11/11/2003 4/20

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A DITADURA DERROTADA
Fabiana Cimieri

"General diz que debate distorce os fatos", copyright Folha de S. Paulo, 6/11/03

"O general reformado Carlos Meira Mattos, 90, sub de Ernesto Geisel quando ele ocupava a chefia do Gabinete Militar do governo Humberto Castello Branco (1964-67), afirmou que o conteúdo das fitas divulgadas no livro de Elio Gaspari está sendo distorcido por uma má interpretação: ‘Quando você diz que quer matar alguém não quer dizer que realmente vá matar essa pessoa’.

Segundo ele, dizer que Geisel permitia a tortura é um ‘despropósito, pois ele era contra qualquer tipo de violência’.

Para a pesquisadora Maria Celina D’Araújo, do CPDoc (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea) da FGV (Fundação Getúlio Vargas), apesar de Geisel ter tentado enquadrar as forças de repressão dentro de uma linha de comando, o ‘baixo clero’ -sargentos, capitães e oficiais reformados- continuou a fazer ‘terrorismo de direita’. D’Araújo, autora do livro ‘Geisel, Depoimentos’, em parceria com o pesquisador Celso de Castro, disse que alguns trechos das fitas trazem informações inéditas e paradoxais.

‘Ele começou o processo de abertura ao mesmo tempo em que foi o primeiro presidente do regime a explicitar verbalmente a questão da tortura e do assassinato. Além disso, preocupou-se em deixar registradas as conversas.’

O general reformado Newton Cruz, 79, disse ontem que tinha ‘resquícios ditatoriais’ e era ‘omisso’ diante das denúncias de tortura. Cruz foi chefe da Agência Central do SNI (Serviço Nacional de Informações) entre 74 e 76.

‘Houve muita omissão em face da tortura, mas não houve incentivo. Que houve tortura, só um estúpido diria que não houve, mas houve dos dois lados’, afirmou.

Para ele, a mentalidade dos militares era a de que havia uma revolução em curso. ‘Nós de um lado. De outro, os inimigos.’

Essa filosofia de combate teria surgido durante o governo Costa e Silva, quando a chamada linha-dura do regime militar começou a imperar, disse o general.

Para Cruz, Geisel assumiu acreditando que poderia resgatar a mentalidade de tolerância do governo do general Castello Branco: ‘Mas o quadro era bem diferente’. Cruz afirmou também duvidar que Geisel soubesse que estava sendo gravado."

 

O Globo

"Surge a face oculta de Geisel", copyright O Globo, 5/11/03

"Obra mostra um presidente que apoiava o extermínio de militantes de esquerda e queria mudar os métodos de repressão

O nze meses depois do lançamento dos dois primeiros volumes de ‘Ilusões Armadas’ - ‘A ditadura envergonhada’ e ‘A ditadura escancarada’ - Elio Gaspari volta a revolver a História e lança ‘A ditadura derrotada’. O terceiro livro desse mergulho nos bastidores do regime militar de 64 chega hoje às livrarias envolto em mistério. Ao contrário dos primeiros, este não foi entregue com grande antecedência às redações, como é praxe no mercado editorial brasileiro.

No estilo americano dos livros de impacto, a obra é posta à venda sem que antes jornalistas e críticos tenham tido acesso privilegiado a ela. Todos - jornalistas, críticos, personagens e o público em geral - conhecerão ‘A ditadura derrotada’ praticamente ao mesmo tempo.

Editada pela Companhia das Letras, a obra abrange o início da Era Geisel. Relata o processo de sua escolha para substituir Emílio Garrastazu Medici - deixa claro que o grande e decisivo eleitor de Geisel foi mesmo Medici - descreve a formação do governo e acompanha os primeiros meses de poder até logo após a derrota histórica do regime nas eleições de 74. Daí o título do livro.

A obra traz, ainda, alentadas biografias dos dois personagens centrais de ‘Ilusões armadas’: o general Golbery do Couto e Silva, o Feiticeiro, e o Sacerdote, Geisel. Golbery foi fundador do Serviço Nacional de Informações (SNI) e chefiara a sua criação no governo de Humberto Alencar Castello Branco, primeiro presidente do regime de 64, para quem Geisel cuidou do Gabinete Militar. Golbery, na gestão Geisel, assumiu o Gabinete Civil. E junto com os dois, Heitor Aquino Ferreira, secretário pessoal de Golbery na gestão Castello e depois do presidente Geisel.

