ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro


ASPAS

FERNANDO SABINO
Humberto Werneck

"Páginas soltas", copyright Jornal do Brasil / no. (www.no.com.br), 14/4/01

"Aos 77 anos, Fernando Sabino não dá sinais de que esteja para pendurar suas chuteiras literárias. Pelo contrário, não se cansa de mandar títulos novos para as livrarias. De 1998 para cá, foram quatro (Amor de Capitu, No fim dá certo, O galo músico e A chave do enigma). Nos últimos tempos, parece preocupado com a posteridade - mais exatamente, com o uso que se possa fazer de seus escritos quando já não estiver por aqui. Razões não lhe faltariam para estar apreensivo. Basta ver a avidez com que certos herdeiros vão desamarrotando e publicando qualquer papel achado na gaveta do falecido.

Escaldado pela repetição desse espetáculo deprimente, Fernando Sabino já formalizou - em cartório - o seu desejo de que venha a ser considerada obra sua apenas aquilo que ele tenha posto em livro. Dois anos atrás, ao receber na Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis, começou o bem-humorado discurso de agradecimento revelando que estava empenhado na elaboração de sua ‘obra póstuma antecipada’. Falava a sério: O galo músico, de 1998, desencavara quatro contos publicados na extrema juventude por um escritor que, segundo um amigo malicioso, ‘foi precoce e continua’. Muito vivo, decidiu ser póstumo já, encarregando-se ele mesmo da exumação de velhos escritos, com direito a um retoque aqui e outro ali. O trabalho parece ter sido arrematado agora, com o lançamento de Livro aberto (Record), catatau de 656 páginas que traz como subtítulo Páginas soltas ao longo do tempo.

Põe tempo nisso: são seis décadas de intensa escrevinhação em revistas e jornais. O texto que abre o volume, a crônica O caçador de borboletas, é de 1939, dos 15 anos de Sabino - já então autor veterano, pois fizera aos 12 a sua estréia tipográfica. A partir daí se desenrola, ano a ano, um fio cronológico que tem na outra ponta um artigo de 1998. O que ele acondicionou entre uma data e outra não é um saco de gatos, mera transcrição de velhos recortes e de alguns inéditos, como se poderia temer, mas uma miscelânea não apenas bem armada como quase sempre interessante.

Alguma coisa terá entrado como simples curiosidade - meia dúzia de artigos de crítica literária, ou que outro nome tenham, por exemplo, três deles dedicados à obra de Octavio de Faria. O último, de 1953, tem como tema o romance Os loucos e como abertura esta frase: ‘Termino a leitura chorando’. Fez bem o improvisado crítico em não perseverar no gênero. Mas vale a pena ler, neste Livro aberto, os prefácios que escreveu, já maduro, para vários volumes da coleção Novelas imortais (Flaubert, Henry James, Tchekhov, Melville, Stevenson e Pirandello, entre outros), por ele organizada para a editora Rocco.

O Sabino que o leitor conhece e reconhece começa a existir nas crônicas enviadas de Nova Iorque, entre 1946 e 1948, para O Jornal e o Diário Carioca. Parte delas foi reunida em A cidade vazia, de 1950. Mas sobrou material digno de prelo - recuperado agora, junto com alguns textos que o cronista eliminou ao relançar o livro, em 1958. De quebra, inéditos, os dois únicos poemas que Sabino confessa ter escrito - versos despretensiosos, brincadeiras em cartas aos amigos Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino.

É nessa produção nova-iorquina que desponta o humorista Fernando Sabino, observador sagaz da aventura do cotidiano - título da seção que o consagrará pouco mais tarde nas páginas da revista Manchete. Abre-se ali a melhor fase do escritor, que se estenderá por cerca de 20 anos, até meados da década de 1960. É desse período não apenas a sua obra-prima, o romance O encontro marcado, como também as suas crônicas mais bem realizadas, em especial as de O homem nu.

No romance ou nos relatos curtos, o Sabino desses anos áureos é notável não apenas pelas histórias que conta, mas, sobretudo, pela maneira como as conta, capaz de converter em arte o que seria simples ‘causo’. O jeito sabiniano de narrar, seu toque veloz, elíptico, sem enfeites, dá a não poucos leitores a ilusão de que poderiam eles próprios escrever coisa igual.

A produção desse período compreende uma série de histórias, só agora postas em livro, que Sabino escreveu durante algum tempo para o Diário Carioca sob o título geral O destino de cada um e o pseudônimo Pedro Garcia de Toledo, nas pegadas do que fazia, com mais êxito, Nelson Rodrigues em seu A vida como ela é.

