18/11/2003

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CULTURA MEXICANA
O Estado contra os livros

Wladir Dupont, da Cidade do México (*)

"Deixem os livros livres!" esbravejava neste fim de semana o escritor Germán Dehesa, um dos colunistas de maior prestígio da imprensa mexicana, no caderno Cidades do prestigioso jornal Reforma. "Agora só falta vender as pirâmides de Teohutiacán e o Castelo de Chapultepec!", a ele fazia coro um deputado da oposição, Jorge Kahwagi.

Dehesa e Kahwagi se referiam à ameaça do governo mexicano, cada vez mais inquietante, de não só taxar livros, jornais e revistas com um imposto de 10%, como fundir, vender ou privatizar instituições públicas com função cultural – uma rede de 60 livrarias (Educal), a Fonart (o equivalente mexicano da Funarte), a Notimex, (a agência oficial de notícias) e até mesmo os históricos estúdios cinematográficos Churubusco Azteca, neles incluídos uma escola de cinema, o Centro de Formação Cinematográfica e o Instituto Mexicano de Cinematografia (algo como o Ancine, no Brasil).

A idéia, nesta segunda parte do pacote, bolada pelos burocratas do ministério da Fazenda e sujeita ainda a aprovação do Congresso (no bojo da votação do orçamento federal proposto para 2004), é que, se não dá lucro e nem cabe às autoridades sustentar, então fecha ou vende. Em regime de poupança e austeridade, diz o presidente Vicente Fox, o governo precisa livrar-se de ativos do Estado para financiar obras urgentes de natureza social e reforçar a ainda precária infra-estrutura do país.

Argumento que desta vez não comove a classe intelectual e artística do país, normalmente empenhada na defesa das chamadas causas sociais. Com o apoio da imprensa cultural da Cidade do México, escritores, editores, pessoal de cinema e teatro, artistas plásticos, artesãos e jornalistas têm se mobilizado nas ruas para protestar e manifestar seu repúdio contra o que consideram uma postura indiferente e discriminatória do governo Fox diante da cultura, num país com enorme tradição e respeito nesse campo.

Investimento produtivo

De fato, desde que assumiu a presidência da República, há três anos, Fox e sua equipe não têm mostrado particular interesse em revitalizar programas antigos ou financiar novas atividades no campo cultural e artístico. Segundo os cálculos fornecidos a imprensa pelos interessados, a parcela no orçamento federal destinada à cultura representa 0,067% do PIB – inferior ao 1% recomendado pela ONU.

No caso dos livros o problema é muito sério, pois o hábito da leitura no México não é dos mais cultivados: cada cidadão mexicano lê apenas 1,5 livros por ano – e mal –, dando preferência aos esotéricos e de auto-ajuda. Além do analfabetismo, em torno de 10% de uma população de 100 milhões de pessoas, alega-se que o livro, produzido por 120 editoras e vendido em 400 livrarias no país, é caro – um exemplar custa em média entre 10 e 15 dólares. Pouco lidos também são os quinze jornais diários (e seis revistas semanais tipo Veja) da Cidade do México, cuja circulação, na melhor das hipóteses, entre os quatro grandes, gira em torno de 100 mil e 150 mil exemplares diários.

Se aprovado o tal imposto de 10%, os livros ficariam 30% mais caros, o que dificultaria ainda mais sua comercialização. O governo, porém, considera os objetos culturais – o livro, principalmente – como um gasto igual a qualquer outro supérfluo, e que portanto deve ser taxado.

No ano passado, a tchurma de Fox no ministério da Fazenda tentou tascar imposto de renda em cima dos escritores, mas na última hora recuou constrangida, tão visceral foi a reação do setor. Um dos escritores e poetas mais importantes do país, José Emílio Pacheco, vivendo do ofício de escrever há 40 anos, disse na ocasião: "Se eu ainda tiver que pagar imposto de renda, vou a falência". Teria começado ali a desilusão da categoria com as promessas não cumpridas de mudanças e sua conseqüente e aberta ojeriza em relação a Fox e seus ministros.