‘Matar é barbaridade, mas tem que ser’

Rico em informações de bastidores, este capítulo de ‘Ilusões armadas’ desvenda a face oculta do Sacerdote e do seu governo. Chama a atenção como um dos mais fechados períodos da ditadura militar está bem documentado. E não só por papéis. Também por fitas, gravadas com o conhecimento dos próprios Geisel e Golbery. ‘A ditadura derrotada’ traz a público gravações de conversas mantidas entre Geisel, auxiliares e candidatos a ministros, de outubro de 1973, quando começou a fase de montagem da equipe, ao dia 14 de março de 1974, véspera da posse.

As gravações foram feitas no Rio, nos gabinetes que o presidente escolhido utilizava no Jardim Botânico e na sede carioca do Ministério da Agricultura, um prédio já demolido que existia no Largo da Misericórdia, Praça Quinze, próximo ao Museu Histórico Nacional. As fitas foram entregues a Gaspari junto com o famoso ‘Arquivo do Golbery’ e o diário de Heitor Aquino, acervo que se torna importante protagonista neste terceiro volume.

Uma preciosidade deste volume é o diálogo travado no dia 16 de fevereiro de 1974, a um mês da posse, entre o presidente escolhido e o seu futuro ministro do Exército, general Vicente de Paulo Dale Coutinho. Falam, entre outros assuntos, sobre a eliminação de adversários."

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"Violência era política do regime", copyright O Globo, 5/11/03

"Geisel queria controlar os porões dos quartéis; como não conseguiu, fechou-os

A conversa entre Geisel e Dale Coutinho deixa claro que as eliminações eram conhecidas e aprovadas pela cúpula do regime. Geisel considerava a violência um mal inevitável:

- (...) Ah, o negócio melhorou muito. Agora, melhorou, aqui entre nós, foi quando nós começamos a matar. Começamos a matar - diz o general Dale Coutinho.

- Porque antigamente você prendia o sujeito e o sujeito ia lá pra fora (...) Ô Coutinho, esse troço de matar é uma barbaridade, mas acho que tem que ser - responde Geisel, a um mês da posse.

Nessa mesma conversa os dois tratam da guerrilha do Araguaia e do aniquilamento de um guerrilheiro (Osvaldão, Osvaldo Orlando da Costa, chamado por Coutinho de ‘Chicão, Luizão’). Geisel afirma que o estilo da repressão, em geral, se manterá:

- (...) Vamos ter que continuar ano que vem. Nós não podemos largar essa guerra.

Há, ainda, uma conversa com o chefe de sua segurança pessoal, Germano Arnoldi Pedrozo, tenente-coronel do Exército, sobre a prisão de um grupo de pessoas no Paraná vindas do Chile:

- Pegaram alguns? - pergunta Geisel.

- Pegamos, pegamos. Foram pegos quatro argentinos e três chilenos.

- E não liquidaram, não?

- Ah, já, há muito tempo (...) - tranqüiliza o tenente-coronel, para ouvir o conselho do futuro presidente:

- É, o que tem que fazer é que tem que nessa hora agir com muita inteligência, para não ficar vestígio nessa coisa.

O controle dos porões

‘A ditadura derrotada’ desvenda, assim, a postura de Geisel diante dos porões do regime. O presidente da República, que vergou esses mesmos porões, considerava necessária aquela máquina de extermínio. Mas não admitia que atuasse fora da linha de comando. Queria controlá-la. Não conseguiu e a desativou.

Naquela mesma conversa com o general Dale Coutinho, Geisel refere-se à necessidade de em algum momento o governo ter de ‘repensar’ aquele ‘processo ‘, que ‘infelizmente’ ainda teria de continuar. Ou seja, Geisel queria mudar os métodos de repressão política. Mas como a autonomia faz parte da lógica desses aparatos genocidas, o conflito tornou-se inevitável. E nesse choque ganharam Geisel e o projeto de abertura.

Gaspari relata, também, como Geisel se comprometeu a garantir o resultado das urnas de 74, quando ao oposição (MDB) preencheu mais de dois terços das cadeiras em disputa no senado (16 de 22) e e quase a metade da Câmara dos Deputados (165 dos 364 assentos). Quando chegou ao Planalto no dia seguinte às eleições, encontrou duas propostas de golpe na mesa: do SNI e da Marinha. Não as levou a sério. Ali o regime começava a se dividir.

