44/46

  Procure no arquivo

RATINHO & MION
Eugênio Bucci

"O ratinho mion", copyright Folha de S. Paulo, 4/11/01

"Há algo de Ratinho em Marcos Mion, o adolescentão desbocado que fala alto, muito alto, apresentando os seus famosos ‘piores clipes’ na MTV. Esse quê de Ratinho é o que Mion tem de pior. Do mesmo modo, há um algo de Mion em Ratinho, o brutamontes verbal que desfere cacetadas em seres invisíveis enquanto toureia seu esganiçado circo noturno. E esse quê de Mion é o que Ratinho tem de melhor. Agora, quando a Bandeirantes (que nos pede para ser chamada de ‘Band’, vê se pode) anuncia para janeiro a estréia de um programa diário conduzido por Marcos Mion, é possível que a ‘ratinização’ do jovem fenômeno se intensifique. De outro lado, cada vez mais diluído no que tinha de pavoroso, cada vez mais inócuo, Ratinho tende a ‘mionizar-se’ até ser apenas folclórico.

O que há de Ratinho em Mion? Exatamente o que, no primeiro, é sinal de saúde testosterônica. Ratinho invadiu o vídeo nacional como se fosse um militante do MST ocupando um latifúndio -o que, nele, é um traço positivo, inovador e, para usar um termo caro ao ideário que nos serve de metáfora, um traço progressista. À parte o show de horrores que lhe serve de ganha-pão, Ratinho desestabilizou a nossa TV de madame, um tanto fru-fru, em que pobre só tinha vez servindo cafezinho em cena de novela. Chutando cenários, berrando aos microfones, transpirando, molhando suas camisas de cores apopléticas, ele bagunçou o convescote. Não seguiu o script dos coroinhas obedientes e, por isso, angariou o entusiasmo até mesmo de telespectadores ilustrados e críticos, sedentos que estavam por alguma novidade que surgisse no monitor.

Claro, Ratinho fez tudo o que fez pelo signo do perverso. Pôs, de fato, os pobres na TV, mas apenas para ridicularizá-los e espezinhá-los ainda mais, expondo-os em brigas conjugais, em deformidades físicas, em testes de DNA. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico passar por uma humilhação consentida no picadeiro de Ratinho. Este é o seu lado de trevas, o mais conhecido, o mais falado -o lado pelo qual ele é justamente combatido. Acontece que há nele um outro lado, inventivo, altamente comunicativo. É uma adolescência estilística quase inocente, uma alegria que brota da barbárie e que dá conta de que até ali pode haver divertimento. A seu modo, Ratinho também é um meninão malcriado e cômico -isso é o que ele tem de Mion. Pena que esteja a serviço do preconceito de classe e da torpeza.

E o que há de Ratinho em Mion? A falta de modos. Marcos Mion é o anticerimonial por definição. Não teria de fazer concessões ao lado vil da etiqueta e ele às vezes faz. É uma concessão sutil, difícil de identificar de modo categórico. É como um movimento gestual que, em si mesmo, já é ofensivo, mesmo sendo mudo como os motoristas neuróticos que brandem os braços entre si, sem abrir o vidro do carro. Algo naquele gesto indica ódio e intolerância. Ele transita na fronteira tênue entre o deboche (a face feliz de Mion) e o escárnio (a face obscura de Ratinho).

Quando ele estrear na Band... eirantes, dentro de dois meses (é o que anuncia o site da emissora), o ambiente tenderá a forçá-lo na direção do apelativo e do grotesco. Não o ambiente da Bandeirantes, por favor, mas o ambiente dos seus concorrentes. Mion vai competir com atrações baixas, talvez com o próprio programa do Ratinho, e terá de fazer frente a elas. Quanto ao Ratinho, que já não precisa extrair notoriedade dos horrores, talvez tenha uma estrada aberta para ser cada vez mais cômico e cada vez menos mórbido. Se isso acontecer, será engraçado: Ratinho será cada vez mais Mion, enquanto Mion estará sujeito a ser cada vez mais Ratinho."

