07/05/2003 13/24

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MERCADO DE TRABALHO
Eduardo Ribeiro

"Quando free-lancer era sinônimo de status", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 30/04/03

"Num dos últimos programas Comunique-se, na alltv, o repórter fotográfico Samuel Iavelberg lembrou do período em que trabalhou na Europa como free-lancer da agência francesa Gamma, viajando para países como Portugal, Itália, França, Inglaterra, e para onde mais as pautas o empurrassem. Exilado, Samuca acabou encontrando na fotografia a sua oportunidade profissional. Dela nunca mais saiu. Mas naqueles tempos, lembra Samuca, em meados dos anos 70, os veículos de comunicação europeus não tinham o costume de contratar repórteres fotográficos, optando por contratar fotógrafos free-lancers para coberturas e pautas especiais, ou mesmo comprando material por eles produzidos por iniciativa própria. Ser free-lancer, naquele contexto, era possivelmente o jeito mais nobre de exercer a atividade profissional, com a liberdade e a remuneração que isso representava.

Quando regressou ao Brasil, no início dos anos 80, nos ventos da abertura democrática, Samuca veio disposto a manter, no Brasil, a mesma fórmula de trabalho que conheceu e aprovou na Europa. Doce ilusão. Aliás amarga desilusão. No Brasil, com as raras e honrosas exceções de praxe, o trabalho free-lancer, à época, era um trabalho marginal, mal remunerado e reservado em geral para quem precisava fazer um bico ou estava desempregado. Não dava, pois, para viver de fotografia no Brasil como free-lancer, pois além da perda de ‘status’ isso representava efetivamente uma perda financeira significativa.

Foi quando ele se decidiu a trabalhar com carteira assinada, passando então por algumas empresas e publicações, entre elas IstoÉ, Exame e outras.

Curiosamente, mais tarde o próprio Samuca se viu compelido a voltar ao regime de trabalho free-lancer, aí não tanto por opção, mas sim em decorrência do enxugamento do mercado e dos baixos salários que a maioria dos veículos passou a pagar para os tão sofridos repórteres-fotográficos. Foi quando montou a Câmera 1, inicialmente para fazer frilas para os próprios veículos de comunicação, e que hoje dedica-se predominantemente à atividade corporativa. Já se vão dez anos dessa história e hoje ele obviamente não cogita mais voltar para uma redação, a despeito de todas as dificuldades e oscilações que enfrenta no dia-a-dia do mercado, agravadas por uma concorrência sem precedentes.

O frila, nesse período, cresceu, e muito, fruto, de um lado, do enxugamento das redações, e, de outro, do menor custo que representa para as empresas, que não precisam pagar, nesses casos, os enormes encargos sociais de uma folha de pagamento tradicional.

A única coisa que não ocorreu foi a valorização desse trabalho, que, de um modo geral, exige muito e paga pouco, além de não dar aos profissionais a garantia de uma remuneração regular.

O lado bom é que ele, o frila, é tábua de salvação para muitos profissionais e muitas famílias, e uma das saídas tanto para desempregados quanto para profissionais de mais idade que já não encontram trabalho com carteira assinada no mercado - e, claro, um complemento no salário daqueles que ganham pouco e têm um tempinho para fazer um trabalho extra.

Infelizmente, ao contrário do que foi (e talvez ainda seja) na Europa, o frila no Brasil não foi adotado como uma prática nobre de exercer a atividade jornalística e sim como uma alternativa ao mercado formal de trabalho.

Quem sabe um dia isso mude também do lado de baixo do Equador e possamos ter um considerável número de jornalistas free-lancers, não porque foram empurrados, mas sim porque escolheram viver desse modo, emprestando seu talento para publicações diversas, numa negociação altiva e soberana, bem diferente do que hoje ocorre. Tal como Samuca nos bons tempos de Gamma."

 

CRÍTICA CULTURAL
Ana Maria Bahiana

"Cultura à Bahiana", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 29/04/03

"Bem-vindas e bem-vindos a bordo desta nave louca. Sei de onde ela vem mas, sinceramente, não sei para onde ela vai. Adoraria descobrir junto com voces - obrigada, Comunique-se! (sempre fui fã desse portal...). E me perdoem se o tom pelo menos destas primeiras mal tecladas vier muito ou totalmente internacional - estou vendo as coisas aqui da Costa Esquerda (ei! Aqui é o único lugar onde 30% do público são CONTRA o Bush... o resto do país está na base dos 20%!) e, para ser fiel a esta visão, talvez eu soe meio distante do feijão com arroz brasileiro. Mas não se iludam, caríssimos obreiros de Mercúrio, eu estou sempre de olho no Brasil...

