10/06/2003

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JOGO DE ESPELHOS
Os biógrafos de Hipólito da Costa

Antonio F. Costella (*)

Este título beneficiou-se de uma conversa entre Alberto Dines e o autor, na qual Dines usou a expressão "jogo de espelhos" quando se referiu à possibilidade, que têm os pósteros, de através do biógrafo perlustrar, a um só tempo, o biógrafo e o biografado. Foi o que acabou acontecendo neste trabalho, com a utilização e a análise da correspondência de Carlos Rizzini com Gastão Nothman a respeito das pesquisas que, ambos, realizaram sobre a vida de Hipólito da Costa. Recordando o mote sugerido pela conversa, o autor lançou mão do "jogo de espelhos" para o título. Por sinal, o "jogo de espelhos" tanto mais se torna aplicável, aqui, na medida em que o autor, é, por sua vez, biógrafo de Carlos Rizzini.

Primeiras tentativas biográficas

O Correio Braziliense, tanto no título, quanto na epígrafe, faz supor aos menos avisados que Hipólito da Costa tenha dado preferência, em seu periódico, às notícias vindas do Brasil ou, pelo menos, da América. O título fala por si só. Diz-se "braziliense", sem rebuços, o Correio. A epígrafe não é menos explícita: "Na quarta parte nova os campos ara, / E se mais mundo houvera lá chegara".

Compõe-se, a epígrafe, dos dois últimos versos da estrofe XIV do canto VII de Os Lusíadas. [Íntegra da estrofe XIV do canto VII de Os Lusíadas: "Mas entanto que cegos e sedentos / Andais de vosso sangue, ó gente insana, / Não faltaram cristãos atrevimentos / Nesta pequena casa lusitana./ De África tem marítimos assentos;/É na Ásia mais que toda soberana;/Na quarta parte nova os campos ara,/E, se mais mundo houvera, lá chegara".] Nas estrofes anteriores, Camões repreende os outros povos europeus por guerrearem entre si, em vez de lutar contra os infiéis. Aqui, na XIV, ele enaltece os portugueses por terem conseguido, embora sendo pouco numerosos, expandir-se em direção aos outros continentes, inclusive à América, por ele chamada de "a quarta parte nova", ou seja, o quarto continente. No caso do Correio Braziliense, a "quarta parte nova" pode também significar, especificamente, o Brasil.

No entanto, ainda que se declarando "braziliense" no título, e privilegiando a "quarta parte nova" na epígrafe, Hipólito ocupou-se, em seu jornal, das novidades originadas nos dois lados do Atlântico. Nada lhe escapou da política européia, quer gerasse conseqüências, ou não, sobre os assuntos americanos. E, do privilegiado observatório onde se encontrava, a Inglaterra, não descurou, igualmente, dos temas ocorrentes na "quarta parte nova". É o que se percebe pela leitura de seus artigos e reflexões, ou mesmo quando os olhos do leitor percorrem sua multifária seleção de boletins, editais, decretos, projetos de lei, leis, regulamentos, ofícios, narrativas, proclamações, declarações, memoriais, reclamações, alvarás, convenções, contas, mapas, relações, cartas, réplicas...

Esse formidável espectador do mundo acabou sendo biografado, principalmente, por pesquisadores da "quarta parte nova". Hipólito, o jornalista, o homem, pouco interessou aos europeus. A Inglaterra, que lhe guardou os ossos, nem sabia onde os tinha posto. Portugal, intensamente descrito e documentado em cada página do Correio, pode ter tido interesse no conteúdo histórico-informativo do jornal, mas não em seu editor. Foi no Brasil, especialmente, que se mantiveram menos apagadas as lembranças de Hipólito.

Mas, mesmo assim, ele teve que esperar, pacientemente, 134 anos desde sua morte, até que seu vulto histórico fosse resgatado, por inteiro, de um túmulo de dúvidas.

A presença de Hipólito havia sido assinalada já por um seu contemporâneo, José Liberato Freire de Carvalho [Liberato foi, de 1814 a 1819, o principal redator de O Investigador Portuguez, jornal publicado em Londres com estipêndio do governo português; foi também fundador de outro periódico editado na mesma capital, O Campeão Portuguez, cujo nome completo era: O Campeão Portuguez, ou o Amigo do Rei e do Povo, "jornal político publicado mensalmente para advogar a causa de Portugal"], que o relembrou, depois, em seu livro Memórias da vida, publicado em 1855 [Memórias da vida de José Liberato Freire de Carvalho (Lisboa: Typographia de José Batista Morando, 1855)]. Mas foram só relembranças. Não uma biografia.

Mais alentados, porém claramente incompletos, foram os trabalhos "Hyppolito José da Costa Pereira", de F. I. M. Homem de Mello [F. I. M. Homem de Mello, "Hyppolito José da Costa Pereira", Revista Trimestral do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, t. 35, parte 2 (1872), pp. 235-45], e "Biographia de Hippolito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça", de Alcebíades Furtado [Alcebíades Furtado, "Biographia de Hippolito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça", Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, vol. 17 (1912)]. No primeiro, o barão Francisco Inácio Marcondes Homem de Mello pouco revela sobre a vida de Hipólito, quase se limitando a transcrever trechos do Correio, por meio dos quais expõe algumas idéias do jornalista exilado. Alcebíades Furtado, em compensação, apresenta alguns documentos novos e se detém um pouco mais nos fatos relativos a Hipólito, e, embora ainda estivesse longe de fazer uma biografia satisfatória, veio a tornar-se a base principal para os outros que voltaram ao tema, posteriormente. Esses outros, poucos, que voltaram ao tema, quase nada acrescentaram.

É verdade que Hipólito da Costa mereceu sempre menções de tradicionais historiadores. Segundo arrola Carlos Rizzini [Carlos Rizzini, Hipólito da Costa e o Correio Braziliense (São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957), p. 27], não se esqueceram dele Varnhagen, Pereira da Silva, Moreira de Azevedo, Sílvio Romero, Damasceno Vieira, Oliveira Lima, Calógeras, Tobias Monteiro, Afonso Arinos de Melo Franco e, dentre os estrangeiros, Soriano e Adrien Balbi. Todavia, essas menções de passagem limitaram-se a ser opinativas, ou repetições dos poucos autores que, anteriormente, se ocuparam de Hipólito.

Os trabalhos existentes não configuravam, pois, nenhum deles, uma biografia de peso. Esse foi o quadro até 1957, ano em que surgiram duas importantes biografias de Hipólito, uma de Carlos Rizzini [C. Rizzini, op. cit. Carlos de Andrade Rizzini nasceu em Taubaté, São Paulo, em 25 de novembro de 1898, e faleceu em Tremembé, São Paulo, em 19 de julho de 1972] e outra de Mecenas Dourado.

 

Hipólito e duas paixões

Em 1946, Carlos Rizzini publicou uma obra, que hoje é um clássico da história da imprensa: O livro, o jornal e a tipografia no Brasil [Mecenas Dourado, Hipólito da Costa e o Correio Brasiliense (Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1957); Mecenas Pereira Dourado nasceu em Belém, Pará, em 18 de fevereiro de 1893, e faleceu no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, em 1º de novembro de 1967]. Esse trabalho resultou de vários anos de laboriosa pesquisa, na qual Rizzini revolveu, como o subtítulo arrola, os "meios de comunicação, correio, catequese, ensino, sociedades literárias, maçonaria, etc.", tendo em vista especialmente o período de 1500 a 1822. Ora, este termo final, coincidente com o ano da Independência, exigiu o mapeamento dos personagens principais da cena histórica luso-brasileira do primeiro quartel do século XIX. Dentre eles, estava Hipólito, que acabou tão presente na obra a ponto de merecer um capítulo específico: "Fundador da imprensa brasileira". Nessa oportunidade, Rizzini compilou tudo o que havia – e nós sabemos não ser muito, à época – sobre o fascinante "fundador". E, assim, nasceu também uma paixão.

Embora formado em direito [sobre a vida de Rizzini, ver Antonio F. Costella, "Prefácio a respeito deste livro e da vida de Carlos Rizzini", em Carlos Rizzini, Liberdade de imprensa (Campos do Jordão: Mantiqueira, 1998)], Carlos Rizzini revelou-se e sentiu-se, durante toda a vida, essencialmente um jornalista e, como tal, haveria de solidarizar-se, é óbvio, com aquele Hipólito vitimado pelas injustas perseguições e haveria de empolgar-se com as atribulações do remoto colega que, exilado na Inglaterra, tivera a interessante idéia de lançar um jornal em língua portuguesa no país do exílio. Apaixonado, começou logo a pesquisar.

Comentou com colegas sua intenção de comprar, caso encontrasse, uma coleção completa do Correio Braziliense, pois percebia ser indispensável a leitura integral da obra de Hipólito para poder compreendê-lo adequadamente. Mas por que comprar uma coleção completa, extremamente rara, e não se valer da Biblioteca Nacional? (Rizzini residia, então, no Rio de Janeiro.) Porque a pesquisa demandaria leitura atenta e minuciosa, morosíssima, que ele somente poderia fazer em sua própria casa, aproveitando as madrugadas, pois vivia em contínuo torvelinho profissional, assoberbado pelas imposições de seu invejado cargo de diretor geral da cadeia jornalística dos Diários Associados, fundada e agigantada por Assis Chateaubriand, a qual já congregava dezenas de jornais e emissoras de rádio, espalhados por todo o território nacional.

Algum tempo depois, um amigo informou, de Buenos Aires, ter ali encontrado a ambicionada coleção. Rizzini respondeu-lhe: "Compre-a por qualquer preço". Mais tarde, já de posse dos 29 volumes enviados pelo correio, emocionado, comentaria: "E não foi caro!" [informações prestadas ao autor por dona Áurea Ferreira Rizzini, viúva de Carlos Rizzini; este, ao relatar o episódio, foi mais sucinto no prefácio de seu livro Hipólito da Costa e o Correio Braziliense, acima citado; nele, registrou apenas: "Naquela época, por um golpe de sorte, adquiri em Buenos Aires a coleção completa do Correio Braziliense, de suma raridade" (op. cit., p. xv)].

Daí para frente, durante anos debruçou-se diuturnamente sobre a coleção do Correio e, em 1957, confessaria: "Lendo-o, confirmei-me nas lacunas e deficiências, antes constatadas na biografia de Hipólito da Costa, e no geral desconhecimento do sentido e da extensão da sua ação jornalística. Ignorava-se: onde fora sepultado; se existiria o seu túmulo; que família constituíra; que filhos deixara; e se destes haveria descendentes atuais" [ver "Prefácio", em C. Rizzini, Hipólito da Costa e o Correio Braziliense, op. cit].

O rol dos fatos desconhecidos, acima transcrito, demonstra que Rizzini, ao longo das leituras e dos anos, além de encantar-se com o estilo e as virtudes jornalísticas do ancestral colega, passou a interessar-se também pelo Hipólito de carne e osso, e de uma forma muito além dos limites usuais. Já não lhe bastava analisar a obra, que lera inteira, nela incluídos, além do Correio, também o Diário de minha viagem para Filadélfia, as Cartas de ofício, bem como a célebre Narrativa da perseguição [Narrativa da perseguição de Hippolyto Joseph da Costa Pereira Furtado de Mendonça (Londres: 1811), obra na qual Hipólito relata sua prisão em Lisboa, pela Inquisição]. Nem lhe parecia suficiente conhecer o homem em seus ambiente e época, para completar-lhe a visão coeva da obra, como costumam fazer todos os historiadores. Ansiava por conhecer mais, ansiava por desvendar-lhe a vida privada, penetrar até mesmo – e aqui a singularidade – nas intimidades familiares. Parece que Rizzini via Hipólito, apesar da separação dos anos, como a um colega de redação, um irmão de ofício, muito, muito amigo.