A irritação se faz maior ainda porque, ao explicar seus motivos, cinicamente os burocratas dão a entender que o imposto de 10% não afetaria os leitores mais dedicados, pois afinal muito pouca gente lê no México.

Mas, no fundo – respondem os escritores –, feitas as contas, a arrecadação com esse novo imposto seria reduzida, o governo não levaria grande vantagem fiscal e nem poderia implementar de forma mais rápida e eficaz seus ditos projetos sociais. Ou seja, essa idéia de considerar a cultura um gasto comum, e não um investimento produtivo e fator de desenvolvimento social e econômico, é, além de nefasta, burra – repetem os escritores.

Calle de Atletas, Churubusco

Por suas frondosas e ainda bucólicas alamedas ao redor de oito palcos de filmagem, cada um com 8.480 metros quadrados, passearam e descansaram figuras célebres do cinema mexicano – Cantinflas, María Félix, Pedro Infante, Pedro Armendáriz, Dolores del Rio, Jorge Negrete, Emílio "El Indio" Fernández, Luís Buñuel, Gabriel Figueroa.

Viviam todos, como estrelas de Hollywood, a chamada época de ouro da indústria, entre 1935 e 1955, quando daquela fábrica de sonhos, os estúdios Churubusco Azteca S.A., construída numa área ainda remota ao sul da Cidade do México, saíam 100 filmes por ano, distribuídos pela também histórica Pelmex para todo o continente, o Brasil incluído.

Hoje, enterrados os ídolos gloriosos e mudadas de forma dramática as condições de se fazer cinema, em meio a crises periódicas – fecha, não fecha; vende, não vende –, os estúdios continuam na mesma área, no bairro de Churubusco, com entrada principal ainda pela Calle de Atletas, só que cortados e cercados por vias expressas e linhas de metrô. E agora ameaçados pelo fechamento por meio de venda ao capital estrangeiro, que poderia transformá-los num gigantesco shopping center ou loteamento para milionário – ou, caso de Steven Spielberg, um dos supostos interessados no negócio, numa filial mexicana de seu próprio estúdio em Los Angeles.

Inaugurado em 1945 com capital dos estúdios da RKO, então em boa fase, e dinheiro de um sócio local, o empresário radiofônico Emilio Azcárraga Vidauretta, os estúdios Churubusco-Azteca passaram ao controle do Estado em 1950, quando deslancharam para a fama mundial, sendo, ainda hoje, os maiores e mais bem equipados de todo o continente. Ali, numa mistura então harmoniosa de dinheiro estatal e da iniciativa privada, foram produzidos, em 58 anos, 3 mil filmes – entre eles, clássicos do cinema mexicano como La Perla, Aventurera, Maclovia, Allá en el Rancho Grande, vários filmes de Cantinflas e O Fugitivo, de John Ford.

O desaparecimento dos estúdios, que contam com um laboratório moderno (revelação e copiagem), duas salas de som digital THX, sala de projeção, camarins, escritórios e restaurante representaria o fim definitivo da indústria cinematográfica e audiovisual mexicanas, lamentam, alarmados, cineastas, produtores, técnicos e artistas.

Pois apesar dos altos e baixos do setor, nos últimos nos cinco anos foram rodados no Churubusco-Azteca 95% dos filmes mexicanos, numa média de 30 por ano. Em seus sets também são feitas telenovelas, vídeos e comerciais publicitários, além do freqüente aproveitamento das instalações por estúdios de Hollywood (nos últimos tempos, para A Marca do Zorro e Frida).

Do Estado mexicano, os estúdios recebem um subsídio anual de 40% para seu funcionamento, o que equivale dizer que, com os serviços prestados a terceiros, cobrem 60% dos gastos. Podem não ser altamente rentável, reconhece a classe cinematográfica, mas não são deficitários e, além do mais, trata-se de um imenso patrimônio histórico-artístico que não pode, em hipótese alguma, ser posto a venda para outras finalidades.

E mais importante ainda, observam, em termos de custos de produção rodar um filme nos Churubusco-Azteca representa uma economia de 30% para os produtores, mexicanos ou estrangeiros, contando com todos os recursos e qualidades técnicas dos grandes estúdios americanos.

(*) Jornalista e escritor brasileiro radicado no México


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