28/10/2003

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RUBEM FONSECA
Os prejuízos do algoz

Deonísio da Silva

Graciliano Ramos, humilhado, de cabeça raspada, contemplou do porão do navio a última visão que lhe dava Alagoas. Lá ia ele para a cadeia. Quando saiu, anos depois, fraco, alquebrado, caminhando com dificuldade, foi socorrido por um cavaleiro que ali passava e lhe ofereceu a garupa.

Conheci seus filhos, Ricardo e Clara, já falecidos. Ricardo Ramos levou pela vida afora o triste epíteto do qual jamais se livraria: era filho de Graciliano Ramos! Por ter um pai genial, os leitores sempre foram muito exigentes com o filho de Graça e vários deixaram de reconhecer nele o grande contista que foi. Clara me deu um longo autógrafo no livro Cadeia e me disse que o escritor brasileiro precisava estar preparado para o sofrimento. Quando soube que eu tinha sido condenado a dois anos de prisão pelo conto de estréia, me perguntou: "E você já aprendeu?"

Quem condenou Graciliano Ramos? Como era o nome do algoz? Sim, o principal responsável foi Getúlio Vargas. Mas isso foi no atacado. Quem o condenou no varejo? Paira um esquecimento para que a memória se livre de pulhas como aqueles.

Gustave Flaubert, quando proibiram Madame Bovary, foi levado aos tribunais e fraquejou: declarou que escrevera o romance para educar a juventude! Mas quem sabe o nome do juiz, do censor, do delator, do acusador? O que vemos é que Gustave Flaubert é nome até de edifício!

Rubem Fonseca era o todo-poderoso diretor da Light. O governo militar proibiu seu livro Feliz Ano Novo. Queria mostrar a todos que se atingia até Rubem Fonseca, os outros que se cuidassem ainda mais! Quando um poder recorre a tais expedientes, deixa clara uma verdade fatal: está se enfraquecendo e tem medo de tudo. Até de um escritor, que é exército de um homem só, segundo a bela metáfora de Moacyr Scliar.

A proibição durou quase catorze anos. Como publiquei alguns livros sobre o autor e sua obra, outro dia um casal de moços me procurou. Um deles, o namorado, trabalhava no Tribunal Regional Federal do Rio de Janeiro e tinha visto os complexos cálculos que os contadores estavam fazendo com o fim de fixar exatamente a quantia do ressarcimento que lhe devem por danos e perdas.

Abominar a trapaça

Tenho conversado com Rubem Fonseca esses anos todos. Vai doar o total do ressarcimento a uma Santa Casa de Misericórdia. Para mim, Zé Rubem, como o chamam, tem outras referências. Pautado para escrever sobre a novela Celebridade, quando vi a falsária que é vivida na telinha pela charmosa atriz Cláudia Abreu, para mim ela é outra pessoa: é a nora de Rubem Fonseca. Casou com aquele menino, José Henrique, que um dia fez a capa da primeira edição de Os Prisioneiros, o primeiro livro de Rubem Fonseca! E a quem conheci um dia, num jantar na casa de Rubem, ao qual compareceram também Clarice Lispector e Nélida Piñon. Quem é José Henrique Fonseca? Foi premiado por Traição, o melhor filme no Festival de Huelva, Espanha, em 1998, e eleito pelo público o melhor filme do Festival de Brasília, no mesmo ano.

Levou para casa os prêmios de melhor filme e melhor diretor por O Homem do Ano no 7º Festival de Cinema Brasileiro de Miami, 2003. Diretor de filmes publicitários e clipes premiados, é um dos quatro sócios fundadores da Conspiração Filmes. Atuou como assistente de Hector Babenco, em Brincando nos Campos do Senhor, e também em A Grande Arte, de Walter Salles, com quem dividiu a direção do documentário Caetano Veloso: 50 anos. Para a Rede Globo, dirigiu a minissérie Agosto, baseada na obra do pai.

Rubem Fonseca, o pai, e Thea, a mãe, deram-lhe um patrimônio que ninguém pode saquear: instrução, carinho, cultivo do talento que o Senhor deu a seu filho.

Como se sabe, o Brasil vive outros tempos. Há quem queira vencer a qualquer custo e, mais do que isso, atrapalhar quem está vencendo ou fadado a vencer por seu próprio talento. Talvez o sucesso da novela Celebridade, como já ocorreu com outras telenovelas, leve o povo a abominar ainda mais aqueles que acham que a trapaça é a única forma de se dar bem na vida.


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