequena seqüência de palavras da narração ou de um diálogo deixa o espectador confuso e atônito: "O que tal personagem falou?", "Eu não estou entendendo, porque não ouvi o que ele disse" – são frases sussurradas ao companheiro ao lado, no cinema, ou pronunciada em tom normal de voz, na sala de casa, diante do vídeo.
Esse incômodo explica a razão da dublagem de novelas e programas humorísticos mexicanos – sem mencionar os filmes e as séries americanas – que as TVs brasileiras transmitem diariamente. O bloqueio na percepção provocado pelo ruído de uma língua estrangeira pode comprometer o entendimento da trama e afastar o telespectador. Por isso, prefere-se o recurso da dublagem, insuportável para muitos espectadores, mas indispensável para a conquista e manutenção da audiência. Mas, às vezes chega-se ao extremo, de se dublar a fala não do personagem, mas do próprio ator estrangeiro, entrevistado em algum programa da TV brasileira.
Todas essas reflexões encaminham-se à conclusão de que apesar de ter no código icônico o componente básico de sua linguagem, a TV não pode prescindir do verbal. A palavra. "ancora" o visual, completando-o, ambigüizando-o ou desambigüizando-o. O verbal completa a narrativa por imagens que, como já dissemos, por si só não se sustenta." (FRAGA ROCCO, 1991: 242)
Mas para Muniz Sodré a palavra, embora sobreponha-se às imagens, não se limita a complementar o visual.
"A comunicação real (a conversa, o diálogo) atribui tal importância ao elemento verbal que este termina impondo-se, na tevê, ao visual... Por isso, até agora, a tevê tem estado mais próxima do rádio do que do cinema. É que o compromisso com o real histórico (... com a informação jornalística ) impele a tevê a uma lógica de demonstração, de explicação, que percorre todas as suas possibilidades expressivas. Ela pode mostrar qualquer coisa, mas tem de explicar, de esclarecer o que mostra. E nesta operação, as palavras (...) impõem seu poder ao elemento visual. "(SODRÉ, 1977, :74)
Existem ainda posições mais radicais, enfatizando a importância do verbal no dia-a-dia da televisão brasileira.
"... nenhuma imagem no jornalismo pode entrar pura, sem o comentário que a explique, sem a música que lhe dê sentido. Uma imagem muda é perigosa, porque a busca de seu sentido fica livre, o mundo pleno de significado oscila em sua base. Em conseqüência dessa compreensão, acredita-se que o espectador tenda a mudar de canal ou a supor que haja uma falha técnica da emissora. Isso prova um pouco, de maneira caricatural, que esse papo de ‘TV é imagem’ é mais uma frase feita do que outra coisa. Eu diria até que, num certo nível, a TV tal como se pratica aqui depende tanto do som quanto da imagem, ou mais do som do que da imagem." (COUTINHO, 1991: 281-282)
O perigo de uma imagem muda é tanto maior em função do grau de precisão e clareza da mensagem que se pretende transmitir. Em um programa de ficção, um especial inspirado em uma obra literária, por exemplo, que está mais próximo da estética cinematográfica, o sentido livre, a polissemia é uma qualidade desejável. O mesmo, contudo, não se deve esperar de um telejornal ou de um programa educativo, em que se exige o máximo de precisão de clareza na elaboração da mensagem, justamente para impedir que ela desencadeie um caos sígnico, ao se abrir a uma infinidade de alternativas de leituras e interpretações.
Na condição de editor-chefe do Jornal Nacional, Mário Marona ponderou, no entanto, em entrevista a este autor, que, apesar de concordar com Eduardo Coutinho, não tinha medo de correr o risco de usar uma imagem muda. Justificou sua opinião com a ressalva de que a expressão verbal sujeita-se a essa mesma limitação.
"Trabalhei, como já disse, mais de duas décadas em jornalismo impresso e poucas vezes encontrei alguma fonte que se sentisse satisfeita com a forma como suas declarações foram reproduzidas. Num curso de jornalismo para jovens profissionais, que implantei no jornal O Globo, fizemos um exercício interessante. Os oito alunos fizeram uma entrevista coletiva e nenhuma matéria que resultou dessa entrevista era igual. Todas tinham diferenças de interpretação. Ou seja, o mesmo medo que o Coutinho tem da imagem como informação excessivamente ‘aberta’ podemos ter, todos nós, até mesmo da palavra transcrita." (MARONA, 1997)
De fato, Marona tem razão ao lembrar que a capacidade expressiva da palavra vai muito além da mera função de esclarecer, de explicar uma imagem. Em determinadas situações, a mensagem verbal pode inclusive ser mais rica de significações do que uma imagem.
