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DIÁRIO DE S. PAULO
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"Diário de S. Paulo cresce na classe média", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 19/12/01

"Se ainda havia alguma dúvida de que as Organizações Globo adquiriram um jornal em São Paulo para disputar com Folha e Estado a hegemonia nos segmentos formadores de opinião, os números apresentados pela Marplan, em estudo encomendado pelo jornal sobre sua evolução na Grande São Paulo, são categóricos nesse sentido: o Diário de S. Paulo cresceu de forma significativa na classe B no terceiro trimestre do ano, sendo que a maior taxa se deu na faixa B2, com uma audiência líquida de 407 mil leitores - índice 48% maior do que o verificado no trimestre anterior. Nas classes B/C (que juntas representam a grande classe média), o Estudo aponta um Diário com audiência líquida de 1.059.000 (+34% sobre o 2º trimestre).

O Estudo analisa o desempenho do Diário de S. Paulo em comparação com os jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Agora São Paulo e Lance. Mas todas as atenções internas voltaram-se para os números comparativos entre Diário, Folha e Estadão. É sintomático.

Para se ter uma idéia, a empresa faz um grande esforço para esquecer que um dia se chamou Diário Popular e isso já é uma nítida estratégia de descaracterizá-lo como um veículo popular, em tese dirigido às classes C e D. Uma notinha recente dá bem o espírito que norteia o jornal nesse aspecto: ao noticiar a morte do colega Luiz Carlos Leiva (repórter da editoria São Paulo, ocorrida no dia 14/12), a matéria cita os veículos onde ele trabalhou, incluindo o Diário Popular, sem uma única referência de que o Dipo foi o antecessor do Diário de S. Paulo.

Voltando ao estudo da Marplan: de um modo geral o Diário perdeu terreno nas classes A1 e A2, perdeu terreno na classe B1, mas ganhou muito nas classes B2 e C. No bolo todo da chamada Classe Média os números consolidados mostram Folha de S. Paulo com 1.086.000 em audiência líquida, Diário de S. Paulo com 1.059.000 e O Estado de S. Paulo com 917.000.

Outro dado do Estudo mostra que o Diário de S. Paulo no terceiro trimestre de 2001 chegou à liderança entre leitores masculinos entre todos os jornais da capital paulista, com 775 mil (ou 23,4% do total). Vêm, a seguir, Folha de S. Paulo com 729 mil (22%), O Estado de S. Paulo com 718 mil (21,6%), Agora São Paulo com 501 mil (15%), Lance com 394 mil (12%) e Jornal da Tarde com 196 mil (6%).

Em relação à distribuição geográfica de leitores, o Estudo registra que o Diário cresceu nas Zonas Sul e Oeste e outros municípios, caiu na Leste e manteve-se estável na Zona Norte. Ou seja, cresceu em regiões de maior poder aquisitivo, o que confirma a mudança de target dos leitores.

Finalizando, o Estudo destaca uma série de informações relativas ao poder aquisitivo dos leitores do jornal e os números são significativamente animadores nesse sentido, mostrando que ‘o novo leitor’ do Diário tem mais dinheiro e pode consumir mais - informação considerada fundamental para atrair maiores investimentos publicitários.

Como se nota, não há disfarces ou contemporizações nos números apresentados pela Marplan. O Diário de S. Paulo trabalha firme na qualificação do jornal de olho em leitores também mais qualificados e de maior poder aquisitivo. Se no curto prazo o objetivo é repartir o mercado com os líderes, a médio e longo prazo é efetivamente buscar a liderança. Fez isso até aqui com pouquíssimos investimentos na redação (quase não contratou e, ao contrário, demitiu cerca de 25 colegas no início de dezembro), mas para continuar nessa curva ascendente terá necessariamente de buscar reforços e qualificar ainda mais sua equipe."


