ARMAZÉM LITERÁRIO

LIVROS E FUTEBOL
As paróquias da grande imprensa

Deonísio da Silva (*)

O leitor que gosta de futebol não o encontra nos grandes jornais, nem nas grandes redes de televisão. Só se ele quiser saber apenas o que se passa no Rio e em São Paulo. Em matéria de literatura, não é diferente. Em música, idem. Em outras artes, ibidem. Em outras áreas, a mesma omissão. Com exceção do crime. Daí o leitor é abalroado por notícias de todos os cantos do país. O sujeito briga com a sogra lá em Alegrete e se um dos dois morrer, receberá atenções exageradas. Quem sabe, até mesmo uma Linha Direta na Rede Globo.

E entretanto o Brasil é a maior nação do mundo que está coberta por uma única língua. Quem fala ou escreve pode ser entendido por qualquer leitor ou ouvinte. Do Oaipoque ao Chuí, todos falam e escrevem em português, com leves variações dialetais, de sotaque, de acento. Escreveu, pronto, o leitor leu. Mas o que escrevem e como escrevem? O que transmitem e como transmitem?

Aos fatos. Na década de 1970, o Internacional de Porto Alegre armou um time imbatível e foi tricampeão nacional. Quando é que se ouvia falar dele? Quando chegava às semifinais e jogava em São Paulo ou no Rio. Com o Grêmio, não é diferente. Foi campeão estadual, nacional e mundial. Algumas linhas e poucas fotos resolveram o problema. Há outros exemplos, mas o espaço é curto.

A imprensa mudou? Não. Domingo, 17 de junho. O Grêmio estava no Morumbi para enfrentar o Corinthians. Na Rede Globo, Galvão Bueno só faltou comemorar a vitória do Corinthians antes de iniciar a narração. Final do primeiro tempo: o Grêmio vencia por 1 x 0. E perdera vários gols. No intervalo, Galvão Bueno insistia que Wanderley Luxemburgo iria mudar tudo para o segundo tempo, dando a entender que a virada era certa. A seu lado, os ex-jogadores Casagrande e Falcão discordavam. O primeiro chegou a dizer que Tite, o técnico do Grêmio, dera um nó tático em Luxemburgo.

Veio o segundo tempo. Antes que o galo cantasse três vezes, Galvão Bueno fora traído pela realidade. O Grêmio fez 2 x 0 em menos de dois minutos. Onde estava a sabedoria do ex-técnico da seleção? O gato comeu. Perdidos em campo, os corintianos davam a alma. O empate em zero a zero ou um a um lhes daria o título. Fizeram um gol. O Grêmio fez o terceiro e liquidou tudo.

Nota quatro

Por que o leitor esteve censurado esse tempo todo? Ninguém sabe quem é Tite, o técnico do Grêmio. Se um dia, ele, a exemplo de Felipe Scolari, chegar a técnico da seleção, a imprensa vai pesquisar o seu percurso. Onde? Em jornais locais. Por quê? Porque os grandes temas brasileiros são tratados sem a grandeza que fazem por merecer. Menos no crime, reitero. Daí será necessário fazer como a Folha de S.Paulo, que foi pesquisar a vida de Felipe Scolari e o que escolheu para mostrar aos leitores? Que ele foi zagueiro em Alagoas e que depois treinou um time financiado pelo pai de Teresa Collor. Meu Deus! Um profissional é diversas vezes campeão estadual, nacional e no estrangeiro por pequenos e grandes times, leva-os às finais de campeonatos mundiais e um dos maiores jornais do Brasil só encontra para informar os leitores que ele um dia foi zagueiro e treinador em Alagoas? Daí o interior serve, né?

Ainda no mesmo jogo. No intervalo da transmissão pela Rede TV! – quem será que escolheu este nome? –, Juca Kfouri não usou meias palavras, como é de seu hábito. Discordou de todos os ufanistas que torciam ou davam a impressão de torcer pelo Corinthians e chamou seu colega para contar a partida como a partida tinha sido no primeiro tempo. Saiu um "DataCajuru" completamente diferente de qualquer retrato. O jornalista Cajuru mostrava que o Grêmio tinha sido melhor, encurralara o Coríntians e ia fazendo o que queria na partida. Os dois melhores jogadores do Coríntians tinham errado mais de 60% dos passes. Se estivessem fazendo provas numa escola, teriam sido reprovados. Pois tirariam apenas quatro!

