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GLOBO vs. SBT
Paulo Ricardo Moreira
"Globo obtém liminar que proíbe ‘Casa dos artistas’", copyright O Globo, 1/11/01
"O juiz Paulo Campos Filho, da 4 Vara Cível de Osasco, concedeu ontem liminar à TV Globo proibindo a veiculação do programa ‘Casa dos Artistas’, do SBT. A liminar também prevê uma multa diária de R$ 200 mil caso a emissora paulista não cumpra a determinação. Mas o SBT acatou a ordem judicial e colocou ontem no lugar do reality show o seguinte comunicado, repetido 24 vezes durante 15 minutos:
‘Infelizmente não exibiremos hoje (ontem) o programa ‘Casa dos artistas’. A TV Globo, através de liminar concedida pela Justiça, impede o SBT de exibir o programa. Esperamos que a Justiça prevaleça em favor de você, telespectador, para que em breve possamos continuar levando até você um programa de alta qualidade como o ‘Casa dos artistas’. Assista daqui a pouco ao ‘Programa do Ratinho’.’
A Rede Globo entrou na Justiça contra o SBT por plágio, já que ‘Casa dos artistas’ é inspirado no holandês ‘Big brother’, cujos direitos pertencem à emissora desde agosto. Nesta época foi criada em conjunto pela emissora e pela Endemol Entertainment a empresa Endemol Globo, com base na Holanda, mas pertencente ao grupo espanhol Telefónica.
Funcionários do SBT não sabiam do programa
O programa ‘Casa dos artistas’ entrou no ar em absoluto sigilo domingo passado, mesmo dia da estréia de ‘No limite III’, na Rede Globo. Nem os funcionários do SBT sabiam da existência da atração, que foi produzida em segredo há um mês.
Exibido em duas partes, o programa obteve média de audiência maior do que o ‘Fantástico’, das 20h44m às 21h43m: 33 pontos contra 25. Mas, no confronto direto com ‘No limite’, das 22h55m às 23h32m, perdeu por 27 a 32.
No estilo de ‘Big brother’, ‘Casa dos artistas’ reúne 12 famosos durante 45 dias em uma casa no Morumbi. A idéia é mostrar como os concorrentes – entre eles Alexandre Frota, Matheus Carrieri, Supla e Nana Gouvêa – suportam a convivência durante 24 horas sem televisão, jornal ou contato com a família.
A final do programa seria no dia 16, mesma data do último episódio de ‘No limite III’. O prêmio também é igual ao oferecido pelo programa da Globo: R$ 300 mil. Na segunda e na terça-feira à noite, durante meia hora, o SBT exibiu os principais momentos da gincana."
Ivan Angelo
"Nova briga revela mediocridade da televisão", copyright Jornal da Tarde, 1/11/01
"Lá estão a Globo e o SBT brigando por causa de programas copiados. Escrevi no último sábado sobre o quase nenhum empenho da televisão brasileira em criar programas originais, dedicando-se todas a copiar formatos e idéias estrangeiras, principalmente americanas. Alguns ‘formatos’ são comprados, isto é, a emissora local paga para copiá-los, mas a grande maioria é simplesmente ‘chupada’, usada com pequenas modificações. Muitos homens de tevê chegam a considerar que os formatos pouco comerciais, ou seja, aqueles por cujo direito de copiar ninguém briga, simplesmente fazem parte da cultura geral da tevê. Quem quer copia, imita, plagia, usa sem a menor cerimônia. Entretanto, copiar os que rendem um dinheirão pelo mundo afora recebe logo o nome de pirataria e uma ação na justiça.
Os comunicados que a Globo e o SBT espalharam pelos jornais em torno do programa Casa dos Artistas, lançado no domingo pelo canal de Silvio Santos, têm pontos interessantes, reveladores do que uma emissora pensa da outra e que geralmente guardam para conversas de bastidores.
