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GUERRA NA MÍDIA
Nelson de Sá

"Fim da lua-de-mel", copyright Folha de S. Paulo, 30/10/01

Howard Kurtz, colunista de mídia do ‘The Washington Post’, anunciou com certa solenidade:

- A lua-de-mel com a mídia acabou.

Acabou a lua-de-mel de George W. Bush e sua ‘nova guerra’ com a TV. Frase de um correspondente da CBS na Casa Branca, falando da própria:

- Eles não têm a menor idéia do que estão dizendo.

Frase da ABC:

- Parece que as pessoas estão dando um monte de informações antes de saber realmente quais são os fatos.

Depois de perder para Osama bin Laden a batalha pelos ‘corações e mentes’ nos países muçulmanos, Bush vai perdendo batalha semelhante junto aos americanos, ou pelo menos junto à opinião pública.

E como quase todo governante eleito, nos tempos atuais, Bush reage como candidato. Ontem já corria que ele deve ir hoje à World Series, a série de jogos finalistas da temporada de beisebol.

Será em Nova York, com os Yankees em campo. Mas nem na propaganda política o presidente dos EUA vem dando sorte. Ontem mesmo foi anunciado pela Fox que a audiência da World Series, até aqui, é a mais baixa da história.

E pior: foi só divulgarem a idéia de Bush ir ao beisebol para o secretário da Justiça anunciar na CNN novo ‘alerta de terror’, para hoje. (...)"

 

Antônio Brasil

"No coração da guerra", copyright no. (www.no.com.br), 31/10/01

"No dia em que a juíza federal Carla Abrantkoski, da 16a. Vara Federal em São Paulo, decidiu que a exigência do diploma para jornalistas é inconstitucional, vale contar a história de Cristiana Mesquita. Repórter de televisão freelancer, 20 anos de profissão e veterana de diversas guerras, do Kosovo ao Haiti, ela é a única jornalista de TV brasileira que conseguiu entrar no Afeganistão. No Brasil, porém, não pode trabalhar. Falta-lhe o papel.

Aos 44 anos, Cristiana está morando num barraco feito de barro dividido com alguns outros correspondentes estrangeiros em Jamal al Sarad, a 70 quilômetros da capital, Cabul. Além de muito próxima da linha de frente Talibã, também está ao lado dos alvos militares de centenas de jovens pilotos norte-americanos com seus caças maravilhosos e bombas inteligentes. Como ela mesmo diz com seu jeito descontraído e resíduos de bom humor, ‘considerando os inúmeros erros, talvez as inteligências dessas bombas e de alguns militares aliados estejam em dúvida’.

Mas não existe qualquer dúvida, mesmo para os mais desligados, de que não parece ser uma boa idéia estar tão próximo desse tipo de notícia. Não seria melhor só descrever as imagens produzidas por outros jornalistas de qualquer outro lugar? ‘Não para mim. Alguém tem que fazer este trabalho e, por enquanto, também acho que esse alguém sou eu.’ Entre as limitadas fontes do Pentágono e as declarações fervorosas dos líderes Talibã, alguns jornalistas precisam ir onde as notícias estão.

E centenas desses jornalistas, de diversos países, aguardam há semanas por uma oportunidade de chegar até a linha de frente. Em pequenos aeroportos do Tajiquistão e Usbequistão, ou mesmo da fronteira do Paquistão, estão dispostos a esperar muito e pagar fortunas por uma carona num dos poucos helicópteros que se atrevem a desafiar o poderio aéreo americano. É uma viagem difícil que deve ser conduzida por pilotos experientes numa rota sinuosa e delicada por entre cadeias de montanhas, onde o clima é imprevisível.

Não foi o caminho escolhido por Cristiana. Tendo a obrigação de acompanhar duas toneladas de equipamento que servem a todas as televisões do mundo, seguiu por terra. Foram quatro dias e três noites atravessando em dois caminhões uma trilha utilizada apenas por contrabandistas, mulas e velhos guerrilheiros mujahedins. Talvez explique por que tão poucos jornalistas brasileiros conseguiram entrar em território afegão quanto mais chegar à linha de frente.

Cristiana foi contratada pela APTV, a agência internacional de notícias para televisão da Associated Press para fazer o impossível: levantar um posto avançado para muitos jornalistas de todo o mundo que precisam, mesmo que seja por alguns minutos, experimentar e transmitir os horrores da guerra. Todo esse trabalho para fornecer as imagens e informações da guerra vista de todos os ângulos e por todas as suas vitimas.

No Brasil, seu rosto congelado numa foto improvisada de última hora está freqüentando os telejornais da Globo e da GloboNews. Cristiana se tornou nossos únicos olhos e nossa única voz diretamente do Afeganistão. De Cabul, concedeu esta entrevista à no. por telefone via satélite.

Para começo de conversa, por que você esta aí?