Quem é Luís Felipe Scolari? Não sabemos. A imprensa nos deve um perfil do técnico da seleção brasileira, de seus métodos, de seus conceitos sobre futebol, de suas conquistas, que são muitas, de seus fracassos – estes, raros. Ora, para a maioria dos brasileiros o técnico da seleção é mais importante do que o presidente da República.

Multicultural e multiétnico

Para não dizerem que é só no futebol que somos vítimas de tamanha desinformação, darei outros pequenos exemplos. Sem tirar nem pôr, o maior escritor do século 20 não é paulista nem carioca. Os leitores mais sofisticados talvez fiquem com o mineiro João Guimarães Rosa ou com a ucraniana Clarice Lispector. Os que prezam a arte de narrar sem dificultar muito a vida do leitor hesitarão entre o baiano Jorge Amado e o gaúcho Erico Verissimo. [Não sei por quê, a Folha de S. Paulo, que por sua própria conta aboliu o trema, para irritação do leitor, obrigando até mesmo o professor Pasquale a errar sempre que escreve ali, porque aceitou submeter-se à transgressão, põe acento em Erico e Verissimo. Luís Fernando Veríssimo tem acento em prenome e sobrenome; seu pai, não.]

Guimarães Rosa teve espaço nos cadernos literários por ser escritor ou por ser diplomata? Jorge Amado, por ser escritor ou por ser político e militante comunista? Clarice Lispector – esta, todos sabemos – porque morreu. Nossa grande imprensa, em sinistra parceria com nossa vida acadêmica, exige antes o atestado de óbito para reconhecer o talento. E às vezes nem esse documento é suficiente. Quanto a Erico Verissimo, melhor saber o que dele e de sua obra disse o crítico e professor Flávio Loureiro Chaves, que redigiu o volume final das memórias de Erico. Mas quem o pautará?

Pois há anos os grandes jornais insistem em autores de um livro apenas, autores sazonais, e tentam impor-nos como o que há de melhor em nossas letras. Por quê? Porque não temos mais repórteres, não temos mais pesquisadores, porque seus editores levam seus livros à redação, porque os informes chegam prontos, por isso ou por aquilo. Mas basicamente porque eles e seus editores moram no eixo Rio-São Paulo. Há exceções, há exceções, calma! Mas são exceções, frutos de competência e ética profissionais de quem eventualmente esteja em instâncias decisivas. Não há um norte editorial no veículo!

Ano passado, o prêmio Jabuti foi concedido a um escritor do interior de São Paulo, Menalton Braff, que mora em Serrana e dá aula em cursinhos. E é publicado por uma pequena editora de Ribeirão Preto! Em 2000, o prestigioso prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) foi conferido a Salim Miguel, autor do melhor romance, Nur na Escuridão, narrando em bela síntese a saga de uma família árabe no Brasil. Foi publicado pela Topbooks. Há milhões de descendentes de árabes no multicultural e multiétnico Brasil. Salim Miguel nasceu em São Paulo? No Rio? Não. No Líbano. Mas mora em Florianópolis e este ano está comemorando 50 anos de vida literária. Há milhões de descendentes de árabes no Brasil. Só de libaneses, são 6.000.000! Grafei em números para ver se chamo a atenção para eles, que fazem por merecer. O que sabemos desses dois grandes escritores? Pela imprensa, pouco ou quase nada!

Coisa à vista!

