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ARMAZÉM LITERÁRIO THE FREEDOM FORUM Argemiro Ferreira, de Nova York Quem foi Bill Stewart? Jornalistas mais velhos na certa ainda se lembram do nome. Como também das imagens da sua morte, transmitidas para o mundo inteiro no horário nobre da televisão. A foto do dia seguinte, nas primeiras páginas dos jornais, era igualmente impressionante. Stewart, repórter da rede de televisão ABC, uma das três grandes dos EUA, morreu no exercício da profissão. A cena da execução dele – em 20 de junho de 1979, por um soldado da Guarda Nacional do ditador Anastasio Somoza, na Nicarágua – foi tão chocante que apressou a vitória dos rebeldes sandinistas. "Foi um ato de barbarismo", disse em Washington o então presidente Jimmy Carter, que ainda fez o que pôde, apesar de sua política de direitos humanos, para evitar que os guerrilheiros chegassem ao poder. Ato de barbarismo. De fato. Mesmo se for levada em conta a situação de guerra civil e o desespero do regime acuado dos Somozas, donos do país, com as bênçãos dos EUA, desde 1933. Stewart, repórter, desarmado, parou na barreira, identificou-se. O soldado da Guarda Nacional mandou que se ajoelhasse e olhasse para o chão. E, sem saber que estava sendo filmado, atirou na cabeça, por trás, certo da impunidade. Modelo USA Today Como tanta gente, nos quatro cantos do mundo, também vi a cena. Que nos anos seguintes voltou algumas vezes, nas inevitáveis retrospectivas da televisão e dos jornais – da década, do século, do milênio. Tinha quase tanta força dramática como a da execução de um vietcong com as mãos amarradas, no meio da rua, pelo chefe de polícia de Saigon, sob as vistas dos soldados americanos e dos jornalistas. Assim, surpreendi-me há dias diante de uma nova versão da história de Bill Stewart, contada num capítulo sobre mártires do jornalismo no livro Crusaders, Scoundrels, Journalists (Cruzados, Patifes, Jornalistas), sobre os personagens mais instigantes do Newseum (este nome infeliz, trocadilho com as palavras "museu" e "notícias", designa uma espécie de "Museu da Notícia", criado aqui nos EUA). Num verdadeiro atentado contra a verdade histórica e o próprio jornalismo, o livro diz, numa minibiografia comparável aos textos vazios e ultraeconômicos do jornal USA Today, que Stewart, "veterano de duas guerras e três rebeliões", cobria "a guerra civil entre tropas do governo da Nicarágua e os rebeldes Contras" e foi executado por um soldado do governo. Império da Berteslmann O livro é da Times Books, editora criada pelo New York Times. Ela ainda usa o logotipo e o nome do jornal, embora tenha sido vendida em 1984 à Random House. Nascida em 1925 para publicar clássicos, a Random House consolidou sua imagem na briga judicial contra a censura à sua edição americana do Ulysses, de James Joyce. Mas desde 1998 tornou-se parte do império de mídia da Bertelsmann AG, corporação empresarial alemã. Pelos disparates do livro devem ser cobrados menos o Times e a Random House do que a instituição que o bancou, The Freedom Forum. Com 1 bilhão de dólares para sustentar suas atividades, entre elas o tal Newseum e um First Amendment Center, a organização arvora-se em juiz da liberdade de expressão no mundo – sob a ótica americana, favorável não ao direito das pessoas à informação, mas ao das corporações de dizer o que quiserem. No caso Stewart, simplesmente virou a história pelo avesso e transformou os vilões em heróis. Quem lê o texto conclui que o repórter foi executado pelos sandinistas. Os Contras, ali citados, não existiam em 1979. Só foram recrutados, armados e financiados pela espionagem (CIA) dos EUA três ou quatro anos depois, celebrizando-se pelas atrocidades contra civis na guerra secreta do governo Reagan contra o governo sandinista da Nicarágua. Em sua maioria ex-membros da Guarda Nacional de Somoza, os Contras eram chamados por Reagan "combatentes da liberdade". Pode-se até achar a versão do livro resultante apenas de incompetência, não da desonestidade. Mas numa organização como The Freedom Forum, falsificação histórica parece uma tendência tão natural como a do formato do livro – em pílulas, a exemplo da receita do USA Today. Um bom FDP Para mim não há nada pior, em jornalismo, do que a fórmula editorial desse jornal, cuja circulação nacional elevada resulta ao menos em parte do truque da distribuição gratuita em hotéis. Como o USA Today, The Freedom Forum é uma invenção do magnata Allen H. Neuharth, executivo que usou o título da autobiografia (Confessions of an S.O.B.) para confirmar a suspeita que se tinha dele – de que é um bom FDP. Eu o vi há uns seis anos, em evento do Freedom Forum em Nova York (há centros em toda parte, o da América Latina é na Argentina). Explicava-se ali o critério para se incluir nomes num monumento a jornalistas vítimas do arbítrio. Numa matéria, observei à época que o nome de Vladimir Herzog não aparecia e sugeri que a causa era ideológica. Depois soube que incluiram Herzog – mas junto com outro "mártir da imprensa" brasileira, Alexandre Von Baumgarten... O livro Crusaders, Scoundrels, Journalists foi editado pelo "historiador" do Newseum, Eric Newton. A Freedom Forum Newseum Inc, que tem todos os direitos sobre ele, diz na abertura que foi escrito "com a ajuda de alguns dos principais historiadores de jornalismo do país". Tenho dúvidas. Nunca vi nada tão profundamente superficial desde que passei os olhos pela última vez no USA Today. | ||