Daí, com a cabeça repleta de pormenores a respeito do Hipólito "literário", Rizzini começou a procurar, em Londres, o Hipólito de carne e osso, o privado, o íntimo.

No início de 1952, seguindo as poucas pistas disponíveis, fez várias investidas. Em certa altura, procurou auxílio na embaixada brasileira, onde, segundo ele mesmo contaria depois [no artigo "Descoberto na Inglaterra o túmulo do Fundador da Imprensa Brasileira", O Cruzeiro (29/10/1955), p. 85], "comuniquei o insucesso das buscas que então realizava nos subúrbios da capital inglesa". Quis o destino benfazejo que ele ali encontrasse o adido Gastão Nothman, com quem estabeleceu, em seguida, uma estreita parceria de pesquisas que durou vários anos. E a parceria funcionou bem, inclusive porque Gastão Nothman, paulatinamente, também se apaixonaria pelo tema.

 

Detetives por correio

A primeira carta de Gastão Nothman para Carlos Rizzini está datada de 4 de março de 1952 [a correspondência entre Gastão Nothman e Carlos Rizzini nos foi franqueada por dona Áurea Rizzini, hoje detentora do arquivo do falecido marido; todas as cartas de Gastão para Rizzini, bem como as de Rizzini para Gastão, que serão adiante citadas, pertencem a esse arquivo; nas citações, mencionaremos apenas o nome do remetente, ficando implícito que o outro parceiro é o destinatário; quando for citada alguma carta de Rizzini ou Gastão para outra pessoa, esse destinatário será nomeado]. Nela, sente-se a insegurança dos passos iniciais. A busca do passado de Hipólito apenas engatinhava. Escreveu ele, em um trecho da missiva:

HIPÓLITO DA COSTA. Há muito comecei a indagar a respeito do mesmo, que V. me disse tinha falecido em Londres em setº ou outº de 1822 (Está certo?). Como lhe disse, os registros civis só começaram em 1837, ou por aí, de maneira que só na igreja de Kensington. Também falei com as autoridades de Kensignton que acham que na própria igreja não se encontrará mais nada, e sim pesquisando em Somerset House, onde estão guardados os diversos ‘records’ dessa natureza. Estou mais de que pronto a lançar-me nessa busca,... peço apenas que V. me confirme que a data do falecimento era de 1822.

Enganoso começo: a data estava errada. Rizzini, em carta de retorno, deve tê-la corrigido [é absolutamente certo que Rizzini conhecia a data, tanto que ela aparece, em 1946, em sua obra O livro, o jornal e a tipografia no Brasil, na p. 363: "Desapareceu Hipólito aos 49 anos, a 11 de setembro de 1823, em Kensington, subúrbio de Londres, de uma moléstia rápida e traiçoeira"], mesmo porque conhecia a data certa: 11 de setembro de 1823. Mas não há vestígios da correção, porque as cartas de Rizzini raramente geraram cópias, já que escrevia somente à mão e, na pressa, não devia mandar datilografá-las pela secretária.[Até o fim da vida, Rizzini jamais datilografou. Tive oportunidade de descrever seu modo de trabalhar ao tempo em que ele era secretário de Educação do Município de São Paulo e, embora já afastado do dia-a-dia jornalístico, escrevia assíduos artigos, dois por semana, para o Diário de São Paulo: "[...] sentava-se à cabeceira da mesa de reuniões e, logo ao chegar, apanhava uma certa quantidade de folhas de papel-jornal e, no mínimo, dois ou três lápis, com pontas previamente afiadas pela secretária. Com esse equipamento de antiguidade medida em séculos, punha-se a redigir. Quando errava, apagava cuidadosamente a palavra não desejada com uma borracha que esqueci de mencionar antes [...] terminava rápido o trabalho de redação e logo passava o texto para a secretária datilografar" (Antonio F. Costella, "Prefácio a respeito deste livro e da vida de Carlos Rizzini", op. cit., p. 19.)]

Em correspondência de 25 de novembro de 1952, Gastão Nothman queixava-se de, apesar das muitas buscas, não ter conseguido resultado algum. Os arquivos da Somerset House de nada adiantaram. Tentava, agora, dentre outras fontes, o Conselho Luso-Brasileiro de Londres, entidade que remontava aos tempos de Hipólito. Seguindo provável sugestão de Rizzini, prometia ir analisar a documentação do duque de Sussex – amigo e protetor do jornalista exilado – e do Banco de Escócia, de quem este comprara ações. Em outra missiva, de 29 de janeiro de 1953, conta ter localizado no arquivo da embaixada brasileira, em Londres, cópias de cinco cartas destinadas a Hipólito, sendo que uma delas era datada de 11 de setembro de 1823 (coincidentemente o dia da morte do jornalista) e era endereçada a "7 Lower Philimore Place, Kensington", confirmando esse endereço como o derradeiro.

A descoberta dos locais de moradia anteriores também se revestia de muita importância, pois, endereços, mesmo mais antigos, podiam sugerir os distritos ou paróquias detentores de eventuais registros de atos da vida civil ou revelar outros traços biográficos de Hipólito. Pesquisando aqui e ali, o perseverante adido conseguiu descobrir que, de 1809 a 1814, o jornalista exilado vivera no New Inn, em Londres, nº 1 da Wych Street. E, como constava que nesse prédio somente habitassem solteiros, passou a especular a respeito da data do casamento de Hipólito, acreditando ser ele posterior a esse período e, talvez, na paróquia de Strand, vizinhanças daquele lugar.

Um mês depois, em carta de 27 de fevereiro de 1953, o detetive-diplomata anuncia seu primeiro êxito:

Pouco a pouco estou desvendando o mistério do seu amigo.

Descobriu-se a cópia de administração do testamento do filho legítimo do Hipólito, que se chamou Augustus Frederick Hippolyto da Costa, capitão do Regimento Real de Engenheiros (britânico), que morreu em Hong Kong em 1849, deixando como único testamenteiro, a sua mãe, mulher do seu Hipólito, cujo nome era Mary Ann GLENIE. Morreu solteiro.

Mandei pedir o curriculum vitae do Augustus Frederick no exército, que mandarei breve. Espero também conseguir outras novidades sobre a mãe dele, que, parece, casou de novo. Vou também tentar descobrir o registro de nascimento do Augustus, pois, conseguindo o ano em que morreu e a idade com que morreu, deve ser fácil.

Agora, Gastão está mais seguro. Seus passos seguintes já se programam com decisão. Mas o biografado ainda não é "dele". Ao dirigir-se a Rizzini, refere Hipólito como "seu amigo", "seu Hipólito".

As cartas vão se sucedendo e as descobertas se acumulando aos poucos, mas nem sempre as esperanças se concretizam. A ficha funcional do filho de Hipólito no exército britânico esclarece várias coisas, inclusive que ele foi morto por piratas chineses em Hong Kong, mas não a data nem o lugar do nascimento. Um documento tão promissor, desembocou, assim, em um atoleiro.

Paralelamente, Gastão andou contatando a Maçonaria pois era fato conhecido de Rizzini ter Hipólito se iniciado em uma loja de Filadélfia, muito antes da fuga para a Inglaterra. O Freemason’s Hall forneceu informações, mas nada que auxiliasse no referente às relações familiares.[Em carta de 24 de março de 1953, Gastão se reporta a uma correspondência do bibliotecário do Freemason’s Hall na qual se apurava que Hipólito fora admitido, em 31 de março de 1808, na loja Antiquity, de Londres, e em 1814 a uma outra loja londrina, como membro fundador, chamada Royal Inverness. O bibliotecário informava, ainda, que durante algum tempo Hipólito atuara como secretário das Relações Exteriores do Freemason’s Hall, e em 1813 fora nomeado grão-mestre provincial para a província de Rutland.]

Sempre com entusiasmo, embora sofrendo limitações de saúde – em uma carta queixa-se de angina –, Gastão vai fuçando os registros de casamento de outras paróquias londrinas, agora em busca, não só do casamento de Mary Ann com Hipólito, mas também o dela com outro homem que, já descobriu, foi o major Melville Glenie.[Em verdade, Mary Ann casou-se três vezes. Primeiro, com Hipólito. Em segundas núpcias, com um tal Glynn, e em terceiras núpcias com Robert Melville Glennie.] Em carta de 24 de março de 1953, relata: "Passei o domingo passado inteiro na City à cata dos registros, acabando por escrever aos ‘vestry clerks’ de diversas igrejas pedindo seu apoio nas pesquisas".

Mas fez ainda mais. Em correspondência do mês seguinte, do dia 15, conta:

Estou ainda à cata do registro de casamento do nosso homem, como do seu falecimento. Inseri um anúncio num dos jornais da City, pedindo informações, mas, até hoje, nada. Não perdi as esperanças todavia, e espero no futuro descobrir mais novidades. Descobri, mas creio não ser de grande interesse, que o pai do Glenie era um soldado e matemático notável, figurando com uma página inteira no National Geography.

Nessa altura, o Hipólito já subira um importante degrau na estima de Gastão Nothman. Passa a ser o "nosso homem". E até o remoto major Melville Glenie perde a patente e as formalidades. Na narração das descobertas é, apenas, o "pai do Glenie".

Novas cartas se sucedem e as peças do quebra-cabeça começam a se encaixar. De acordo com carta de 9 de julho de 1953, Gastão Nothman descobre que Mary Ann era filha de Richard Troughton, "que morava em Vauxhall, Londres, e em Hurley no condado de Berkshire". Localiza nos Gentleman’s Magazine de dezembro de 1819 e de março de 1821 os nascimentos, respectivamente, de uma filha e do filho de Hipólito. Fica também sabendo que "o nosso homem" fora pai, em verdade, de mais uma filha. [Mary Ann e Hipólito tiveram três filhos: Augusta Carolina, Anne Shirley e Augusto Frederico.] E, ademais, desencava o testamento de Richard Troughton, no qual aparece, dentre os bens arrolados, a propriedade "Lady Place", situada em Hurley, uma pista importantíssima para descobertas futuras.

 

Entre mortos e vivos

Depois de pesquisar dois anos, descobri que o nosso herói Hypolito foi enterrado em 16 de setº 1823 na aldeia onde seu sogro tinha uma bonita propriedade que me proponho visitar dentro de uma semana. Não só isso mas [...] na igreja foram erigidas duas grandes placas comemorativas a ele e ao filho...

Assim se expressou Gastão em carta de 17 de abril de 1955. Note-se, ele escreveu: "o nosso herói Hypolito". Cumpriu logo o prometido. Foi a Hurley, do que deu conta em carta de 25 de abril de 1955:

Meu caro Rizzini

Está finalmente resolvido o segredo de 132 anos a respeito do Hippolyto.

Descobri o túmulo com a inscrição e as duas placas comemorativas. Junto remeto um rascunho da pedra que encobre o túmulo e que faz parte do assoalho da igreja logo ao transpor-se o portão da mesma. Está muito gasta e não aguentará por muito mais tempo, apesar do padre cobrir a laje com um pedacinho de tapete.

Depois de tantos esforços o prêmio veio dobrado. Em carta do dia imediato, Gastão apressa-se a relatar:

Hoje, seguindo um palpite que já sentia há tempos, visitei a igreja de St. Mary, na paróquia de Lambeth, em Londres, e lá ao meu imenso prazer e satisfação, bati com o registro de casamento do Hippolyto com a Mary Ann.

[...]

Queira notar que a cerimônia foi presenciada pelo Frederick Augustus (duque de Sussex), e celebrada por um padre que não era o dessa igreja, mas sim de uma igreja no campo. Talvez teria sido o capelão do duque. Vou investigar.