"A imagem televisual, como de resto, acredito, todas as demais, não se basta a si própria, não se esgota em si mesma, já que não é auto-explicável. Se ‘uma imagem pode valer por mil palavras’ há momentos em que, talvez, nem 10 mil imagens consigam expressar o poder polissêmico de uma única palavra." (grifo do autor) (FRAGA ROCCO, 1991: 240)
O provérbio chinês "uma imagem vale mais do que mil palavras" incitou Armando Nogueira, com sua experiência de 25 anos só na direção de jornalismo da TV Globo, não ao jogo de palavras, mas ao protesto em tom de brincadeira: "Ah! Se esse chinês entrasse um dia na redação da televisão ia ver o estrago que provocou na cabeça do telejornalista brasileiro." (In.: VIEIRA, 1991: 88)
Em depoimento exclusivo a este autor, em agosto de 1997, Nogueira retoma a sua análise e aproveita até para revelar como mudou, em sua trajetória profissional, sua concepção de telejornalismo como imagem.
"Desde o primeiro momento em que comecei a me envolver em telejornalismo eu também me deixei seduzir pelo fascínio da imagem e difundia muito entre meus companheiros a idéia de que a gente devia ser muito contido no uso da palavra para valorizar a imagem. Ao longo do tempo, eu repensei esse meu juízo, porque cheguei à conclusão, simplificando o meu pensamento, de que se a imagem mostra, só a palavra esclarece. (grifo do autor) Então, eu passei a rever o meu conceito, achando o seguinte: que ao contrário do que dizia e do que diz a máxima chinesa – ‘uma boa imagem vale mais do que mil palavras’ eu prefiro dizer ‘uma boa imagem vale mais associada a uma boa palavra’." (grifo do autor) (NOGUEIRA, 1997)
Na posição de diretor de jornalismo da TV Globo de 1967 até 1989, Nogueira provavelmente sempre reconheceu o poder insubstituível da palavra, e sua mudança de "juízo" pode ser interpretada muito mais como uma pequena variação de nuance, ainda mais quando partia de alguém que se notabilizara pela apurada habilidade em manejar a palavra escrita no jornalismo impresso.
Pois bem, uma prova do valor que Armando Nogueira dava à palavra no telejornalismo é a constatação de Luís Gleiser, em meados da década de 80, baseado em sua experiência jornalística na própria Rede Globo.
"O telejornalismo brasileiros em geral e o JN (Jornal Nacional) em particular usam a base de áudio como principal, pois é ela quem amarra e diminui o impacto que as imagens (grifo do autor), por si sós, poderiam causar. Se mais vale uma imagem que mil palavras, mil e uma palavras são usadas no esforço de controlar e ordenar o material visual." (grifo do autor) (GLEISER, 1983: 48)
Gleiser ressaltava a importância da base de áudio, descrevendo-a como "um continuum ordenado de significados fácil e imediatamente apreensíveis" que orientava a edição da informação visual de modo a não só evitar prejuízos à narrativa verbal como propiciar "sustentação visual do que está sendo dito" (Id. Ibid.).
Hierarquia oscilante
Na cobertura da Guerra do Golfo, o repórter da rede de TV CNN Peter Arnett demonstrou o poder da palavra no telejornalismo. Conforme lembrou Lucas Mendes, a CNN superou as limitações eletrônicas com um procedimento técnico elementar que lhe deu a dianteira na transmissão de informações sobre a guerra: uma simples linha de áudio, também chamada de "4 fios" (MENDES, 1997: 36). Com isso, a emissora americana conseguiu prender a atenção de milhões de telespectadores em todo o mundo, que passaram a dispor da voz de Arnett, pelo telefone, casada com uma fotografia fixa do jornalista, como o único testemunho ao vivo do confronto entre Estados Unidos e Iraque.
O uso desse recurso "banal no telejornalismo" levou alguns críticos a considerar que a TV regredia à era do rádio ao abdicar da imagem em movimento para dar lugar apenas à voz, exagerando no peso dado ao discurso verbal
Machado qualificou a crítica como equivocada justamente por ignorar que "... o telejornalismo é fundamentalmente voz, mais precisamente uma polifonia de vozes, e a imagem não consiste, via de regra, em outra coisa senão a apresentação dos corpos que suportam essas imagens." (MACHAD0, 1993) Em seu comentário, alega ainda que no caso de Peter Arnett só não houve mesmo a sincronização da fala com o movimento labial (impossível em se tratando de uma ilustração fixa), deficiência plenamente compreensível por se tratar de uma cobertura fora do convencional.
