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COBERTURA DE GUERRA
Osmar Freitas Jr.
"O indomável", copyright IstoÉ, 7/04/03
"O jornal londrino Daily Mirror é do tipo chamado na praça de ‘tablóide sensacionalista’. Até a semana passada, ninguém esperaria que as fileiras desse diário fossem amplas ou até limpas o suficiente para acomodar um respeitável veterano jornalista, ganhador do Prêmio Pulitzer, com um nome que já frequentou a lista de correspondentes em quase todos os conflitos mundiais desde a guerra do Vietnã. No entanto, desde o domingo 30, o Mirror conta com a grife Peter Arnett em suas páginas.
Arnett, 68 anos, é o neozelandês com o currículo exemplar, mencionado anteriormente. Consta de sua biografia o fato de ter sido o último homem a manter a reportagem da Rede CNN numa Bagdá sob intenso bombardeio, na guerra do Golfo em 1991. Agora, 12 anos depois, Arnett voltou à mesma cidade para repetir a façanha, dessa vez sob a bandeira de uma coligação de empresas envolvendo a National Geographic Explorer (emissora a cabo da publicação do mesmo nome) e a Rede NBC, com afiliadas a cabo. Seu trabalho, porém, foi interrompido com uma demissão sumária. A ‘justa causa’ explicada pelos patrões foi uma entrevista que Arnett concedeu à tevê oficial iraquiana, em que avaliava que o Pentágono subestimara o espírito de resistência naquele país e cometera outros erros de cálculo nas estratégias da guerra. Lamentou também que os americanos não estivessem contando o número de mortos civis no conflito.
Mas Arnett - que perde o emprego, mas não perde o vício - preferiu seguir rota própria. Não ficou no molhado por muito tempo. O Daily Mirror, que tem mantido oposição cerrada à guerra em suas páginas, o chamou a bordo. Na semana passada, Arnett deu o seguinte depoimento:
‘Eu ainda estou sob o efeito de choque e pavor, depois da demissão. De todo modo, já pedi desculpas aos americanos por aquilo que considero ter sido um erro de julgamento. Acho que o grande (jornalista) Walter Conkrite (um dos maiores ícones do jornalismo americano) entendeu minhas razões para a entrevista que dei à tevê do Iraque. Ele escreveu um artigo na página de opiniões do jornal The New York Times falando que achava errado o que fiz. No entanto, explicou que nós, repórteres, temos fontes e precisamos alimentá-las para conseguir as informações.
O que eu tentava fazer era preservar essas fontes e também me manter no local. Está cada vez mais difícil o trabalho de jornalistas em Bagdá e as ameaças de expulsão são frequentes. Para continuar meu trabalho, eu tinha de dar aquela entrevista. Aliás, é uma discussão pública, agora, o fato de que o alto comando americano subestimou a tenacidade iraquiana e a capacidade de luta de alguns setores do regime. Também virou notícia recentemente o fato de que o Pentágono não informa sobre a estimativa do número de vítimas civis iraquianas. Acho que se eu tivesse falado ontem, dia 1º de abril, o dia da mentira, o que falei, não teria sido mandado embora, pois hoje todo mundo está falando sobre aqueles assuntos.’"
Tewfik Hakem
"Mídia árabe difunde ‘guerra santa’", copyright Folha de S. Paulo / Le Monde, 3/04/03
"Quando da Guerra do Golfo (1991), o líder laico do Iraque, Saddam Hussein, acrescentou o dístico ‘Allahu Akbar’ (Deus é o maior, em árabe) ao emblema nacional de seu país, no último minuto. Hoje, para sensibilizar os ‘combatentes de Alá’ em todo o mundo, os funcionários do governo iraquiano recorrem ao discurso da integração. Assim, além de ser um ‘herói’ da causa nacionalista, o kamikaze que causou a morte de quatro soldados norte-americanos em Najaf foi apresentado pela TV iraquiana como um ‘mártir’, no sentido religioso do termo.
Anteontem, em programa da TV Abu Dhabi, o chanceler iraquiano, Naji Sabri, mencionou o número de 4.000 voluntários árabes presentes no Iraque para ‘combater o inimigo’. Acrescentou que ‘seu combate e seu sacrifício’ são ‘pela honra dos muçulmanos, dos árabes e da humanidade’. E, quando exortou os países árabes a se posicionarem ‘de acordo com as verdadeiras aspirações de seus povos’, Sabri não fez mais que retomar um dos leitmotiv de Osama bin Laden.
Com grande repercussão nas redes de televisão árabes, as palavras de ordem usadas nas últimas manifestações nos países muçulmanos confirmam que o discurso da internacional islâmica está se aproximando da idéia de nacionalismo pan-árabe defendida pelo partido Baath.
No domingo, os extremistas do Paquistão organizaram, de acordo com o correspondente da TV Al Jazeera em Peshawar, ‘a maior manifestação já vista no país’. Na tela da TV Abu Dhabi, Moulana Sami al Haq, presidente da associação dos cientistas muçulmanos paquistaneses, declarou que o boicote a produtos norte-americanos e britânicos é necessário, mas insuficiente: ‘Não resta solução a não ser o jihad contra os EUA e o Reino Unido’, especificou. Em meio à gigantesca manifestação, podiam-se ouvir gritos em favor do Taleban e da rede terrorista Al Qaeda.
E, no resto do mundo muçulmano, as mesmas palavras de ‘guerra santa’ e de ‘combate até a morte’ ressurgiam. Ao reivindicar a responsabilidade pelo atentado suicida em Natanya, o porta-voz oficial do Jihad Islâmico palestino dedicou a operação ao ‘povo muçulmano iraquiano’ e declarou à rede de TV saudita Al Arabiya que sua organização enviara ao Iraque uma primeira unidade de soldados kamikazes para ‘realizar o jihad’ via martírio.
O autor do atentado suicida a uma base militar norte-americana no Kuait era egípcio, segundo a TV Abu Dhabi. Quanto à Al Jazeera, ela exibiu ‘voluntários sírios’ que cruzaram a fronteira ‘sem passaportes e sem passar por controles da alfândega’, visivelmente felizes por chegarem a Mossul.
Outros jovens voluntários árabes chegaram a Bagdá, menos sorridentes, e foram entrevistados pela TV Abu Dhabi. Um tunisiano que portava uma bandeira dos combatentes islâmicos se declarou ‘orgulhoso’ por poder participar do jihad e reparar a ‘vergonha’ dos Estados árabes que ‘se recusam a permitir que seus jovens combatam o inimigo’. ‘Nem sequer nos permitem manifestações em nosso país. Mas, assim que libertarmos o Iraque, partiremos para a libertação de nossos irmãos no Egito e na Tunísia’, disse."
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