MERCADO – JORNAIS
Cristina Vaz de Carvalho

"Rio 2001: as redações no purgatório", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 20/12/01

"Poucas empresas no Brasil tiveram um 2001 tão movimentado como o Jornal do Brasil. Acompanhamos mês a mês: a Greve do Iogurte, em janeiro, culminou com a demissão de Marcos de Castro, e a crise prosseguiu com a saída do diretor de redação Fritz Utzeri em fevereiro. Mário Sérgio Conti chegou em abril, trazendo Flávio Pinheiro e muitos nomes de peso, para ficarem apenas alguns meses. Em julho, o jornal acolheu Ricardo Boechat. Augusto Nunes assumiu em setembro como vice-presidente e promoveu mais mudanças. Pouco depois, foi anunciada a mudança da sede para o endereço de origem, na Av. Rio Branco.

Junho teria sido sinistro, não fosse a boa notícia do lançamento do Globonews.com, em grande estilo. Foi a única notícia boa sobre o jornalismo das ponto-com, cujos profissionais amargaram um ano particularmente difícil. Mas o mês ficou marcado pela morte de Evandro Carlos de Andrade, diretor da Central Globo de Jornalismo. E pouco depois, pelo incidente envolvendo Boechat, O Globo, o JB e a Veja, expondo ao País os intestinos da imprensa carioca.

O Globo pôs um pé em São Paulo, seguindo os passos das outras empresas do grupo - tevê, rádio e editora - já enraizadas nesse mercado. Comprou o Diário Popular e levou Orivaldo Perin para a reestruturação, transformando-o em Diário de S. Paulo (velho título, que um dia foi dos Diários Associados). O comando editorial de Merval Pereira repercutiu além dos limites da Mídia Impressa e Rádio, e afirmou O Globo como celeiro de talentos para as Organizações, fato demonstrado quando se deslocou o editor-chefe do jornal Ali Kamel para a tevê, a fim de suprir algumas das funções de Evandro. Gesto ensaiado no ano anterior, com a ida de Agostinho Vieira para o Sistema Globo de Rádio, e que no próximo ano estará de volta ao jornal.

Cortes que abalaram São Paulo, no Estadão em outubro e na Editora Abril em novembro, tiveram no Rio reflexos mais brandos. Mérito dos chefes das sucursais - Suely Caldas e Lauro Jardim, entre eles - que já mantinham equipes enxutas e souberam defendê-las na hora difícil.

A TVE entrou janeiro tumultuada, com cortes indiscriminados e denúncias de corrupção. O Ministério reagiu rapidamente. Fernando Barbosa Lima assumiu como presidente, mudou o clima da emissora, mudou o nome para Rede Brasil, reconduziu Tetê Muniz ao jornalismo da casa, e fez-se a paz.

Paz que ainda não chegou à sucursal da Gazeta Mercantil. Depois de amargar, por todo o segundo semestre, reestruturações, greves, demissões, a reboque da sede em São Paulo e das decisões em Brasília, o que aparece são esboços de soluções. Este ano, Gilberto Pauletti, alçado de editor-chefe da Gazeta do Rio a diretor editorial das regionais de todo o País, enfrentou um inferno astral sem data para terminar.

Angústia nas redações, festa nas assessorias. Nunca houve, na comunicação empresarial aqui, tão farta mão-de-obra com tanta qualificação. É possível que, em 2002, esse setor assista a uma reviravolta, para melhor, nos padrões de atendimento ao cliente. Pode agora formar equipes inteiras com personalidade e prestígio que, somados, têm a força de um trator para disputar a concorrência."


MANCHETE DE NATAL
ZV

"Quando menos se espera", copyright No., 26/12/01

"Passei a vida gozando a manchete que um dia um jornal de minha terra publicou: ‘Quando menos se espera chega o Natal’. Ria daquele esforço hilário de transformar a efeméride mais previsível do ano em uma surpresa. Por um involuntário mecanismo de humor, a maior festa da cristandade virava um súbito evento.

Anos depois, contava o caso nas redações pelas quais passei, ficava repetindo o título para os meus colegas, e o número era um sucesso. Até hoje há sempre alguém para me pedir: ‘conta aquela da manchete!’

Pois bem, na semana passada, quando nosso temível editor Xico Vargas (seu nome é Xico porque ele usa um xicote no trabalho) avisou que deveríamos entregar uma coluna hoje para integrar a edição especial natalina, levei um susto com o inesperado. ‘Mas já!?’, exclamei, pensando em como tinha razão a velha manchete que eu sempre procurei ridicularizar. Na verdade, o velho jornal estava certo: quando menos se espera chega o Natal. E, o que é pior, chega e a gente tem que escrever sobre ele.

