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ASPAS

DIÁRIO DE BORDO
Carlos Franco

"O jornalismo a sangue quente de John Reed", copyright O Estado de S. Paulo, 22/7/01

"Volume reúne artigos que o repórter norte-americano, morto aos 33 anos, escreveu com o mesmo espírito de seus relatos conhecidos sobre o México e a revolução russa

O homem que viveu apaixonadamente e desesperadamente os mais emocionantes momentos da curtíssima História do século 20, um dia parou, pegou a caneta com a qual deu cores e vida às revoluções mexicana e russa, passando pelos primeiros conflitos dos Bálcãs - que desencadeariam a 1.ª Grande Guerra Mundial - e a sangrenta greve dos trabalhadores têxteis de Paterson, e escreveu suas memórias. São invejáveis as lembranças do jornalista e escritor John Reed que, aos 33 anos, já havia presenciado e escrito sobre um México Insurgente e Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo.

Mais: Reed também viveu um grande amor com Louise Bryant em meio a esses conflitos que mudariam para sempre o discurso do mundo, dividindo-o em dois blocos até a queda do Muro de Berlim, em 1989. Uma divisão que voltaria a se desenhar com a globalização, só que aí seria a clássica ricos e pobres; e, é claro, seus apêndices emergentes vivendo no fio da navalha. Do amor, Reed escreve pouco, mas com suavidade, o suficiente para se vislumbrar a silhueta de Louise entre os fatos da sua história e a história da humanidade.

Filho de uma abastada família do Oregon, o menino raquítico e de poucos amigos, nascido em 20 de outubro de 1887, teria tudo para ser mais um dos rapazes engomados, de sobrenomes ilustres, da vetusta universidade de Harvard, onde havia ingressado em 1906, com futuro traçado a compasso e régua pelos pais. A diferença é que, apesar da crença na manutenção do estado das coisas - uma forma de proclamar vamos mudar, para ficar tudo como está -, Harvard tinha a seu favor o fato de não estar alheia ao que ocorria no mundo.

A realidade há muito havia rompido os muros dessa universidade, que participava ativamente do debate de questões importantes, procurando analisar os movimentos sociais da época, como o surgimento dos grandes sindicatos. Isso despertou em Reed o prazer de narrar os fatos, primeiro nos jornais da universidade, depois naqueles em que conseguia inserir seus poemas juvenis e sua visão dos acontecimentos.

Também nessa época de ebulição e descobertas, Reed faz suas escolhas.

Preferia estar com bêbados, intelectuais, artistas e vagabundos. Era assim que sua vida ganhava mais matiz e sentido do que aquela de fervilhantes salões de cores sombrias, tão apropriados aos olhos de sua família ou de qualquer uma de origem aristocrática ou emergente. Se Reed se entrega a essa troca de ambiente com paixão, ele também escreve com o coração e passa a acompanhar de perto os conflitos sindicais sem nenhuma isenção, pois preferia participar ativamente deles. Vê o desenrolar da greve dos trabalhadores das fábricas têxteis de Paterson e o massacre a que se sucederia, com a polícia atirando nos grevistas, matando homens, mulheres e crianças em 1913. Só que não resiste e não se permite manter isento, atira-se na luta contra a opressão do capital sobre as forças do trabalho num mundo ainda de regras arcaicas, de uma exploração vil. Toma partido. Vai preso. Será assim a sua vida daí por diante, ao cobrir e narrar, com paixão, as greves convocadas pela revolução mexicana, o conflito dos Bálcãs e a Revolução Russa de 1917.

São alguns desses artigos, publicados em veículos americanos alternativos à grande imprensa que deram origem à coletânea Eu Vi um Novo Mundo Nascer (152 págs., R$ 22), que a Editora Boitempo está lançando neste inverno de altas temperaturas. E nenhum tempo, certamente, será mais quente do que aquele vivido por esse jornalista. Reed carrega nas tintas, briga para mostrar diferenças. Ao descrever, no entanto, aos 29 anos, o que havia vivido e o que estaria por vir, as cores de suas palavras são mais suaves, reflexivas e tocantes. Ler o seu artigo Quase Trinta, de 1917, é mergulhar no universo desse homem peculiar, que morreria de tifo aos 33 anos, sendo sepultado no muro do Kremlin, reservado aos heróis da revolução russa. Só por esse artigo, o livro valeria a pena, mas abre também uma discussão atual ao abordar o sindicalismo.

