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GLOBO vs. SBT
Gabriela Goulart

"Hoje é dia de guerra", copyright Jornal do Brasil, 4/11/01

"Domingo é dia de briga na TV. Está declarado. De um lado do ringue, a Globo. Do outro, o SBT. Desde junho do ano passado, quando Gugu Liberato começou a levar à lona, seguidamente, seu maior concorrente, Fausto Silva, o que era briga virou guerra. No embate entre as duas maiores emissoras abertas do país, sobram estratégias de ação, atrações mantidas sob o mais absoluto sigilo, índices de audiência contabilizados minuto a minuto, mudanças de última hora na programação, remanejamento de intervalos comerciais e, em casos extremos, apelos até para a Justiça. Mais do que de guerra, as táticas são de guerrilha.

‘Parece coisa de terrorista. Vemos onde a Globo mais fatura, escolhemos o alvo e definimos quem queremos derrubar no domingo’, brinca o diretor de programação do SBT Mauro Lissoni. E quando se fala em última hora, é última hora mesmo. Como se diz no futebol, aos 45 minutos do segundo tempo. Foi assim no domingo passado, quando, sem qualquer alarde, o SBT decidiu exibir o reality show Casa dos artistas. O objetivo era acertar o Fantástico e atingir de raspão a estréia da terceira versão de No limite, da Globo.

Resultados - A mira foi certeira. O tiro, idem. Durante o tempo em que concorreu com o Fantástico (das 20h44 às 21h43), Casa dos artistas obteve 33 pontos de média contra 25 do concorrente. Das 22h55 às 23h32, contra o No limite, o abalo foi menor, mas não menos substancioso: 32 pontos de média para a Globo e, no calcanhar, com 27 pontos, ficou o SBT. A primeira derrota do Fantástico soou todos os alertas. No mais intenso vermelho. Segundo mais prestigiado produto jornalístico da Globo, onde um comercial de 30 segundos em rede nacional custa a bagatela de R$ 141.180 - o primeiro é o Jornal Nacional (R$ 166.690) -, o programa nunca tinha perdido em seus 29 anos de existência. O SBT invadiu terreno proibido.

A reação foi imediata. Na segunda-feira, a Globo recorreu à Justiça e tirou do ar Casa dos artistas, sob a alegação de que era um plágio do reality show Big brother, produção da qual detém os direitos. Por pouco tempo. O programa ficou suspenso apenas dois dias. No início da noite de sexta-feira, o SBT derrubou a liminar e voltou a exibí-lo. Hoje tem novo round na briga pela audiência.

Segundo avaliação interna da cúpula da Globo, a derrota do Fantástico se deu porque o programa, fora as consistentes reportagens sobre a guerra no Afeganistão, estava ‘morno’. Além disto, como o assunto terrorismo já não causa o mesmo impacto de antes, a novidade de Silvio Santos estourou como bomba aos olhos do telespectador. ‘O Fantástico descuidou’, resumiu um executivo da Globo.

Truques - Para esquentar o que estava morno, o Fantástico vai tentar fazer mágica hoje. Ressuscitou o Mister M, que ensinará truques para crianças e tirou da cartola o médico Dráuzio Varela, que dará noções de primeiros-socorros no quadro E agora, doutor?. Também vai apelar para a emoção com a história de duas crianças brasileiras que foram criadas na Alemanha e, depois que a mãe sumiu, foram enviadas de volta para cá pelo governo alemão. Na rastro do antraz, o jornalístico analisou o conteúdo de 150 cartas enviadas ao Congresso Nacional e às Assembléias do Rio e de São Paulo.

‘O Fantástico segue como sempre foi. Tudo que vai ao ar hoje já estava previsto. Nada foi gravado às pressas. É evidente que haverá uma caprichadinha’, garante a editora-chefe do programa Mônica Labarthe. O SBT não está disposto a dar trégua. Segundo Mauro Lissoni, o foco da emissora está no Fantástico. ‘Escolhemos o melhor produto da Globo e enfrentamos com o que temos de melhor para diminuir a audiência, abalar o faturamento e atrapalhar a mídia de outros programas da concorrente. Assim conseguimos neutralizar o Gente inocente, o Planeta Xuxa e o Domingão do Faustão’, explica.

A estratégia de neutralização dominical tem em Gugu Liberato sua maior arma. E Fausto Silva sua maior vítima. Para manter o controle-remoto parado em seu programa, o louro do SBT chega até a eliminar intervalos comerciais enquanto disputa com Faustão. Os números de audiência medidos em São Paulo, centro nervoso do mercado publicitário televisivo, respondem: nas últimas 73 semanas, o Domingo legal derrotou o Domingão do Faustão 70 vezes. No domingo passado por exemplo, Gugu teve média de 29 pontos e Fausto ficou nos 18.

