07/05/2003 18/24

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CARGA PESADA
Joaquim Ferreira dos Santos

"Sexo pago na estrada", copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 3/05/03

"Quem vê novelas da Globo não se espanta com mais nada e já entendeu que toda maneira de amor vale a pena. Não à toa as estudantes lésbicas de Mulheres Apaixonadas estão sendo muito compreendidas, sabe como?, pela audiência sensível, muito gente, saca?, das nove da noite. E no entanto é preciso cantar, é preciso renovar as tramas amorosas na teledramaturgia nacional e surpreender. Carga Pesada estreou na terça-feira. Um homem ama um caminhão. E é correspondido.

A Globo apresenta até seis horas diárias de histórias. São as três novelas principais, a reprise vespertina de Vale a Pena ver de Novo, Malhação, uma minissérie eventual, como a recém-terminada A Casa das Sete Mulheres, e mais A Grande Família e Os Normais. Haja criatividade, haja imaginação para desenhar novos pares amorosos. Ninguém mexe um músculo de curiosidade quando um coroa (José Mayer) pega uma gatinha (Camila Pitanga). Pós-balzaquiana (Suzana Vieira) com filézinho (Rafael Calomeni) também não, ainda mais depois dos beijos de Vera Fischer e Reynaldo Giannechini em Laços de Família, apenas três anos atrás. Mulheres Apaixonadas tentou ir além. Convocou um padre para formar par romântico com uma morenaça. Parecia quente. Mas foi atropelado pelo Titan da Volkswagen, a paixão arrebatadora do caminhoneiro Pedro (Antônio Fagundes) no primeiro capítulo de Carga Pesada. Loucura, loucura, loucura.

É um amor pago, claro. Ninguém se apaixona de graça por um caminhão, embora, olhando bem, o Titan, todo vermelho, uhhmmmm, com umas labaredas de vermelho mais forte pintadas na lataria, hummmm, seja muito jeitosinho. Pedro e seu parceiro Bino (Stênio Garcia) estão de volta à rodovia global depois de cruzarem o país em programas que ficaram no ar entre 1979 e 1981. Foi uma das melhores séries da televisão. Na nova fase, Bino suspeita estar com câncer e quer retornar, como numa despedida, ao que sempre lhe inspirou os melhores momento da vida - a estrada. É aí que ele compra o Titan e dá de presente para o amigo. O cinema antigo dizia ‘Nunca houve mulher como Gilda’. Agora o papo é outro. Nunca houve um caminhão como o Titan.

A Globo e a Volskswagen não revelaram o valor do merchandising, única forma encontrada pela emissora para viabilizar comercialmente o projeto Carga Pesada. A primeira vez de Pedro ao volante do Titan, na terça-feira, teve mais ou menos a mesma duração que os beijos entre os casais das novelas. Os beijos precisam ser longos para ganhar tempo, esticar o capítulo e deixar que se venda a musiquinha de fundo. No Carga, precisava também ficar claro que havia uma nova estrela em cena. Que fazia de tudo. Aboletado no lombo do Titan, Pedro, enlouquecido, pega o volante e, gritando, orgasmando, faz todas as posições possíveis - de ré, cavalo de pau, freia-e-vai, freia-e-vai, de ladinho, sempre com ótimo desempenho do caminhão - até que arranca com tudo e finge que vai meter o Titan numa lanchonete.

É sexo, claro. Mas se ninguém fica mais chocado com a professora Helena Ranaldi dando em cima do menino na escola, no Brasil de hoje não dá para se boquiabrir com o caminhoneiro que topa, tudo por dinheiro, amar o caminhão que só assim vai conduzi-lo pelos doze capítulos que a Volks já bancou para este ano. É um país inteiro, 170 milhões de pessoas, em busca de patrocínio. Carga Pesada conseguiu. A cena de amor entre Pedro e o Titan, quase um videoclipe, é seguida de outras em que os dois, mais Bino, cruzam cidades no sul do país - ou melhor, as cidades que pagaram para aparecer na telinha. Para ser sincero, fiquei mais chocado quando a Acadêmicos do Grande Rio desfilou, a soldo da Vale do Rio Doce, cantando na Sapucaí a mineração pátria.

A volta do merchandising radical a Globo, pelo menos no primeiro capítulo de Carga Pesada, soou natural. A empolgação de Pedro pelo Titan podia ser menos, claro. Mas, quem viveu sabe, início de relação é assim mesmo. Nenhum problema se os heróis da série são caminhoneiros e eles ganham a vida rodando num patrocinado. Nenhum problema também se, no caminho para o sul, eles param nas Cataratas do Iguaçu para um brinde em frente àquele monumento de águas que tão bem pagou para assim ser registrado.

A dramaturgia da primeira fase da série, sempre de olho nos excluídos, persistiu sem maiores concessões. Dois homens de bem, politicamente corretíssimos, entre uma entrega e outra falam do país, sua gente e complicações. No bom capítulo de terça-feira apareceu apenas uma mulher. Era uma assaltante. Parece que nos próximos Antônio Fagundes terá nos braços a quase primeira dama Patrícia Pilar. Vamos ver como o Titan vai controlar o ciúme."