Hoje também descobri o registro de batismo de Ann Shirley da Costa em 18 de janº de 1820, e de Frederico Augusto em 3 de maio de 1821, ambos na igreja de St. Mary Abbott’s, na paróquia de Kensington, em Londres.

Já no dia seguinte, nova carta. (Nesta fase, as correspondências foram quase diárias.) Com esta, vieram muitas fotografias e uma singela descrição: "Hurley é uma linda aldeiazinha perto de Maidenhead, no condado de Berkshire, à beira do Tamisa".

Na seqüência, Gastão descobriu que Anne Shirley, filha de Hipólito, casou-se com um tenente de nome Whitworth Porter e com ele teve um menino que se chamou Reginald da Costa Porter e uma menina, Catherine da Costa Porter. Continuando as pesquisas, reencontrou esses descendentes já adultos mais adiante, e casados, tanto que em 6 de maio de 1955 anunciava, em carta, nomes de bisnetos e trinetos.

Reconstruindo árvores genealógicas, logrou reunir todo um elenco de descendentes que envolviam nomes de uma dezena de famílias. [Em discurso proferido em cerimônia no Itamaraty, Rizzini esclarece: "Ann Shirley, casando com o tenente Whitworth Porter, que atingiu o generalato no exército inglês, é a fonte de toda a longa e numerosa descendência do redator do Correio Braziliense, onde se cruzam as famílias Jefferies, Crosse, Sellon, Bates, Oliver, Bellasis, Lockyer, Lewis, Prynne, Kelly, Stewart, Mollesworth, Leonard, Huggins e Swan", apud O Jornal, Rio de Janeiro, 10/1/1958.] Localizando tais nomes na lista telefônica de Londres, passou a fazer ligações, perguntando às pessoas se porventura teriam algum vínculo ancestral com um tal mister Costa, jornalista brasileiro que se estabelecera em Londres no início do século XIX etc. etc. E conseguiu. Conseguiu localizar descendentes vivos de Hipólito, inclusive um certo coronel Arthur Sidney Bates, de 76 anos de idade, que Gastão anuncia, muito animado, como "o historiador da família". Sobreveio, então, por intermédio deste coronel, uma catadupa de informações novas, retratos, fotografias, objetos, pormenores genealógicos etc.

Com todo esse material, e mesclando-o às informações que ao longo de anos colhera de outras fontes, Carlos Rizzini publicou um longo artigo, fartamente ilustrado, na revista O Cruzeiro, de 29 de outubro de 1955, com o título: "Descoberto, na Inglaterra, o túmulo do Fundador da Imprensa Brasileira", acrescido do subtítulo "A vida de Hipólito da Costa, que deixou no Reino Unido numerosa descendência". A matéria se estendeu amplamente, dividida nos seguintes tópicos: "Um fugitivo em Londres, Missão em Filadélfia, Missão em Londres, Prisão e fuga, Lançamento do Correio Brasiliense, Na diplomacia, Morte, A família, Atividades maçônicas comprovadas, Hipólito comediógrafo, Casamento em 1817, O filho varão, As duas filhas, Descendentes e O túmulo". Foram incluídos, como ilustrações, o último retrato de Hipólito e um de sua mulher Mary Ann, bem como os de Anne Shirley da Costa, major Whitworth Porter, tenente Reginald da Costa Porter, Catherine da Costa Porter e coronel Charles Robert Crosse. Reproduziram-se também as certidões de casamento de Hipólito e Mary Ann, Anne Shirley e Whitworth Porter, e Augusta Carolina (a outra filha de Hipólito) com seu primo Adolfo Charles Troughton.

Não faltaram ainda as fotografias da igrejinha de Santa Maria, em Hurley, com o seu pároco, a lápide tumular e uma placa em memória de Hipólito mandada gravar pelo seu grande amigo, o duque de Sussex, ambas dentro da igreja. Para completar e para cumprir promessa feita por Gastão ao coronel Bates, aparecem duas fotografias: uma da família de Bates e descendentes, em atitude formal, especialmente tirada para a ocasião; e uma outra na qual o casal Bates "corta o bolo comemorativo de suas bodas de ouro, no dia 26 de abril, em sua acolhedora residência de campo, em Basingstoke, Hampshire" [O Cruzeiro, 29/10/1955, pp. 84-90].

Sem dúvida, acabou tudo em família. Hipólito – ao menos para Rizzini e Gastão – não era mais apenas um vulto histórico. Era um amigo do peito. Quase um parente.

 

Méritos compartilhados

Carlos Rizzini deu a Gastão Nothman seu justo valor. Na referida matéria de O Cruzeiro, em 1955, incluiu uma janela na qual inseriu a fotografia do adido de nossa embaixada em Londres e escreveu que, se a biografia de Hipólito agora era uma das mais conhecidas, dentre as das grandes figuras de nossa história, devia-se "tão inestimável serviço [...] a Gastão Nothman, da embaixada brasileira em Londres, um dos homens mais inteligentes, prestigiosos e prestativos que encontrei entre os nossos diplomatas".

No prefácio de seu livro Hipólito da Costa e o Correio Braziliense, de 1957, Rizzini reiterou os elogios ao colaborador de Londres:

Gastão Nothman é legitimamente co-autor deste livro. Durante quatro anos aplicou as horas do seu repouso e os recursos de sua economia individual em árduas e aturadas pesquisas na Inglaterra partindo da simples nota que lhe deixei com algumas datas da presença e da morte do grande publicista brasileiro. Nada então se sabia de sua vida privada. Hoje, sabe-se tudo, porque Gastão Nothman, passo a passo, com dedicação e inteligência, tudo desvendou [Op. cit., p. xvi].

Lendo as cartas que acima transcrevemos, mais a janela da matéria de O Cruzeiro, e agora esta declaração do prefácio, pode ficar a impressão de que Rizzini nada fez de relevante nessa pesquisa referente ao histórico familiar.

Errado. A pesquisa teve êxito porque a parceria funcionou bem. E funcionou bem porque ocorreu uma perfeita soma de elementos: à extraordinária dedicação de Gastão, associou-se o cabedal de conhecimentos históricos de Rizzini.

Nas cartas, Gastão se reporta várias vezes às solicitações de Rizzini, deixando perceber que este último, em suas missivas, orientava, questionava, sugeria, cobrava, lembrava, conduzia, discordava, estimulava, aplaudia.

Infelizmente, pelos motivos já explicados, restaram poucas cópias das cartas enviadas por Rizzini. Uma das poucas existentes, porém, talvez seja suficiente para exemplificar como se desenvolveu o trabalho em dupla, realmente em dupla:

Gastão,

Acabo de receber a sua carta de 14 em resposta à minha sem data.

Você deve ter recebido uma outra carta com novas questões. Para bom entendimento vou recapitular aqui os pontos obscuros.

NATURALIZAÇÃO – Estou espantado com a informação do Home Office. Conheço dois ofícios de d. Domingos Coutinho, embaixador português em Londres, entre 1808 e 1817, um ofício de d. Rodrigo Coutinho, ministro de Estrangeiros de d. João VI no Rio, todos dando Hipólito como naturalizado cidadão inglês, "graças à bondade do duque de Sussex". Foi por esse motivo que fracassaram as tentativas de d. Domingos para expulsar Hipólito da Inglaterra em 1810, conforme ele confessa "ofício de 7/3/1810". Também o periódico Padre Amaro publicado em Londres de 1820 a 1822 declara ser Hipólito pouco brasileiro, pois estava naturalizado inglês. Como conciliar esses testemunhos pessoais e contemporâneos com a informação do Home Office? Sugiro procurar a nacionalidade de Hipólito declarada no registro de casamento e no registro de óbito.

FOREIGN SECRETARY – Tenho dúvidas sobre se Hipólito foi secretário de Sussex ou se foi secretário do Grão Mestrado quando Sussex era o grão-mestre. Isso pode ser verificado no Freemason’s Hall.

WILLIAM PRESTON – A dúvida que precisamos esclarecer é sobre a data do tratado assinado por Hipólito e Heseltine. Preston na edição de 1804, 11a edição, conta a diligência de Hipólito em 1802 para obter a autorização da Grande Loja da Inglaterra para a filiação das lojas portuguesas, o que não foi completamente conseguido. Portanto o tratado teria sido assinado posteriormente, talvez quando Hipólito já estaria morando em Londres. Quando? Essa data é muito importante.

FILHO NATURAL – É positivo que José Felix da Costa nasceu em Londres. Possivelmente na paróquia a que pertence Paternoster Row. Teria nascido, pelos meus cálculos, entre 1806 e 1811. Como já disse presumo que a amante ou esposa de Hipólito tivesse as iniciais A. L. Este L seria Lewis, nome do impressor do Correio Braziliense. Um dos inimigos de Hipólito aludiu ao seu "sogro impressor de Pasternoster Row". Se Hipólito casou com A. Lewis na igreja católica, ele poderia apresentar-se no casamento com Mary Ann, como ‘bachelor’?

CARTA SOBRE A FRAMAÇONERIA – Deve existir no museu o livrinho ‘Cartas sobre a Framaçoneria’, editado em Londres (dizendo Madri) 1805. Quer ver se a data é mesmo 1805? Haverá outra edição? O livrinho é anônimo. Mas é do Hipólito.

I – As cartas ao barão de Eben devem ser curiosas. Esse barão servia como general no exército inglês. Como tal foi para Portugal. Lá meteu-se na conspiração de 1817. Foi expulso de Portugal e da... Inglaterra! O duque de Sussex defendeu-o na Câmara dos Lords.

II – No New Inn, Wych Street, só viviam solteiros? Apurou algo sobre sua localização?

III – Atendendo a um pedido de Sussex e a um requerimento da viúva Mary Ann, o imperador mandou, por decreto de 29 de outubro de 1824, dar-lhe £100 por ano. Isso foi comunicado pelo ministro de Estrangeiros ao encarregado de negócios em Londres em ofício de 30/10/1824. Constará a respeito algo aí na embaixada? [Esta carta de Carlos Rizzini é de 19 de março de 1956. O José Félix da Costa, nela referido, é o filho natural de Hipólito, nascido antes de seu casamento com Mary Ann.]

Pela riqueza de pormenores contidos nas observações de Rizzini, torna-se evidente que sua participação na parceria revelava-se indispensável. Eram as cartas de Rizzini que norteavam boa parte das buscas na Inglaterra.

Ademais, o livro, cuja co-autoria Rizzini generosamente confere a Gastão, não se resume ao levantamento da vida privada de Hipólito. Como veremos adiante, esse levantamento, embora muito valioso pelo ineditismo, responde por apenas uma parcela, e relativamente pequena, do conjunto da obra, a saber: a primeira parte e a iconografia. Coube a Rizzini, sozinho, as quatro demais partes: uma, a respeito do cenário histórico da época, e três outras, resultantes da análise pormenorizada do conteúdo do Correio Braziliense em seus catorze anos de circulação.

Mas, ainda assim, foi justa a homenagem. Os esforços despendidos por Gastão foram enormes. Realizou sua pesquisa, ao longo de cinco anos, aproveitando quase sempre a hora do almoço nos dias úteis da semana, porque, segundo lembrou ele, na embaixada trabalhava também aos sábados e, nesse dia, as repartições públicas britânicas fechavam ao meio-dia. Fez várias viagens à cata de informações. Até dinheiro gastou, do próprio bolso. Na parceria, portanto, cada qual cumpriu integral e fielmente o seu papel. E mais.

