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TV PERVERSA
Leila Reis

"Perversidade da TV supera a dos crimes", copyright O Estado de S. Paulo, 1/12/02

"A crueldade humana é ilimitada. O País vem se escandalizando com uma série de demonstrações dela. A perplexidade com a tragédia dos Von Richthofen, em que a filha e o namorado dela mataram barbaramente o casal, não se tinha arrefecido quando um jovem assassinou a avó e a empregada a facadas. Logo a seguir veio outra ignomínia: a morte por espancamento da professora aposentada pela mulher contratada para cuidar dela.

A morbidez da TV é ilimitada. Para os que produzem o que se vê pelo vídeo, noticiar esses crimes é pouco. O show, para ser bom, tem de mexer com as entranhas do telespectador e, para isso, há algumas regras a serem seguidas. A mais cruel é a repetição. Revive-se a tragédia com todos os recursos disponíveis: reconstituição, depoimentos e comentários. Os apresentadores, em especial os dos programas policiais, cospem uma indignação estudada para rememorar ipsis litteris os passos da tragédia.

Mas o que houve no caso da aposentada de São José do Rio Preto passou dos limites. Como havia imagens da tortura da mulher pela sua algoz, a tarde de terça-feira foi um pesadelo. O que se viu, em quase todos os canais, foi a mesma macabra sucessão de reprises da mesma fita de vídeo produzida pela família da vítima. E o pretexto para os mestres-de-cerimônias da desgraça - Marcelo Rezende, José Luiz Datena, Roberto Cabrini - improvisarem uma discussão a respeito da pena de morte.

Até o telespectador mais ingênuo é capaz de perceber que ninguém está preocupado com o Código Penal, mas arranjar subterfúgios para continuar no assunto e ficar remexendo nos detalhes chocantes da tragédia. Outro recurso para não sair desse trilho é entrevistar parentes. O neto da idosa esteve, em teipe e por telefone, em todos esses canais para registrar a perplexidade familiar diante do triste destino da aposentada, enquanto as cenas eram novamente reprisadas. Informação mesmo, quase nenhuma.

A satisfação com o resultado no ibope - é o que interessa a esses artífices dos shows de horrores - foi ostensiva. Datena, da Record, até contou vantagem. O crime contra a aposentada de Rio Preto foi tão chocante que teve até repercussão internacional: ‘Recebemos telefonemas de Angola’, noticiou.

Crimes são notícia, isso é irrefutável. Essas manifestações atrozes da espécie humana entram nos telejornais e já chocam pela sua própria natureza.

O problema é a utilização que os programas fazem delas. Capturar a audiência por meio da carnavalização da tragédia - especialmente em horário vespertino - é mais do que discutível, é perverso."

DEBATE DA BOLA
Etienne Jacintho

"Mesa-redonda humorística", copyright O Estado de S. Paulo, 1/12/02

"‘Se cercar vira hospício, se cobrir vira circo’. A frase, do diretor de teatro Cacá Rosset, explica o espírito do Debate Bola, a mesa-redonda vespertina da Record. Mesmo para quem não gosta de futebol, o programa é diversão garantida. A atração, comandada por Milton Neves, fala sobre o esporte de uma maneira descontraída, sem teses sobre esquema tático nem estatísticas intermináveis. Com essa fórmula, o Debate Bola comemora 1 ano de vida, no próximo dia 3 de dezembro, e festeja a boa e variada audiência - média de 5 pontos com picos de 8.

O programa conta com comentaristas esportivos de diferentes perfis. Além de Milton Neves - a quem o superintendente de Programação da Record, Luciano Callegari, chama de ‘o Silvio Santos do Futebol’ -, os debatedores são Osmar de Oliveira, Oscar Roberto Godoy, Vanderlei Nogueira, Paulo Calçade, Paulo Roberto Godoy (mais conhecido como Morsa) e Cacá Rosset, que é o responsável, em grande parte, pela loucura do Debate Bola. Com tanta gente para falar, Milton Neves admite que não há como evitar atropelos. ‘Dois de cada vez, porque um é impossível’, pede o mediador aos seus colegas. Mas a bagunça é generalizada e as discussões, às vezes fervorosas, são punhaladas no peito dos apaixonados por futebol.

Daniela Freitas, que participa da atração há três meses, conta que quer morrer quando Milton Neves, santista inveterado, vem com a história do ‘apito amigo corintiano’. ‘Fico brava quando ele fala que o Corinthians ganhou com a ajuda do juiz’, reclama Daniela. Essa história já virou jargão.

‘Até na Globo os comentaristas usam essa expressão quando há erro de arbitragem’, conta Milton Neves. No cenário do Debate Bola, dois apitos: um corintiano e outro que vira a casaca dependendo do time em questão.

Apesar de Daniela Freitas ficar brava algumas vezes, ela também é a responsável por acalmar os participantes durante os momentos mais explosivos. E orgulha-se de estar em um programa de futebol que chama o público feminino - 30% da audiência. Em um dos e-mails que recebe, ela lê:

‘Parabéns! Finalmente minha esposa gosta de um programa esportivo.’ Cacá Rosset analisa o fato: ‘Isso porque, antes de mim, não havia homem bonito na TV’, conclui o diretor teatral. Além das mulheres, a atração também atrai pré-adolescentes e jovens.

