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ELEIÇÕES AMERICANAS
Sérgio Dávila

"Mídia dos EUA tem na gaveta real resultado da eleição presidencial", copyright Folha de S. Paulo, 3/11/01

"A mídia americana tem em suas mãos o resultado da recontagem de votos das eleições presidenciais no Estado da Flórida, que definiriam quem foi o vencedor de fato do pleito do ano passado, George W. Bush ou Al Gore, mas não deve publicá-lo tão cedo.

O trabalho custou US$ 1 milhão e foi encomendado por um consórcio de empresas que inclui os jornais ‘The New York Times’, ‘The Washington Post’ e ‘The Wall Street Journal’, a emissora CNN, a agência de notícias ‘Associated Press’ e a revista semanal ‘Newsweek’, entre outros.

A recontagem foi feita pela Organização Nacional de Pesquisa, Norc na sigla em inglês, renomado instituto de estatística filiado à Universidade de Chicago. Segundo Julie Antelman, a assessora de imprensa, ‘os novos números estão prontos e o trabalho está com as pessoas que o contrataram’.

Profissionais ouvidos pela Folha em um dos jornais nova-iorquinos dizem que a recontagem daria vitória para o então vice-presidente democrata, Al Gore, mas as empresas acharam estrategicamente ruim questionar a legitimidade do governo Bush neste momento. A Norc não confirmou a informação.

A teoria é defendida pelo jornalista David Podvin, repórter investigativo que mantém o site Make Them Accountable (www.makethemaccountable.com). ‘O consórcio descobriu estupefato que, na recontagem, Gore venceu sem dúvida nenhuma’, escreveu ele, citando como fonte um executivo da mídia.

Indagado pela Folha, o assessor de imprensa do ‘The New York Times’ confirmou apenas a opção de segurar a reportagem. ‘Neste momento, não temos tempo, pessoal nem espaço no jornal para nos concentrarmos no assunto’, afirmou Toby Usnik.

Segundo ele, o ataque de 11 de setembro, suas consequências e os atentados bioterroristas são a prioridade atual da publicação. O artigo com a recontagem da Flórida teria sido ‘adiado indefinidamente’ -mas não abandonado.

‘Basta fazer as contas’

Em dezembro do ano passado, a Suprema Corte dos EUA ordenou que a recontagem dos votos na Flórida fosse interrompida, dando assim a vitória ao então candidato republicano, George W. Bush. Mas as dúvidas persistiram, principalmente pela grande presença de votos anulados.

Isso levou, em janeiro último, os principais órgãos de imprensa do país a contratar um instituto independente e bancar a recontagem dos votos. Foi o que o Norc fez. Cada uma das 180 mil cédulas em disputa foi reexaminada por três pessoas diferentes, num trabalho que levou seis meses.

‘Cada repórter e editor designado pelos membros do consórcio recebeu em agosto os relatórios, que definem exatamente a condição de cada uma das cédulas’, disse Julie Antelman, do instituto. ‘Basta fazer as contas e ver quem foi o vencedor.’

O resultado não tem efeito legal, apenas moral. Além disso, poderia servir como base para qualquer cidadão americano que quisesse abrir uma ação questionando a legitimidade de Bush.

Após 11 de setembro, porém, os membros do consórcio se encontraram e decidiram unanimemente adiar a publicação da recontagem. Nem o encontro nem a decisão foram noticiados nos próprios órgãos participantes.

 

Panorama Brasil

"Mídia americana tem o real resultado das eleições presidenciais", copyright Panorama Brasil, 3/11/01

"A mídia americana já tem o resultado da recontagem de votos das eleições presidenciais no Estado da Flórida, que definiriam quem foi o vencedor de fato do pleito do ano passado, George W. Bush ou Al Gore. O trabalho custou US$ 1 milhão e foi encomendado por um consórcio de empresas jornalísticas.

Entre essas empresas estão os jornais ‘The New York Times’, ‘The Washington Post’ e ‘The Wall Street Journal’, a emissora CNN, a agência de notícias ‘Associated Press’ e a revista semanal ‘Newsweek’.

A recontagem foi feita pela Organização Nacional de Pesquisa, Norc na sigla em inglês, instituto de estatística filiado à Universidade de Chicago. Segundo Julie Antelman, a assessora de imprensa, ‘os novos números estão prontos e o trabalho está com as pessoas que o contrataram’.

Alguns especialistas asseguram que a recontagem daria vitória para o então vice-presidente democrata, Al Gore, mas as empresas acharam estrategicamente ruim questionar a legitimidade do governo Bush neste momento."

