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ARMAZΙM LITERΑRIO
ENTREVISTA / MATINAS SUZUKI JR. Leticia Nunes Jornalismo literário, antes que alguém confunda com jornalismo sobre literatura, é uma prática jornalística que une a objetividade da descrição dos fatos com elementos e técnicas da literatura de ficção. A coleção "Jornalismo Literário", da editora Companhia das Letras, surgiu para reeditar algumas das maiores reportagens do século 20. O primeiro volume Hiroshima, de John Hersey foi publicado há pouco mais de um ano. Desde então, já foram para as livrarias reportagens de jornalistas como Joseph Mitchell, Truman Capote, Joel Silveira e o último lançamento Zuenir Ventura. Primeiro título da série, Hiroshima é uma reportagem publicada na revista The New Yorker um ano após o lançamento da bomba atômica na cidade de Hiroshima, em 1945. Hersey passou 17 dias no Japão e baseou-se no relato de seis sobreviventes da tragédia para escrever sua matéria. Quarenta anos depois, o jornalista retornou à cidade e reencontrou seus personagens, somando mais um capítulo à história. O Segredo de Joe Gould é o resultado de uma reportagem também publicada originalmente na New Yorker, na década de 1960. Escrita por Joseph Mitchell, conta a história do intrigante mendigo Joe Gould, que o jornalista conheceu no Greenwich Village, reduto boêmio de Nova York. Gould dizia escrever o maior livro do mundo, a História Oral do Nosso Tempo, mas morreu em 1957 sem publicar nenhum livro. A Sangue Frio, de Truman Capote, é o relato do brutal assassinato da família Clutter, em uma pequena cidade do Kansas, e da condenação dos criminosos. A reportagem exigiu mais de um ano de apuração de Capote, e foi uma das responsáveis pela criação do conceito de jornalismo literário, pois combinava de maneira magistral a objetividade na descrição dos fatos e os recursos utilizados nas narrativas de ficção. A história foi também publicada na New Yorker, em 1965, seis anos após a chacina. O primeiro título brasileiro da coleção é A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, de Joel Silveira, que reúne diversos textos entre reportagens, entrevistas e crônicas publicados na revista Diretrizes, na década de 1940. Com muita ironia e humor, o texto traça um retrato do Brasil da época. O mais novo filhote da coleção acaba de ser lançado: Chico Mendes Crime e Castigo, série de reportagens de Zuenir Ventura sobre a morte do seringueiro Chico Mendes. O livro traz as reportagens feitas para o Jornal do Brasil em 1989, quando Zuenir foi enviado ao Acre; traz também as reportagens sobre o julgamento dos assassinos de Chico Mendes, em 1990; e matérias escritas em outubro de 2003, quando o jornalista retornou à região e reencontrou os personagens envolvidos no crime. Em outra frente pelo estímulo ao jornalismo literário, foi lançado um concurso que leva o mesmo nome da coleção, promovido pela Companhia das Letras em parceria com o portal iG e apoio do jornal Último Segundo <http://ultimosegundo.ig.com.br/useg/>. Foi proposto aos jovens estudantes do Brasil que escrevessem uma reportagem inédita sobre o tema "personagens urbanos". As inscrições ocorreram de setembro a novembro, e os vencedores cujos textos podem ser lidos em <www.igler.com.br> foram anunciados no dia 3 de dezembro. Outras preciosidades estão no forno. A coleção "Jornalismo Literário" não tem um número limite de livros, mas o objetivo do jornalista Matinas Suzuki Jr., coordenador da série, é que sejam lançados de quatro a cinco títulos por ano. Em entrevista ao Observatório, Matinas falou sobre as inspirações da coleção, seu futuro e sua importância. Como surgiu a idéia de fazer a coleção "Jornalismo Literário"? Matinas Suzuki Era uma idéia antiga do Luiz Schwarcz [editor da Companhia das Letras] e minha, que vinha da constatação de que alguns textos clássicos do jornalismo estavam fora do mercado no Brasil. Veio amadurecendo ao longo dos anos e finalmente descobrimos uma oportunidade para fazer com o apoio cultural do jornal eletrônico Último Segundo. Qual a importância da coleção? M.S. Acho que só saberemos a real importância da coleção daqui a algum tempo. A nossa intenção é contribuir para a revalorização do texto na imprensa brasileira. Na minha visão pessoal, as duas últimas décadas foram décadas de desvalorização da qualidade da escrita na imprensa brasileira. Em um momento no qual o jornalismo repensa os seus caminhos, talvez seja apropriado tentar resgatar o texto como valor para o jornalismo. Quais serão os próximos títulos? M.S. Além do livro sobre o Chico Mendes, do Zuenir Ventura, que acaba de sair, o próximo volume será o livro Fame and Obscurity, do Gay Talese, que no Brasil ficou com o título de Aos Olhos da Multidão. Como foram escolhidos os títulos? M.S. Nós procuramos selecionar os textos que são considerados marcos do jornalismo e que tenham saído originalmente em jornais e revistas. A seleção é feita pelo Luiz, pela Maria Emília Bender, da Companhia das Letras, e por mim, após consultar bastante gente. Com avalia a repercussão e a vendagem? M.S. Têm sido muito boas, especialmente quando se considera um tipo de coleção como essa. No princípio, nós achamos que ela interessaria apenas a estudantes de jornalismo, mas ela acabou atingindo um público maior. Isso mostra que esses textos escritos 40 ou 50 anos atrás permanecem, sobretudo pela qualidade da escrita. Como você definiria a prática do jornalismo literário? M.S. A discussão sobre se existe ou não ou jornalismo literário é muito ampla e complexa, e não cabe em uma resposta muito curta. De qualquer maneira, mesmo correndo o risco de ser simplista, eu lembraria algumas regras que são mencionadas pela maioria dos estudiosos: o jornalismo literário precisa estar ancorado em fatos; precisa da apuração profunda, do chamado "mergulho no tema", uma das suas características mais importantes; e é narrado em perspectiva pessoal, que pode ou não usar recursos de ficção. Qual a situação do jornalismo literário hoje? Há no Brasil quem se dedique a ele? M.S. Com a crise da imprensa, o jornalismo literário, embora ainda ativo na tradição do jornalismo anglo-saxão, sofreu um refluxo de qualidade. No Brasil, ele acabou tendo uma espécie de "desvio" de veículo: é mais praticado em formato de livro no que nas páginas de jornal ou revista. A Companhia das Letras e o iG também estão promovendo o concurso "Jornalismo Literário". Como surgiu a idéia e qual o objetivo do concurso? M.S. A idéia veio da Companhia das Letras, que já havia feito um concurso com outro tema, mas com um formato parecido. Nos pareceu útil tentar revalorizar o texto jornalístico não só nos livros editados, mas também no estímulo à produção desse tipo de escrita fronteiriça. | ||