07/05/2003 5/24

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EXCLUSÃO & IMPRENSA
Oded Grajew

"A mídia e o combate à exclusão social", copyright Folha de S. Paulo, 2/05/03

"Todos sabemos o poder que a mídia tem. Reportagens, notícias, entrevistas, editoriais, colunas, imagens, propagandas e mensagens impactam profundamente a opinião e o comportamento das pessoas, bem como a agenda e a escolha das prioridades da população. Não é à toa que se gasta tanto em propaganda, porque se sabe de sua influência sobre as opções e os atos dos consumidores e dos eleitores. Governos, empresas, associações, sindicatos, partidos políticos, organismos internacionais, agentes culturais e artísticos investem fortunas em programas tentando influenciar a mídia a seu favor.

A comunicação pode decidir eleições, a competição entre empresas ou as guerras. A mobilização por meio da mídia pode arrastar milhões para a guerra ou a paz. Nesse sentido, notícias e reportagens podem provocar literalmente a morte de pessoas ou salvar vidas.

Somos todos seres políticos dotados da liberdade de escolha. Podemos agir de várias formas diferentes, escolher fazer diferentes coisas. Na maioria das vezes, nem paramos para pensar nas escolhas que estão ao nosso alcance. O alucinante ritmo do dia-a-dia, a expectativa que os outros têm da gente, a pressão social do grupo, da moda, do ‘politicamente correto’, do socialmente valorizado e aceitável acabam reduzindo enormemente nossa capacidade de avaliar e fazer escolhas que, pessoalmente, seriam as mais corretas e desejáveis.

O Brasil é um país com péssimos indicadores sociais. Do meu ponto de vista, o pior indicador brasileiro é a distribuição de renda, das riquezas e da desigualdade social. Somos, tristemente, os campeões mundiais. Ao mesmo tempo em que há milhões de brasileiros vivendo na pobreza e na miséria, temos enormes recursos (financeiros, econômicos, tecnológicos, conhecimento, tempo, cultura de solidariedade) que poderiam ser colocados a serviço da eliminação da pobreza. Todos os recursos necessários para promover a inclusão social, que é o grande objetivo do programa Fome Zero, estão aqui, em nosso país.

O que falta é escolher o combate à pobreza como nossa prioridade maior (dos governos e da sociedade) e competência para que os recursos disponíveis cheguem àqueles que deles desesperadamente necessitam. Por exemplo, se cada empresa investisse em média num jovem desempregado de baixa renda, assegurando a ele uma remuneração e a continuidade dos seus estudos, toda a juventude pobre brasileira, tão ameaçada pela marginalidade, teria uma oportunidade de inserção social.

Promover a inclusão social deveria ser a maior prioridade do nosso país. E é neste momento que o papel da mídia -que, repito, tem o poder de agendar a sociedade, de eleger prioridades e provocar atitudes- se torna fundamental. Tudo é uma questão de escolha. A mídia, com justa razão, escolheu os horríveis atentados de Nova York como um grande assunto. Como consequência, imensos recursos foram e estão sendo mobilizados, alguns de boa-fé e outros oportunistas e manipuladores, para combater o terrorismo.

Vocês já imaginaram o que aconteceria, no mundo e no Brasil, se a mídia dedicasse, no mínimo, o mesmo espaço às 30 mil crianças abaixo de cinco anos -com rostos e nomes- que morrem diariamente de fome no mundo (500 só no Brasil)? Quanto espaço a mídia dedica a essa tragédia diária e quanto deveria dedicar? Quanto foi noticiado a esse respeito nos recentemente?

A persistência e o agravamento dos problemas sociais no Brasil ao longo de tantos anos deveriam nos ensinar que não podemos continuar com as posturas de sempre. Algo de radicalmente novo precisa acontecer: um basta à conformidade com essa realidade. Se todos os dias tivéssemos, sobre o combate à pobreza e a promoção da inclusão social, e na intensidade que o problema exige, notícias, denúncias, reportagens, campanhas, artigos, matérias contando ações exemplares que pudessem ser multiplicadas e incentivos, certamente a nossa realidade social seria completamente diferente (fazendo apenas críticas, espalhamos o ceticismo e o desânimo; apenas elogiando, mascaramos os problemas).