A Globo se diz ‘mais uma vez’ vítima de pirataria e reclama da falta de ética da concorrente. O SBT ironiza sobre a ética da Globo. Estende no varal lençóis sujos sem dizer quem sujou. Diz que a Globo contratou autores de telenovela que já eram contratados do SBT e que a Globo banca para eles os processos judiciais decorrentes da predação. Que a Globo contrata artistas das outras emissoras e os deixa mofando no armário ‘apenas para desorganizar os concorrentes’. (Estes casos são conhecidos, divulgados na imprensa.) Que a Globo tornou-se dona das transmissões de futebol brasileiro, inclusive das próximas Copas do Mundo. (Fato debatido e combatido na imprensa escrita.) Que o grupo Globo usou a ‘desgraça de pais desesperados e de filhas seqüestradas’ para vender jornais. (A referência é clara ao seqüestro da filha de Silvio Santos, que na época fez um apelo à mídia para que não noticiasse o fato enquanto transcorressem as negociações. A Rede Globo não só deu a notícia como divulgou uma nota editorial, lida por William Bonner, dizendo acreditar que a divulgação, nesses casos, ajuda a vítima, pois possibilita localizar o cativeiro, estimulando a denúncia e o fornecimento de informações úteis. Silvio Santos, de cabeça quente, não perdoou o Grupo; e agora, de cabeça fria, demonstra que a mágoa continua, inclusive pela citação nominal depreciativa feita ao jornal Diário de S. Paulo, do grupo carioca.) O império contra-atacou dizendo que a nota do SBT não é séria. Que o SBT sabe que o programa custou muito caro porque tentou comprá-lo, recebeu o projeto (‘teve acesso a todos os detalhes do formato agora copiado’, diz a nota) e desistiu, obrigando-se a não usar as informações de know-how da produção obtidas no curso das negociações. Mas usou-as, diz a Globo, e aí está a produção Casa dos Artistas para prová-lo. A nota é apressada, pois fala da ‘história de 35 anos de artistas, autores e profissionais de TV’ da emissora, mas a TV Globo foi fundada em 21 de abril de 1965, e tem portanto 36 anos, e não 35, como diz o texto. (Há 35 anos, aliás, foi que Silvio Santos estreou na Globo o seu Música e Alegria.) À margem da discussão jurídica que se fará em torno da questão, cabe perguntar: será que é preciso conhecer mesmo os ‘detalhes do formato’ para copiar tal bobagem? Bastaria olhar aquilo, traçar um esquemazinho parecido e mandar ver. Será que o pessoal que pretente fazer desandar a maionese alheia não tem cabeça nem para se inspirar, precisaria ter o original nas mãos para decalcar ou colar? Não estou, é claro, defendendo plágios, mas levantando uma dúvida sobre o argumento.
A briga não se trava em torno de qualidade, mas de quantidade. No caso, quantidade de telespectadores e de anunciantes. Só existe porque a tal atração roubou espectadores do Fantástico. Se fosse um fracasso de público, como o de um programa essencialmente parecido (pessoas confinadas numa casa filmadas o dia inteiro) apresentado em um canal pequeno no ano passado, não haveria tanta celeuma. Em conseqüência, a audiência deve crescer ainda mais.
E afinal, o tal programa vale a pena? Vamos ver."