Sempre tive uma relação ambígua e complexa com a data. Primeiro, em criança, quando ainda queria ser padre, as cores natalinas, os sons, o cheiro de incenso, o presépio, a missa do galo no colégio interno, o ‘Noite feliz’ cantado em coro de várias vozes, tudo isso me comovia, e me comove até agora, ao evocar.

Depois, na segunda idade, já tendo lido o Machado de Assis do magistral conto ‘Missa do galo’ (quem não teve aos 17 anos sua Conceição de 30?) e do Soneto (‘Mudaria o Natal ou mudei eu?’), vivi a moda ‘odeio Natal’. A justificativa era a submissão dessa festa ao consumo e à ganância comercial. Como os jovens revolucionários do meu tempo queriam acabar com a família e revogar a tradição, nada mais natural que investissem contra uma festa que é ao mesmo tempo religiosa, familiar e tradicional.

Éramos assim meio Guilherme Fiuza, gostávamos de falar mal de tudo. (abro um parêntese para dizer que o Gui foi meu foca: tudo o que sabe não aprendeu comigo. Apareceu no JB para um estágio, eu disse ‘vai se virando aí’ e, quando voltei, ele já tinha virado um craque). Voltando às festas natalinas, no caso até o reacionário Nelson Rodrigues entrou no coro: ‘Hoje, o Natal é um orçamento’, ele chegou a reclamar.

De certo modo, tínhamos razão. Além de consumista, essa é a mais colonizada de nossas festas, onde tudo parece tão postiço quanto as barbas de Papai Noel: a neve de algodão, os trenós sobre esqui, o saco, a roupa quente em pleno verão, sem falar na invasão exótica de castanhas, nozes, passas e avelãs nas mesas da nossa tropical terra da banana.

Pode-se alegar que o reveillon, a começar pelo nome, também não é uma invenção tupiquinim, é verdade. Mas acontece que Iemanjá invadiu sua praia, ainda que ultimamente não tenha sobrado muito espaço nas areias para a rainha do mar. De qualquer maneira, é tudo de graça: os fogos de artifício, o congraçamento, a curtição. Gasta-se muito pouco para jogar flores ao mar, se é que ainda se joga. Com o carnaval é a mesma coisa: pode-se brincar na rua sem precisar comprar nada, principalmente depois que acabaram com o confete, a serpentina e o lança-perfume.

Agora, com o Natal não. Não há presente que chegue. Por falar nisso, quem caiu de amigo oculto para mim na redação de no.? Preciso saber por que tenho mais umas duas redações, fora o amigo oculto da família. E fora evidentemente aquela graninha para cada um dos entregadores de jornais e de revistas, para o carteiro, o gari, o porteiro, o vigilante noturno, o guardador de carro, o mendigo da rua. Você, caro leitor, ainda não recebeu o envelopinho de cada um deles?

Ah, sim, e tem aqueles presentes para os parentes que você não pode deixar de dar, os cartões para mandar e responder, ligar para o Marcos e saber se na ceia de meia-noite a gente deve tomar cabernet ou merlot, ir ao supermercado comprar o panetone, as nozes, as castanhas, enfrentar a fila do caixa, ufa! Nada disso ainda foi feito e já estou exausto (aliás, é tudo mentira porque em casa não sou eu que faço essas coisas, a não ser ligar para o Marcos, que é a única tarefa que minha mulher confia em me dar). Mas mesmo assim fico cansado.

Apesar das distorções, porém, há no Natal algo que resiste ao consumo e que desperta memórias, emoções e sentimentos adormecidos. Se o reveillon é a euforia e o carnaval a orgia, o Natal é o nosso eterno retorno à infância - é o momento do faz de conta e da fantasia. Poucas efemérides estão tão impregnadas de simbologia e significados, e poucas permanecem tão arraigadas no nosso imaginário místico e religioso.

Prometi ao Xico que não ia terminar esse texto com o indefectível fecho, mas não tem jeito; quando menos se espera ele vem à cabeça: ‘Mudaria o Natal ou mudei eu?"


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