Não haveria nos governos, nos Parlamentos, no Judiciário e na sociedade civil nenhuma pessoa que não tivesse prioridade maior do que saciar a fome de milhões de brasileiros e que não procurasse agir para apagar essa vergonha nacional. Se o combate à fome e à pobreza fosse o balizador das nossas escolhas, se cada empresa e cada profissional de mídia se perguntasse diariamente se aquilo que está fazendo ajuda ou dificulta essa tarefa e procurasse contribuir da melhor forma possível, daria um sentido ao seu trabalho e à sua vida.

E teríamos, a exemplo das Diretas-Já ou do impeachment do Collor, o movimento irresistível da ‘Justiça Social Já’ e o impeachment da fome. (Oded Grajew, 58, idealizador do Fórum Social Mundial e presidente licenciado do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, é assessor especial do presidente da República.)"

 

MÍDIA EM CRISE
Cari Rodrigues

"Mídia brasileira: diretor da faculdade de comunicação da UNB debate crise no jornal M&M", copyright Meio & Mensagem in Clipping FNDC, 25/04/2003

"Murilo Ramos debatia a crise na mídia bem antes de ela se configurar como um problema quase generalizado entre os veículos de comunicação brasileiros. Diretor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do grupo de Pesquisa em Políticas e Tecnologias da mesma instituição, Ramos diz que falta profissionalismo no modelo de gestão da mídia nacional, caracterizado por administrações familiares. Ele analisa também a opção equivocada das empresas de comunicação, que apostaram na convergência de tecnologias e investiram grandes somas em telecomunicações, Internet e outros segmentos que hoje também estão em crise. Crítico da mídia, o acadêmico defende a idéia de que os meios de comunicação devem se mostrar mais abertamente para a sociedade, inclusive no que se refere a seus problemas, como acontece na Europa e nos Estados Unidos. Para ele, é preciso colocar a mídia em debate. Ramos se diz contrário a uma suposta proposta de que o governo do PT montaria uma operação de socorro financeiro para as empresas de comunicação. Fala também de questões como a despersonalização das redações e critica a proposta de desenvolvimento de um sistema de TV digital brasileiro.

Meio & Mensagem - Quais são, na sua opinião, os principais fatores que levaram a mídia brasileira às dificuldades financeiras que enfrenta atualmente?

Murilo Ramos - Eu entendo que o principal problema é de gestão. Acho que se trata de empresas que ainda funcionam na pior tradição da gestão familiar - temos no Brasil cinco, seis ou sete dessas famílias controlando veículos de comunicação. O profissionalismo é muito limitado na mídia brasileira. Um exemplo que gosto de dar é o das Organizações Globo, que têm uma história interessante: já houve uma gestão mais profissional, com José Bonifácio Sobrinho (Boni), Antônio Athaíde e outros, e foi perdendo isso à medida que uma nova geração, a dos filhos do Roberto Marinho, assumiu e ‘familiarizou’ o comando da empresa. O que parecia ser uma profissionalização, com Marluce Dias da Silva, na realidade fez com que um círculo menor e menos profissional assumisse a companhia. A crise financeira é, não obstante, real, e tem um viés de investimentos duvidosos, como os realizados em onerosas redes de televisão a cabo, duplicando estruturas. Não só o Sistema Telebrás, na época, oferecia a possibilidade de transportar sinais de televisão em suas redes de longa distância, os backbones, como Globo e Abril, por exemplo, chegaram a fazer o chamado overbuilding, isto é, lançaram redes próprias ao invés de buscar o compartilhamento. Na década de 90, acreditou-se na convergência das tecnologias digitais, em investimentos em companhias telefônicas, e as empresas de mídia não se deram bem. Houve o equívoco generalizado da convergência, que exigiu investimentos em dólar, coisas do gênero, mas insisto que, no limite, há um problema de gestão.

M&M - O senhor concorda que o governo federal deveria socorrer os veículos de comunicação, tendo como contrapartida a participação da sociedade sobre o conteúdo?