Preço - O mercado publicitário já deu sinais de ter percebido a mudança de eixo da audiência. Hoje, quase não há mais diferença no preço de um intervalo comercial de 30 segundos, em rede nacional, no Domingão e no Domingo legal: R$ 68.330 no primeiro e R$ 67.303 no segundo. O sinal é mais evidente quando se analisa o anúncio de 30 segundos que é veiculado apenas em São Paulo: R$ 13.923 no programa de Fausto Silva e R$ 17.900 no de Gugu Liberato. ‘Esta variação se dá porque Gugu tem mais audiência em São Paulo’, diz José Eduardo Zito, diretor associado de mídia da agência McCann-Erickson Brasil.

No round de hoje, o Domingão do Faustão terá como principais trunfos um concurso de beleza entre casais apresentado por Cláudia Raia e uma homenagem a Roberto Carlos na voz de Ivete Sangalo. No Domingo legal, Padre Marcelo Rossi cantará as músicas de seu novo CD, o dançarino Xanddy mostrará cenas inéditas de seu casamento com Carla Perez - se isto for possível, já que o evento foi explorado ao máximo. Na pauta emoção, haverá o reencontro de duas irmãs com a mãe depois de 27 anos e, no rastro do rastro da guerra, uma reportagem sobre uma fábrica de armas na fronteira do Afeganistão."

***

"O vale-tudo pela audiência na TV", copyright Jornal do Brasil, 4/11/01

"Na briga pela audiência, as opções dominicais muitas vezes têm gosto duvidoso. E o telespectador sofre. Em geral, ele tem escolhido sofrer com os dramalhões que invadem o palco de Gugu. Mesmo quando as partidas do Campeonato Brasileiro, exibidas pela Globo às 16h, estão em jogo. Trunfo histórico, o futebol não vem obtendo os resultados retumbantes de antes. ‘O sucesso do Domingo legal se consolidou quando Gugu deixou de ficar só no palco e passou a participar mais do programa’, teoriza o diretor de programação do SBT Mauro Lissoni.

Na esteira dos bons números, o SBT começou a resolver sua grade de programação em busca da hegemonia dominical. Com a Sessão premiada, exibida das 12h15 às 14h15, começou a derrotar o Gente inocente, da Globo, e com o Qual é a música, das 14h15 às 15h40, abalou o império de Xuxa. No último domingo, o filme do SBT derrotou a Globo por um ponto (14 a 13) e a gincana musical aumentou a diferença para três pontos (15 a 12). ‘Não sei se o Gente inocente e o Planeta Xuxa vão comer panetone neste Natal’, ironiza Lissoni, especulando sobre o possível fim destes programas pelos maus resultados de audiência.

Equação - A Globo ainda está decidindo os rumos de sua grade nos domingos de 2002. Na avaliação de executivos da emissora, no entanto, o X da equação está no Domingão do Faustão. Algumas tentativas resultaram em tiros nágua. Foi o caso do Megatom, com o humorista Tom Cavalcante, que entrou e saiu do domingo mais rápido que piada sem graça. A idéia de associar vários programas - como o Planeta Xuxa, o futebol e o Domingão - e criar uma identidade única para o domingo também naufragou.

Tanto que, na última reunião semestral, a diretora-geral da emissora, Marluce Dias da Silva, encomendou projetos a todos os diretores de núcleo. Orientação: programas criativos e inovadores. Na balança, o risco de exibir uma atração que não esteja seguramente testada tem pesado mais do que simplesmente tirar Fausto Silva do ar.

‘Os programas da TV Globo buscam uma fórmula popular, com qualidade. Esta não é uma fórmula fácil de realizar, mas é aquela que resiste ao tempo. Quanto maiores são as opções de oferta de programação, mais difícil é oferecer produtos que agradem ao coletivo. Mas nós continuamos (e continuaremos) sendo capazes de fazer isto’, garante o diretor da Central Globo de Comunicação (CGCom) Luís Erlanger.

Segredo - Mas por que é tão importante domar o telespectador e dominar a audiência no domingo? A resposta vem do mercado publicitário. ‘O domingo é um dia estratégico e nobre para as emissoras e anunciantes. Fora dos grandes centros urbanos, os brasileiros não têm muita diversão neste dia e a audiência é majoritariamente familiar. Principalmente à tarde, quando o número de aparelhos ligados é quase o dobro daquele dos outros dias’, ressalta o 2° vice-presidente da Associação Brasileira de Agências de Publicidade, Roberto Duailibi, da DPZ.