 

ENTREVISTA/ MANOEL CARLOS
Fernanda Dannemann

"‘Se a novela não dá certo, é um desastre’", copyright Folha de S. Paulo, 4/11/01

"De Nova York, onde, apesar do medo reinante, pretende ficar até janeiro com a mulher e dois filhos, o autor Manoel Carlos diz já ter na cabeça sua próxima minissérie, baseada no romance ‘Uma Mulher Não Chora’, da portuguesa Rita Ferro, cuja compra a Globo está negociando. ‘Quero mostrar aos brasileiros que ainda vêem Portugal como nosso avôzinho que aquele é um país de mulheres modernas e juventude intensa, que debate temas como incesto e drogas’, diz. Na entrevista a seguir, ele comenta ainda a polêmica em torno de ‘Presença de Anita’, sua primeira minissérie, que alcançou média de 35 pontos no Ibope às 23h.

Seu próximo projeto é uma minissérie ambientada em Portugal?

Sugeri um romance português chamado ‘Uma Mulher Não Chora’, de uma escritora contemporânea jovem e muito boa, chamada Rita Ferro, com quem tenho mantido correspondência. O brasileiro acha que Portugal é aquele do Eça de Queirós. Quero mostrar que há um Portugal insuspeito para o Brasil, com mulheres divorciadas, jovens intensos, escritores que falam sobre incesto e drogas. Claro que vou querer gravar lá, e trabalhar com atores brasileiros e portugueses. A Globo está negociando a compra.

A televisão é um espelho do brasileiro ou é o brasileiro que imita o que vê na TV?

Acho que não é totalmente uma coisa nem outra. As comunidades mais modestas é que imitam a roupa e o cabelo da Carolina Dieckman ou a maquiagem não sei de quem. Mas, quanto ao comportamento, não acredito. Sempre houve quem não gostasse das coisas apresentadas, quem patrulhasse, reprimisse. Os jornais fizeram editoriais dizendo que ‘Laços de Família’ estava levando as meninas para a prostituição! Que eu saiba, não houve nenhuma prostituta a mais. O que eu sei é que aumentaram as doações de medula depois da novela.

Mas novelas em que a prostituta é uma heroína não glamourizam a prostituição?

Talvez, mas se eu fizer só prostituta pé-de-chinelo também estarei faltando com a verdade, porque existem prostitutas altamente glamourizadas. Faço novelas realistas. A Capitu (de ‘Laços de Família’) foi montada em cima de pesquisas.

O sexo virou uma tendência na TV?

Vejo pouco televisão. Acho que o que faz parecer que está aumentando é o fato de que a sociedade voltou os olhos com mais rigor, intensidade e atenção para a TV. Com o fim da censura, graças a Deus, com a liberdade que se adquiriu, todos puderam ter um olhar mais realista, e talvez isso tenha ressaltado essa questão. Mas me lembro de como era sensual ‘Gabriela’, que foi veiculada há mais de 20 anos.

Em ‘Presença de Anita’, o cigarro provocou polêmica...

Isso foi polêmica de país que tem pouca polêmica, não é? O Jader Barbalho está lá sendo processado por desvio de dinheiro e a polêmica é o cigarro às onze da noite? Eu fumei por 50 anos, todos os meus amigos fumam, meu filho também. É ruim pra saúde? É. Como tantas coisas. Cigarro é muleta para muitos.

A Globo cobra boa audiência?

Só existe a minha cobrança. Quem é que não quer fazer sucesso? Não sou pago apenas para escrever novelas, mas sim para fazer sucesso. As novelas têm que dar certo porque, se não derem, é um desastre, é como manter um Boeing no ar por oito meses sem combustível."


                                Mande-nos seu comentário




Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe