10/06/2003 12/21

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ARAÚJO NETTO (1929-2003)
Armando Nogueira

"Uma luminosa aventura", copyright O Estado de S. Paulo, 8/06/03

"Araújo Neto é mais um aliado da minha vida que se vai. Um dos mais impiedosos desígnios da morte é nos privar de um amigo. Araújo é mais uma testemunha que já não posso invocar. Mas, se Araújo não poderá mais falar de mim, nem por mim, resta-me, por consolo, recordar tantos anos em que compartíamos a dupla paixão pelo jornalismo e pelo futebol. Bons e saudosos anos.

Ao lado de Araújo, vivi minha primeira aventura livresca. Escrevemos Drama e Glória dos Bicampeões, sobre o mundial de 60, no Chile. Rubem Braga e Fernando Sabino tinham criado a Editora do Autor e queriam que contássemos a história da Copa, a toque de caixa. O livro tinha que estar nas livrarias, o mais tardar, uma semana depois da conquista brasileira.

Em matéria de futebol, os dois escritores-editores não eram lá muito católicos. Não conheciam um palmo da velha estrada que Araújo e eu, há tanto tempo, sempre soubemos cheia de sortilégios. Os dois mal ouviram as nossas ponderações. Queriam o livro - e ponto final. Um sabiá teria cantado, ao pé do ouvido deles, que o Brasil seria campeão. E, agora: quem éramos nós pra ousar contrariar dois papas da literatura e do jornalismo no Brasil? Rubem e Fernando eram por nós dois tão idolatrados quanto os próprios craques da seleção.

Dividimos a missão, irmãmente: cada um escreveria metade do livro. Depois de cada treino, finda cada partida, nos trancávamos no hotel, em Viña del Mar e metíamos mãos à obra, noite a dentro, madrugada a fora. Dormíamos em módicas prestações, fosse pela angústia de tempo, fosse pela algazarra, dentro e fora do hotel. Viña del Mar estava superpovoada de brasileiros a cantar e a batucar a ruidosa melopéia de cada triunfo brasileiro.

Os dois últimos capítulos, que correspondiam justamente à semifinal e à final, não deu pra escrever no hotel. O saguão, os corredores, os quartos, a própria praça, em frente, tudo, enfim, era um manicômio só.

Por sorte, havia em Santiago um santo amigo. O poeta Thiago de Mello, então, adido cultural à embaixada do Brasil, nos transportou, com armas e bagagens, pra casa do poeta e seu amigo Pablo Neruda.

Foi no afetuoso silêncio da lendária casa da Isla Negra, em Santiago, que concluímos nossa missão. O cenário poético em que o livro viria à luz, de todo, pode não ter contribuído pra enriquecer a obra, mas, certamente, encheu de orgulho os dois autores, um dos quais, neste momento, já livre dos infortúnios do corpo, deve estar contando, numa roda de bem-aventurados, como foi luminosa aquela aventura de escrever, a quatro mãos, o livro Drama e Glória dos Bicampeões."

 

João Máximo

"A Paixão Pelo Futebol", copyright O Globo, 4/06/03

"Araújo Netto era um jornalista completo. Mas é possível que em nenhuma outra especialidade o seu texto tenha brilhado tanto quanto no esporte. Os mais jovens não sabem disso: há muito anos as obrigações de correspondente o levaram a fazer do esporte mais uma atividade entre muitas outras. Seus textos - ou o modo como combinava neles o tino do repórter, o estilo do cronista e o equilíbrio do editor - são exemplares.

Ele era um apaixonado. Não pelo clube, mas pelo futebol. Se sofreu tanto, como repórter, ao cobrir a final da Copa do Mundo de 1950, é porque via ali não a derrota do Brasil, mas do futebol. Ou de craques que ele admirava por tornarem, com arte, sua vida melhor.

Recomenda-se, ou melhor, cita-se como obrigatórios dois dos livros que escreveu: ‘Drama e glória dos bicampeões’, com Armando Nogueira, e ‘Brasil futebol-rei’, este uma obra clássica sobre como entender o jogo por dentro e por trás, do ponto de vista humano, com uma sabedoria e qualidade literária que os cientistas sociais que escrevem sobre o tema não conseguem igualar.

Araújo esteve em todas as Copas, de 1962 a 1990. É de lamentar que seu último texto sobre Copa do Mundo tenha sido sobre a morte de seu amigo João Saldanha, logo após a final de 1990. Desta vez, um brilho triste, mas ainda assim exemplar."


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