Para o publicitário, o excesso de estratégias e mudanças na programação dominical não consiste em prejuízo para o mercado publicitário. ‘Em números absolutos, a audiência aumenta e o preço aumenta. Mesmo assim, para o anunciante, atingir tal audiência pelo preço que se cobra ainda é uma barganha. As emissoras têm consciência disto. Nesta disputa, a busca da novidade é fundamental. A repetição das mesmas fórmulas cansa’, diz Duailibi. Pelas atrações programadas para hoje, fica difícil acreditar que o telespectador também lucra com a disputa."

 

Ricardo Valladares

"Ataque de surpresa", copyright Veja, 7/11/01

"Para a Rede Globo, foi uma espécie de Pearl Harbor. Assim como os americanos foram surpreendidos pelo ataque japonês no Pacífico, em 1941, a emissora carioca foi pega de calças curtas quando o SBT pôs no ar o programa Casa dos Artistas, no domingo passado. Silvio Santos anunciou a atração pouco antes de ela estrear. Até ali, o projeto era segredo, inclusive para diretores do canal. O impacto na audiência foi considerável. Com pico de 33 pontos, o programa bateu o Domingão do Faustão e o Fantástico, que nunca havia sido derrotado em 28 anos de história. Ele também atrapalhou a estréia do No Limite 3, nova série daquele programa de sucesso da Globo em que um grupo de anônimos luta contra a natureza na paradisíaca Ilha de Marajó, no Pará. Mas não foi só isso que deixou a Globo em pé de guerra. O programa do SBT, Casa dos Artistas, é uma gincana em que doze pessoas conhecidas, como o ator Alexandre Frota, o roqueiro Supla e a modelo Mari Alexandre, convivem numa mansão cheia de câmaras. Até aí, muito interessante. O problema é que o Casa dos Artistas é semelhante ao show holandês Big Brother, cujos direitos no Brasil pertencem à Globo desde agosto passado.

Durante a semana, os ânimos se acirraram. A mando de seu vice-presidente, Roberto Irineu Marinho, a emissora carioca divulgou uma nota reclamando de ‘pirataria’. O SBT rebateu com um comunicado irônico, no qual acusa a Globo de ter ambições monopolistas. ‘Não satisfeito em derrotar o índice de audiência da TV Globo durante todo o domingo, o SBT cometeu a leviandade de, pela primeira vez, derrotar o Fantástico, sem pedir as desculpas devidas a esse pilar de moralidade e correção que é a TV Globo’, diz o texto divulgado pelo SBT, antes de apontar a avassaladora dominação exercida pela Rede Globo nos meios de comunicação brasileiros. Houve, paralelamente, uma batalha jurídica. Programado para exibição todos os dias, às 21 horas, o Casa dos Artistas foi ao ar normalmente por dois dias. Já na quarta-feira 31 não pôde ser veiculado, por causa de uma liminar que previa multa de 200.000 reais por dia em caso de descumprimento. Segundo o despacho do juiz, havia bons indícios de que se tratava de um caso de plágio. Os advogados de Silvio Santos apresentaram sua contestação no dia seguinte.

No ano passado, o SBT esteve em contato com a produtora holandesa Endemol, para comprar os direitos do Big Brother e de outros programas criados por ela. Seria uma transação de 7 milhões de dólares, que no fim não ocorreu. A Globo alega que, durante essas negociações, a emissora de Silvio Santos teve acesso a três manuais sobre a produção do show. Eles explicam o conceito básico do Big Brother, ensinam que tipo de participantes escolher, mostram os equipamentos necessários à realização do programa, indicam a casa ideal para o confinamento dos participantes e, por fim, apontam a correta colocação das câmaras e dos microfones para obter os melhores efeitos. Além disso, detalhes do Casa dos Artistas – como a idéia de usar gente famosa em vez de anônimos – teriam sido ‘roubados’ de algumas versões estrangeiras do Big Brother, adaptado em dezenove países desde 1999. Segundo a diretora do departamento jurídico da Globo, Simone Lahorgue, o SBT lançou mão de práticas de concorrência desleal e infringiu a lei de direitos autorais – que protege as ‘criações do espírito’, como os livros, as composições musicais e as obras audiovisuais. Um tratado de 1971, do qual Brasil e Holanda são signatários, garante à própria Endemol o direito de processar o SBT. A produtora holandesa, contudo, não tem adotado essa política. Na Argentina, uma versão oficial do Big Brother está no ar e sofre a concorrência de shows semelhantes, mas não há complicações legais.

