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GUERRA NA MÍDIA
Howard Kurtz

"Chefe da CNN pede equilíbrio no noticiário", copyright The Washington Post / O Estado de S. Paulo, 1/11/01

"O presidente da TV CNN, Walter Isaacson, mandou que seu pessoal contrabalance imagens da devastação de áreas civis em cidades afegãs com lembretes de que o Taleban abriga terroristas sanguinários, dizendo que ‘parece uma perversidade concentrar-se demais nas baixas ou sofrimentos no Afeganistão’.

Num memorando a seus correspondentes internacionais, Isaacson disse: ‘Quando recebemos boas reportagens sobre o Afeganistão controlado pelo Taleban, precisamos redobrar nossos esforços para mostrar que não parecemos estar simplesmente informando a partir de sua posição ou perspectiva. Precisamos falar sobre como o Taleban emprega escudos civis e sobre como o Taleban abriga os terroristas responsáveis pela morte de quase 5 mil pessoas inocentes.’

Enquanto mais bombas americanas extraviadas caem em áreas residenciais, causando estragos em lugares como um armazém da Cruz Vermelha e um lar de idosos (e ontem em um hospital do Crescente Vermelho, ler na página 14), as imagens de televisão daí resultantes motivam críticas ao esforço de guerra dos Estados Unidos. Isto provoca um debate crescente, que começou com a divulgação do videoteipe de Osama bin Laden, sobre como a mídia deve tratar imagens colhidas no próprio Afeganistão.

‘Quero ter a certeza de que não estamos sendo usados como palanque de propaganda’, disse Isaacson numa entrevista na terça-feira. ‘Entramos num período em que aumentam as reportagens e imagens de vídeo do Afeganistão sob controle do Taleban. É preciso fazer com que as pessoas entendam, quando vêem sofrimento de civis lá, que é no contexto de um ataque terrorista que causou enorme sofrimento nos EUA.’

Embora alguns correspondentes da CNN receiem ter um carimbo ‘pró-EUA’ em seu noticiário, todas as redes mostram-se claramente sensíveis às acusações de que estão fazendo o jogo do inimigo.

Depois que a conselheira de Segurança Nacional, Condoleeza Rice, pediu que chefes de noticiário das redes não exibam videoteipes de Bin Laden sem cortes, a MSNBC e a Fox News não levaram ao ar o vídeo seguinte, e a CNN exibiu só pequenos trechos.

Mas Jim Murphy, produtor-executivo do programa CBS Evening News, disse sobre as instruções transmitidas na CNN: ‘Eu não mandaria ninguém fazer algo semelhante. Nossos repórteres são espertos o suficiente para saberem que isso (a informação) precisa ser posto num contexto.’"

 

José Meirelles Passos

"CNN impõe patriotismo em notícias", copyright O Globo, 1/11/01

"A polêmica sobre a censura ao noticiário da guerra contra o terrorismo, sugerida dias atrás pela Casa Branca à mídia americana, aumentou ontem com a revelação de que a rede CNN decidiu baixar normas internas obrigando seus repórteres a dar uma versão mais patriótica às notícias que colocarem no ar.

Um memorando de Walter Isaacson, presidente da CNN, diz que quando forem feitas reportagens no Afeganistão, deve-se acrescentar ‘que é preciso ter em mente que os talibãs estão utilizando escudos humanos e que o regime abrigou terroristas responsáveis pela morte de quase cinco mil pessoas inocentes’, nos atentados contra Nova York e Washington.

Jornalistas temem que medida seja imitada

Isaacson disse que a idéia, por trás das novas normas, era evitar que a CNN passasse a ser utilizada como uma ‘plataforma de propaganda’ dos inimigos. Deu a entender que precisaria ficar claro que a matança de civis no Afeganistão deve ser mencionada como contraponto às mortes ocorridas nos Estados Unidos:

– Estamos entrando num período em que há muito mais reportagens e vídeos vindos do Afeganistão controlado pelos Talibãs. E queremos que as pessoas entendam que ao ver civis sofrendo lá, isso está dentro do contexto de que um ataque terrorista causou enorme sofrimento nos EUA – justificou.

Personalidades famosas do jornalismo americano reagiram com espanto e irritação às medidas da CNN, temendo que passassem a ser imitadas por outras redes de TV. Daniel Schorr, com 60 anos de carreira e ainda na ativa, disse que a iniciativa faz com que o jornalismo americano retroceda à época da Segunda Guerra Mundial:

– Naquele tempo, nós jornalistas tínhamos que usar farda para cobrir a guerra. E éramos classificados pelo governo como ‘parte do esforço de guerra’. Ninguém falava em censura porque, na verdade, só poderia cobrir quem se dispusesse a exercer a auto-censura – disse Schorr, atualmente analista da National Public Radio.

Repórteres da CNN diziam, ontem, estar preocupados com o que chamavam de ‘sede de patriotismo’. As normas recebidas por todos são bastante detalhadas. Um segundo memorando, de Rick Davis, chefe de padrões e práticas da emissora, continha vários exemplos de frases a serem incluídas.

Devem dizer, por exemplo: ‘Devemos ter em mente que o regime Talibã continua a abrigar terroristas que festejaram os ataques aos EUA.’ Ou: ‘O Pentágono tem afirmado repetidamente que está tentando minimizar vítimas civis no Afeganistão, mesmo que o regime Talibã continue a abrigar terroristas ligados aos ataques de 11 de setembro, que mataram milhares de inocentes nos EUA’.


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