6/25

Envie para um amigo  Procure no arquivo

GZM EM CRISE
O Estado de S. Paulo

"Gazeta Mercantil circulou com atraso ontem", copyright O Estado de S.Paulo, 31/1/03

"O jornal Gazeta Mercantil circulou ontem com 24 páginas, sem os cadernos diários Legal & Jurisprudência, Indústria & Serviços e Estado de São Paulo, e várias colunas fixas como Nomes & Notas e editorias como Internacional. Os indicadores de moedas e mercados publicados na edição referiam-se à cotações do dia 28, sem que essa informação fosse dada ao leitor.

O diretor-presidente da Gazeta Mercantil, Luiz Fernando Levy, justificou à agência de notícias Reuters a precariedade da edição e o atraso na entrega do jornal ao que classificou de ‘greve branca’ dos funcionários.

‘Evidente que (isso) causou um atraso, mas é que ele foi feito com muito pouca gente’, disse Levy e justificou: ‘O que nós quisemos foi garantir ao assinante que o jornal circularia e foi o que fizemos.’ Levy, porém, admitiu à Reuters que os profissionais da empresa estão sem receber salários. ‘Os salários atrasados são os de novembro e dezembro de 2001 e janeiro de 2002, bem como parte dos salários de dezembro de 2002 (que estão sendo pagos) e os vencimentos de janeiro.’

Segundo o editor-executivo e representante da Associação de Funcionários e Fornecedores da Gazeta Mercantil Paulo Totti foi a falta de salários que levou vários funcionários a faltarem. Com isso, disse, ‘o conteúdo da publicação entrou numa fase de inanição e os editores concluíram, na noite de quarta-feira, que não havia material suficiente para garantir a qualidade da publicação’. Ontem, porém, explicou Totti, muitos voltaram ao trabalho para garantir uma edição de melhor qualidade nesta sexta-feira. Segundo ele, o objetivo dos profissionais é manter um produto de qualidade enquanto prosseguem as negociações.

No início da noite, a empresa divulgou a seguinte nota oficial: ‘A Gazeta Mercantil comunica que: A) amanhã (hoje), o jornal estará nas mãos dos seus assinantes, como tem acontecido nos últimos 82 anos; B) a empresa admite que existe um atraso salarial e se sensibiliza pelas conseqüências que isso vem provocando na vida de seus funcionários. Por isso, essa questão vem recebendo tratamento prioritário; C) os valores da dívida salarial não são os que vêm sendo divulgados, mas eles existem e serão honrados; D) as demais questões empresariais vêm sendo tratadas e as negociações em curso surtirão resultados a curto prazo".

 

José Paulo Lanyi

"GZM: edição normal nesta sexta-feira", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 30/1/03

"Gazeta Mercantil, 30 de janeiro, página B-1 (Finanças&Mercados):

Volume de Negócios na Bovespa aumenta, índice sobe 3,3%

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) registrou hoje o maior volume do ano devido à permuta de ações ordinárias e preferenciais da Petrobras Distribuidora por ações preferenciais da Petrobras.

Gazeta Mercantil, 30 de janeiro, página B-5 (Finanças&Mercados):

Petrobras cai e segura índice

Bovespa fecha estável após subir quase 1,2%

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) teve um dia de poucos negócios ontem. O Ibovespa fechou estável aos 10.516 pontos. O índice operou em alta na maior parte do dia. Na máxima do pregão, o Ibovespa chegou a subir 1,14% acompanhando a recuperação das bolsas norte-americanas.

******

E agora? Em que notícia acreditar? A confusão é tão grande que o primeiro trecho parece coisa de vidente maluco: o jornal já sabe como vai fechar a Bolsa e dá a notícia no tempo pretérito...

Uma dica: basta atrasar um dia em cada nota - o hoje da primeira matéria vira ontem (dia 29); o ontem da segunda vira anteontem (dia 28). E a verdade se refaz.

Pois é... O leitor e sua calculadora mágica...

O jornal econômico mais prestigiado do País - um dos mais importantes do segmento no mundo - chegou às bancas assim: sem pé nem cabeça.

Os editores piraram por causa da crise, dos oito salários atrasados? Não. A decisão de publicar veio lá de cima... ‘É a primeira vez na história que o jornal circula sem o respaldo dos editores e demais jornalistas’, diz o advogado Ronaldo Corrêa Martins, do escritório Martins e Salvia, contratado pela Associação dos Empregados e Prestadores de Serviços do Grupo Gazeta Mercantil.

A Associação convocou uma entrevista coletiva para esclarecer: quem pôs os pingos nos ‘is’ dessa edição foi o controlador do grupo, Luiz Fernando Ferreira Levy. ‘A empresa juntou material velho e não avisou os leitores’, diz o editor executivo Paulo Totti. ‘Isso é uma irresponsabilidade profissional’.

Ele conta que não havia como publicar uma edição normal: a redação já estava desfalcada por causa da crise, alguns profissionais-chave não puderam trabalhar e o material apurado estava fraco. ‘É meu dever dizer ao dono: não dá pra fazer, não posso arrancar o coração dos caras’. ‘Está acontecendo naturalmente’, diz Corrêa Martins.

Totti, o diretor editorial, Roberto Müller Filho, e o editor-chefe, Matías Molina, comunicaram a decisão ao comando da empresa. ‘A conversa foi civilizada mas dura’. Levy, inconformado, tentou convencer a redação a voltar atrás. Não conseguiu e partiu para uma edição desconjuntada, velha e, como se viu, absurda.

Na primeira página, só as sucursais: Goiânia, Recife, Brasília, Salvador, com várias matérias frias. A Gazeta Mercantil da quinta-feira, dia 23/01, circulou em São Paulo com 46 páginas; a da quinta-feira, dia 30/01, tem 30 páginas.

Dólar? Só o de anteontem (28/01). Fundos? Anteontem. Ouro? Anteontem. Aveia, trigo, soja, café? Anteontem. Petróleo? Metais? Anteontem. A decisão da empresa tocou a credibilidade do jornal lá pra.... anteontem.

No dia 17 de janeiro, a redação já advertia: ‘O jornal corre o risco de parar por inanição’. Mais: talvez não circulasse em fevereiro. Vários salários e benefícios atrasados, gente que não consegue pagar o transporte até a redação... Funcionários doentes, desnutridos... Alguns até a família perderam, em separações conjugais. Profissionais que deixam o jornal para trabalhar (e receber) em publicações do interior...

A Associação e os editores dizem que é natural que as coisas estejam piorando, a ponto de não haver jornal (sério) para publicar. ‘Só ontem pagaram a quinzena que deveria ter sido paga em cinco de novembro’, diz Totti. ‘O diálogo está começando a romper’, diz Corrêa Martins.

Não custa lembrar: as marcas do grupo foram arrestadas por uma liminar concedida pela Justiça para garantir o patrimônio do ‘capital intelectual’ da Gazeta Mercantil. A decisão é passível de recurso. Apesar do endurecimento, a Associação promete dialogar e evitar ‘medidas drásticas’ como greve ou bloqueio do faturamento da empresa. ‘A falência não resolveria nada, a paralisação não resolveria nada’, diz o advogado da Associação.

A Gazeta Mercantil tem cerca de 1.200 funcionários no Brasil e no exterior. A ‘inanição’ atinge todos os setores da empresa e faz minguar o dia-a-dia de terceiros, prestadores de serviço que não recebem e não conseguem pagar os salários.

Acredite: isso pode ser só o início. A distribuição nacional do jornal está caindo até 25% a cada edição. ‘Então vai acabar logo’, digo eu. ‘Não, eles voltam a pagar aos poucos para garantir a edição’, responde Totti. O editor executivo garante: todos trabalham para fechar uma edição normal nesta sexta-feira.

Nos bastidores, a Associação busca o apoio do Governo Lula, já bateu na porta dos ministérios da Previdência e do Trabalho; a receptividade teria sido boa, mas as ações do governo ainda estão por vir. Os funcionários também conversam com quatro investidores que estariam interessados na compra do jornal. Três seriam da área de comunicação. ‘Mas é uma tentativa a mais para resolver essa situação, não queremos o lugar do Levy’, enfatiza Paulo Totti. ‘Somos jornalistas, não queremos ser donos do jornal’, diz o editor Gilberto auletti.

Na Gazeta Mercantil, breves palavras. O jornal reconhece a queda na circulação desta quinta-feira patética, mas discorda de que tenha sido expressiva. No entanto, não apresenta os números. O resto é silêncio."


Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe