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REALITY SHOWS
Eugênio Bucci

"A banalização das banalidades", copyright Folha de S. Paulo, 6/01/02

"Sob o bombardeio incessante desse insuportável símbolo do euro, o ano começa na televisão francesa dando uma visão do futuro próximo da TV brasileira. O símbolo do euro esteve nos concertos de Réveillon, está em anúncios de governo e de empresas, em cartazes, em todo lugar. Arre. Lembra o sinal matemático do ‘pertence’, um ‘e’ arredondado. Os países europeus talvez queiram declarar-se ‘pertencentes’ uns aos outros, como se fossem um conjunto, uma unidade, uma quase igualdade. A propósito, há um sinal matemático de ‘igual’ bem no centro do símbolo do euro. Há, também, todo o foguetório. Enquanto isso, a velha moeda, o franco, com 700 anos de história, vai para o ralo. A televisão é pura festa. Recusa ao franco um funeral digno. Tanta alegria é funesta, ou melhor, é banal. O euro é banal. E deixa explícito que a função da mídia é a de tornar banal tudo o que torna conhecido.

Mas não é por isso, não é pelo que expõe (exaustivamente) da nova moeda européia que a televisão francesa antecipa a televisão brasileira, embora seja óbvio que aí no Brasil a televisão e toda a imprensa falaram de euro pra lá, euro pra cá, euro até a morte e até coma alcoólico. No orgasmo de tamanha apoteose monetária, a mídia mundial cantou em uníssono. Ninguém antecipou ninguém; todos celebraram o consenso cambial ao mesmo tempo. Todos, inclusive o Brasil. É por uma outra banalização que a televisão francesa antecipa a televisão brasileira: a banalização dos ‘reality shows’, aquele gênero patenteado internacionalmente pela empresa holandesa Endemol e que, ao menos na França, costuma ser encenado mediante o pagamento de direitos autorais. Vamos a isso .

Em junho passado, uma rede privada de segunda categoria, a M6, batia recordes sucessivos de audiência com o programa ‘Loft Story’ , uma ‘Casa dos Artistas’ ‘avant la lettre’ com um pouquinho menos de mau gosto. Graças a ‘Loft Story’, a M6, pela primeira vez, passou a TF1, a maior rede de televisão aberta na França. Agora, com um outro programa de ‘reality show’ que estreou em setembro, é a TF 1 quem detém os melhores índices. O nome da nova atração, que está no ar desde o dia 1º de setembro, é ‘Star Academy’ (qualquer semelhança com ‘Casa dos Artistas’ deve ser mais que coincidência). Em ‘Star Academy’, jovens ‘artistas’ vivem confinados sob dezenas de câmeras e têm aulas de dança, de canto, disso e daquilo. Trabalho encarcerado. São avaliados pelos professores e eliminados pelo público até que reste um só vencedor. Um porre. E funciona! O povo vê e ninguém mais fica chocado nem superexcitado. É normal.

Agora, no Brasil, algo semelhante deve acontecer com a entrada da Globo nessa vertente mais apelativa, que alguns chamam de ‘tél é-poubelle’ (televisão lixeira): a Globo tende a recuperar o ibope, mas seu trunfo será menos sensacional e mais banal. A ‘poubelle’ da França inspira o Brasil. Entre shows do milhão e casas de artistas, a França é um enorme SBT e, outras vezes, um imenso Faustão. Antes, os intelectuais até procuravam explicar o porquê do voyeurismo e do escancaro dos ângulos mais íntimos do corpo (e da alma). Agora, cansaram. O debate era vão. A verdade é que não há ‘intimidades autênticas’ no vídeo, mas uma intimidade artificial, fabricada em série e consumida em massa. A massa é idólatra e tarada, animista e onanista ao mesmo tempo, adepta do ‘onanimismo’ ritual diante da imagem eletrônica. A massa adora os pedaços de cadáveres nus solidificados pela lava da mídia, a lava que mata, paralisa e expõe, a lava que banaliza a violência, o sexo, a espiritualidade e a morte.

De agora em diante, qualquer ‘reality show’ será normal e tedioso. O critério da normalidade não é outro senão o da banalidade. A norma primeira é a banalização. Do euro como da lascívia."

 

MÍDIA: NEGÓCIO & TECNOLOGIA
Juarez Quadros do Nascimento

"Televisão, jornais e revistas", copyright Folha de S. Paulo, 1/01/02

"No Brasil, em 2000, foram gastos US$ 6,6 bilhões de recursos em publicidade, o que representa a sétima maior movimentação mundial, sendo 57,8% utilizando a televisão, 21,5% em jornais, 10,6% em revistas e 5,2% em outros veículos. Esse é o lado comercial do negócio, em que a TV fatura a maior fatia do bolo.

Pelo lado tecnológico, as operadoras de TV abertas ainda discutem como transmitir o conteúdo digital, enquanto as de TV por assinatura já oferecem algumas facilidades com interatividade. Na TV aberta boa parte da gravação e edição dos programas é feita em forma digital, apenas a transmissão é analógica. Tal fato ocorre porque os 50 milhões de televisores, em 45 milhões de domicílios no País, funcionam nessa tecnologia.