Com o passar dos anos e das cartas, nasceu uma forte cumplicidade "histórica". Pudera! Foram 66 as cartas de Gastão [incluem-se nesta soma todas as cartas desde a de 4 de março de 1952 até a última, de 28 de dezembro de 1957; pode ter havido mais alguma, porventura perdida ou não encontrada, mas é pouco provável, pois a viúva de Rizzini sempre foi muito organizada e cuidadosa, em especial com o material do arquivo do marido], e imaginamos que em quantidade equivalente tenham sido as de Rizzini. Por meio delas, manteve-se uma amizade epistolar incomum na qual raras foram as frases que envolveram outros assuntos, e quase inexistentes as que chegaram à vida privada de qualquer dos correspondentes. Hipólito – a grande paixão – ocupava os dois homens por inteiro.

 

O terceiro apaixonado

Durante o período em que aqueles dois parceiros entretinham-se com Hipólito, um outro pesquisador – um professor de história nascido no Pará e residente no Rio de Janeiro – também vasculhava, com igual entusiasmo, a vida do precursor do jornalismo brasileiro. Seu nome: Mecenas Dourado.

Com grande afinco, este terceiro apaixonado desenvolveu intensas pesquisas sobre Hipólito na seção de manuscritos da Biblioteca Nacional e em uma quinzena de outros arquivos, principalmente no Arquivo Histórico do Itamaraty. Em vários recintos, suas cartas devem ter cruzado com a correspondência ou com as pegadas de Rizzini e Gastão: em Lisboa, na Torre do Tombo; em Évora, no Arquivo Público; na Maçonaria inglesa e em outros lugares. [As cartas devem ter se cruzado, dissemos, porque Mecenas somente veio a ter a oportunidade de visitar a Europa em 1963, cinco anos após a publicação de seu livro, segundo informação que foi prestada ao autor por Hugo Dourado, filho de Mecenas Dourado.]

Mecenas leu e estudou toda a coleção do Correio Braziliense, com o objetivo de fazer "a análise das idéias do jornalista", segundo explicou na introdução de seu livro Hipólito da Costa e o Correio Brasiliense, as quais acabou por conhecer pormenorizadamente.

Em suas pesquisas, Mecenas mobilizou outros historiadores, como o professor Robert C. Smith, da Universidade de Pensilvânia, que havia publicado nos Estados Unidos uma tradução inglesa de parte do Diário de minha viagem para Filadélfia, [veja-se em Mecenas Dourado, op. cit., p. 49, nota 46: "Deste ‘Diário’ o prof. Robert C. Smith, da Universidade de Pensilvânia, publicou uma tradução inglesa da parte referente à estada de Hipólito em Filadélfia no The Pennsylvania Magazine of History and Biography, volume 78 (jan. 1954), do qual tirou uma separata com o título "A Portuguese Naturalist in Philadelphia, 1799"; Mr. Francis M. Rogers, professor de línguas e literaturas românicas na Universidade de Harward, anuncia a próxima publicação de uma integral tradução inglesa, acompanhada de notas, do Diário de Hipólito, pelo prof. Ramon Martinez Lopes, na Universidade de Texas. Ver Francis M. Rogers, "A Brief Survey of Current Research Projects concerning Hipólito da Costa", setembro de 1954, distribuída a escritores que se interessam pelos estudos sobre Hipólito da Costa"] e, dentre os nacionais, contatou Plínio Salgado, Francisco de Assis Barbosa e Hélio Viana.

A partir de algum momento, tanto Rizzini, quanto Mecenas, passaram a saber que estavam lavrando, ambos, no mesmo terreno.

Em carta de 25 de novembro de 1952, endereçada a Rizzini, Gastão Nothman lança uma nota manuscrita pela qual se depreende que alguém, "do Brasil", estava pesquisando Hipólito, mas ele não informa quem seria a pessoa. Considerando que, afora Rizzini e Mecenas, ninguém mais realizou qualquer trabalho de vulto sobre o tema nos anos seguintes, é tentador imaginar que essa pessoa seria, já, Mecenas Dourado.

Três anos depois, em carta de 25 de abril de 1955, na qual anunciou ter "resolvido o segredo de 132 anos a respeito do Hippolyto", Gastão datilografou o seguinte comentário no final do texto: "Ao meu ver deve você agir com presteza na publicação de sua obra, pois, depois de tanto pesquisar, muita gente anda alertada". Quem seria a "muita gente"? Mecenas, é de se supor, de novo.

Em um pós-escrito, que coloca em missiva do dia imediato (26 de abril), Gastão conta ter estado, há tempos, no Conselho Luso-Brasileiro de Londres, onde lhe mostraram "cópia de carta distribuída pelo Francis H. Rogers da Universidade de Harvard, que li com grande interesse, notando entre outros o seu nome". Ora, essa carta, em verdade, era uma circular enviada, em 1954, pelo professor norte-americano para todos aqueles que andavam estudando Hipólito. Nela, Gastão, como comenta acima, notou o nome de Rizzini. A circular é expressamente mencionada por Mecenas em seu livro (veja-se nossa nota 26). Logo, ao menos em 1954, Mecenas já sabia, com certeza, que Rizzini estava desenvolvendo pesquisas sobre o mesmo tema em que ocupava as suas.

Existe uma correspondência de Helio Viana, fornecendo informações para Rizzini, na qual o grande historiador da imprensa, com muita lealdade, informa estar enviando os mesmos dados para Mecenas.

Em 5 de setembro de 1955, três semanas antes de chegar às bancas o número de O Cruzeiro com a matéria que desvendaria para o público, pela primeira vez, grande parte da vida privada de Hipólito, Gastão informa que seu chefe, na embaixada, mostrou-lhe um ofício do Itamaraty, "pedindo os certificados de óbito do Hip., o do seu casamento, os do nascimento dos seus filhos, e Deus sabe mais o que...". Pelo que se pode concluir, o êxito das pesquisas vazara, e chegara a Mecenas, que logo se mexeu. Chegou tarde, porém, o pedido. Gastão disse ao embaixador, segundo relata em carta de 10 do mesmo mês, que aconselhasse Mecenas a "dirigir-se diretamente ao Rizzini", pois os documentos já haviam atravessado o Atlântico e chegado às mãos do parceiro. [Mecenas Dourado voltaria à carga no ano seguinte. É o que relata Gastão em carta de 1o. de junho de 1956: "O Itamaraty enviou um ofício pedindo minha colaboração quanto ao Hipp. Vejo nisso claramente do Mecenas [sic]. Pedi ao meu chefe que respondesse que não possuo mais nenhuma documentação que foi tudo enviado para você no Brasil...". Quanto ao fato de Gastão não ter guardado cópias, convém lembrar, que, à época, não existia xerox. Mais tarde, Mecenas Dourado, em nota lançada ao pé da p. 254 de seu livro, registraria uma dissimulada queixa: "As cartas que escrevemos ao coronel Arthur Sidney Bates, casado com uma bisneta de Hipólito, não tiveram resposta. O sr. Gastão Nothman, auxiliar do consulado brasileiro em Londres, que fez investigações sobre Hipólito para o sr. Carlos Rizzini, não nos pôde dar nenhum esclarecimento".]

A acesa atenção e a notória preocupação de Mecenas para com todos os pormenores demonstra o quanto ele estava concentrado no assunto e obcecado por não deixar escapar qualquer detalhe a respeito de Hipólito. Aqueles documentos não lhe seriam vitais, tanto que o seu livro não sofreu prejuízo essencial com a falta deles, e pôde se reportar a todos os dados neles contidos, transcrevendo-os de O Cruzeiro e dando o crédito devido à dupla pesquisadora. [Mecenas Dourado se reporta às pesquisas de Rizzini, publicadas em O Cruzeiro, nas páginas 10, 118 (nota 149), 255 (nota 332), 256 (nota 333), e 257-58 (nota 337) de seu livro, acima citado.]

O trabalho de Mecenas Dourado, quando ainda inédito, conquistou o Prêmio Pandiá Calógeras de 1956, concedido pela Biblioteca do Exército. E foi publicado no ano de 1957.

Trata-se de livro de grande importância, sem dúvida, para a história do fundador de nossa imprensa. Com dois volumes que somam 642 páginas, editados pela Biblioteca do Exército, a obra confirmou, pelo porte, ter exigido o árduo trabalho de pesquisa que mencionamos no início deste tópico. [O primeiro volume do livro de Mecenas Dourado desenvolve os seguintes capítulos: "I – A família; II – O universitário; III – Missão aos Estados Unidos; IV – Amizades científicas; V – A primeira reportagem; VI – A prisão; VII – O duque de Sussex; VIII – Exílio na Inglaterra; IX – Atividade maçônica e literária; X – O Correio Brasiliense; XI – Os emigrados portugueses em Londres; XII – A condessa de Oyenhausen; XIII – Um amigo; XIV – Um inimigo; XV – Um discípulo; XVI – Denizen; XVII – A história doméstica; XVIII – A reação contra o Correio Brasiliense; XIX – Panfletos e panfletários". O segundo volume ocupa-se dos seguintes capítulos: "XX – Os jornais portugueses em Londres: O Investigador Português; XXI – Os jornais portugueses em Londres: O Espelho, O Português e O Campeão Português; XXII – O suborno do Correio Brasiliense; XXIII – O Chalaça, leitor e agente do Correio Brasiliense; XXIV – O processo; XXV – Paralelo da Constituição portuguesa com a inglesa; XXVI – A revolução de 1817; XXVII – A emancipação das colônias espanholas; XXVIII – Planos e projetos renovadores; XXIX – A Independência; XXX – Retoques de um perfil; XXXI – O reconhecimento da Independência; Apêndice"].

 

O ano de Hipólito

O ano de 1957 foi extraordinariamente benéfico para a memória de Hipólito. Antes, quase nada se sabia a seu respeito. A partir de então, quase tudo passou a ser conhecido. Nesse ano, além do livro de Mecenas Dourado, veio à luz também o de Carlos Rizzini.

Em comentário de 31 de janeiro de 1957, na sua coluna "Vida Literária" do jornal Última Hora, de São Paulo, o cronista e crítico Fernando Góes informa que "o próximo volume da Brasiliana Gigante, da Cia. Editora Nacional, é o estudo de Carlos Rizzini sobre Hipólito José da Costa, no qual trabalhou dez anos". Góes aborda, ao longo de seu texto, todos os tópicos, quase item por item, do "índice sumário" do livro, e, ao fim, acrescenta que a obra "já está em impressão, devendo a Cia. Editora Nacional lançá-lo ainda este semestre".

Algum problema causou atraso, já que Rizzini somente veio a fazer sua noite de autógrafos em 13 de setembro de 1957. O livro estava pronto, entretanto, em fins de agosto, pois há um exemplar com dedicatória manuscrita por Rizzini para sua mulher, Áurea, datada de 29 de agosto.

