|
COBERTURA DE GUERRA
João Batista Natali
"Inventado pela propaganda", copyright Folha de S. Paulo, 6/04/03
"Paul Virilio, 70, urbanista e filósofo francês, afirma que, para o novo conflito no Iraque, os Estados Unidos precisaram ‘inventar’ o inimigo. A invenção ocorre pela propaganda e sobretudo pelo aparato de comunicação que permitiu essa guerra on-line.
Em entrevista à Folha, diz que ‘o campo de percepção de uma guerra é mais importante que o campo de batalha propriamente dito’. Ou seja, a atual guerra privilegia a conquista do espaço virtual, tanto quanto a conquista do espaço territorial iraquiano.
Virilio é um pensador de extrema originalidade e nem sempre de fácil compreensão. Caminha contra a corrente e atropela sólidos consensos globalizados. Não acredita, por exemplo, que a tecnologia de ponta na área da informação tenha algo a ver com o progresso. Ele argumenta que em verdade constroem-se obstáculos perigosos às liberdades.
A coalizão anglo-americana, diz Virilo, ameaça a democracia, porque o combate on-line acaba desembocando numa ‘sincronização das emoções’, que conduz à perda coletiva do espírito crítico e, no momento seguinte, ao risco da idolatria. É mais grave que a padronização das opiniões a que se chegou no século 20. Sem a opinião diversificada, o processo democrático já está comprometido.
Entre outros diagnósticos, ele diz que a ciência deixou de ser um agente de civilização para se tornar um instrumento militar.
Além de obras sobre arquitetura e urbanismo, Paul Virilio publicou 16 ensaios filosóficos, quatro deles traduzidos no Brasil pela Estação Liberdade e Editora 34 (‘Estratégia da Decepção’, ‘Velocidade e Política’, ‘A Bomba Informática’ e ‘O Espaço Crítico’).
Não há mais separação entre o campo de batalha real e o virtual
A ‘guerra preventiva’ é uma forma de crime contra a humanidade. Ela não será a primeira batalha de uma 3ª Guerra Mundial, mas o primeiro passo para uma espécie de guerra civil globalizada
Folha - A respeito do conflito no Kosovo, o sr. escreveu ter sido instituída uma ‘estratégia da desinformação’. Os Estados Unidos mobilizariam agora algo semelhante?
Paul Virilio - Utilizei a expressão em meu livro ‘Estratégia da Decepção’. A palavra decepção foi usada em seus dois sentidos: o ‘desinformar’, mais próximo do significado em inglês, e o ‘decepcionar’, mais próximo do significado em francês [e em português’. Estamos todos desinformados e desapontados. Essa guerra vem mostrando ser uma catástrofe. É uma guerra acidental, preventiva, que escapou de sua natureza substantiva, clausewitziana [do pensador prussiano Carl Phillip Gottfried von Clausewitz (1780-1831)’, que seria a guerra como o prosseguimento da política por outros meios.
Folha - Por que os EUA não conseguiram convencer o mundo de que precisavam derrubar Saddam?
Virilio - Em verdade, os EUA ‘inventaram’ o inimigo. Numa guerra tradicional, o inimigo se declara enquanto tal e, em resposta, declaramos a guerra contra ele. O extraordinário golpe que foi o atentado de 11 de setembro não possuía um inimigo ‘declarado’. É claro que a guerra no Afeganistão foi uma resposta mais ou menos lógica ao grupo de Osama bin Laden. Mas era ainda preciso dar um rosto ao inimigo. O presidente George W. Bush foi então levado a ‘inventar’. Saddam não foi um inimigo ‘declarado’. Ocorreu uma negação da verdade política própria aos conflitos armados.
Folha - Até que ponto a atual guerra não seria legível sem a mídia, já que a mídia é fundamental ao processo de invenção?
Virilio - Em meu livro ‘Guerra e Cinema’ escrevi que o campo de percepção de uma guerra é mais importante que o campo de batalha propriamente dito. Estamos agora em plena teletecnologia on-line. A conquista da telinha e a conquista do campo de percepção na esfera mundial se tornaram o objetivo da guerra em seu atual modelo, seja ela terrorista, como no WTC, seja ela internacional, com a do Iraque. Não estamos mais hoje em condições de separar o campo de batalha real e o campo de batalha on-line, virtual.
Folha - Esse campo virtual é também utilizado pelo lado iraquiano?
Virilio - Com certeza. Há agora uma diferença importante com relação à Guerra do Golfo, de 1991, que eu abordei em ensaio chamado ‘L’Écran du Désert’ [‘A Tela do Deserto’’. Havia naquele momento uma fonte única de informação, que era o pool entre a CNN e o Pentágono. Isso gerou controvérsias por parte de agências, como a France Presse, que se sentiram excluídas do campo de batalha. Essas fontes estão hoje multiplicadas (Fox News, BBC, Al-Jazeera), o que torna a guerra mediática mais confusa.
Folha - Foi para acentuar a virtualidade que se incorpora às tropas o jornalista ‘encaixado’ [dotado de câmara e equipamento de transmissão de textos e imagens’?
Virilio - Trata-se em verdade de um ‘gadget’ [bugiganga’. A partir do momento em que o governante designou seu inimigo -a relação de Bush com Saddam-, os jornalistas não estão mais livres de seus próprios atos. Se a guerra é ilegal do ponto de vista da ONU, se o inimigo foi inventado pelos norte-americanos, os jornalistas ‘encaixados’ estão embarcados na ilegalidade dessa mesma guerra. O jornalista não tem liberdade em suas relações informativas com o inimigo. Em outras guerras essa liberdade existia. Como ela deixou de existir, como é que a informação pode ser livre? Não o é.
Folha - A informação se tornou um componente tático.
Virilio - A informação que deveria ser ‘democrática’ não o é mais. Caímos então nos mecanismos clássicos da propaganda.
Folha - O sr. disse, há três anos, que a informação on-line era bem mais do que a propaganda.
Virilio - Obviamente. A informação é aquilo que chamei de ‘bomba informática’. Digamos, para simplificar, que segundo a física há na matéria três dimensões: a massa, a energia e a informação. A guerra seguiu essas três etapas. Ela se definiu enquanto guerra como guerra de massa, com massas de soldados, com o século 19 e as guerras napoleônicas ou com as grandes guerras do século 20.
O militar estava na ofensiva, enquanto a defensiva era feita por meio de fortificações, que são minha especialidade inicial, como urbanista. As cidades eram fortificadas por imensas muralhas. Havia a Muralha da China, o Muro do Atlântico. A segunda dimensão mobilizada pela guerra foi a energia. A energia necessária para propulsionar a bola do canhão -que tornou obsoletas as muralhas- e até a bomba atômica, que esteve na origem do equilíbrio entre duas superpotências até o final do século 20.
Folha - E a informação?
Virilio - A informação já existia em formas anteriores de guerras, com a espionagem ou a propaganda, com o reforço da fé religiosa nas Cruzadas. Mas hoje a dimensão informativa se torna primordial nos conflitos.
Folha - A informação não é mais instrumento de libertação?
Virilio - Infelizmente, não. Albert Einstein dizia existirem três tipos de bombas: a bomba atômica, a bomba da informação e, para ele num futuro, a bomba demográfica. Estamos hoje atravessando o momento da explosão da bomba da informação, da bomba da informática. Esta última é bem mais perigosa que a bomba da informação da qual falava Einstein, porque na época os computadores não estavam tão desenvolvidos. Agora, com a interatividade, com a comunicação on-line, assistimos à fusão de opiniões.
Folha - Haveriam outras ‘bombas’ ainda a caminho?
Virilio - Com certeza há algo que eu suponho que possa se tornar uma bomba genética, capaz de modificar o genoma e operar mudanças na raça humana.
Folha - O que sobrará então do cidadão, tal qual o concebemos desde o final do século 18?
Virilio - A partir do século 19 assistimos à emergência de um fenômeno importante, que foi a padronização. Ocorreu a padronização dos objetos com a Revolução Industrial. Ocorreu uma padronização de opiniões, que falseia a democracia na medida em que a informação é apresentada de uma só maneira. Entramos agora no século 21 com algo bem mais agudo, bem mais grave, que é a ‘sincronização das emoções’.
Folha - O sr. poderia explicar isso um pouco melhor?
Virilio - A transmissão ao vivo, a ocorrência e a percepção dessa ocorrência em tempo real favorecem não só a padronização das opiniões, mas também a possibilidade de as emoções serem simultâneas. Não foi preciso esperar por uma guerra para que tal fenômeno surgisse. Ele nasceu em experiências religiosas, com os telepastores. É algo que supera a dimensão da propaganda e se torna algo de perigosa importância cultural no plano globalizado. Podem existir ramificações positivas na sincronização das emoções, como o fato de, a 15 de fevereiro, 10 milhões de pacifistas terem saído às ruas em centenas de grandes cidades. Mas essa sincronização poderá mobilizar milhões de pessoas motivadas pelo ódio.
Folha - Pode-se falar em democracia quando a emoção está tão fortemente envolvida?
Virilio - Estamos diante de uma ameaça, que é a democracia pela emoção, cujo primeiro exemplo foi fornecido pelos nazistas e pelo uso que eles fizeram das emissoras de rádio que orientavam manifestações simultâneas na Alemanha. Conhecemos relativamente bem os fenômenos de alucinação e loucura coletiva que implicavam essas cerimônias.
Folha - É algo que tende a se implantar como modelo?
Virilio - Eu chamaria a atenção para o fato de não se tratar de algo conjuntural. É algo estrutural. Se a padronização da opinião já é uma ameaça para a democracia representativa, a padronização das emoções é uma ameaça definitiva contra qualquer projeto de democracia. Caminharíamos para aquela dimensão religiosa e irracional que existiu no paganismo.
Folha - A religiosidade tem sido um componente forte nos discursos de Bush e de Saddam.
Virilio - É terrificante. Acredito que a ‘guerra preventiva’ é uma forma de crime contra a humanidade. Ela não será a primeira batalha de uma 3ª Guerra Mundial, mas o primeiro passo para uma espécie de guerra civil globalizada. Até aqui as guerras civis -e as mais mortíferas foram sempre as guerras de religião- estavam localizadas: a Comuna de Paris, a Guerra Civil Espanhola, a Bósnia. Mas agora ela se globaliza, por meio de apelos à guerra santa islâmica e os apelos paralelos à cruzada de Bush. É uma ameaça verdadeira contra a humanidade."
Sérgio Dávila
"Bagdá a cidade proibida", copyright Folha de S. Paulo, 6/04/03
"Com seus trejeitos e humor ferino habituais, o ministro da Informação iraquiano, Mohammed Said Al-Sahaf, informava aos jornalistas reunidos na nova sede do Ministério da Informação, no próprio hotel Palestine onde a imprensa estrangeira está hospedada, que tinha notícias. Eram terríveis, dizia ele.
Dois ônibus de organizações não-governamentais que traziam escudos humanos de diversas partes do mundo de Amã, na Jordânia, para Bagdá tinham sido atingidos por bombas soltas pela coalizão anglo-americana.
‘Há diversos feridos no hospital da cidade de Rutba, entre eles norte-americanos. Não sabemos ainda o número de mortos’, disse Al-Sahaf. ‘É realmente incrível: agora, os bravos norte-americanos começaram a matar seus próprios compatriotas!’.
Dois dias depois, um dos escudos humanos daria a seguinte entrevista: nunca houve bombardeio, mortos e nem mesmo ônibus. No caminho para Bagdá, disse, um carro que levava quatro voluntários, um deles realmente norte-americano, teve seu pneu furado por um prego bem no momento em que um avião da coalizão sobrevoava a rodovia.
O motorista, iraquiano, pensou que se tratava de um bombardeio, se assustou e jogou o carro para fora da estrada. Com isso, se machucou e feriu levemente os outros passageiros. Foi levado para o hospital de Rutba e lá espalhou que todos tinham sido vítimas de um ataque dos EUA.
Quem está falando a verdade?
A verdade é que poucas pessoas sabem o que realmente está acontecendo em Bagdá, e todas elas são membros do governo iraquiano. Nunca o que os britânicos chamam de ‘a névoa da guerra’ esteve tão evidente quanto neste conflito, especialmente do lado dos invadidos, escolado pela estrutura montada por três décadas de uma ditadura que preza mais do que tudo o controle das informações e pratica uma censura ferrenha em todos os setores da imprensa.
‘Da varanda do 11º andar’
O controle dos pouco mais de 120 jornalistas que continuam na capital iraquiana é cada dia pior e vem fazendo o veterano John F. Burns, do ‘New York Times’, começar seus últimos textos citando sempre a frase: ‘Pelo menos o que consigo ver da varanda do décimo-primeiro andar de meu hotel em Bagdá’.
Além de serem obrigados a andar com um guia apontado pelo governo e um motorista que não raro faz relatos de suas atividades para o serviço secreto, os jornalistas estrangeiros só podem se hospedar num único hotel, que é o mesmo onde agora está baseado o Ministério da Informação e sua onipresente polícia secreta.
Quando arriscam sair sozinhos, são presos e expulsos, como aconteceu na última segunda com um repórter australiano, que resolveu dar uma caminhada pela cidade sem o seu guia.
As saídas agora quase só acontecem em grupos, sempre em quatro ou cinco ônibus, e o destino é invariavelmente um alvo civil (nunca militar ou governamental, como os palácios atingidos, até ora inéditos para a imprensa) ou um dos hospitais da região que abriga as centenas de vítimas dos bombardeios.
Nas cerca de três ou quatro entrevistas coletivas diárias com um dos generais-ministros do governo Saddam Hussein, há um festival de contra-informações, negativas e desmentidos.
Não, os americanos não estão a 100 quilômetros de Bagdá (ou a 90, ou a 60...). Não, eles não dominaram o Aeroporto Internacional Saddam Hussein; o lugar que eles tomaram e estão confundindo é uma ex-base aérea britânica da Segunda Guerra Mundial. Sim, eles tomaram o aeroporto, mas nós estamos mandando milhares de soldados para tomá-lo de volta. Não, Saddam não está ferido.
Míssil identificado
Mesmo assim, é possível tentar contar o que acontece e até mesmo descobrir fatos que ambos os lados gostariam de ver continuarem escondidos.
Na última semana, por exemplo, o jornalista Robert Fisk, do londrino ‘The Independent’, conseguiu confirmar que o ataque ao mercado Al Shaab, ocorrido no final da semana retrasada na capital iraquiana e que matou mais de 50 civis, foi mesmo um bombardeio de autoria da coalizão anglo-americana.
Ele achou no local um pedaço do míssil com o respectivo número de série, e a redação do jornal em Londres confirmou que se tratava realmente de um produto da fabricante de armas Raytheon, a mesma empresa de Tucson, no Arizona, que foi escolhida para implantar o Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) no Brasil, num processo polêmico.
Todos os Tomahawk utilizados pelos EUA nesta guerra são de fabricação da Raytheon.
Antes, a reportagem da Folha havia revelado o caso de um ferido iraniano ‘hospitalizado’ que saiu de carro logo após uma coletiva, numa armação evidente do governo.
Ainda, nos últimos dias, enquanto a coalizão dizia estar a menos de 10 km do centro de Bagdá, uma equipe da BBC que acompanha soldados britânicos, usando o aparelho de telefone por satélite Thuraya, conseguiu precisar que na verdade o destacamento distava 25 km da periferia da cidade.
‘Traidores’
O precioso aparelho, que dá ao usuário sua localização exata, latitudinal e longitudinal, e funciona em virtualmente todo o Oriente Médio, desde que esteja ao ar livre, é um dos poucos pontos em comum entre as forças dos dois lados: ambos o odeiam em mãos civis e tentam controlar seu uso.
Na última quinta, o Comando Militar americano proibiu sua utilização pelos repórteres ‘embutidos’ nos destacamentos.
No começo da semana, o governo iraquiano tinha levado ao ar na emissora estatal um comunicado em que relembrava aos cidadãos que era proibido o uso do telefone por satélite no país tanto por locais quanto por estrangeiros. Os flagrados, dizia o texto, seriam julgados como traidores em tempos de guerra.
O aviso ia além e se comprometia a recompensar com 5 milhões de dinares iraquianos (cerca de US$ 2.000) quem delatasse ao governo o nome e o endereço dos usuários clandestinos, ‘sejam eles traidores ou intrusos’.
Toblerone na alfândega
A reportagem da Folha entrou no país com um deles, junto de um link de internet também por satélite. Vinham numa maleta tipo executivo. Como muitos outros antes, a equipe optou por não declará-los na fronteira iraquiana devido a relatos de outros jornalistas já em Bagdá que tiveram seus equipamentos confiscados, lacrados e entregues dias depois na então sede do Ministério da Informação, na capital.
Uma vez lá, o uso só era permitido nas dependências e no horário de funcionamento do órgão público, sob a supervisão de seus funcionários, o que limitaria ainda mais um trabalho já muito controlado. Quem seguiu essas regras não conseguiu transmitir, por exemplo, texto e fotos do começo da guerra, na madrugada do último dia 20 de março.
Na alfândega, um prosaico tablete do chocolate suíço Toblerone comprou a vista grossa do funcionário que revistaria as bagagens dos repórteres, presente aliás solicitado pelo próprio policial.
Uma vez no hotel em Bagdá, 600 quilômetros adiante, a maleta passava o dia escondida dentro da tubulação do ar-condicionado do quarto e seu funcionamento era restrito ao período noturno, entre as 19h e as 2h, sempre na parte baixa da varanda que dava vista para os guardas que vigiavam o edifício 24 horas por dia.
Na saída do país, no começo da semana que passou, com a maleta já deixada para trás no duto do ar-condicionado, o telefone e o link da internet por satélite viajaram num lugar inusitado: no lugar da placa de cerâmica que protege a parte da frente de um dos coletes à prova de bala comprados pela equipe da Folha em Londres antes da guerra.
A placa é o que faz o colete ser do tipo A3, ou seja, que suporta tiros de M16 e Kalashnikov, os fuzis utilizados respectivamente pela coalizão e pelo Exército iraquiano neste conflito. Por coincidência, é também exatamente do tamanho do aparelho.
Polícia secreta
Tanta preocupação se justificava. Durante as madrugadas, membros da polícia secreta que ficavam ostensivamente vigiando os corredores de todos os andares e o lobby de entrada do hotel da imprensa costumavam dar incertas nos quartos dos jornalistas em busca dos aparelhos proibidos. A mesma cena se repetia sempre: batidas violentas na porta, seguidas de gritos e truculência.
Muitos foram destruídos, e não poucos jornalistas foram presos e posteriormente expulsos do país por estarem desrespeitando a orientação do general-ministro, que por sua vez seguia ordens diretas de Saddam Hussein.
O quarto em que se hospedou a equipe da Folha foi visitado em duas noites diferentes. Os agentes não conseguiram entrar.
Nos quartos em que conseguiram, os policiais não deixaram um saldo agradável. Dois repórteres do tablóide nova-iorquino ‘Newsday’ foram arrancados da cama no meio da noite, acusados de espionagem, e ficaram presos incomunicáveis por uma semana.
Uma equipe de TV italiana teve seus aparelhos destruídos e foi expulsa do país; uma fotógrafa que trabalhou na campanha do ex-vice-presidente americano Al Gore foi detida nas mesmas condições e continuava desaparecida até a conclusão desta edição."
***
"TVs árabes mostram o outro lado", copyright Folha de S. Paulo, 7/04/03
"Um iraquiano de cerca de 50 anos grita com a câmera desesperado, enquanto vai e volta até a parte traseira de um caminhão na cidade de Nassíria, no sul do país, apontando sempre seu conteúdo: pelo menos cinco corpos empilhados, todos seus parentes.
Pega pela mão esquerda o corpo de uma menina de não mais de dois anos e a chacoalha para o cinegrafista. O pequeno cadáver balança como se fosse uma boneca de pano. Qual conjunto de emissoras exibiu esta cena, no começo a semana passada?
De um lado, CNN, BBC, Sky News e Fox News. Do outro, Al Jazeera, Al Arabiya e Abu Dhabi TV. As primeiras mostram esta guerra do ponto de vista dos bombardeadores, com seus mapas, estratégias, experts, alta tecnologia e assepsia. As últimas têm a perspectiva dos bombardeados, com cidades destruídas, alvos civis atingidos por engano, familiares revoltados e muito sangue.
A novidade é que, diferentemente da Guerra do Golfo de 1991, quando Peter Arnett via CNN era a única fonte de informação televisiva, agora o mundo árabe tem pelo menos três emissoras de notícia via satélite.
Al Jazeera, baseada no Qatar, é a ‘CNN árabe’, com mais audiência do que as outras duas somadas (40 milhões de espectadores) e quatro milhões de novos assinantes conquistados depois de começada a guerra. Seu público mora no Oriente Médio, sim, mas também em países como a França, com seus 5 milhões de habitantes que falam árabe.
É a mais profissional entre elas. Criada em 1996 pelo emir do Qatar, tem jornalistas experientes que fizeram carreira justamente em emissoras européias como BBC e não é chapa-branca como a maioria das televisões árabes.
Não por acaso seus repórteres já foram expulsos de países como Jordânia, Arábia Saudita e, mais recentemente, Iraque (nos três casos, todos foram readmitidos mais tarde). A estrela é o palestino Majed Abdel Hadi, que cobriu a guerra do Afeganistão.
A saudita Al Arabiya foi inaugurada cerca de um mês antes de iniciado o conflito e se fia na cobertura da guerra para ‘pegar’ entre o público árabe e, de preferência, roubar assinantes de sua maior concorrente. É do grupo Middle East Broadcasting Center, o mesmo que têm os direitos da versão árabe do game-show ‘Who Wants to Be a Millionaire’, e tem 22 correspondentes espalhados entre Bagdá, Basra e Mossul.
A Abu Dhabi, de propriedade do governo dos Emirados Árabes Unidos, é a menor das três, corre por fora e, por isso mesmo, é a mais gráfica do trio, mostrando imagens como a relatada acima.
Diz ter entre os compradores de suas imagens mais de 120 organizações jornalísticas. É a única das três a ter estúdio em Bagdá, montado antes da guerra. ‘A maior parte da cidade pode ser vista do telhado de nosso escritório, onde temos quatro câmeras ligadas 24 horas por dia, uma apontada para cada lado’, disse Ali Al Ahmed, diretor da emissora.
Mais correspondentes
Quem está mais próximo da verdade? Os dois lados exageram, as TVs ocidentais mostrando uma guerra sem vítimas e sem erros, as árabes mostrando mais sangue e exploração da dor humana do que recomenda o bom senso jornalístico.
Mas não há dúvida de que as emissoras baseadas nos EUA e na Europa perderam contato com a realidade da guerra, seja pelo grande número de repórteres ‘embutidos’ com as forças de coalizão (a Al Jazeera só tem um), seja pelo pequeno número de repórteres cobrindo diretamente das cidades atacadas (só a BBC tem gente em Bagdá, por exemplo, campo em que a Al Jazeera conta com cinco jornalistas).
Quem se informou nos últimos dias só pela CNN e BBC, por exemplo, acreditou que a cidade portuária de Umm Qasr estava totalmente dominada (não estava, e as redes tiveram de voltar atrás depois), que a maioria xiita tinha se revoltado contra o exército iraquiano em Basra (não tinha, a cidade permanecia calma) e, tão recente quanto ontem à noite, que o aeroporto internacional de Bagdá continuava sob poder da coalizão (não continuava, continuava sendo disputado pelos iraquianos).
Duas versões
‘Nós do mundo árabe estamos ligeiramente em melhor posição do que a maioria dos americanos’, escreveu o analista Rami G. Khouri, do diário libanês ‘Daily Star’. ‘Pelo menos, podemos ver e ouvir ambos os lados, dada a facilidade de se sintonizar as redes dos EUA e da Europa aqui. Já eles só ouvem a versão oficial.’"
|