Cristiana Mesquita - Poderia pensar em diversas razões que provavelmente iriam impressionar muito. Mas, na verdade, estou aqui por um motivo bem claro, pelo menos para mim. Preciso de dinheiro. Sou jornalista freelancer, trabalho para televisões de diversos países mas não posso trabalhar como jornalista no Brasil. Nunca estudei jornalismo e não tenho nenhum diploma. Apesar de trabalhar nesse ramo há mais de vinte anos e apesar de ter tentado muito, ainda não consegui o famigerado registro profissional. Quem sabe agora consigo. Mas, como todo jornalista, com ou sem diploma, também sempre quis ser correspondente internacional, ter um belíssimo salário fixo no final do mês etc. Infelizmente, se eu não trabalho, não recebo. Dificuldades aqui? Acho que já estou acostumada com dificuldades. Sempre digo para todos os meus colegas que cobrir guerras na verdade não é nada! Difícil mesmo é ser bailarina clássica. Ainda mais no Brasil e tendo, desde criança, uma professora ucraniana super exigente, a velha bailarina Eugenia Feodorova, que, assim como eu, também sobreviveu a várias guerras. Ela me ensinou a enfrentar qualquer coisa.

Trabalhei durante anos na Europa, cobri todo o tipo de matérias para TV principalmente as guerras na Bósnia, Kosovo, Haiti e tantos outros lugares que nem me lembro mais, graças a Deus. Tudo que aprendi nessa profissão foi trabalhando sempre com a maior dificuldade. Aprendi fazendo. Aqui no vale do Pashtan, no Afeganistão, estou trabalhando com velhos companheiros de outras guerras. Gente de diversos países que, como eu, precisam trabalhar para viver.

Onde você está exatamente e como você chegou até aí?

CM - Estou numa pequena cidade chamada Jabal al Sarad que fica a aproximadamente 70 quilômetros ao norte de Cabul, próximo das linhas de frente das forças da Aliança do Norte. Eles lutam há anos contra as milícias Talibã. Fiz provavelmente a pior viagem da minha vida. E olha que eu já estive em verdadeiras roubadas. Parecia um cenário bíblico. Além dos perigos de emboscadas e minas terrestres, eram desertos desolados e montanhas com mais de 4.000 metros de altura e temperaturas abaixo de zero durante a noite e calor durante o dia. Viajamos durante 4 dias e 3 noites. Contei os minutos e juro que em alguns momentos tive vontade simplesmente de chorar. Apesar de arriscado, tínhamos que tentar de qualquer maneira. Estávamos no Tajiquistão há semanas esperando um transporte aéreo. Todo mundo fala dos perigos de uma guerra mas na verdade o pior é sempre a espera e o tédio. Depois de alguns dias e muitas frustrações decidimos vir por terra. Além disso, as estradas estarão fechadas nos próximos dias por causa da neve.

Como é a sua rotina de trabalho, condições de vida e as dificuldades?

CM - Alugamos essa casa e instalamos nossos equipamentos para transmissão de televisão. Acordo às 7h30 sempre mas não tenho hora para dormir. Temos aqui equipes de diversos países como os EUA, Japão, Itália, Espanha e tantos outros e, com as diferenças de fusos horários, geramos matérias e transmissões ao vivo o tempo todo. Costumo sair pela manhã para saber o que está acontecendo e assistir aos briefings diários da Aliança do Norte. Na medida do possível, gravamos os bombardeios americanos e visitamos os locais atingidos. Também produzimos matérias para os nossos próprios clientes da APTN. Falo regularmente com a nossa central em Londres com o telefone via satélite. Fico sabendo o que está acontecendo e descrevo nossos planos para aquele dia. As condições de vida são sempre muito precárias. Mas, ainda assim, elas são bem melhores do que as condições dos afegãos, pobres coitados. A maioria nunca viu um dia de paz nos últimos 30 anos. A situação deles é muito difícil. Para eles e para nós, falta quase tudo. Alimentos e, principalmente, água. Com as dificuldades de transporte e acesso, os nossos suprimentos estão no limite. Para se ter uma idéia, a nossa água tem que vir do Tajiquistão e a estrada está cada vez pior. Banho só de cuia e não me pergunte como se faz cocô. Todo mundo pensa nos perigos de uma guerra mas eu sempre me lembro mesmo é das enormes dificuldades para se resolver os pequenos problemas do dia-a-dia. É uma barra, mas se trabalha tanto que acabamos esquecendo tudo. Esquecemos até de sentir medo. Não dá tempo.

E o seu trabalho para a Globo? Como começou e como está sendo feito?

CM - Estou adorando. Antes de viajar, avisei que estaria a caminho do Afeganistão. Ao chegar, entrei em contato e eles me pediram que preparasse algumas matérias para serem transmitidas pelo telefone. Eu fico sabendo das imagens disponíveis diariamente em contatos com os escritórios da Globo em Londres e tento descrever da melhor forma possível tudo que está acontecendo por aqui. Tento sempre passar algo mais pessoal, mas é difícil, principalmente considerando que só fazemos audiotapes e ainda não produzimos nenhuma matéria especialmente para o Brasil. Quem sabe, no futuro?

Depois de tantos anos de trabalho anônimo e desconhecida do público de televisão no Brasil você não se preocupa que agora possa ficar famosa como tanto outros jornalistas de TV?

CM - Como você deve imaginar, acho que, por enquanto, tenho outras coisas mais importantes para me preocupar. Preciso tentar ficar aqui no Afeganistão o máximo possível. Sou paga por dia de trabalho. Depois vou pensar em como sair daqui. Na verdade, acho que gostaria mesmo é de um bom emprego. Talvez esteja chegando a hora de parar com esse tipo de vida. Acho que não posso mais voltar ao balé. Alem de ser muito mais difícil, acho que já estou meio velha, tanto para o balé como para as guerras. Não sei, quem sabe um dia ainda não acabo cobrindo um desfile de modas em Milão?"


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