Ramos - Não. Não vejo por que o governo teria de ajudar as empresas de mídia. Podemos ter determinadas situações em que a ação do Estado poderia se fazer necessária, mas não é o caso das empresas de comunicação. Principalmente se essa for a contrapartida. Acho que seria a pior solução fazer essa troca: nós, sociedade, permitimos que o governo use o dinheiro dos nossos impostos para tirar as empresas do buraco e, em contrapartida, nós criamos mecanismos para fazer com que a mídia seja mais responsável em termos de conteúdo e valores. Não vejo como fazer isso. O risco é inerente a quem se envolve em atividades de mercado. Por que se deve tirar o dinheiro de outras prioridades sociais para salvar um setor que não se permite ser entendido e analisado quanto às razões pelas quais encontra-se em crise? Eu posso achar que a gestão é o principal problema, mas há outros fatores. Vamos imaginar a hipótese de o governo salvar as empresas. Aí cobra-se mais responsabilidade delas. Como fazer isso se a sociedade não está bem informada com relação ao que provocou a crise da mídia? Na sociedade em geral - por meio de instâncias organizadas, sindicatos, universidades, associações, federações empresariais etc. - esse debate não está aberto, pois a mídia não fala dela própria. Por que não fazer, por exemplo, um Globo Repórter sobre a crise na mídia? Se há edições desse programa abordando crises nas telecomunicações, no setor de energia, de saúde, por que não um sobre as questões que afligem a indústria da comunicação? Se a mídia quer uma solução para seus problemas, primeiro ela tem de permitir ser conhecida e abrir espaço para um debate.

M&M - O Conselho de Comunicação Social, criado no ano passado, poderia ser um fórum para esse debate?

Ramos - Eu acho que o CCS é o órgão certo para estudar essas questões. Ele tem de um lado os patrões e de outro os empregados, os sindicatos, as federações dos jornalistas, dos radialistas e alguns representantes da sociedade civil independente, mas tal formação tende a neutralizar o debate. Aferem-se posições aqui e acolá e fica um jogo de soma zero. Eu entendo que conselhos desse tipo são melhor constituídos com as chamadas personalidades de notório saber. Essa é também uma decisão difícil, mas que pode ser tomada. Você pode buscar nomes com representatividade que não estejam ligados a interesses corporativos diretos. Independentemente disso, acho que o CCS pode fazer esse debate, mas se ele não vazar para os meios de comunicação e acontecer apenas em circuito fechado não adiantará muito. Trata-se de um dilema quase sem solução. O grande drama da crise da comunicação social é que o debate é fechado em si mesmo. Acho, ainda, que o CCS só conseguirá se legitimar se houver uma discussão mais intensa com a sociedade a respeito das questões da mídia. Observe que os meios de comunicação passam juízo de valor sobre tudo, menos sobre eles próprios, como se estivessem acima do bem e do mal, imunes de percalços. E aí, farisaicamente, quando a crise é deles, forçam a barra querendo até se colocar como questão de interesse nacional, aceitando que o governo do PT monte, como chegou a se falar, um programa de socorro financeiro. Isso é de uma hipocrisia enorme. O pré-requisito fundamental para a mídia sair da crise é o debate com transparência.

M&M - O senhor acha que a terceirização dos profissionais que trabalham na mídia pode piorar ainda mais o conteúdo oferecido pelos veículos?

Ramos - Há um problema hoje que é mundial, em que você tem uma reconfiguração nas empresas e no modo de fazer jornalismo. Então, ocorre cada vez mais a terceirização, que gera uma despersonalização do jornalismo. Isso é fato. Os profissionais da área têm cada vez menos liberdade que no passado, porque as redações tinham grande autonomia para produzir o jornal. Tal despersonalização é resultado desse processo de empresas trabalhando cada vez mais nos moldes de outras empresas, sem diferenciações que deveriam marcar o jornalismo. A imprensa não é uma seguradora, uma companhia de cartão de crédito. Existe a responsabilidade pública nos meios de comunicação e a diferenciação entre os meios está sumindo. Mídia é negócio, mas é um negócio diferente. O dono de um jornal, um Nelson Tanure (empresário proprietário do Jornal do Brasil), por exemplo, precisa assumir que é um empresário que recebe um mandato da sociedade para freqüentar espaços que o cidadão comum não freqüenta, pois ele entra nos palácios, entra nos gabinetes, tem acesso às pessoas. Isso não acontece porque ele é o Tanure, o dono do Jornal do Brasil, mas porque a sociedade lê o jornal que ele publica e é ela quem dá a ele o direito e a capacidade de ter acesso aos locais que não podem ser atingidos pelo cidadão comum. Quem garante o acesso de um jornalista a um determinado local ou a uma certa personalidade não é o dono do jornal no qual ele trabalha, mas sim a sociedade. Então, quem é dono de jornal tem que saber que o seu negócio é diferente. Precisa dar autonomia para sua redação, sintonizá-la com a sociedade e não querer ganhar dinheiro como ganharia construindo navios, por exemplo. Essa é uma questão fundamental. O caráter público de um veículo não é só um atributo das concessões de rádio e televisão que o governo dá. O caráter também é inerente aos veículos impressos privados. Roberto Civita não tem o direito de colocar na Veja o que ele bem entende, o que ele faz sistematicamente, pois não é a opinião dele que interessa. Ou ele tem sintonia com a sociedade ou perde a legitimidade de ser dono de uma revista. Infelizmente, a sociedade não tem compreensão desses processos para saber que o que ele está fazendo não é direito dele. Ter uma visão ideológica, uma visão de mundo, apoiar determinadas situações, certos modelos, são coisas que precisam ser discutidas com a crise da mídia. Os donos dos veículos deveriam assumir a sua responsabilidade social. Como hoje a lógica é despersonalizar, terceirizar os serviços, quando você coloca isso numa redação é um desastre.