As circunstâncias de emissão e recepção de mensagens fortalecem, portanto, a idéia da intercomplementação de sentidos, e desfaz a convicção de uma hierarquia imutável, pelo menos na TV. Segundo Santaella, "há casos de mídia em que a hierarquia entre os códigos é sempre móvel, oscilante, dominando num momento o código verbal oral e, logo a seguir, o imagético, que cede lugar à interação eqüitativa do imagético e sonoro e assim por diante, como é o caso da TV." (SANTAELLA, 1992 : 27)
Não existe uma fórmula única para se produzir telejornalismo. Fatores de diversa natureza – horário do telejornal, características da audiência, condições de cobertura de um fato – influenciam a confecção da notícia. Entretanto, nem mesmo a evolução tecnológica na área da televisão é capaz de eliminar a forma talvez mais simples de apresentação de notícias no vídeo: o locutor lê um texto.
Isso não acontece por acaso e nem por deficiências técnicas ou limitações financeiras. Por trás de tudo permanece como princípio a experiência de, em um dia, ouvir o telejornal sem as imagens e, no dia seguinte, ver as imagens dos fatos sem as palavras correspondentes. Não há dúvida de que o telespectador ficará muito mais bem informado no primeiro do que no segundo dia. Quem não acredita nisso, que experimente.
Por isso mesmo, nos noticiários dos canais por assinatura e em alguns telejornais das televisões abertas talvez seja hoje tão comum deparar com uma notícia em que o repórter, tal como Arnett, tem seu relato verbal coberto por uma imagem fixa. Isso para não mencionar que em informativos do GNT a utilização de reportagens da CBN é a literal tradução do que Michel Chion chama de "rádio ilustrada".
De sua experiência como âncora da CBN de São Paulo e apresentador do programa Opinião Nacional, na TV Cultura, o jornalista Heródoto Barbeiro registrou diversos exemplos de como, no início da década de 1990, o telejornalismo encarna essa concepção de "rádio ilustrada".
"E a televisão faz rádio na tevê, quando não tem imagem para apresentar. O exemplo mais bem sucedido no telejornalismo, a rede americana CNN, usa e abusa do ‘rádio na tevê’. Foi o que fizeram durante boa parte da cobertura da Guerra do Golfo e receberam o reconhecimento internacional. Quando o apresentador do Bom dia Brasil, da TV Globo, fala com um entrevistado pelo telefone vermelho, está fazendo rádio na tevê. Quando entra um boletim do repórter coberto por um slide com a foto dele e um mapa de onde fala, no Jornal Nacional, também é rádio na tevê. Estas técnicas do rádio também estão sendo exploradas no programa Opinião Nacional, da TV Cultura de São Paulo, onde sou um dos âncoras." (BARBEIRO, 1994: 12)
Isso, na verdade, só vem comprovar que, apesar de indiscutível o fato de que o telejornalismo é primordialmente imagem, há várias maneiras de praticar essa vocação da TV como veículo de informação. Em todas, nada justifica que se sacrifique uma notícia importante porque dela não se dispõe de nenhuma imagem em movimento de boa qualidade.
Nada justifica também que uma imagem de impacto emocional ou estético prevaleça como critério de seleção de notícias, em detrimento do valor jornalístico. Nessa hora, como o próprio manual de telejornalismo da Globo recomenda, "... é melhor fazer um bom texto e dar, ao vivo, no locutor", porque "imagem só para disfarçar, sem peso de notícia, não vale. (Rede Globo de Televisão, 1984: 7)
Boris Casoy também se manifesta favoravelmente a uma integração mais flexível entre palavra e imagem, mediante uma variedade de formas de conjugação dos dois elementos básicos da linguagem televisiva.
"Basicamente acho que se deve procurar o equilíbrio entre fundo e forma, entre imagem e texto. Além do mais, a questão não deve ser tratada de maneira rígida: cada caso é um caso, demanda tratamento específico. Muitas vezes a palavra deve ou pode prevalecer. Tenho constatado, por exemplo, que o emprego do texto em lugar da imagem, à maneira do contador de histórias, tem ampla receptividade no público telespectador de todos os níveis culturais. Entretanto, nas TVs, o preconceito contra o uso de ‘notas peladas’ (veja o preconceito embutido na denominação) é forte. Se não houver orientação exaustiva e permanente em sentido contrário, o natural é fazer a imagem prevalecer sobre o texto a qualquer custo." (CASOY, 1997)
(*) Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, doutor em Comunicação Social pela Universidade de Metodista de São Paulo e professor do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Fundação de Ensino Superior de São João del Rei.
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