A obra de Rizzini, com 310 páginas, e mais 22 de ilustrações, distribui-se em cinco partes, por ele denominadas "livros". [Esses livros da obra de Rizzini desdobram-se nos capítulos abaixo arrolados. Livro I (Vicissitudes de um semeador de idéias no ocaso do absolutismo), capítulos: I – Os caminhos da liberdade; II – Os 18 anos de Inglaterra; III – A ‘terrível invenção de um jornal português em Inglaterra’. Livro II (Ensaio sobre o estado mental, social e político do Brasil no limiar do século XIX), capítulos: I – Entrada e circulação dos conhecimentos e das idéias: escolas, livros e periódicos; II – Assimilação: a literatura colonial publicada em tempo e fora de tempo, e a inédita ou perecida, academias literárias, correios; III – Formação de uma consciência própria: academias secretas, clubes maçônicos, pasquins, pruridos autonomistas. Livro III (A ação esclarecida e tenaz do Correio Braziliense contra a opressão, a ignorância, a corrupção e o servilismo nos Estados portugueses), capítulos: I – Um periódico livre entre Portugal subjugado e a América espanhola rebelada; II – Combate às instituições anacrônicas, ao despotismo dos governantes e à censura ao pensamento escrito; III – Esforços ininterruptos para disciplinar o comércio e o crédito, incrementar a navegação, varrer os monopólios e moralizar as finanças públicas; IV – Um abolicionista, entusiasta da imigração branca, a braços com as arbitrariedades da Inglaterra e a ameaça de súbita extinção da escravatura. Livro IV (Partidário da unidade da pátria portuguesa, opõe-se obstinadamente o Correio à separação do Brasil), capítulos: I – Pela volta dos Estados portugueses às franquias e às corporações eletivas da sua primitiva organização política; II – Pregando caber as revoluções aos governos, reprova o Correio o levante republicano e aprova o constitucional do Porto; III – Preservando a integridade da Monarquia, apóia Hipólito a descentralização do governo do Brasill, o enfraquecimento das províncias e a revocação do príncipe-regente. Livro V (Revoltado com a dilaceração e a degradação do Brasil, adere o Correio, em julho de 1822, ao movimento da Independência), capítulos: I – Acima da união dos Reinos, a integridade territorial e política do Brasil; II – Constituição simples, reformas lentas, ministros responsáveis, política americana, finanças saneadas, uma poderosa força naval, as últimas advertências do Braziliense.].

No primeiro, Rizzini se ocupa da biografia de Hipólito; no segundo, das características sociais e políticas da época; e nos três outros ("Livros III, IV e V"), das idéias de Hipólito, em especial as veiculadas por meio do Correio Braziliense, e do relacionamento delas com os fatos ocorridos naqueles tempos.

A obra de Rizzini revelou-se de enorme importância e, como legítimo fruto de muitos anos de pesquisa e reflexão, impressiona fortemente o leitor. É um trabalho que, embora publicado à mesma época da obra de Mecenas, revela-se igualmente indispensável para o pesquisador de Hipólito.

Não só pelo fato de terem sido editadas no mesmo ano, mas também porque cravaram, juntas, um marco fundamental no seu campo de estudos, dedicaremos o próximo tópico para verificar que comparações tornaram-se possíveis entre elas.

Antes, porém, precisamos fazer uma observação. Não passará pela cabeça de alguém de bom senso comparar dois livros somente em função do seu número de páginas. No entanto, para acautelar aqueles que terão oportunidade de ler este texto, mas não o de compulsar aqueles livros, devemos informar que os dois livros têm, substancialmente, a mesma extensão. O livro de Mecenas conta com 642 páginas, mas em formato 12 x 18 cm. e letras de corpo graúdo, enquanto o de Rizzini, soma 310 páginas (sem contar as ilustrações encartadas) de 16 x 24 cm. em letras bem menores. Em outras palavras, se ambos os livros tivessem sido compostos e diagramados com igual corpo de letra, mesmo formato de papel e equivalentes medidas de mancha, ou seja, se tivessem ambos igual feição gráfica, resultariam em dois livros com o mesmo, ou quase o mesmo, número de páginas.

 

A comparação dos livros

Deixando de lado os vários artigos que se limitaram à resenha, e não alcançaram o patamar superior da verdadeira crítica, lançaremos mão de dois textos de autores de inegáveis méritos que, contemporaneamente à edição dos livros, publicaram críticas comparativas sobre eles. Um dos textos é de Wilson Martins, intitula-se "Hipólito José da Costa" e foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 1o. de fevereiro de 1958. O outro, de Barbosa Lima Sobrinho, "Os biógrafos de Hipólito da Costa", saiu no Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, em 1o. de dezembro de 1957.

Os dois críticos enaltecem o valor de ambas as obras no que tange às pesquisas realizadas. "Ambas são excelentes, sérias, documentadas", proclama Barbosa Lima Sobrinho. "Com méritos perfeitamente iguais no que se refere à pesquisa biográfica", confirma Wilson Martins.

Concordam, os dois, que ambos os biógrafos abordaram igualmente os aspectos pertinentes ao assunto. "Os temas a que dão maior destaque são quase os mesmos", assinala Barbosa Lima Sobrinho. "Coincidem, nas linhas gerais, as informações veiculadas pelos dois", reitera o outro.

Decidiram os críticos colocar em especial relevo duas questões levantadas nos livros e as destacaram, por coincidência ou por gerarem dúvidas, justamente as mesmas, a saber: a da aquisição de suposta nacionalidade britânica por Hipólito e a do pagamento de suborno a ele por d. João VI. Quanto à segunda, ambos concordam que Rizzini poupou Hipólito, enquanto Mecenas mostrou-se mais realista. Escreve Wilson Martins: "Quanto à delicada questão do suborno a que ele fora levado ou de que tivera a iniciativa, é visível o propósito do sr. Carlos Rizzini de atenuar-lhe a significação (já que o fato em si mesmo, segundo parece, não pode ser contestado), enquanto o sr. Mecenas Dourado estabelece, sem sombra de dúvida, a responsabilidade de Hipólito, com o esclarecimento de todos os meandros desse sinuoso episódio". E, na mesma direção, o outro crítico diz: "Pareceu-me o sr. Rizzini mais tolerante, no explicar a questão do suborno do jornalista do Correio Braziliense, embora não deixe também de ser compreensivo o sr. Mecenas Dourado".

Já com relação à naturalização de Hipólito, dividiram-se as opiniões, tanto dos biógrafos, quanto dos críticos. Mecenas acredita que Hipólito "prestou juramento de fidelidade ao rei da Inglaterra", adquirindo certos direitos de cidadania por ato de denization, com o que concorda Wilson Martins, [Cf. Wilson Martins, "Hipólito José da Costa", O Estado de S. Paulo, 1/2/1958: "Além disso, é exato que, por um processo jurídico diferente da naturalização, Hipólito José da Costa adquiriu a cidadania britânica, se é verdade que cidadania quer dizer, antes e acima de tudo, gozo dos direitos que a cidadania confere. Isso posto, não estavam absolutamente enganados, como parece crer o sr. Mecenas Dourado, os que viam em Hipólito José da Costa um cidadão britânico. Não se deduz desse postulado que o biógrafo devesse desprezar o esclarecimento da questão, e o sr. Mecenas Dourado o faz com argumentação e documentos mais convincentes que os do sr. Carlos Rizzini. Este último afirma que ‘o jornalista não se naturalizara inglês, nem por letters of denization nem act of naturalization; mas obtivera os mesmos direitos por um meio possivelmente mais rápido e discreto: comprara ações do banco da Escócia (p. 39). Ora, o sr. Mecenas Dourado demonstra que foi, precisamente, a denization que Hipólito José da Costa escolhera como maneira de se tornar cidadão britânico sem perder a cidadania portuguesa e sem renegar a sua pátria; a aquisição das ações escocesas é, indubitavelmente, posterior àquele juramento. Nesse particular, o sr. Carlos Rizzini, citando, como o sr. Mecenas Dourado, um trecho famoso do Correio Braziliense, parece não ter observado que o próprio Hipólito indicava essa cronologia. Deduz-se dessa importante passagem que a compra das ações pôs a circular o boato da naturalização; Hipólito acentua, entretanto, que os privilégios da cidadania britânica ‘já os tinha o redator a muito tempo’ e que ‘a aquisição dos fundos de Escócia só lhe podia dar de mais o direito de possuir bens de raiz e de assento no Parlamento’. Não pode ser mais claro: tornando-se acionista do Banco da Escócia, Hipólito José da Costa viu aumentadas as suas prerrogativas cívicas na Inglaterra, mas elas já existiam antes disso, em consequência do processo de denization a que o sr. Mecenas Dourado longamente se refere. Nenhum dos dois biógrafos, porém, esclareceu pormenor de alguma importância que se prende a essa questão, o de saber se não decorria justamente da sua condição de denizen a possibilidade de adquirir os fundos escoceses. Seja como for, acentua o sr. Carlos Rizzini, Hipólito José da Costa ‘viveu e morreu cidadão português’, sem que isso o tivesse impedido de viver e morrer cidadão britânico: essa duplicidade, muito coerente com o que se sabe do seu caráter, adquire todo o seu significado profundo à luz de circunstâncias biográficas".], enquanto Rizzini defende que o redator do Correio nunca se naturalizou, nem praticou o tal ato de denization, conclusão endossada por Barbosa Lima Sobrinho. [Cf. Barbosa Lima Sobrinho, "Os biógrafos de Hipólito da Costa", Jornal do Brasil, 1/12/1957: "No caso da naturalização o sr. Rizzini entende que as regalias, de que Hipólito da Costa gozava na Inglaterra, provinham exclusivamente de sua posição de acionista do Banco da Escócia. O sr. Mecenas Dourado admite uma situação de denizen, que não é bem uma naturalização, mas uma espécie de compromisso de subordinação ao rei, ou uma situação intermediária entre o estrangeiro e o naturalizado. Tirara essa conclusão de uma informação do barão d’Eben, segundo o qual Hipólito ‘prestara juramento de fidelidade à Inglaterra’. Os textos do Correio Brasiliense, nos volumes 21 e 26 – sobretudo neste último, parecem mais ajustados à tese do sr. Rizzini. Foi esse, aliás, outro ponto esclarecido pelas investigações do sr. Gastão Nothman, que obteve informação do diretor do Home Office da Inglaterra".]

(Sobre essa questão, concordamos com Barbosa Lima Sobrinho. Rizzini transcreveu o texto de uma declaração do diretor do Home Office britânico, na qual este nega a pretensa denization de Hipólito. É um documento, e não foi desmentido por qualquer outro.)

Quando fazem a avaliação global das duas obras, divergem bastante os críticos.

Barbosa Lima Sobrinho ressalta que "o sr. Mecenas Dourado esclareceu muita coisa das origens da família de Hipólito da Costa na Colônia do Sacramento e no Rio Grande do Sul", mas, no cômputo final, emparelha os dois livros: "Não há, pois, que concluir, entre as duas obras, qual a que mais interessa". E completa:

Uma não dispensa a leitura da outra, pois que ou não se detiveram sempre nos mesmos aspectos ou os encararam de maneira diferente. Se o livro do sr. Mecenas Dourado tem sentido mais acentuadamente biográfico, nem por isso deixam de ter o mesmo interesse as observações, de ordem mais geral, do livro do sr. Rizzini. O que cumpre reconhecer, e proclamar, em homenagem aos dois autores, é o merecimento de seus estudos e a profundeza das pesquisas realizadas, sob altos critérios de rigor e de exatidão.

As referidas "observações de ordem mais geral, do livro do sr. Rizzini", isto é, o material do chamado "Livro II", acima louvadas por Barbosa Lima Sobrinho, foram objeto de dura crítica de Wilson Martins:

É, [...] tanto mais surpreendente, e lamentável, que o sr. Carlos Rizzini, cedendo, com certeza, à atração da facilidade, tenha quebrado a unidade essencial do seu livro introduzindo-lhe um "ensaio sobre o estado mental, social e político do Brasil no limiar do século XIX" que, durante sessenta páginas, constitui um verdadeiro corpo estranho na exposição. Não que o assunto, em si mesmo, fosse incompatível com um estudo biográfico sobre Hipólito da Costa. Ao contrário, até, é inegável que o conhecimento da "situação" brasileira no momento em que o jornalista exerceu as suas atividades permite medir com objetividade muito maior todo o significado e o alcance do Correio Braziliense. Mas, era matéria a ser integrada no corpo, mesmo, do ensaio, e não a ser transcrita, em termos quase literais, da obra anteriormente publicada pelo sr. Carlos Rizzini.