Não nos admiremos de um grande jornal não vender mais no Brasil inteiro. Eles não querem ser nacionais. Nem eles, nem certas revistas. Aos fatos. Não sei se já mudou, mas até há algum tempo o Caderno 2 de O Estado de S.Paulo para São Paulo e algumas capitais, era um; para o resto do Brasil, outro. A Folha de S.Paulo tem um caderno "Acontece", que só acontece em São Paulo, na capital. A revista Veja oferece aos leitores de São Paulo a Veja São Paulo. O preço? O mesmo para todos. Mas quem não mora em São Paulo não recebe a chamada Vejinha, que é de graça. Até parece que os brasileiros de outras regiões não visitam a maior megalópole brasileira, não vão ao cinema, ao teatro, a shows, não freqüentam restaurantes, nem precisam saber de outros espetáculos e – ó dor – não podem ler a crônica da última página da Veja São Paulo. Quem critica, pode elogiar. A de Walcyr Carrasco, na edição de 20 de junho, estava imperdível! "Tudo é máfia, acredite: com a crise, há gente que até reaproveita vela usada de cemitério." E a capa dizia o seguinte: "Delícias da Serra: novos hotéis, passeios, restaurantes e baladas prometem esquentar o inverno de Campos do Jordão".

Ai, ai, ai, meus sais: nós, do resto do Brasil, estamos proibidos de saber dessas delícias? O turismo interno é assunto exclusivo de paulistanos? Por essas e outras, ainda acho que um dos maiores intelectuais brasileiros de todos os tempos é o Barão de Itararé. Queiram me desculpar o excesso de Brasil meridional neste texto. Será para compensar? Não, deve ser o efeito Felipão, o nosso mais recente salvador – até perder a primeira, claro! O célebre humorista gaúcho é autor desta jóia rara: "De onde menos se espera, dali mesmo é que não sai nada". Por isso, a capa da revista Carta Capital que está nas bancas com uma foto de Fernando Henrique Cardoso com um chapéu de doutor do tamanho de um abajur também caiu na esparrela. O título é: "O intelectual já era". E quem opina? Os mesmos de sempre. Mas esses, o que mais fazem é se repetirem. Pelo amor de Deus, o Brasil é maior, mais diverso, mais complexo. Pautem outros. Pelo menos, pautem outros para lhes fazerem companhia. Para que os contrastes venham à luz. Ou o apagão afetou também as idéias nas redações?

Não me tomem por resmungão, o que, aliás, iria de encontro ao meu – como direi? – jeito de viver. Sofrimento é para sair na urina, o que não sai na grossa, que saia na fina. Somos um povo generoso e bom, temos o segundo mercado editorial das Américas, no conjunto nossa imprensa nos informa de tudo, as editoras tudo publicam, mas os espelhos estão confinados a alguns arquipélagos. E sou um inconformado com o fato de o Brasil verdadeiro aparecer sempre em tão pálidos relâmpagos em nossa grande imprensa. Precisamos interromper nossa vocação paroquial. Precisamos deletar os ressentimentos geográficos, os guetos intelectuais, precisamos fazer a reforma agrária também nas letras e, principalmente, na Galáxia Gutenberg. É verdade que a internet já começou o processo e a própria existência do Observatório da Imprensa atesta o que afirmo: que as inconformidades estão se manifestando.

Os leitores não merecem essa pequenez. O leitor assiste a futebol, tênis, vôlei, basquete, ouve rádio, vê televisão, vai ao teatro, ao cinema, lê jornais, revistas, livros e – que bênção! – navega nessas águas por onde singro eu com minha modesta canoinha para avisar aos outros navegantes: coisa à vista! Romancista ao sul! Teatro a bombordo! Cinema a estibordo! Artes plásticas ali à frente! Intelectuais fora do eixo! Povo e leitores em todos os lugares!

Pois é. Mas sem poderem ver o que se passa nas regiões onde vivem, dominadas pelos Pravdas locais! O poder local da República Velha trocou de lugar. Em vez de cangaceiros, pequenos e médios veículos formando currais eleitorais! E o capitão-do-mato desce o açoite nas teclas do computador!

O federalismo salvou o Brasil. Que nossa imprensa não ajude a enterrá-lo!

(*) Escritor e professor da Universidade Federal de São Carlos, doutor em letras pela USP, é colaborador regular das revistas Caras e Época e escreve semanalmente em <wwww.eptv.com.br>. Seu livro mais recente é o romance Os Guerreiros do Campo.