O cronista é menos deleitável quando se aventura pelo lirismo, pela reflexão, pelo comentário grave, ocasiões em que não raro derrapa para o lugar-comum e a pieguice, como nas poucas linhas de Natal, com que se despede do ano de 1988. A profundidade não é o seu forte. Seria preciso dizer-lhe: profundo não dá pé. Humilde e bem-humorado, Fernando Sabino chega a transcrever em Livro aberto a carta em que um leitor lhe cobra mais substância. Sua proposta é outra, contar boas e divertidas histórias, e nisso é mestre - como atestam centenas de textos, curtos ou longos, recolhidos nas páginas de Livro aberto. ‘Estranho ofício é o de escrever’, anota ele a certa altura. ‘De tudo que já publiquei na vida, houve sempre um leitor que achasse ser a melhor e um que achasse ser a pior coisa já escrita por mim. Por isso mesmo é que publico o que bem entendo.’

Assim como fez com as sobras de sua colaboração nova-iorquina, Sabino juntou no Livro aberto as crônicas enviadas de Londres, onde viveu por quase três anos entre 1964 e 1966, e não aproveitadas em coletâneas como A inglesa deslumbrada (1968). Por seu volume e qualidade, valeriam um livro à parte. O mesmo se diga de um punhado de saborosos perfis de personalidades - Maria Bethânia, Roberto e Erasmo Carlos, o artista plástico Calasans Neto, o playboy e cineasta Carlos Niemeyer, os cantores Ivon Curi e Maria Lúcia Godoy, o craque Nilton Santos, o editor Alfredo Machado e muitos outros -, alguns dos quais haviam sido eliminados da coletânea Gente a partir da segunda edição. Dois bares também foram perfilados: o Colbies, de Nova Iorque, e o carioca Antonios.

Leitores que sejam bichos literários vão se regalar com o episódio da briga e posterior reconciliação, muitos anos mais tarde, com o poeta Pablo Neruda. Vão passear pelo Rio em companhia do poeta inglês Stephen Spender, amigo de Sabino desde os tempos de Manhattan, ou do romancista americano John Dos Passos, cujo nome sugeriu ao escritor mineiro, naquele ir e vir, o apelido de ‘Johnny Walker’. Ou se surpreender com o romancista Autran Dourado a mastigar cantáridas num programa de televisão para testar as apregoadas propriedades afrodisíacas desses besourinhos.

Não faltará quem se divirta com uma irreverente sugestão de Sabino para que nas eleições da Academia Brasileira de Letras só os acadêmicos possam ser votados - o que, a longo prazo, permitiria a um deles ocupar todas as 40 cadeiras. Quem prefere a História e a política lerá com interesse um longo relato jornalístico sobre a revolução cubana em seus começos - o ano era 1960 -, pouco mais tarde publicado em apêndice ao livro Furacão sobre Cuba, de Jean-Paul Sartre, que inaugurou a Editora do Autor, de Sabino e Rubem Braga.

As páginas finais do Livro aberto reservam ao leitor uma palavra, datada de 1992 mas provavelmente inédita, sobre Zélia, uma paixão, o infeliz lançamento que há dez anos confiscou a poupança literária de Fernando Sabino. Avesso desde então a entrevistas, será talvez a primeira vez que ele se manifesta publicamente sobre o assunto. Não se trata, afirma, de uma ‘aventura extraliterária’ em sua carreira, como houve quem dissesse, mas de um ‘desafio apaixonante’ - o de ‘escrever em termos de ficção sobre um insigne personagem da vida real’. Não chega a dizer que se saiu bem na empreitada. Limita-se a observar que poucos entre seus detratores leram o livro, e que a explicação para as críticas está na personagem, não no livro.

Pode ser. Mas Madame Bovary, a personagem de Flaubert, também não era flor que se cheirasse. Será necessário, um dia, desviar a mira de Zélia, sem aspas, e voltá-la para Zélia, com aspas. Só então, desapaixonadamente, vai ser possível encarar as qualidades e defeitos desse ‘romance-biografia’ - capenga como romance, indigente como biografia. Desde já, no entanto, é preciso libertar Fernando Sabino do pelourinho a que permanece atado e devolver-lhe a sua poupança literária. A leitura de seu Livro aberto vem mostrar que isso é de direito."



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