 

Xico Sá

"‘Carga’ cria merchandising de autor", copyright Folha de S. Paulo, 1/05/03

"No lugar da velha filosofia de pára-choque, a propaganda desavergonhada. Explícita na fala dos atores. A maior novidade do retorno de ‘Carga Pesada’, série de sucesso do comecinho dos anos 80, é o merchandising de autor. No primeiro capítulo, um caminhão novo, vermelho, de uma marca lá qualquer, foi o centro da trama.

Nem mesmo o possível câncer de Bino (Stênio Garcia), suspense para o próximo episódio, teve mais peso dramático. Que biópsia que nada. Só se falou do ‘cheirinho de carro novo’. O caminhão é celebrado por Pedro (Antonio Fagundes) como brinquedo de criança. Não que homem não seja besta a esse ponto -o falo automotivo, senhores-, mas não carecia protagonizar o maior comercial fora dos intervalos da história da TV brasileira.

A lolita que pega carona para armar uma cilada contra Pedro e Bino fica encantada com a potência -a inveja do pênis, senhoritas- e beleza do novo veículo. O assaltante que espera os três no beco cresce os olhos diante da carreta. É a violência nas rodovias, nova realidade encontrada por Pedro e Bino duas décadas depois, também a serviço do merchandising. Tudo pelo social.

Quando fugiu um pouquinho só do drama bolado pelos marqueteiros, ‘Carga Pesada’ teve um naco da velha e boa prosódia das boléias. Como a fala de Pedro diante de um copo de uísque: ‘Esse é mais meu tipo de cachoeira que cascata!’. Momentos antes, Bino ficara abestalhado diante das cataratas do Iguaçu, que não conhecia. O subtexto da parada, em assobio inzoneiro: moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza... Coisa dos tempos de Amaral Netto, o repórter do ‘Brasil grande’.

Meu pai, ex-caminhoneiro da era do Fenemê, veículo das antigas, implicava sempre com a falta de verossimilhança do seriado que foi ao ar entre 1979 e 81. Chegava a ser chato, muito chato. Isso foi o de menos na reestréia de anteontem. O problema agora é saber até que ponto a trama vai conseguir sair do departamento de marketing para o de criação.

Além da boléia ‘moderna’, outra moda nova é a música-tema. Sai Renato Teixeira, autor e intérprete da versão antiga, e entra Chitãozinho & Xororó. Precisa dizer mais alguma coisa?"

 

LINHA DIRETA
Daniel Castro

"Justiça barra episódio de ‘Justiça’, da Globo", copyright Folha de S. Paulo, 1/05/03

"O programa ‘Linha Direta - Justiça’, da Globo, nem estreou e já está enfrentando problemas judiciais. Uma liminar da Justiça do Rio, concedida há duas semanas, está impedindo a exibição do segundo episódio do programa, previsto para ir ao ar no final de maio ou início de junho.

Especial mensal do ‘Linha Direta’, o ‘Justiça’ pretende reconstituir crimes que tiveram repercussão nacional. O primeiro vai ao ar na próxima quinta-feira.

A liminar foi obtida por advogados de Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, acusado de ter matado, em 1976, em Búzios (RJ), a socialite Angela Diniz, por ciúme. Street foi condenado, pela primeira vez, a cumprir pena de apenas dois anos, o que gerou protestos de feministas. No julgamento, prevaleceu a tese de que ele teria agido em legítima defesa da honra. Um novo julgamento, em 1981, resultou em sentença de 15 anos. Em 1987, Street obteve liberdade condicional.

Segundo a TV Globo, para obter a liminar contra o ‘Linha Direta -Justiça’, Street argumentou que não quer ver o caso novamente na mídia. A liminar estabelece multa de R$ 1 milhão se houver exibição.

A emissora já recorreu da decisão, e a produção do especial sobre Doca Street não foi suspensa. Além de disputas judiciais, o programa também tem enfrentado resistência de personagens ligados a Doca Street, que se recusam a dar depoimentos."

 

Revista Consultor Jurídico

"Procuradora critica suspensão de Linha Direta - Justiça", copyright Revista Consultor Jurídico (www.conjur.com.br), 3/05/03

"O programa ‘Linha Direta - Justiça’, da Rede Globo, sofreu censura prévia. A opinião é da procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo, Luiza Eluf, autora do livro ‘A paixão no banco dos réus’, ao comentar a liminar que barra o segundo episódio do programa previsto para ir ao ar no final de maio ou início do próximo mês.

O pedido de suspensão do programa foi feito pelos advogados de Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street. Ele foi condenado a 15 anos de reclusão por ter matado, em 1976, a socialite Angela Diniz, por ciúme. Street conseguiu liberdade condicional.

Para a procuradora, ‘a Justiça não pode barrar a exibição de documentário sobre um crime já fartamente publicado nos meios de comunicação’. Segundo Luiza Eluf, ‘uma vez exibido o programa, se o indivíduo se sentir lesado de alguma forma, aí sim poderá processar a emissora e o juiz analisará se houve ou não distorções’.

‘No caso Doca Street, ele não pode negar que matou Ângela Diniz. Se o programa disser isso, não pode haver nada de errado’, afirmou. De acordo com Eluf, ele não tem o direito de querer suspender a exibição do programa. A Globo já recorreu da liminar."

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