10/06/2003 5/21

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NYT EM CRISE
O Globo

"Caso reacende debate sobre plágio", copyright O Globo, 6/06/03

"A demissão de dois editores do mais famoso jornal do mundo reacende o debate sobre o plágio no jornalismo americano, que alguns acreditam ter aumentado nos últimos anos.

- Num setor no qual as pessoas não podem errar, eles estavam indo bem, voando mais alto e sua ambição era mais arrogante do que nunca. Esse tipo de atitude leva a um sentimento de invulnerabilidade - disse Orville Schell, reitor da Escola de Jornalismo da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

As últimas baixas vieram ontem quando o diretor de redação, Howell Raines, e o editor-executivo, Gerald Boyd, do ‘New York Times’ se demitiram após um escândalo de plágio.

Uma empresa especializada em descobrir plágios por meio de checagem por computador para escolas e universidades disse que o problema é comum nos jornais americanos e também entre estudantes.

- Todos enfrentam esse problema - disse John Barrie, diretor da Plagiarism.org, em Oakland, Califórnia. - Os jornais do país não estão tendo o cuidado necessário.

Na checagem feita em milhares de artigos dos principais jornais de São Francisco, Barrie descobriu que muitos plagiavam outras fontes. Continham o que ele chama de parafraseado mal feito, em que trocam cinco palavras num texto de cem.

A falha em usar e não citar o trabalho de outra pessoa atingiu historiadores nos últimos anos. Doris Kearns Goodwin, ganhadora do Prêmio Pulitzer, reconheceu no ano passado que seu livro ‘The Fitzgeralds and the Kennedys’ continha passagens dos trabalhos de outras pessoas. Stephen Ambrose, biógrafo dos presidentes Eisenhower e Nixon, enfrentou escândalo semelhante."

 

Folha de S. Paulo

"Fraude derruba editor do ‘New York Times’", copyright Folha de S. Paulo, 6/06/03

"Os dois principais editores do ‘New York Times’ renunciaram ontem em meio à crise provocada pelas fraudes jornalísticas do jovem repórter Jayson Blair.

O editor-executivo, Howell Raines, 60, e o secretário de Redação, Gerald Boyd, 52, saíram de uma reunião no meio da manhã e informaram a seus surpresos subordinados que haviam renunciado. Raines parecia desapontado, Boyd tinha lágrimas nos olhos, segundo repórteres.

‘Ao me dirigir a vocês pela última vez, gostaria de agradecê-los pela honra de ser membro da melhor comunidade jornalística do mundo’, disse Raines. ‘Lembrem-se, quando uma grande história surgir, corram atrás dela como loucos’, concluiu.

A credibilidade do ‘Times’ está sob suspeita desde 1º de maio, quando Blair, 27, pediu demissão após o jornal encontrar declarações e dados falsos, imprecisões e informações plagiadas em 36 dos 73 artigos escritos por ele entre outubro de 2002 e abril de 2003.

Em 11 de maio, o ‘Times’ publicou um texto de quatro páginas detalhando os erros cometidos por Blair. O caso deu início a uma discussão sobre os procedimentos equivocados da Redação que teriam permitido que as fraudes passassem despercebidas.

E trouxe à tona insatisfações sobre o estilo de trabalho de Raines, que seria excessivamente hierárquico e distante. Raines teria ignorado alertas feitos por outros editores sobre Blair e foi acusado de promover o jovem repórter negro com o intuito de estimular a diversidade racial na Redação.

‘Howell e Gerald ofereceram suas renúncias, e eu as aceitei com tristeza com base na crença de que é melhor para o ‘Times’, disse o publisher Arthur Sulzberger Jr., em nota. Seu pai, Arthur Sulzberger Sr., ex-publisher do ‘Times’, participou da reunião, mas permaneceu em silêncio.

‘Sinto por saber que mais pessoas caíram devido aos acontecimentos provocados por mim’, disse Blair, em e-mail à CNN.

Raines tornou-se editor-executivo do ‘Times’ alguns dias antes dos atentados de 11 de setembro de 2001. Em 2002, o jornal recebeu sete prêmios Pulitzer -cinco pela cobertura dos ataques.

Joseph Lelyveld, 66, que foi editor-executivo do ‘Times’ por sete anos (até 2001), foi nomeado interinamente para o cargo. Durante sua gestão, o jornal ganhou 12 prêmios Pulitzer, introduziu cores em suas páginas e expandiu sua circulação."