Por outro lado, no fundamental, Wilson Martins favoreceu Rizzini e foi duríssimo com Mecenas. Vejamos com suas próprias palavras:

Contudo, é sensível a diferença de qualidade entre esses dois volumes: o livro do sr. Mecenas Dourado, fundado embora em pesquisas exaustivas, muitas delas originais, ressente-se de uma certa estreiteza de visão e de uma falta evidente de unidade. Dir-se-ia que, soterrado sob as fichas e a documentação, não conseguiu ordenar o conjunto pelas suas linhas mestras: a existência de Hipólito que foi, como a de todos nós, uma coexistência, uma simultaneidade, aqui aparece como uma sucessão de quadros fragmentários e sucessivos. É assim que o sr. Mecenas Dourado trata separadamente da "missão aos Estados Unidos" e das "amizades científicas" nesse país, da mesma forma por que estuda, em capítulos diversos, os amigos e os inimigos de Hipólito, a colônia portuguesa de Londres, a reação contra o Correio Braziliense etc. Ainda que o autor possa invocar, em favor desse método (ou dessa falta de método), uma preocupação de clareza, é inegável que ele amputa o biografado de sua "terceira dimensão", se assim me posso exprimir, da sua dimensão em profundidade e em complexidade que é, precisamente, a dimensão característica e definitiva. Além disso, o sr. Mecenas Dourado não "depurou" suficientemente a sua redação: são freqüentes as obscuridades, os desleixos de escrita, as repetições, as alusões inoportunas e banais a fatos da atualidade.

Em contrapartida, quanto a esses aspectos, Rizzini foi brindado por Wilson Martins com elogios quase retumbantes:

Com méritos perfeitamente iguais no que se refere à pesquisa biográfica (e, até, algo mais acentuados, se pensarmos que o sr. Mecenas Dourado pôde beneficiar-se de algumas de suas descobertas, publicadas anteriormente em periódicos), o sr. Carlos Rizzini apresenta-se com a dupla superioridade de um estilo mais vigoroso e polido, e de uma visão profundamente histórica do seu assunto. Com efeito, além da elucidação propriamente biográfica acima mencionada, desejou o sr. Carlos Rizzini esclarecer " analisando os escritos de Hipólito da Costa à luz das controvérsias que suscitaram, e dos fatos envolventes, a influência por ele exercida na formação da nossa consciência pública, salientando as razões que, levando-o a longo e pertinaz combate aos erros e males sociais, administrativos e políticos do Brasil e de Portugal, também levaram a opor-se à separação dos dois Reinos" [...] o sr. Carlos Rizzini deve ser louvado, antes de mais nada, por ter sabido compreendê-lo e por tê-lo visto dentro de uma perspectiva orgânica sem a qual não há biografia, e, sobretudo, biografia de um intelectual, digna desse nome.

Hoje, passado quase meio século desde o lançamento dos dois livros, o que se pode dizer a respeito?

Com os dois livros, o de Rizzini e o de Mecenas, temos uma visão quase completa, suficiente (se é que, em história, alguma vez algo possa ser suficiente) de Hipólito.

Claro que há diferenças entre as duas obras: de estrutura e de estilo. Rizzini dá realmente uma visão de conjunto, que Mecenas não consegue transmitir, e, ao mesmo tempo, alcança esmiuçar os pormenores. Age como o artista competente que, diante de uma paisagem, pinta-a com riqueza de cores e grandes pinceladas de efeito, mas, concomitantemente, desdobra-a, planta por planta, alcançando o detalhe de um herbário. Mecenas limita-se ao herbário e descreve as plantas em linguagem corrente, sem maior encanto, embora com clareza didática. Pode ser que, com as limitações vocabulares dos leitores atuais e as mudanças naturais no uso do léxico, decorrentes da passagem de mais de quarenta anos, a modéstia estilística de Mecenas lhe seja até benéfica. Seu texto, hoje, deve ser o mais acessível para a maior parte dos leitores que, ademais, na pressa atual, satisfazem-se com o trivial. Em contrapartida, Rizzini saboreia, e faz saborear a história, em alto estilo. Sintetizando: enquanto Mecenas nos oferece um jantar suculento, Rizzini nos serve um banquete.

Ambas as biografias, porém, são importantes, cada uma a seu modo, e igualmente necessárias. Depois de várias décadas, os comentários de Wilson Martins e Barbosa Lima Sobrinho sobre as duas obras continuam pertinentes, em especial na frase deste último: "Uma não dispensa a leitura da outra".

Há, entretanto, um crédito extra, em favor de Rizzini, que os dois grandes críticos não ressaltaram: a recuperação da iconografia do biografado, a qual, de tão importante, merecerá um relato à parte.

 

A iconografia de Hipólito

Em verdade, devemos a Gastão Nothman a descoberta e a Carlos Rizzini a divulgação de quase toda a iconografia de Hipólito hoje disponível.

Até à época das pesquisas dos dois parceiros, quase nada havia em matéria de imagem nesse setor. Dispunha-se daquele retrato que Hipólito fizera imprimir na Narrativa da perseguição, com matriz gravada em metal por H. R. Cook, o qual acabou por tornar-se seu retrato, por assim dizer, "oficial", já que era o único conhecido e tinha sido por ele escolhido.

Publicada em Londres em 1811, a Narrativa veio a ser, porém, obra raríssima e, por conseqüência, a imagem, que nela se contém, igualou o livro em raridade.

Tanto era difícil encontrar a efígie de Hipólito, que Rizzini não a apresentou em O livro, o jornal e a tipografia no Brasil, de 1946, embora nessa obra tenha dedicado, como vimos, um capítulo ao "fundador da imprensa brasileira".

As coisas estavam nesse pé, quando, em 26 de abril de 1955, Gastão Nothman iniciou uma carta com um vaticínio equivocado, equivocadíssimo: "Meu caro Rizzini. Estou dando como quase terminada minha missão".

Mal ele sabia que, em pouco tempo, desencadearia toda uma série de descobertas, enveredando, inclusive, por um rumo até então insuspeitado. De fato. Três meses depois, em 27 de junho, informa:

[...] desde anteontem a situação, quanto às próprias pesquisas, mudou radicalmente. Estou em contato com todos os descendentes do Hippolyto que por sua vez (ao que declaram) estão cheios de documentos, miniaturas, fotografias e não sei mais o quê. Vou me encontrar em oito dias com o chefe da família que prontificou-se a mostrar-me tudo. Então, sim, as pesquisas tomarão um vulto tremendo.

Na missiva seguinte, de 18 de julho, menciona pela primeira vez a existência da tela pintada a óleo que servira de modelo à gravura da Narrativa e anuncia a existência de um outro retrato de Hipólito: "Dentro de poucos dias, remeter-lhe-ei tudo o que há e que pode haver nesta terra sobre o nosso herói. Seguirão as fotografias do retrato original dele, que um dos descendentes hoje possui. [...] Alias, tem um outro quadro a óleo representando o H. como muito moço, com uns 19 anos, mais ou menos. É encantador".

Como veremos adiante, a mesma família, a do coronel Arthur Sidney Bates, possuía também o último retrato feito em vida de Hipólito, em 1823.

Com a carta de 3 de agosto de 1955, chegam fotografias, em grande número. Estas, juntamente com aquelas que acompanhariam uma nova carta do dia 19 seguinte, haveriam de ilustrar, no mês imediato, a matéria publicada por Rizzini em O Cruzeiro.

Tendo em vista a importância desse momento para o resgate da iconografia de Hipólito, transcreveremos aqui boa parte da missiva enviada por Gastão em 3 de agosto de 1955:

Meu caro Rizzini,

Muito grato pela sua última carta. Hoje você receberá a quase totalidade da documentação que falta.

Arthur Sidney Bates – É este o historiador da família, casado com Mary da Costa Crosse. Moram os dois velhinhos numa linda casa de campo no condado de Hampshire, chamado "MANYDOWN PARK". Foi ele quem me forneceu a lista do "pedigree" da família, e as fotos que junto lhe remeto. Faltam as fotos dos parentes da Mary da Costa Bates que seguirão em alguns dias, como também o "pedigree" mais completo ainda, e pelo qual se vê que existem numerosos descendentes diretos e vivos do Hippolyto.

[...]

RETRATOS – Dentro de alguns dias, depois do Bates me fornecer os últimos detalhes do "pedigree" e mais uma foto, tentarei entrar em conversas com o coronel a respeito da venda dos retratos do Hippolyto, ou ao menos de um deles. Aquela marcada Nº 1 (O H. quando moço) encontra-se de fato em condições muito superiores ao que parece na foto. Foi mal tirada pelo fotógrafo. A da filha do H. (Anne Shirley da Costa) foi tirada creio em 18?0 [O terceiro algarismo da data está ilegível no original], mas estou acertando, para saber a data exata. Caso se pretender fazer um artigo ilustrado, gostaria imensamente que se incluísse uma das fotos do coronel Bates, ou a das bodas de ouro cortando o bolo, ou a dele e da esposa com seus filhos e netos.

Por enquanto é só.

Um abraço saudoso,

Gastão Nothman

[Como já mencionamos, Rizzini atendeu o pedido constante do final da carta. Publicou em O Cruzeiro, além das demais, também as duas fotos do coronel, a das bodas e com a família.]

Na seqüência, alargando as buscas para outros setores, Gastão consegue desencravar um desenho reconstitutivo do edifício Lower Philimore Place, em Kensington, em cujo número 7 morou e faleceu Hipólito. Em carta de 29 de dezembro de 1955, com a qual envia essa reconstituição feita pela London Topographical Society, Gastão esclarece: "As casas não existem mais, e a Lower Phillimore Place foi absorvida por Kensington High Street (quando alargaram essa artéria). O nº 7, corresponde hoje a 106 Kensington High Street, Londres, W8, e é ocupado por uma farmácia denominada GARNER". [Mais tarde, em carta de 13 de agosto de 1956, Gastão volta ao assunto: "Consegui atrás de mapas antigos, etc. localizar DEFINITIVAMENTE a residência de 7 Lower Philimore Place. Hoje o local é o nº 108 (que abrange o nº 110) de High Street Kensington, Londres, W8. Ali será colocada (espero em novembro) uma placa em bronze comemorativa erguida pela Anglo-Brazilian Society."]

Na mesma linha de pesquisa, levantou a fotografia do New Inn, de Wych Street, outro local de moradia do jornalista exilado, que ali residiu de 1809 a 1814. A foto resultou, segundo informa em carta de 26 de maio de 1956, de um negativo pertencente à Prefeitura de Londres, que fotografara o local antes de arrasá-lo para a construção "das grandes artérias de Aldwych a Kingsway". Depois da foto, o prédio foi demolido, em 1905.

Em 2 de julho de 1956, Gastão não vira ainda, mas já se avizinhava do retrato mais importante: "Estou à cata do retrato original a óleo, do qual foi tirada a gravura que figura no livro do Hipp. sobre as suas experiências com a Inquisição". Em 19 do mesmo mês, começando a deslindar a questão, [trecho de carta de 19 de julho de 1956 de Gastão para Rizzini: "RETRATOS –Ontem fui visitar o cel. Bates no campo. O genro dele trouxe consigo o original do retrato [Gastão se refere, aqui, ao retrato que serviria de base para a gravura da Narrativa] [...] Está em má condição, e ofereci mandar consertar o quadro a minha custa. Declarei que, caso a família gostaria de desfazer-se do quadro, você era comprador nas medidas do possível. Vamos ver o que diz o comandante Neville Porter (o genro em questão). O mesmo também assegurou que o outro quadro do Hipp. com um exemplar do Correio Braziliense nas mãos está com uma irmã, e que ele tratará de descobri-lo e deixar-me examiná-lo"], Gastão vem a saber da localização de dois retratos a óleo de Hipólito. Um deles, aquele, o que serviu de base à gravura, lhe é inicialmente exibido pelo comandante Neville Porter, trineto de Hipólito. [Não entendemos porque Gastão se refere ao comandante Neville Porter (ver nota anterior) como sendo genro do coronel Bates. De acordo com a árvore genealógica que o próprio Gastão enviou para Rizzini, e ele, Gastão, revisou em 13 de agosto de 1955, Neville Porter, assim como sua irmã Rosemary, se enquadram como trinetos de Hipólito. Eram filhos do bisneto Reginald Adolphus, que por sua vez era filho do neto Reginald. Este era filho de Anne Shirley, filha de Hipólito, casada com Whitworth Porter. Não resta dúvida, pois, que Neville e Rosemary eram trinetos. Nem se diga que Neville tivesse casado com a filha do coronel Bates, o que até seria possível, por acaso. Este só teve uma filha, Anne Mary, que se casou com John Oliver Belassis. E, ademais, a mulher de Neville vem indicada com o nome de Lindsay. Conclui-se que Gastão estava equivocado ao referir-se a Neville Porter como genro de Bates. Em verdade, ele era trineto de Hipólito.] Um outro, no qual Hipólito aparece com um exemplar do Correio Braziliense na mão direita, constava estar com uma irmã do referido Porter. Depois, acaba por constatar que ambos os retratos pertenciam à mesma referida irmã: Rosemary Claire Porter.

Entabulam-se longas conversações. Por fim, a proprietária dos retratos se dispõe a doar um deles, o "da gravura", para Carlos Rizzini, que a essa altura já publicara o seu livro biográfico, e com ele empolgara os descendentes de Hipólito. O outro, "o do Correio na mão direita", ela decide doar para o Itamaraty, isto é, para o governo brasileiro. [Carta de Gastão para Rizzini de 10 de setembro de 1957: "Por isso está a combinação em pé que você receberá de graça (pois ela recusa pagamento) o primeiro de cabelo ‘poudré’ e o outro ela presenteará, através do Chatô ao Ita para pendurar no salão de Imprensa (novo)". O retrato de cabelo poudré, isto é, empoado, é o que temos referido como o retrato "da gravura". "Chatô", obviamente, era o jornalista Assis Chateaubriand que, pouco tempo depois, viria a ser embaixador do Brasil na Inglaterra.]

O retrato doado a Rizzini foi trazido para o Rio de Janeiro pelo diplomata Raul Vicenzi, a pedido de Gastão. Carlos Rizzini, já residindo em São Paulo, foi correndo à então Capital Federal para buscá-lo, recebendo-o em 16 de dezembro de 1957. [Carta de Gastão para Rizzini de 10 de setembro de 1957: "Por isso está a combinação em pé que você receberá de graça (pois ela recusa pagamento) o primeiro de cabelo ‘poudré’ e o outro ela presenteará, através do Chatô ao Ita para pendurar no salão de Imprensa (novo)". O retrato de cabelo poudré, isto é, empoado, é o que temos referido como o retrato "da gravura". "Chatô", obviamente, era o jornalista Assis Chateaubriand que, pouco tempo depois, viria a ser embaixador do Brasil na Inglaterra.]

O outro, o do Correio, viajou de especialíssima classe. Veio para o Brasil trazido por Rosemary Claire Porter, em vôo no qual teve a companhia de Assis Chateaubriand, já então no exercício da chefia da representação diplomática brasileira na Inglaterra. Em 9 de janeiro de 1958, a inglesa formalizou a doação do quadro em cerimônia realizada no gabinete do ministro das Relações Exteriores, embaixador José Carlos de Macedo Soares, que destinou a obra recebida ao Museu Histórico do Itamaraty. (Foi adequada a escolha do local. Não podemos esquecer que Hipólito fora nomeado, às vésperas de sua precoce morte, cônsul geral do Brasil na Inglaterra. Pela nomeação, portanto, passara a fazer parte da história do Ministério das Relações Exteriores.) Compareceram à solenidade, além de Chateaubriand, muitas figuras da diplomacia e do mundo jornalístico. [O periódico carioca O Jornal, de 10/1/1958, registrou os presentes à cerimônia nestes termos: "A solenidade, que contou com a presença do ministro das Relações Exteriores, foi assistida por algumas das mais destacadas figuras do nosso alto mundo político, como, por exemplo, os srs. embaixador Décio Moura, secretário-geral do Itamarati; a embaixadora Odete de Carvalho Souza, chefe do Departamento Político; o jornalista, escritor e acadêmico Austregésilo de Athayde, diretor dos Diários Associados; Herbert Moses, presidente da Associação Brasileira de Imprensa; José Simeão Leal, chefe do Serviço de Documentação do Ministério da Educação; o embaixador Assis Chateaubriand; professor José Honório Rodrigues; o sr. R. F. Hammond, diretor dos Associated Newspapers Limited, de lord Rothermere, cadeia jornalística que reúne os mais prestigiosos órgãos de imprensa da Grã-Bretanha (Daily Mail, Evening News, Sunday Dispatch, Daily Sketch e mais quinze jornais pelo interior inglês além de estações de televisão), e inúmeras outras personalidades de destaque, além, naturalmente, da srta. Rosemary Claire Porter e do sr. Carlos Rizzini, biógrafo de Hipólito da Costa, que, como orador, fez a apresentação do quadro a ser doado".]

Logo de início, Assis Chateaubriand, após rápido discurso, passou a palavra a Carlos Rizzini que narrou as pesquisas que realizara e enalteceu a participação de Gastão Nothman: "Todas essas dúvidas e incertezas, estão hoje esclarecidas e delineadas, constando de um livro por mim recentemente publicado, graças às diligências e às pesquisas que encetei na Inglaterra, e graças principalmente à paixão com que as continuou e estendeu um brasileiro de bela inteligência e invulgar pertinácia: Gastão Nothman".

Em seguida, contou um tanto da vida e da importância de Hipólito, e se deteve nos retratos. Referindo-se àquele que estava sendo, naquele momento, objeto de doação, afirmou ser "de autoria ignorada, mas data certamente de 1820". Em seguida, falaram a doadora e o ministro Macedo Soares, e, segundo relata O Jornal, [O Jornal pertencia aos Diários Associados e, seguramente por isso, em total contradição com o próprio discurso de Rizzini, que, aliás, o jornal transcreveu na íntegra nessa reportagem, atribuiu, erradamente, todos os méritos do feito a Chateaubriand: "Agora, nos últimos meses de 1957, coube ao último embaixador do Brasil na Inglaterra, que também é jornalista, a descoberta do retrato de Hipólito da Costa, bem como de seus descendentes". Pois é. Amarra-se o cavalo como manda o dono. Não sabemos, porém, se, no caso, o dono (entenda-se: Chateaubriand) mandou deturpar os fatos a seu favor. Talvez não o tenha feito, mas não nos parece impossível que o fizesse. Tendo em vista o temperamento autoritário de Chateaubriand, é bem possível, até, que ele se julgasse mesmo o "descobridor" de tudo. Rizzini era seu funcionário, diretor dos Diários Associados, quando começou a pesquisar na Inglaterra, e Gastão, por sua vez, pelo que revela nas cartas, demonstra uma certa reverência com relação ao insistentemente lembrado Chatô, mantendo-o, por meio de freqüentes contatos, informado das pesquisas que desenvolvia. Para o ego avantajado de Chateaubriand, talvez essas circunstâncias parecessem suficientes: o "descobridor" era ele.] retomou a palavra "o sr. Assis Chateaubriand, para dizer aos presentes que mandara oferecer à srta. Rosemary Claire Porter uma avultada soma em dinheiro pelo quadro de seu bisavô, mas a jovem que é extremamente pobre, e com ela seu irmão, recusou, dizendo que só tinha aquele quadro e o seu coração para dar ao Brasil". Se ofereceram mesmo a "avultada soma em dinheiro", não dá mais para saber, mas que a senhorita Rosemary não recebeu nada, com certeza não recebeu. Beneficiou-se apenas da viagem e de alguns passeios no Brasil, que Chatô conseguira para ela.

Fazendo um resumo, podemos dizer que existem quatro retratos originais de Hipólito, pintados enquanto ele vivia, e são os seguintes:

1. Hipólito, moço: O retrato mais antigo. Pintado a óleo, de autor desconhecido. Pertencia, em 1957, a Mary da Costa Bates, e foi reproduzido, pela primeira vez, por Rizzini em seu livro Hipólito José da Costa e o Correio Braziliense, como encarte entre as páginas 228 e 229.

2. O retrato de 1810: O retrato "oficial". Pintado a óleo sobre tela, em 1810. O original pertenceu a Rosemary Claire Porter que o doou a Carlos Rizzini. Com a morte deste biógrafo, a obra passou para sua viúva, Áurea Ferreira Rizzini, que ainda a detém.

Este retrato a óleo, até este momento, não havia sido reproduzido em publicação alguma. Serviu, porém, de modelo para a gravura lavrada por H. R. Cook e impressa na Narrativa da perseguição. Essa gravura foi muitas vezes reproduzida, inclusive no volume primeiro desta reedição do Correio Braziliense.

3. O retrato de 1820: Hipólito aparece com o Correio Braziliense na mão direita. De autor desconhecido, pintado provavelmente em 1820. Pertenceu ao duque de Sussex, passando por sua morte à viúva de Hipólito, Mary Ann da Costa, e, em sucessão, aos seus descendentes. Hoje pertence ao Itamaraty, por doação de Rosemary Claire Porter. Foi reproduzido, pela primeira vez, no livro de Carlos Rizzini, Hipólito da Costa e o Correio Braziliense, na página anterior ao frontispício.

4. O retrato de 1823: O último retrato de Hipólito. Em miniatura, oval, assinado por Childe, pintado em 1823. Contém dedicatória de próprio punho de Hipólito da Costa para a mulher, Mary Ann, datada de 1823. Pertencia, em 1955, ao coronel Arthur Sidney Bates e sua mulher. Foi reproduzido, pela primeira vez, no artigo de Carlos Rizzini publicado em O Cruzeiro de 29 de outubro de 1955, e em seu livro Hipólito da Costa e o Correio Braziliense, no encarte entre as páginas 276 e 277.

Ainda em se tratando de iconografia, convém registrar que em 1974 a Casa da Moeda do Brasil produziu um selo postal alusivo ao bicentenário de nascimento de Hipólito [Hipólito nasceu em 25 de março de 1774 na Colônia do Sacramento] e, para acompanhar o lançamento, a ECT Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos utilizou um carimbo com a efígie de Hipólito, visivelmente copiada, de modo simplificado, da miniatura de Childe. [Há, no Brasil, outros retratos de Hipólito, sempre copiados de algum desses aqui descritos. Na Associação Paulista de Imprensa (API), em São Paulo, há dois retratos. Um deles, pintado a óleo sobre madeira, de 1947, muito bom, está assinado por Arnaldo Barbosa e visivelmente se baseia na gravura da Narrativa, com um acréscimo: Hipólito repousa a mão esquerda sobre um livro em cuja capa se lê "Correio Braziliense 1810". O outro retrato da API, óleo sobre tela, é assinado por "Osv. da Sylveiyra", tem data de 1956, e é inspirado na miniatura de Childe. Há, ainda, mais um retrato, cópia também inspirada na gravura da Narrativa, na Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, pois Hipólito é o patrono da cadeira 17 daquele sodalício. Existe um retrato de Hipólito pintado a óleo por Victorio Gobbis por encomenda de Carlos Rizzini, cuja localização nos é hoje desconhecida.]

Por fim. Em suas pesquisas, Gastão descobriu, inclusive, o brasão dos Costa. Como estava registrado no recinto de seu túmulo, cuja localização até seus descentes ingleses desconheciam, acabou corporificando uma informação iconográfica resgatada só depois de mais de um século de total esquecimento. O brasão encima a placa mandada lavrar pelo duque de Sussex, em homenagem ao amigo morto, e localizada, por Gastão, na parede esquerda da nave da igreja Santa Maria Virgem, de Hurley, onde o fundador de nossa imprensa foi enterrado. [Na recriação das cores do brasão, Gastão contou com o auxílio do Coronel Bates. Campo: vermelho. Cruz: prata. Os seis ossos de costelas: prata. Pequeno quadrado à esquerda, no topo: prata. Letra H: vermelho.]

Mas o túmulo de Hipólito, por sua vez, enseja mais um tópico.

 

O túmulo, a lápide e a última viagem

Logo que descobriu o túmulo, já na carta de 25 de abril de 1955, na qual noticia a novidade, Gastão propôs: "Agora venho propor-lhe em poucas palavras o seguinte: Você e eu iniciaríamos um projeto para trasladar os restos mortais do Hippolyto para um local mais apropriado com o apoio da imprensa brasileira, e do nosso governo, principalmente do Itamaraty. Erigiríamos um monumento apropriado e bonito, ou aqui ou no Brasil". E em pós-escrito completou: "Ao meu ver devia-se proceder a uma cerimônia anual ao lado do túmulo do Hippolyto, pois aqui jaz na Europa o único brasileiro de sua altura".

Foi essa a primeira proposta referente à trasladação dos despojos de Hipólito para o Brasil. Gastão voltou ao tema poucos meses depois, em 3 de outubro de 1955: "Será que V. poderá indagar sobre a possibilidade da trasladação do corpo do Hipp. Ou então a possibilidade de mandar erigir um novo monumento aqui na igreja onde se encontra o túmulo dele? A ABI se interessa? Ou a Fundação Cásper Líbero?"

E cobrou resposta um mês depois: "Houve qualquer reação da parte da ABI ou de qualquer dos jornais quanto a subscreverem para uma nova laje ou então trasladar o corpo?"

Em fevereiro de 1956, Gastão consegue fazer com que Chateaubriand se interesse pelo projeto. Em carta de 27 desse mês, relata: "Falei duas vezes pelo telefone com Chatô. Não fui visitá-lo, em vista dos compromissos sem fim que ele adora aceitar em Paris. Disse que vinha para cá, mas desistiu. Declarou também que voltaria em abril ou março. Disse que se interessava muito ainda na trasladação".

Animado, o adido traça planos. Propõe uma série de medidas: nova laje, exumação e "remessa do corpo para o Brasil num caixão apropriado". Toma também outra iniciativa em homenagem a Hipólito: "É bem possível que por minha intervenção, a Anglo-Brazilian Society de Londres conseguirá das autoridades para colocar uma placa co-memorativa ao Hipp. no local do antigo nº 7 Lower Philimore Place". [Na carta seguinte, em 9 de março de 1956, há uma outra nota, escrita à mão na margem esquerda do papel: "A Anglo Brazilian Society daqui está promovendo a colocação de uma grande placa comemorativa na fachada da casa que hoje representa o antigo Philimore Place, com a presença de importantes representantes do governo e da imprensa britânica".]

Passado um ano desde a descoberta do túmulo, a questão da trasladação continuava na estaca zero. Gastão desanimava:

Tenho chegado à conclusão que estou chateando demais a respeito, e resolvi não pensar mais nisso, já que a ABI ‘s’en fou’. Assim vou conseguir de amigos INGLESES dinheiro para construir um bonito monumento ou nova laje na própria igreja, declarando que isso foi feito em vista da indiferença no Brasil. Claro isso não atinge meu bom amigo que tudo tem feito para conseguir o meu desejo, nem tampouco o Chatô, sempre camarada em tudo. Mas mandar para o Rio Grande, isso não. [Ocorrera, entretanto, uma sugestão no sentido de levar os despojos de Hipólito para o Rio Grande do Sul. Segundo carta de Rizzini, parece que a idéia de trasladar Hipólito para o Rio Grande do Sul havia sido de Chateaubriand ou, no mínimo, este a defendia nessa época.]

Gastão ameaçava desistir, mas não desistia. No mesmo mês, em carta de 26 de março de 1956, voltou ao assunto, inconformado por Herbert Moses, da ABI, não ter mostrado interesse. Diz que vai escrever para ele e pergunta a Rizzini o que lhe parece a idéia.

Gastão tornara-se, sem o perceber, um tutor da memória "do nosso herói" na Inglaterra, e, por isso, exultou com uma visita de jornalistas brasileiros à igrejinha de Hurley em 1956. [Em carta de 4 de maio de 1956, relata o episódio: "JORNALISTAS BRASILEIROS – Apareceu aqui uma caravana de 4, sendo eles o João de Scatimburgo, L. A. Bahia (Correio da Manhã), João Barreto Leite Fº (O Jornal) e Walter Ceneviva (A Gazeta). Vieram convidados por parte do governo britânico, e aqui passaram 4 semanas. Por sugestão minha, o governo de S. M. organizou uma romaria ao túmulo do Hippolyto [...] Depois do almoço procedemos todos à igreja de Hurley onde o Scatimburgo em nome dele e dos seus companheiros depositou uma linda gerba de flores no túmulo do Hippolyto, sendo essa a primeira homenagem jamais prestada à memória do nosso herói. Ponto interessante. Fez parte do grupo o atual cônsul-geral do Brazil em Londres, ministro Frederico Chermont Lisboa, representando isso uma homenagem ao primeiro cônsul-geral brasileiro em Londres pelo último, e atual".]

Mas, quanto ao túmulo... A questão do túmulo era mesmo de amargar. Em carta de 7 de junho de 1956, desabafa:

TÚMULO – Resolvi não mais fazer nenhum esforço quanto à renovação da pedra tumular, com gente da terra. Creio que com um pequeno esforço conseguirei o que desejo através dos ingleses aqui. Vai haver uma reunião da Sociedade Anglo-Brasileira em poucos dias quando será ventilada a questão. Vou propor que se coloque uma placa na antiga residência em 7 Lower Philimore pela Sociedade, ou então na casa onde morava em Hurley. O resto ficará por minha conta particular.

Você é o único que conheço que tem verdadeiro entusiasmo por essas coisas. Você já fez o impossível, e agora vou eu fazer um esforçozinho.

Na Inglaterra, parece ter sido mais fácil obter algum apoio. Gastão conseguiu, segundo informa, os fundos necessários para fazer uma nova laje e colocá-la em substituição da antiga.

Em 10 de setembro de 1957, no mesmo ano em que Hipólito foi lembrado no Brasil com a edição dos livros de Rizzini e Mecenas, Gastão informa:

Sexta-feira passada, dia 6, segui para Hurley para assistir a remoção da antiga laje e a colocação da nova. Tirada a laje descobri que por baixo havia uma camada de areia. Depois de ligeira escavação demos com uma ‘vault’, creio que se chama em português uma abóbada, muito sólida, construída de tijolos em perfeito estado de conservação. Não tendo recebido autorização de mexer com a mesma, deixamo-la em paz. Junto remeto-lhe a fotografia da nova laje.

Ao examinarmos à luz do sol a antiga pedra, e conhecedor do fato que o Hipólito foi enterrado nessa ‘vault’, há uma correção a fazer quanto a decifração do texto gravado na antiga laje, que em vez de ‘Under this stone’ deve rezar ‘In this Vault...’

Outro fato curioso é que onde se lê ‘aged 46 years’ a cifra 4 não foi completada pelo mação, e o texto lê: ‘aged 16 years’, prova que o texto foi esculpido às pressas por um escultor indiferente.[Acresce notar que Hipólito morreu aos 49 anos de idade.]

A colocação da nova laje não foi ocasião naturalmente de nenhuma cerimônia ou homenagem, pois era impossível prever o que íamos encontrar por baixo da laje antiga.

Essa homenagem se prestará mais tarde com a presença de um novo embaixador, ou coisa que valha. Pena que não poderá ser você. [...]

Quanto à antiga laje tumular, tenho-a guardado. Seria possível ou de interesse a você presentear a ABI? Já falei há muito tempo a respeito ao Moses que infelizmente anda tão preocupado com os interesses dele que nunca presta atenção nem faz nada. Não custaria nada a ninguém, pois tenho a certeza que a Mala Real faria o transporte de graça. Não sei como seria para a Alfândega.

Depois dessa data, só há mais três cartas de Gastão para Rizzini. Com a última delas, de 28 de dezembro de 1957, cessa a correspondência disponível. Não temos notícia do destino da laje antiga. No entanto, Hipólito ficou agasalhado, sob a pedra nova, pelos carinhos de Gastão.

Passaram-se dezenas de anos.

Na manhã de 4 de julho de 2001, uma urna foi depositada por quatro cadetes da Polícia Militar do Distrito Federal em um monumento construído no Museu da Imprensa Nacional, em Brasília.

Eram as cinzas de Hipólito.

E nada mais justo que se destinassem a Brasília. A cidade, em si mesma, corporificou uma idéia lançada por Hipólito no Correio Braziliense de março de 1813. Como grande visionário, que era, ele propôs a construção da capital do Brasil no Planalto Central, "imediato às cabeceiras dos grandes rios".

Enfim, o exilado estava de volta, e no lugar certo. [Transcrevemos aqui um relato das ações mais recentes que levaram a esse sepultamento, publicado na página 18 do Jornal ANJ, da Associação Nacional de Jornais, de agosto de 2001: "Há dois anos, a Fundação Assis Chateaubriand, em iniciativa do seu diretor executivo Márcio Cotrim, iniciou novo esforço nesse sentido. Contou com o decisivo apoio do embaixador brasileiro junto ao Reino Unido, Sérgio Amaral, ex-porta-voz da Presidência da República. A exumação e o traslado de restos mortais constituem um difícil exercício jurídico, agravado pelo fato de Hipólito da Costa ter se casado com uma cidadã britânica, Mary-Ann Troughton, e de não ter retornado ao Brasil. Supõe-se, neste caso, que pretendesse ficar para sempre na Inglaterra. O governo brasileiro precisou usar diversos recursos. Exibiu carta enviada por d. Pedro I, logo após a Independência, nomeando Hipólito primeiro diplomata do país. Apresentou também escritos de Hipólito da Costa no Correio Braziliense [...] mostrando os vínculos do jornalista com seu país. Precisou ainda consultar a comunidade da paróquia Mary-The-Virgin, em Hurley-on-Thames, perguntando se havia oposição à retirada dos restos mortais. Por fim, os descendentes precisaram autorizar a remoção."]

"Na quarta parte nova os campos ara."

(*) Professor universitário há mais de trinta anos. Lecionou na Universidade de São Paulo, na Faculdade de Comunicação Cásper Líbero e em outras instituições de ensino, como a Escola Superior de Jornalismo, no Porto. Atualmente, dá aulas no curso de jornalismo da FIAM, em São Paulo, cidade na qual também foi advogado e procurador municipal. Publicou 26 livros, que se dividem em a) obras técnicas nas áreas de direito e história da comunicação e da arte, como O controle da informação no Brasil (Petrópolis: Vozes, 1970), Direito da comunicação (São Paulo: Revista dos Tribunais, 1976), Comunicação – Do grito ao satélite (4a. ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2001) e Legislação da comunicação social – curso básico (no prelo); b) livros para o público geral, sendo mais conhecidos os livros de viagem nos quais o narrador é o seu cão; e c) literatura infanto-juvenil. É também artista plástico, dedicando-se à xilografia e à pintura. Organizou e dirige a Casa da Xilogravura, museu fundado em 1987, na cidade de Campos do Jordão.


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