A amizade a serviço

Achava-se nas sombras dessa face desvendada por Gaspari um Geisel amargo que jamais absorveu a morte do filho, de 16 anos, atropelado por um trem. Surge, também, um Geisel capaz de soltar sonoros palavrões em momentos de ira. Mas nunca na presença de pessoas pouco íntimas.

Imaginava-se que o taciturno presidente baixaria a guarda diante de Golbery e de Heitor, companheiros de jornada. O livro acaba com o mito. Nos despachos com Heitor, o auxiliar ficava em pé. A amizade com Golbery não estremeceu, mas desde que Geisel assumiu a Presidência, as conversas a sós foram racionadas. Gaspari calcula que por semana dificilmente passavam mais de uma hora frente a frente. Conversa solta, só três por ano. São escassos os registros da ida de Golbery para almoçar ou jantar no Alvorada. Não chegam a dez. E poucas vezes Geisel foi à Granja do Ipê, residência oficial do chefe da Casa Civil. ‘Era uma amizade a serviço’, interpreta Elio Gaspari.

Agora, a obra chega a 1.462 páginas. E faltam dois volumes: o quarto, já na editora, e o último, a ser escrito. Sobre o governo Figueiredo, nada. Por desimportante, diz Gaspari."

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"Tortura Nunca Mais volta a pedir abertura dos arquivos do Araguaia", copyright O Globo, 5/11/03

"Para a professora de história contemporânea da USP Maria Aparecida de Aquino, o ex-presidente Ernesto Geisel tolerou a tortura e os assassinatos de inimigos do regime, como mostra o livro ‘A ditadura derrotada’, porque imaginava viver um ciclo revolucionário:

- Geisel era militar até a raiz dos cabelos. Ele e seu grupo se consideravam em guerra e, em guerra, tudo seria possível. Para eles, a lei existia, mas não precisava ser cumprida em momentos excepcionais.

A pesquisadora Maria Celina d’Araújo, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da Fundação Getúlio Vargas (CPDoc) e autora com Celso Castro do livro ‘Geisel - Depoimentos’, disse que, ao contrário da imagem que ficou, associada ao início da abertura, o livro mostra um presidente decidido a usar os meios de eliminação de inimigos:

- A diferença de Geisel para os outros é que ele fez isso mantendo a autoridade do presidente sobre as Forças Armadas. Não desautoriza o combate ao anticomunismo, mas exige que seja feito dentro da cadeia de comando.

O secretário nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, disse que não havia mais guerra suja no Brasil na época, como alegavam os militares:

- Não existia uma guerra de verdade. O que o governo Geisel fez foi exterminar pessoas que queriam participar da luta legal, institucional, de redemocratizar o país.

Suzana Lisboa, da comissão de famílias de mortos e desaparecidos políticos, diz que o livro revela que não havia apenas conivência de Geisel com tortura e morte de inimigos do regime.

- Era uma política de Estado. Com a distensão iniciada em 1973, acabam as mortes oficiais. Todos viram desaparecidos. Nada foi sem querer.

Elizabeth Silveira, do grupo Tortura Nunca Mais, lamenta que os militares insistam em não abrir os arquivos do Araguaia:

- Não querem que venha a público este horror."

 

Folha de S. Paulo

"Sobre revelações de Gaspari, Viegas afirma que é feliz por ter democracia plena", copyright Folha de S. Paulo, 10/11/03

"O ministro da Defesa, José Viegas, disse ontem que ‘nós [brasileiros] somos felizes de viver hoje num país plenamente democrático e que não existe nenhum divórcio quanto à importância de seguir as leis e quanto à necessidade absoluta de não compactuar, nem da maneira mais leve, com qualquer procedimento tipo tortura’.

A afirmação referia-se ao livro do jornalista Elio Gaspari ‘A Ditadura Derrotada’, lançado na quarta-feira. O livro revela que o ex-presidente Ernesto Geisel sabia do assassinato de adversários do regime militar.

Viegas disse que, por não ter lido o livro, não comentaria as gravações reveladas por Gaspari. Segundo o ministro, as Forças Armadas estão hoje plenamente inseridas no ‘ambiente democrático’. As declarações foram feitas durante visita ao projeto Soldado-Cidadão, que dá capacitação técnica aos jovens militares desligados do Exército."