Joaquim Ferreira dos Santos
"Casa da Mãe Joana", copyright no. (www.no.com.br), 1/11/01
"Chacrinha estava certo. Na televisão nada se cria, tudo se copia. O SBT radicalizou e clonou o Big Brother, um reality show americano cujos direitos no Brasil já estavam comprados pela Globo. Botou no ar, domingo, em cima do Fantástico, o Casa dos Artistas. Um punhado de pessoas dentro de uma casa com câmeras filmando até no banheiro. Parece que do ponto de vista jurídico não tem saída. A Globo está certa. Pagou os royalties pela idéia. Nesta quarta-feira, depois de exibido durante três noites e fazer estragos na programação global, batendo a audiência do Fantástico, o Casa dos Artistas foi impedido de ir ao ar. Você já tinha visto a miséria moral dos pobres no Ratinho. Casa dos Artistas, protagonizada por 12 pessoas que já tiveram bem mais que seus 15 minutos, entre eles Alexandre Frota, Supla, Nana Gouveia, Taiguara e Mari Alexandre, flagra a grossura classe média em sua forma mais vulgar e r! epugnante. O Brasil dos lutadores de jiu-jitsu com pitbull sem focinheira, das mulheres de QI siliconado, todos cheios de tatuagem, o Brasil branco urbano mostra sua cara assustadoramente burra.
A idéia é, ou era, deixar o grupo durante 45 dias dentro da tal casa. Aos poucos, o critério não foi divulgado, iriam ocorrendo as eliminações. Você já viu algo parecido. No Limite estreou sua terceira versão no domingo, na Globo, com as mesmas gincanas bobas e a torcida da produção para que seus anônimos se desentendam no meio da floresta. No primeiro programa, tédio. No segundo, parece que será servido um banquete de minhocas. Nojo. Casa dos Artistas aposta na mesma animalidade humana, mas com algo mais cruel. Na casa-jaula não é preciso joguinhos para ver quem acende a tocha primeiro, uma das provas de No Limite no domingo passado. As diferenças no SBT serão acirradas pela simples convivência, essa desumanidade diária que nos aflige no lar ou no escritório. Quem viu a performance de Alexandre Frota exibindo suas façanhas machas aos cinco companheiros da casa, sabe que uma minhoca desce muito bem.
O tal Alexandre, o corpo grotescamente deformado, conta a sua platéia embevecida como deu um ‘passapé’, uma rasteira, em pleno sambódromo carioca, na vedete-cantora Regininha Poltergeist (o sobrenome é apagado por um sinal sonoro). ‘Uma canalhice’, ele reconhece. A pobre coitada é chamada de bêbada, ridicularizada e é a vítima de uma história de Alexandre atrás de mulheres. Qualquer uma. ‘Pô, aí mermão, todo dia tenho que passar o cerolete numa, eu me conheço’, diz para a galera de machões que desaba em gargalhadas. Todos se coçam, todos andam com as pernas abertas, todos falam gritando, todos riem como hienas, todos pontuam suas frases com palavrões, principalmente Supla, o filho da prefeita, que esperava a qualquer momento a chegada de um helicóptero mandado pela mãe. O Brasil cafajeste inteirinho no seu vídeo, visto pelo buraco da fechadura – que por sinal, fica desenhada o tempo todo num dos cantos da tela. No primeiro capítulo Alexandre Frota tomou banho inteirament! e nu.
As mulheres ainda não haviam mostrado muito do que são capazes quando o programa foi retirado do ar. Uma confessa ter sido traída pelo namorado. Outra abaixa a calcinha, tenta se esconder de uma câmera pela direita, mas é alcançada pela que está de frente enquanto passa um creme nos glúteos. Haja creme. São todas donas de peças avantajadas, pepônias monumentais e se balançam histéricas quando um dos rapazes falava meia dúzia de palavras em italiano. ‘Who let the dogs out’, grita a loura número três enquanto a número quatro responde ‘uh, uh, uh’ num pretenso rap. A loura número cinco é mostrada chorando abraçada com um bonequinho careca. Todas de calcinha ou short apertado. O grupo parece ter sido escolhido numa mesma academia de ginástica e isso marca um dos erros da produção. São apenas bundas e botoxes desarticulados, ignorantes do que seja desarticulado ou qualquer outra palavra com mais de três sílabas. Se quem come açaí está assim, imagina os que traçam minhoca. Cas! a dos Artistas, com sua vulgaridade explícita, é essa imensa Casa da Mãe Joana que habitamos todos."
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