 

Pedro Doria

"Presidente Gore?", copyright no. (www.no.com.br), 30/10/01

"A recontagem dos votos na Flórida que levaram George W. à Casa Branca terminou. Foi encomendada pelos maiores veículos de imprensa norte-americanos – nomes de grife quais ‘New York Times’, ‘Washington Post’, ‘Wall Street Journal’, CNN etc. – e empreendida pela Organização Nacional de Pesquisa, NORC, um portento grupo estatístico filiado à Universidade de Chicago.

E a decisão das melhores grifes da imprensa dos EUA foi não divulgar os resultados.

‘A publicação está adiada indefinidamente’ explicou ao ‘Globe and Mail’ canadense Catherine Mathis, vice-presidente de Comunicação Corporativa do Times. ‘Quando as coisas se acalmarem, tenho certeza que estes resultados virão a público. Mas não será nas próximas semanas’, reiterou Steven Goldstein, que ocupa o mesmo cargo no ‘Wall Street Journal’.

Em comum todos explicam que a guerra mudou as prioridades. Todos os recursos das redações – de financeiros a humanos – estão dedicados à cobertura de antraz, Afeganistão e da política em Washington. Tocar na questão da legitimidade da presidência, hoje, pode disparar uma crise que não cabe ao momento. Além do mais, a análise dos dados levantados pela NORC tomaria tempo e gente demais.

Ao ‘Daily Telegraph’, de Londres, Julie Antelman da NORC questiona a decisão. ‘Eles estão prontos, poderiam fazer as contas e conseguir resultados em uma semana de trabalho.’ Os dados estão todos tabulados e requerem apenas um programa de computador que repasse a planilha e feche a conta. O programa, diz a NORC, já existe.

À sombra de Bush

Com os números levantados dependendo de uma conta elementar, a dúvida em pauta é por que não fazer – ou se não já foi feito. Ou seja, se o resultado pode atrapalhar demais neste momento e a desculpa da falta de recursos e só, afinal, uma desculpa, então é porque George W. está ocupando a cadeira que pertence a outro.

O consórcio de imprensa, quando se reuniu em janeiro para disparar a recontagem, imaginava três possíveis resultados. Cenário 1, George W. ganhou mesmo, não há o que se discutir. Cenário 2, a coisa de fato era muito confusa e não dava para cravar ao certo um vencedor. Cenário 3, Al Gore venceu por uma pequena margem, uma pena, mas um erro possível dado o erro estatístico.

O consórcio descobriu estupefato que na recontagem Gore vencera com toda certeza. Mesmo após deixar de lado as cédulas problemáticas e esquecendo as mal marcadas, Gore havia vencido. Embora os números precisos ainda não estejam disponíveis, um jornalista do ‘New York Times’ que estava envolvido no projeto disse a uma companheira que Gore havia vencido por uma margem suficiente ‘para criar grandes problemas para a presidência Bush se isso vier a público.

O parágrafo vem da reportagem de David Podvin, um repórter freelancer que mantém na Internet o site independente MakeThemAccountable.com. Podvin cita ainda outro depoimento em off, este de um executivo de uma das empresas que contrataram a pesquisa. Segundo o jornalista, ‘informações anteriores desta fonte provaram-se corretas’. Al Gore, pois, é o quadragésimo terceiro presidente dos EUA.

Desconforto estatístico

As dúvidas levantadas pelas eleições do ano 2000 na Flórida viraram assunto de livros, provaram-se traumáticas e ainda não se resolveram. Em todo o país, Albert Gore recebeu cento e tantos mil votos a mais que seu oponente, o então governador do Texas. Mas, nos EUA, eleições são indiretas. Cada estado decide-se por um candidato e nomeia eleitores para o Colégio Eleitoral. A vitória por votos únicos não garante – como não garantiu – a Casa Branca.

As 25 cadeiras no Colégio da Flórida é que decidiram. E, estatisticamente, o voto no estado mais ao sul dos EUA terminou empatado, um resultado tão próximo que os parcos 180.000 votos considerados inválidos seriam bem mais que suficientes para desempatar.

Lá, vota-se através de um sistema de cartões perfurados mecanicamente. O eleitor coloca o cartão numa base, dobra uma alavanca na marca certa e o perfura. Os cartões são, então, jogados numa máquina de contagem não muito diferente das que tabulavam a loteria esportiva em Pindorama faz uns dez anos. E assim foi feito. Só que buracos parcialmente feitos, ou com o papelzinho ainda pendurado, cédulas corrigidas a mão, todos estes casos são passíveis de serem recusados pelas máquinas contadoras quais fossem nulos.

A descentralização das decisões contribuiu ainda mais para a confusão. Cada um dos 67 condados da Flórida tinha comitê eleitoral próprio que tomava decisões independentes. Após o fatídico 7 de novembro eleitoral, uns decidiram iniciar a recontagem manual, outros decidiram mais adiante, cada qual optando por critérios próprios. Papelzinho pendurado preso por três cantos valia voto aqui, preso por um canto não valia acolá.