‘Não é a primeira vez que o SBT faz coisas desse tipo’, diz a advogada Simone. Ela se refere a outros processos de plágio enfrentados pelo concorrente, envolvendo os programas Olimpíadas do SBT, Pequenos Brilhantes, Qual É a Música? e Show do Milhão. Nos dois primeiros casos, a autora das ações foi a própria Rede Globo, que venceu as causas. Silvio acredita que desta vez vai ser diferente. E revida os ataques da Globo. ‘Que eu saiba, eles não tinham os direitos de exibição do americano Survivor, quando fizeram o primeiro No Limite. E os dois programas eram idênticos’, afirma. O SBT investiu 5 milhões de reais para comprar e equipar a propriedade de 500 metros quadrados onde está sendo gravado Casa dos Artistas. Ela fica bem ao lado da mansão do próprio Silvio, no bairro paulistano do Morumbi. Pelo cronograma do SBT, as gravações vão até 16 de dezembro. Nessa data será anunciado o vencedor da gincana, descrita por Silvio Santos como ‘uma prova de paciência’ – ainda não se sabem exatamente quais serão as regras para a eliminação dos participantes. O ganhador embolsará 300 000 reais. Se houver um, é claro.

‘Nós vamos ganhar’

Na quinta-feira passada [1/1/01], Silvio Santos falou com exclusividade a VEJA sobre a polêmica em torno de Casa dos Artistas.

VEJA – Casa dos Artistas é cópia do Big Brother?

Silvio Santos – Não. Tenho algumas surpresas para mostrar. Os artistas, por exemplo, talvez não fiquem o tempo todo só num lugar. Nossa fórmula é diferente e eu vou provar isso. Nós vamos ganhar. Acho absurdo dizerem que não posso pôr pessoas dentro de uma casa e filmar seu dia-a-dia. Seria o mesmo que dizer que só pode haver um show de auditório porque alguém fez isso primeiro. Antes de a holandesa Endemol inventar o Big Brother, a Espanha já havia feito um programa sobre uma família, com câmaras escondidas num apartamento. E o Gugu já tinha brincado com a mesma idéia no quadro Família Pimenta. São variações sobre o mesmo tema.

Veja – Por que o SBT enfrenta vários processos de plágio?

Silvio – O Olimpíadas do SBT era uma cópia proposital das Olimpíadas do Faustão. Eu queria conhecer a opinião da Justiça. Perdi a causa. Mas a sentença também disse que é possível fazer programas com o mesmo formato. Então é isso. O Qual É a Música?, reivindicado por um americano, é apresentado por mim há quase trinta anos. Já o dono do programa inglês Who Wants to Be a Millionaire? veio ao Brasil e disse que sua atração era diferente de O Show do Milhão.

Veja – Falta ética entre as emissoras de TV brasileiras?

Silvio – Eu já tentei fazer um acordo de ética com todos os canais. A Bandeirantes disse de cara que não participaria. Os outros vieram conversar. Toda hora tinha uma cláusula que emperrava. Quando eu resolvia um problema, arranjavam outro. Ficou só na confusão."

 

Luiz Costa e Marta Avancini

"Casa dos Artistas’ derrota ‘Fantástico’", copyright Agência Estado, 5/11/01

"O programa Casa dos Artistas, do SBT, voltou a superar a audiência da Globo. Como no domingo passado, a atração exibida ontem entre 20h48 e 22h06, no horário do Fantástico, obteve 36 pontos de ibope ante 29 do programa concorrente. Exibido sem intervalos comerciais, Casa dos Artistas teve pico de audiência de 43 pontos, momento em que a Globo cravou 26 pontos. Cada ponto representa 44 mil domicilíos na Grande São Paulo.

No domingo passado, Casa dos Artistas conseguira 33 pontos contra 27 do Fantástico, na primeira derrota de público da revista da Globo em 29 anos. O apelo de ontem no SBT foi a definição da primeira baixa no Casa. A modelo Alessandra Scattena foi desclassificada em votação prévia feita pelos 12 integrantes do programa e endossada por 8 telespectadores.

Enquanto o apresentador Silvio Santos lia as justificativas de votos dos famosos, num espetáculo marcado pela humilhação pública das pessoas analisadas, o Fantástico exibiu, entre outros quadros, a escolha da musa de No Limite.

Apesar da batalha jurídica travada na semana passada entre a Globo e o SBT, a retomada da exibição do Casa, na sexta-feira, não havia alterado significativamente o comportamento do telespectador, até ontem. Na sexta, o Casa dos Artistas obteve 19 pontos (chegando ao pico de 22) ante os 39 da Globo - que nesse horário exibe o fim do Jornal Nacional e a novela O Clone. Anteontem, a rede de Silvio Santos manteve a média de 19, chegou ao pico de 23. A Globo subiu um pouco em relação ao dia anterior, chegando a 41 pontos.

Antes de a Globo obter a liminar que forçou o SBT a interromper a exibição - o que ocorreu na quarta-feira - o Casa dos Artistas havia conseguido 31 pontos no domingo (estréia do programa) e 20 na segunda e na terça-feira. Nesses três dias, o Ibope da Globo variou entre 42 e 45 pontos."


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