M&M - E essa visão meramente empresarial se reflete no conteúdo?

Ramos - Claro que sim. Esperava-se que na Internet, por exemplo, houvesse textos longos, capacidade de análise. Os portais hoje são pílulas de notícias, caíram na mesma dinâmica. Esse é outro problema. Os textos estão perdendo qualidade. Cada vez mais as pessoas não têm tempo e essa é uma cultura que exige uma velocidade muito grande, maior compressão de tempo e espaço. Essa desculpa de que as pessoas não lêem textos grandes é velha. Como é que a The Economist existe? Ela pode ser conservadora, mas é brilhante nas suas análises e nos seus textos.

M&M - A participação do capital estrangeiro na mídia vai ajudá-la a superar essa crise?

Ramos - Nunca vi, em tese, problema para abertura da mídia ao capital estrangeiro. Mas, durante o processo de abertura, acabei ficando contra, pois defendo, além de limite de capital, um marco regulatório adequado. É necessário rever todo o arcabouço normativo no rádio e na televisão. A lei que sobrevive até hoje é de 1962. O Fernando Henrique Cardoso quebrou, em 1995, o monopólio da Telebrás e refez parte da legislação sobre comunicações. Mas, por oportunismo, deixou a radiodifusão de fora. Então é preciso estabelecer um procedimento de modo que o capital estrangeiro venha, mas com um novo marco regulatório, com uma re-regulamentação e, principalmente, com um órgão regulador. E isso ainda não entrou em discussão. Do jeito que foi aprovado, sou contra por dois motivos: a sociedade está desprotegida, porque não há marco regulatório; e o investidor não vai botar dinheiro onde não há regras claras que garantam o sucesso de seu investimento. Se vier, será o investidor ruim. A Rede Globo achava que viria para ela, mas ela está tão desgastada que acho que não virá nem para ela.

M&M - Qual a sua opinião sobre as agências reguladoras do governo, como a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel)?

Ramos - Eu apóio e defendo o governo do PT, mas acho que ele está equivocado ao querer acabar, por exemplo, com o modelo de agências sem ter uma alternativa viável para elas. As agências são o marco regulatório da energia elétrica, do petróleo, das telecomunicações, e o governo vai afugentar investidores nessas áreas se eliminar as agências. O investidor corre um risco muito grande, porque estará sujeito a oscilação, ao problema da quebra de contrato que foi tão debatido durante o período eleitoral. Se não houver marcos regulatórios próprios, que sejam respeitados, vamos ter problemas. Recentemente, o ministro das Comunicações, Miro Teixeira, esculhambou com a Anatel durante um evento em São Paulo. Isso deixou o mercado em polvorosa. O investidor pode pensar que, a qualquer hora, nenhuma regra vai valer mais. Criaram a Secretaria de Telecomunicações, no Minicom, com a atribuição de fiscalizar a Anatel e exercer tutela sobre o órgão regulador. Assim é melhor acabar com o órgão regulador. No caso do rádio e da televisão, sem marco regulatório, o investimento externo não vem e a sociedade fica desprotegida. Há pessoas capazes e de bom senso no governo que sabem que este modelo pode ser melhorado, mas o que eu vejo hoje é a tentativa pura e simples de desmontá-lo, o que é um problema muito grave. Não que o modelo das telecomunicações não possa ser mudado. Pode e até deve. Principalmente se for incluído nessa mudança o novo marco regulatório do rádio e da televisão. Mas isto não pode resultar de atitudes irracionais, como se o desmonte puro e simples da Anatel pudesse compensar, para alguns, o erro cometido pelo governo anterior quando privatizou, fatiando, o Sistema Telebrás.

M&M - Como o senhor vê a Lei de Radiodifusão?