Do teatro ao futebol - Cacá Rosset diz que não sabe como se tornou cronista esportivo. ‘Sempre gostei de futebol mas nem no meu sonho mais delirante, pensei em ser comentarista’, fala. Ele estreou na Band quando recebeu um convite para participar de uma mesa-redonda ao lado de Milton Neves. ‘Quando ele veio para a Record, me trouxe junto.’ Para Cacá, o segredo de seu sucesso é não ser um especialista. ‘Não preciso ser coerente nem lógico’, afirma. ‘O programa reproduz um papo de botequim.’

A mistura entre o humor e a sobriedade dá equilíbrio à atração. E, lá, tudo é motivo de piada: um merchandising, uma entrevista, um lance... Até a visita da repórter tornou-se motivo de palhaçada para Cacá Rosset, que não se cansava de repetir durante o programa: ‘Vou dar o merchandising para a jornalista. Assim, ela fala bem de mim no Estadão.’ E deu todos os produtos dos anunciantes, alertando: ‘Aqui você ganha, mas não leva.’

Algumas vezes Cacá prepara a piada antes. Como é corintiano alucinado, o participante comentou, antes da primeira rodada das eliminatórias do Brasileirão, que iria comer galo frito no domingo - em alusão ao Atlético Mineiro, time que amargou uma derrota de 6 a 2 contra o timão. E assim fez.

Levou a panela e comeu frango com farofa frios no programa de segunda-feira passada. Resultado: o ibope acusou 8 pontos de audiência. ‘Futebol é lúdico. Então, nada como ser lúdico ao falar de futebol’, brinca Cacá."

CIDADE DE DEUS
Fernando de Barros e Silva

"Cidades de Deus", copyright Folha de S. Paulo, 28/11/02

"Quem vem do Rio em direção a São Paulo e chega à cidade pela marginal do Tietê é logo lançado diante de um cenário devastador, pelo qual passará incólume em questão de minutos se tiver a sorte de não ficar entalado no tráfego.

As margens externas são ladeadas por favelas miseravelmente típicas -casebres de madeira e lixo amontoados num equilíbrio incerto, como que ameaçando se projetar sobre a avenida. Nas margens internas, separa a marginal do rio -leito caudaloso de águas turvas e imundícies acumuladas, coisa de fazer inveja a qualquer poema de João Cabral- um matagal medonho, resposta hostil de restos da natureza a anos, ou décadas, de omissões e descaso.

Há enormes escavadeiras trabalhando ruidosamente na expansão do leito do rio ou coisa que o valha. Integrados à paisagem, os guindastes dentados sugerem animais pré-históricos, peças de uma espécie de museu animado da modernidade brasileira. Placas oficiais anunciam, como de hábito, que estamos ‘em obras’. A sensação que fica, porém, para quem observa minimamente o espetáculo ruinoso à sua volta, é de desalento, deterioração, terra arrasada. Mais do que isso: a sensação é a de que aquilo tudo é virtualmente irrecuperável.

A cena degradante e degradada da porta de entrada da maior capital do país é uma entre tantas outras, tão ou mais abjetas, que compõem o cotidiano das nossas Cidades de Deus.

A percepção da miséria brasileira, no entanto, ainda é em grande parte refém de uma imagem pré-jusceliniana do país. Ainda associamos a miséria à vida rural, aos rincões e sertões inatingidos pelos benefícios da civilização. Somos refratários à compreensão da miséria como resultado do progresso, do qual ela é parte, não resíduo. Décadas de ditadura de telenovelas globais devem ter contribuído para isso. Presépios festivos, as favelas na Globo, nas raríssimas vezes em que aparecem, acabam sempre em pagode no bar da Dona Jura.

Também o peso desproporcional de um movimento em vários sentidos arcaicizante como o MST é ao mesmo tempo sintoma e reflexo desse imaginário pré-JK. E mesmo o Fome Zero, até agora o grande slogan do governo Lula, em que pese seu esforço retórico de integração social, parece padecer desse mesmo déficit simbólico em relação às urgências da atualidade.

Das políticas públicas da era FHC nem se fale -tímidas e insatisfatórias, quando não ausentes, elas são como o Rodoanel, passam ao largo das cidades. E não há estatísticas oficiais sugerindo avanços sociais aqui ou acolá capazes de esconder que a miséria urbana e a vida nas metrópoles pioraram muito em muito pouco tempo.

Um filme como ‘Cidade de Deus’ está pronto há pelo menos 15 ou 20 anos. Sua descoberta tardia pode significar que o país, enfim, pede novos espelhos para se mirar. Ou que entramos numa espécie de convivência crítica com o inaceitável, como as escavadeiras em obras do Tietê, incorporadas à miséria e às imundícies que revolvem e tentam em vão remover."

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