Daniel Piza

"Vejo Jayson Blair como ‘terrorista’, diz Talese", copyright O Estado de S. Paulo, 10/06/06

"Gay Talese é um nome mais que autorizado para falar sobre o caso Jayson Blair, o repórter que inventou e plagiou matérias no The New York Times. Além de ter trabalhado no jornal por dez anos, escreveu um livro sobre ele, O Reino e o Poder, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2000. E, como sabem seus milhares de leitores mundo afora, é um grande jornalista, conhecido como um dos pais do new journalism, que empresta técnicas da ficção. Em entrevista feita por fax no sábado, Talese diz que o caso foi uma mistura de incompetência, ação afirmativa (que defende a contratação de pessoas pelo critério da cor da pele) e desonestidade.

Estado - Como Jayson Blair conseguiu permanecer tanto tempo na redação cometendo o que cometia?

Gay Talese - Incompetência. Os editores foram simplesmente incompetentes. De que outra forma poderia se explicar a tolerância deles com este desajustado, este jovem indigno? Mas os editores são seres humanos e levam para suas editorias sua vida pregressa, suas fraquezas e preconceitos. No caso dos senhores Howell e Boyd (Howell Raines e Gerald Boyd, editor-chefe e secretário de redação, que pediram demissão na semana passada), eles tiveram uma excessiva tolerância com um jovem negro que, com um jeito cativante, conseguiu tanto bajular os mais velhos (seus chefes) como evocar dentro deles uma identidade com sua juventude e fragilidade. Eles viram nele o que talvez eles próprios tenham sentido quando jovens: insegurança, o que até certo ponto todo jovem tem. Nem Howell nem Boyd foram inábeis quando jovens repórteres; eram mais talentosos que a média. Mas imagino que se identificaram com a juventude de Blair e, sendo Howell (como ele mesmo ressaltou) um ‘homem branco do Alabama’ com um desejo de mostrar virtudes igualitárias em relação às pessoas negras - e sendo o próprio Boyd negro -, esses dois cavalheiros mostraram ser uma dupla infeliz na direção editorial do Times.

Estado - Qual o impacto do caso sobre a imagem de credibilidade do jornal?

Talese - O Times, ‘a senhora grisalha’, resistirá, assim como seus proprietários. Os Sulzbergers são os donos; os funcionários sofrerão - e já sofreram - as conseqüências do que certamente foi culpa também do diretor responsável Arthur Ochs Sulzberger Jr. E o Times continuará, como tem sido nos seus mais de cem anos de história, um jornal com ‘excelente folha de serviços’, embora fique manchado durante algum tempo por ter permitido a presença desse jovem ‘terrorista’ no seu meio. É assim que vejo Blair - um ‘terrorista’ que se esgueirou pelas fileiras do jornalismo e plantou antraz nas notícias do jornal. Esse antraz foi um veneno que produziu ainda mais veneno, e os chefes foram negligentes com isso. Agora, porém, essa doença está sendo tratada e o corpo principal do jornal está sendo rejuvenescido com sangue novo e velho também. O sangue ‘velho’ é Joseph Lelyveld, um editor-chefe aposentado que foi trazido esta semana temporariamente para restaurar os ‘velhos’ padrões, os padrões que se esperam de uma instituição tão confiável.

Estado - Em sua opinião eles foram complacentes com Boyd por causa da cor?

Talese - Sim. Estamos na época da ação afirmativa, do politicamente correto, em que as pessoas estão interessadas em passar a imagem de verdadeiramente democráticas. Nós, americanos, não somos realmente democráticos; apenas gostamos de parecer que somos. E assim as emissoras contratam negros para que rostos negros sejam vistos na TV; o presidente de Harvard tolera um monte de asneiras de ‘acadêmicos’ como Cornel West (que abandonou Harvard e fugiu para Princeton); e todo mundo tem medo de ser chamado de ‘racista’ se, por alguma razão, uma pessoa negra for deixada para trás. Como você sabe, também venho de uma minoria (sou ítalo-americano), mas só recentemente essa coisa do politicamente correto entrou em moda neste país - em que minorias étnicas e sexuais se unem para se fazerem ouvir. Homossexuais agora viraram ‘moda’ em algumas paragens. Bem, mas as coisas se reequilibram no fim. O que importa são as qualidades que a pessoa traz para o ofício; se ela não consegue exercer sua função termina perdendo a oportunidade de exercê-la - e eis Jayson Blair desempregado.

Estado - Blair poderia pensar que estava fazendo new journalism, tentando contar histórias com tom pessoal e técnicas de ficção?

Talese - Não foi o novo jornalismo que prejudicou Blair, foi o não jornalismo. E causou danos ao Times. O jornalismo não guarda relação com mentira, fraudes, atalhos, enganação. É exatamente o contrário disso. Blair deveria ter outra profissão. Ele estaria muito melhor na vida política, em que a mentira é um modo de vida mais aceitável. Gostaria que os jornalistas americanos tivessem desmascarado as mentiras dos homens que influenciaram a Casa Branca, que juraram para o povo americano que estávamos indo para a guerra porque a ditadura iraquiana tinha ‘armas de destruição em massa’ e estava prestes a usá-las no mundo livre. Essas mentiras não foram reveladas a tempo pela imprensa de Washington, nem pelos chefes das redes de televisão de Nova York."