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Greg Dyke, diretor geral da BBC, desceu a mamona na ‘cobertura’ das TVs americanas da invasão do Iraque. ‘A maior parte das TVs dos Estados Unidos se enrolou na bandeira americana e trocou a imparcialidade pelo patriotismo’, foi o resumo da (merecidíssima) bordoada.

Dyke estava falando num simpósio de jornalismo organizado pelo Goldsmith College de Londres, e reservou suas farpas mais agudas para o verdadeiro circo de cavalinhos que foi a ‘cobertura’ da Fox. Mas o mais interessante é onde a matéria desse discurso apareceu, aqui nos EUA: não nas páginas de política ou de mídia ou mesmo de internacional mas (com destaque) nas folhas dos chamados ‘trades’, as revistas (diárias, em Los Angeles; semanais, no resto dos EUA e no mundo) dedicadas às entranhas da indústria cinematográfica: Variety e Hollwyood Reporter. Porque a invasão do Iraque foi - e é - um produto de entretenimento. Uma peça da programação, competindo com Friends ou Big Brother ou o derradeiro ‘reality’-du-jour.

A guerra do Vietnã pode ter sido o primeiro conflito televisionado (e, muitos garantem, a presença sem retoques da sua realidade sangrenta entrando pelos lares da Maioria Silenciosa na hora do jantar foi um fator decisivo na sua queda de popularidade) mas a Guerra do Golfo de 1991 foi a primeira guerra de TV. Editada, empacotada, narrada, produzida como um programa de TV. Ou você acha que aqui nos EUA alguém viu imagens de crianças ensangüentadas, casas destruídas ou civis mortos? Que nada - a coisa foi pirotécnica e remota como um videogame.

Desta vez - no ‘Clone do Ataque’, como a invasão foi chamada num genial cartum satírico - a produção teve requintes de junket de Hollywood. Quando, dois meses antes do ataque, eu comecei a ler matérias sobre o esquema de ‘embedding’, senti um estranho frio no estômago - a guerra estava sendo tratada exatamente como um lançamento de filme, com seleção prévia de jornalistas, extremo controle de acesso e os requintados jogos de poder que, até então, eram primazia dos estúdios. O resultado, como Mr. Dyke bem apontou, foi o que se viu. Ou não viu.

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Quanto mais dizem que o modelo novo-jornalismo da Rolling Stone (dos áureos tempos) está superado, mofado e diluído, mais se parece ter saudade dele. Estreou nas bancas dos EUA, esta semana, uma nova revista mensal, a Radar. E, mesmo antes do lançamento, a debutante já estava sendo chamada de ‘a nova Rolling Stone’ - e seu criador, Maer Roshon (ex-editor da finada Talk) de maluco. ‘Não sei que mercado ele está tentando atender’, sibilou o editor da Folio: ‘É loucura lançar uma revista dessas agora’, vociferou o colunista de mídia da revista New York.

E no entanto... Radar é esperta. E não é a Rolling Stone: sua mistura de sátira, fofoca bem apurada e jornalismo de cultura e comportamento tem relação direta com a Spy americana dos anos 80 e a Actuel francesa da mesma década (não é coincidência que Jay McInnerney, poster-boy da década yuppie, assina uma das matérias do número de estréia). A Radar ainda não achou sua voz (quem acha no primeiro número?) mas está sozinha num nicho semi-abandonado: o jornalismo de vida e cultura com substância e bom humor.

Mais: a revista é um enorme sucesso. Aqui em L.A., a primeira edição esgotou em 48 horas. Um reparte extra foi enviado e esgotou nas 48 horas seguintes. Enquanto escrevo isto aqui, a Radar número um está sendo re-impressa, para atender à demanda.

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Uma noite dessas eu estava revendo ‘Pollock’, um filme que é melhor do que parece, e que fica melhor quando se vê de novo. E uma coisa caiu na minha cabeça como uma tonelada de tijolos, como se diz aqui.

Pollock tá lá, na maior pindaíba, cavando marisco na praia para não morrer de fome, quando uma repórter da Life liga pedindo uma entrevista. A entrevista - cuja apuração e resultado final o filme de Ed Harris reproduz nos menores detalhes - mudou não apenas o rumo da carreira de Jackson Pollock mas, de fato, estabeleceu, aos olhos do público, a noção de que havia uma arte moderna autócne, americana como o jazz, capaz de lidar com ‘o rádio, a bomba atómica, o aeroplano’, os novos elementos do século passado.

Isso era o jornalismo de massa da década de 50. Quem seria capaz de fazer o mesmo, hoje?"

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