Conflitos - Uma das primeiras paixões de Reed é a Industrial Workers of the World (IWW), uma central de trabalhadores da indústria que pregava o sindicato único e a revolução socialista nos Estados Unidos. Uma luta que começava pelas 8 horas de trabalho e adentrava no direito à folgas remuneradas e férias, coisas que soavam bizarras para magnatas como Andrew Carnegie, o rei do aço, que vivia da renda que suas empresas produziam, povoando diariamente e nababescamente as colunas sociais da Europa e dos Estados Unidos. O que ajudava a incitar os ânimos dos trabalhadores metalúrgicos. Só que a IWW queria mais e é na tentativa de arregimentar estrangeiros, homens, mulheres, crianças, brancos, negros, judeus, católicos, protestantes, vagabundos e prostitutas aquilo que fazia com que Reed tivesse um olhar complacente para essa central e sua luta ideológica na disputa entre o capital e o trabalho.

O radicalismo sempre acompanhou os textos de Reed, mas no caso do sindicalismo, ele era até certo ponto brando, pois a American Federation of Labor (AFL), a central que decidiu viver das benesses dos patrões, conquistando filiados realizando sorteios e a negociar com os patrões a lutar com os operários, fazia muito pouco nesse início do movimento sindical nos Estados Unidos. Reed a bombardeia com palavras, apesar do crescimento espetacular da condescendente e patronal AFL, que de apenas 100 mil filiados em 1890 chegaria a 2 milhões em 1914, com o olhar complacente da indústria dado ao colaboracionismo de seu líder Samuel Gompers, que preferia jantar com os patrões aos operários. Gompers não era atacado apenas por Reed, mas por vários jornalistas e escritores de seu tempo. Não entrou, evidentemente, para a história, embora os textos de Reed tragam de volta a dicotomia entre a IWW e a AFL. Uma comprovação de que pouca coisa mudou no mundo, embora a divisão de blocos hoje seja outra, mudou para ficar tudo como está, afinal, ricos e pobres é um secular conflito. Sorte de Reed que, com seu radicalismo, pôde viver num mundo de efervescência de fato. É o retrato dessas paixões o melhor e mais preciso relato de Eu Vi um Mundo Novo Nascer."

 

CYBERPUNK
Robson Pereira

"Júlio Verne, o cyberpunk do século 19", copyright O Estado de S. Paulo, 19/7/01

"Em 1889, o pai da ficção científica já adivinhava, em seus livros, os usos e as aplicações da Internet

Francis Benett, dono do Earth Herald, o jornal mais poderoso do mundo, está sentado à mesa em Nova York. Na sua frente, uma tela grande com a imagem ao vivo da sala de jantar de sua mansão em Paris. Apesar do fuso horário, era um hábito que ele costumava cultivar sempre que possível: almoçar com sua mulher, mesmo estando separados por milhares de quilômetros. Benett, o homem que tinha o poder de decidir até ‘o que fazer com a Lua’, sentia-se bem face à face com a adorada esposa, vendo e falando com ela através de ‘aparelhos fonotelefóticos’.

Chia McKenzie usou o cartão de crédito para fazer o download de um conjunto preto, composto por calça e blusão. No dia seguinte, teria uma reunião importante em um site, que ainda estava sendo preparado. Na hora combinada, se conectou. Colocou os sensores de dedos, os óculos especiais. Em poucos segundos foi recebida por uma secretária que a encaminhou ao local onde pelo menos cinco pessoas aguardavam. ‘Este site é muito bonito’, disse tentando ser amável com a anfitriã. ‘Se você for salvá-lo, gostaria de visitá-lo outras vezes, com mais calma.’

Mais de um século separam os dois parágrafos acima. O primeiro, fragmento do ensaio 'O dia de um jornalista americano em 2889', foi escrito em 1889 por Júlio Verne, o pai da ficção científica. Incrível, não? Já o segundo parágrafo sintetiza duas passagens do livro Idoru (pronuncia-se Aidoru), escrito em 1996, pelo americano William Gibson, um dos expoentes do gênero que ficou conhecido como cyberpunk.

Antes de criar Francis Benett, o jornalista do título, o mestre Júlio Verne já havia escrito histórias suficientes para garantir, ainda hoje, uma legião de seguidores. Como eterna recomendação de leitura, citamos alguns aqui:

Cinco Semanas num Balão, Viagem ao Centro da Terra, Da Terra à Lua, 20.000 Léguas Submarinas, A Volta ao Mundo em 80 Dias e A Ilha Misteriosa. Verne, é preciso que se recorde, viveu entre 1828 e 1905. Até hoje é um dos autores mais lidos em todo o mundo.

Willian Gibson ganhou projeção em 1984, quando publicou a novela Neuromancer, um sucesso estrondoso que valeu ao autor os principais prêmios atribuídos à chamada literatura de ficção. Foi neste livro que apareceu, pela primeira vez, a expressão cyberespaço, cunhada por Gibson para denominar o ambiente em que estamos ingressando, mas cujo extrato havia sido imaginado quase um século antes por Júlio Verne.

Grande parte da trama de 'O dia de um jornalista...' gira em torno do poder exercido por um magnata da imprensa norte-americana, tendo como pano de fundo um cenário sombrio para a época: cidades com 10 milhões de habitantes, prédios de 300 metros de altura, aerocarros e aeroônibus rasgando os céus, imensos transformadores de energia elétrica e mísseis transmissores de vírus capazes de destruir uma nação em pouquíssimas horas.

Em Neuromancer, livro ao qual se atribui a origem do movimento cyberpunk, o cenário é o espaço cibernético, onde grandes corporações travam uma batalha pelo controle do comércio de drogas pesadas e informações, reproduzindo uma visão pessimista sobre a sociedade do futuro - a exemplo do que fizera nas telas Blade Runner - O Caçador de Andróides (Ridley Scott, EUA, 1982). Em posição oposta, os caubóis, especialistas em burlar sistemas de segurança com o auxílio de poderosos softwares piratas. Não nos esqueçamos: tudo isso em 1984.

Cyberpunk foi um movimento literário surgido no início dos anos 80, uma espécie de braço paralelo da ficção científica. Uma das diferenças básicas entre um e outro gênero é provavelmente uma das mesmas que separam Júlio Verne e William Gibson. Um tentou descrever um cenário mil anos à frente.

Para o outro, algumas décadas foram suficientes para ambientar um futuro repleto de personagens marginalizados, cenários de realidade virtual e vírus altamente destrutivos. No primeiro caso, não foi preciso esperar mil anos. E para o segundo?

Jornal falado Um detalhe intrigante: o Earth Herald imaginado por Júlio Verne não é impresso. A cada manhã, milhares de assinantes ocupam os inúmeros ‘gabinetes fonográficos existentes’ e por meio de rápidas entrevistas tomam conhecimento dos principais fatos do dia. ‘Fotografias intensivas’ complementam as informações. Do outro lado do telefone, ‘cada repórter tem diante de si uma série de computadores, que permitem estabelecer comunicações com esta ou aquela linha telefônica’.

Johnny Mnemonic Ao contrário de Júlio Verne, William Gibson talvez seja mais conhecido na Internet do que fora dela. Chegou a ganhar um dicionário que procura explicar e decifrar dezenas de termos e tecnologias descritas em seus livros e contos - um dos quais, Johnny Mnemonic, transformado em roteiro de cinema.

Quem se interessar em conhecer mais sobre ambos procure em www.google.com.

Como expressões-chave, além dos autores e livros citados acima, sugiro Eterno Adão, Ficção Científica Cyberpunk, La Era de Idoru e Virtual Matrix."



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