Ramos - Eu chamo isso de barafunda regulatória. O atual governo não tem interesse na Lei de Radiodifusão, ou, como prefiro chamá-la, Lei da Comunicação Social Eletrônica, porque não quer brigar com os meios de comunicação. Primeiro é preciso aprovar a reforma tributária, da previdência. Mas, se o governo fosse mexer ao mesmo tempo com uma lei para o rádio e a televisão, isto iria criar um atrito direto com os meios de comunicação, supostamente prejudicando o andamento das outras reformas. Eu sou pessimista: acho que o governo do PT jamais fará essa lei. Nesse ponto, não será diferente de Fernando Henrique Cardoso e de tantos que o antecederam.

M&M - Qual a sua opinião sobre a idéia do ministro das Comunicações, Miro Teixeira, de desenvolver um sistema de TV digital brasileiro?

Ramos - Eu não entendo como o CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento do Setor de Telecomunicações), uma fundação privada, que deu uma consultoria enorme para a Anatel para avaliar os padrões tecnológicos americano, europeu e japonês, esquece tudo o que fez e está querendo pegar dinheiro para fazer uma outra proposta de um sistema nacional de TV digital. Não entendo porque o CPqD mudou de posição e ninguém está cobrando isso dele. O CPqD deu consultoria para o governo, a partir de uma demanda do grupo formado pela Sociedade de Engenharia de Telecomunicações (SET) e pela Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), para estudar padrões tecnológicos, modelos de negócios, de conteúdo; deve ter recebido um volume expressivo de recursos. Agora chega e diz que isso não importa mais e quer seguir outro caminho? Antes de se discutir a tese, que é legítima, de um sistema nacional, deve-se perguntar porque o CPqD não alertou o governo antes, não alertou a sociedade para o equívoco que estava sendo cometido? Ou se alertou, porque isto não se tornou público? O que me preocupa também é a proposta do ministro de montar um pool de universidades para fazer esse projeto, e tenho a desconfiança de que esse pool pode ser uma fachada para que o CPqD e o Instituto Genius, que é ligado a uma empresa privada - a Gradiente, do empresário Eugênio Staub, o primeiro a apoiar a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República - desenvolvam o projeto, pois são eles que o têm. Para dispensar a licitação, está se montando um pool e temo que as universidades públicas entrem nisso desavisadamente para pegar uma fatia de recursos que na realidade vai ser consumida pelo CPqD/Genius. E digo isso na condição de professor de uma universidade pública. Além do mais, acho que a TV digital não é prioridade para o Brasil neste momento. Não há pressa para a TV digital, principalmente quando a discussão começa erroneamente pela tecnologia, justamente o que tem gerado enormes problemas nos países onde foi implantada de forma precipitada: os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. A discussão relevante envolve questões de conteúdo, questões regulatórias, o papel social da televisão, o controle público da informação, o direito à comunicação, isso é que é importante. Se será digital ou analógico, isso é parte de um futuro que ainda não conhecemos. Para mim, essa questão de padrão digital é irrelevante enquanto não se atacar as questões estruturais com profundidade e com intensa participação da sociedade.

M&M - Como o senhor está vendo a cobertura da guerra no Iraque?

Ramos - Manipular a informação é parte da estratégia dessa guerra e o império norte-americano está vivendo uma contradição brutal. Observe que os Estados Unidos restringem seus direitos civis, que estão na origem da sua história republicana, como na idéia de criação de um cadastro de todos os cidadãos americanos. Se unirmos a isso a pressão brutal que está sendo exercida pelos grandes veículos de comunicação dos Estados Unidos na guerra com o Iraque, percebemos que a manipulação de informação é de uma gravidade brutal como jamais se viu. A imprensa teve importância fundamental na guerra do Vietnã, cuja cobertura foi realizada por uma mídia independente. É preciso que haja uma reação da mídia norte-americana, ela não pode continuar comprando essa versão absurda, na qual só há mentiras, de serem as armas químicas e a ‘libertação’ do povo iraquiano as razões para o conflito. É preciso que os grandes jornais e televisões dos Estados Unidos, assim como os pequenos veículos, façam reportagens mostrando as mentiras dessa guerra. Se isso acontecesse, seria possível que o esquema do governo americano fosse quebrado. Se essa guerra se estender, em algum momento alguma redação, algum veículo, vai funcionar pela pressão da opinião pública. O que reafirma que a mídia só existe em função da opinião pública."

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