 

Zuenir Ventura

"NYT, uma lição para nós", copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 10/06/06

"O que aconteceu ao New York Times foi ruim e foi bom para nós, da imprensa brasileira. Foi ruim por razões óbvias. A descoberta de que um jovem cascateiro - como se dizia no meu tempo - pôde passar quatro anos plagiando e inventando histórias sem ninguém do jornal notar, foi uma porrada em nosso amor próprio. O NYT era um modelo de santidade, não digo de minha geração, que sempre foi mais ‘francesa’, mas dos que vieram em seguida. Em 1960 (alguém sabe que existiu esse ano?), quando obtive uma bolsa de estudos para Paris, a nossa referência era o Le Monde - minha, do Luiz Edgar de Andrade, do Roberto Muggiatti, que conseguiram a mesma bolsa, entre outros (diga-se de passagem que o Monde já deu também o seu mau passo).

Mas tínhamos que reconhecer que o Times era ‘o jornal mais influente do mundo’. Contra os saudosistas, que defendiam (e muitos defendem) as formas semi-artesanais ou pré-industriais de fazer jornalismo, como se elas fossem o máximo da honestidade e da pureza possíveis, uma espécie de era da inocência, eu mesmo sempre opus o exemplo do diário americano. ‘Vejam como é possível fazer um jornalismo digno e independente, apesar das injunções do mercado e das imposições industriais’. Citava o NYT e recorria ao caso do cinema moderno, ou pós-moderno, o de hoje enfim: ‘Até Hollywood, que é uma indústria e um comércio, pode ser capaz de lançar todo ano uma meia dúzia de filmes artisticamente importantes’.

Citava também os maus hábitos de quando comecei na profissão, o principal deles sendo o jornalismo a serviço dos partidos. A Última Hora era do PTB de Getúlio; a Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, da UDN; o Diário Carioca, do PSD; os jornais de Assis Chateaubriand, de quem desse mais. Não era apenas uma relação política ou ideológica, mas muitas vezes dependência econômica completa e por debaixo do pano.

Ao contrário do que muitos pensam, acho que esses tempos deram mais jornalistas bons do que jornalismo. Um dos melhores exemplares desse tipo de profissional do meu início de carreira, na segunda metade dos anos 50, morreu na semana passada. Foi Araújo Netto, de quem não cheguei a ser amigo como gostaria, mas que sempre funcionou para mim, desde o começo, como uma referência técnica e ética (Aliás, abro um parêntese para fazer minhas as palavras corajosas de Alberto Dines no JB de sábado. Ele termina assim o seu artigo: ‘É preciso lembrar que jornalistas como Araújo Netto são capazes de morrer de tristeza e desgosto’).

Em suma, o episódio do repórter Jayson Blair, que além de tudo forneceu munição para a discriminação e o racismo pelo fato de ser negro (muitos correligionários de Bush devem estar dizendo: ‘mas também!’), significou uma grande decepção. Por outro lado, como disse lá em cima, foi benéfico, porque serviu como lição contra nossa tendência à presunção e à prepotência. Uma das coisas mais bem distribuídas em nossa profissão é a arrogância.

No seu editorial de auto-crítica ou mea culpa, o NYT lembrou que o jornalismo ‘é algo imperfeito’. Tem razão: é um processo que exige incessante aperfeiçoamento, deve ser um constante aprendizado, um permanente exercício de humildade. O erro de hoje faz esquecer o sucesso de ontem. Um jornal pode ter 100 anos de existência, mas sua credibilidade dura 24 horas, ou seja, precisa ser renovada a cada dia. Um crédito perdido é muito difícil de ser recuperado, se é que é possível recuperá-lo. Talvez seja o capital mais difícil de acumular e mais fácil de perder. Em termos de televisão então, esse tempo se reduz a segundos, que é a unidade do veículo: a confiança pode ser perdida não em 24 horas, mas em segundos.

Ao lembrar os prêmios conquistados durante a gestão do diretor de redação Howell Raines e o editor-executivo Gerald Boyd, que pediram demissão em conseqüência do escândalo, o editorial diz: ‘Uma lista de sucessos espetaculares pode ter nos tornado pretensiosos demais, seguros demais de que o futuro simplesmente traria mais disso’.

É essa a lição: no jornalismo, a humildade não é uma virtude, mas um antídoto."

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