As questões que beiravam ao ridículo foram parar na Justiça. A Suprema Corte da Flórida decidiu que valia o bom senso. O processo enrolou-se. Katherine Harris, uma republicana que assessorava o governador Jeb Bush – irmão de George W. – tinha o poder constitucional de oficializar resultados, e com toda a relutância e a cada momento atrapalhava um pouco mais o processo.

Quando bateu na Suprema Corte do país, os supremes decidiram que mais importante que a recontagem era o prazo em 12 de dezembro. Prazo passado, valia pois o último resultado oficializado por Harris. George W. levou a presidência por 537 votos, no momento em que as recontagens parciais mas jamais oficializadas indicavam a diferença aproximando-se das dezenas.

Longos vôos

Vai fazer um ano que aconteceu a eleição e o mundo hoje é outro, politicamente em quase tudo distinto do que era nesta época em 2000. Os números que estão nas mãos dos grandes jornais norte-americanos não são oficiais e jamais mudarão o resultado oficial da eleição.

No entanto, se Gore tiver ganho por uma margem grande, então estarão em xeque instituições que vão da Suprema Corte à eleição, passando pelo Colégio Eleitoral e toda a forma como se sustenta a democracia no país. Desconcentraria os EUA num momento em que concentração é fundamental. Talvez de fato, no momento em que o país foi atacado, não seja responsável publicar esse tipo de informação – se é que tenha sido isso mesmo. É uma discussão delicada entre jornalistas, mas de maneira alguma sem critério.

Afinal, na mesma Flórida, enquanto discutia-se o voto cédula a cédula, um jovem estudante árabe tinha aulas para pilotar avião. Chamava-se Mohammad Atta."

 

O Estado de S. Paulo

"Adiamento de divulgação da recontagem cria especulações", copyright O Estado de S. Paulo, 4/11/01

"A poucos dias de completar-se um ano das eleições que tornaram George W. Bush o 43.º presidente dos Estados Unidos, um consórcio de órgãos de imprensa americanos decidiu adiar ‘indefinidamente’ a divulgação da recontagem dos votos na Flórida – Estado que decidiu a eleição em favor de Bush, dando-lhe os votos eleitorais necessários no Colégio Eleitoral para tornar-se presidente, embora seu rival, o ex-vice-presidente democrata Al Gore, tenha obtido a maioria dos votos populares no país.

O anúncio do adiamento fez surgir especulações de que importantes órgãos da mídia americana estariam tentando evitar possíveis desgastes para a presidência de Bush, caso ficasse comprovado que Gore fora o real vencedor na polêmica votação daquele Estado.

Este consórcio, formado em janeiro pelas maiores organizações da mídia americana – The New York Times, The Washington Post, The Wall Street Journal, Associated Press e CNN, entre outros –, decidiu encomendar a recontagem dos votos da Flórida para a Organização Nacional de Pesquisa (Norc), ligada à Universidade de Chicago, a um custo de US$ 1 milhão.

A auditoria está pronta desde o fim de agosto, mas os integrantes do consórcio ainda não haviam iniciado uma série de análises que, segundo especialistas, levaria alguns dias de trabalho, para finalmente que os resultados pudessem ser divulgados.

Contudo, depois dos atentados de 11 de setembro em Nova York e Washington, o consórcio decidiu não concluir a análise e adiar indefinidamente a publicação de seu resultado. A explicação unânime é a de que todas as atenções estão voltadas à cobertura da guerra, dos ataques bioterroristas e da crise econômica e a análise tomaria tempo demais.

O consórcio alega ainda que a história da recontagem se tornaria irrelevante diante da ofensiva militar. Além disso, pôr em questão a legitimidade da presidência de Bush poderia levar a uma crise inoportuna.

E então começaram as especulações: segundo o site da Internet MakeThemAccountable.com, mantido pelo repórter independente David Podvin, um jornalista do New York Times teria dito a um amigo do Partido Democrata que Gore fora o vencedor da eleição – embora os resultados finais ainda não estejam disponíveis para ninguém.

Em entrevista ao jornal britânico Daily Telegraph, Podvin recusou-se a dizer qual é a sua fonte, mas diz que Gore teria vencido de maneira inquestionável. O mesmo jornal, porém, ouviu pesquisadores do Norc, segundo os quais os resultados finais ainda não foram tabulados e é impossível ter uma conclusão.

O impasse nas eleições de 7 de novembro foi causado pelo sistema de votação no qual as cédulas são perfuradas mecanicamente. Por causa de um desenho confuso, muitos eleitores alegaram ter votado no candidato errado. A polêmica chegou até a Suprema Corte, que acabou rejeitando a recontagem dos votos, o que garantiu a vitória de Bush."


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