A decisão sobre qual tecnologia vai permitir que se possa assistir a qualquer canal aberto, sendo ele digital, cabe à Anatel, que avalia os sistemas: americano, europeu e japonês. Canadá e Coréia do Sul seguiram os EUA e adotaram o sistema americano. Austrália, Índia e Cingapura acompanharam a Europa e optaram pelo europeu.

A evolução dos serviços interativos, passando pela banda larga em telefonia e TV a cabo, pelo acesso à Internet e pela radiodifusão digital, chegará à radiodifusão que com a TV interativa começa a despontar no mundo em meio a entusiasmos e também incertezas. A revolução tecnológica que permite ao televisor funções iguais às do computador pessoal (PC) caminha em diversos países.

Ter o ambiente da Internet no televisor e deixar de lado o PC provoca potenciais consumidores. Pesquisa realizada na Alemanha, por exemplo, indicou que cerca de 70% dos entrevistados têm interesse em operações como compras e pagamentos de contas pela TV e 50% dos que ainda não são usuários de Internet afirmaram preferir adotar a TV interativa antes mesmo de empregar um PC para os mesmos serviços.

A mistura da Internet com a programação de televisão ultrapassa fronteira.

Entretanto, levanta questões deste tipo: a quem pertencerá o negócio, às TVs por assinatura ou às TVs abertas? Trata-se de levar o telespectador a usar uma tecnologia que já permite interagir com a programação, montar a sua seqüência de programação, interromper um filme para mandar um e-mail e retornar ao filme no ponto em que estava e também fazer compras ou usar home banking.

Muitos desses serviços já podem ser implantados em função da crescente capacidade digital dos sistemas de TV por assinatura. Já para tais facilidades alcançarem a TV aberta é necessário primeiro que operadoras e telespectadores migrem para a tecnologia digital. As TVs pagas certamente já ultimam seus planos de negócios enquanto as abertas ainda dependem do sistema a ser adotado para poderem definir seus estudos de viabilidade.

A digitalização permitirá aumentar a concorrência. Em São Paulo, por exemplo, serão possíveis centenas de canais de geração, fragmentando ainda mais, ou não, os índices de audiência. Analistas certamente fazem modelagem para os empresários do setor de televisão. Para as TVs por assinatura, a produção de conteúdo interativo nos programas, o video-on-demand e a Internet, estão no caminho dado como certo.

Para as TVs abertas dois caminhos são indicados pelos especialistas. Numa condição acirrada de oferta de competição, como nos Estados Unidos onde a TV digital já opera, porém abaixo de 1% de penetração, uma opção poderia ser a oferta de mais qualidade de som e imagem do que serviços ou vários canais em um. Em mercados como a Europa, citando o Reino Unido com 32% de penetração, que vem de uma condição estatal-monopolista e ainda tem pouca concorrência, poderia ser adotada a programação múltipla, em que um único canal se multiplica em seis com conteúdo diverso.

No Brasil - onde o mercado está com a iniciativa privada de longa data e a programação ocorre em ambiente de boa concorrência -, uma semente de cultura interativa com o apoio da Internet ou de um telefone está presente graças a programas nos quais o telespectador escolhe o final, um filme ou o gol da rodada de futebol; e ainda não são conhecidos o modelo de negócio e o caminho a ser adotado.

A comunicação é a forma pela qual se molda uma personalidade, uma família, uma empresa, uma nação e um mundo. É o que escreve George Gilder, futurista especializado em alta tecnologia, em seu mais recente livro Telecosmo - A Era Pós-Computador, em que destaca como a infinita largura de banda irá revolucionar o mundo e o que representa para as comunicações, por definir a direção do avanço tecnológico, os vetores de crescimento e os pontos certeiros para as finanças.

Mas George Gilder também levanta a tese de que a televisão, de alta potência e baixa opção, morrerá. Está rapidamente cedendo lugar à largura de banda de baixa potência da Internet com uma miríade de opções e delegando poder ao cliente (Lei da Obsolescência da Televisão).

Diz ainda o autor que os lucros migrarão para jornais e revistas.

Diferentemente da televisão, os jornais dão poder aos seus clientes. Os leitores de jornais podem ler em seu próprio ritmo e horário, responder às matérias publicadas recortá-las, guardar aquelas desejadas, ignorar anúncios e, até mesmo, fazer anúncios de si mesmos na seção de classificados. Todas essas funções se tornam mais eficientes se colocadas na web (Lei da Vitória Jornalística).

Mas, enquanto tais afirmações futuristas poderão acontecer, ou não, a televisão, seja a aberta ou a por assinatura, com o advento da era digital, poderá mudar a forma de comunicação da sociedade, livrando-se da escassez do passado com a banda estreita, dando-nos novo acesso ao mundo e a nós mesmos com a banda larga apesar das incertezas que nos cercam no momento. (Juarez Quadros do Nascimento é secretário-executivo do Ministério das Comunicações)"

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