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"Sarney se diz ‘frustrado’ com fitas de Geisel", copyright Folha de S. Paulo, 6/11/03

"‘Foi frustrante.’ Assim reagiu o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), ao saber que o assassinato de adversários do regime militar teve o aval do presidente Ernesto Geisel (1907-1996), segundo revelação do livro ‘A Ditadura Derrotada’, do jornalista Elio Gaspari, colunista da Folha, que chegou ontem às livrarias.

A reação de Sarney, que na época era senador pela Arena, resume o sentimento expressado por outros protagonistas do período, como o ex-senador Jarbas Passarinho, o deputado Delfim Netto (PP-SP) e o presidente nacional do PT, José Genoino (SP), um dos opositores do regime. ‘Estou perplexo’, disse Passarinho.

Personagem do livro, Delfim quer primeiro ler e depois comentar as passagens nas quais aparece como manipulador do índice de inflação ou em situações pouco lisonjeiras, como um comentário de Mario Andreazza (ex-ministro dos Transportes) a Geisel: ‘Conheço os podres do gordo’.

‘O livro do Elio é uma coisa séria. O que apareceu até agora na imprensa é pouco. No que se refere a mim, li que ele retrata o conjunto de intrigas armado dentro do staff de Geisel pelo temor que o general tinha de que eu fosse eleito governador de São Paulo’, disse Delfim, por e-mail, à Folha.

‘Para mim, particularmente, foi frustrante, porque vulnera a imagem que eu tinha do presidente Geisel’, disse Sarney. ‘Tanto mais considerando a respeitabilidade da fonte e a objetividade com que o fato é narrado.’

Passarinho diz que Geisel carregava a imagem de ser contra a tortura, desde a origem do regime. Ele foi o encarregado pelo primeiro presidente do ciclo militar, Castello Branco, de investigar denúncias de que presos políticos eram torturados em Pernambuco. Depois demitiu o general Ednardo D’Ávila Melo do comando do Exército em São Paulo, onde presos foram mortos sob tortura.

Ministro do Trabalho do antecessor de Geisel, o general Emílio Garrastazu Médici, cujo governo era mais identificado com a eliminação dos opositores do regime, Passarinho não resiste a uma ironia: ‘O [José] Genoino foi preso e saiu vivo no governo Médici’.

‘O que está aí é a documentação do que se sabia na época, do que se sabia oficiosamente’, afirmou Genoino. O presidente do PT estava preso em fevereiro de 1974 -época da gravação em que Geisel demonstra admitir a morte de opositores durante a repressão militar- por ter participado da guerrilha do Araguaia, movimento armado desencadeado pelo PC do B no início dos anos 70, na selva amazônica. ‘É uma questão histórica, e o povo vai tomando conhecimento do passado sem medo, sem idolatria e sem preconceito’, afirmou Genoino, que foi solto em abril de 1977.

Aldo Rebelo (PC do B-SP), líder do governo na Câmara, disse que ‘o episódio é uma mancha na história do Brasil’.

O livro é o terceiro da série ‘As Ilusões Armadas’, que trata do ciclo militar (1964-1985) e foca a abordagem nas trajetórias de Geisel, quarto dos cinco presidentes do regime militar, e de Golbery do Couto Silva (1911-1987), idealizador do extinto SNI (Serviço Nacional de Informações) e uma das principais figuras do regime.

No livro, são utilizados trechos de 222 horas de gravação de conversas de Geisel e assessores feitas entre outubro de 1973 e março de 1974. Elas foram coordenadas pelo secretário particular do general, Heitor Aquino Ferreira."

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"Impacto do livro é muito forte, afirma Nilmário", copyright Folha de S. Paulo, 6/11/03

"O ministro Nilmário Miranda (Direitos Humanos) classificou de ‘muito forte’ o impacto causado pelas declarações de Ernesto Geisel reveladas pelo jornalista Elio Gaspari em seu novo livro. ‘É o próprio presidente falando e discutindo friamente maneiras de eliminar pessoas’, disse Nilmário, que esteve preso entre 1972 e 1975.

Em 1974, ele foi transferido de Juiz de Fora (MG) para o DOI-Codi, em São Paulo. ‘Lá estava entupido de presos políticos. Os 12 dias que fiquei no local foram infernais. Nesse período, ficou claro que prendiam pessoas pacíficas, não era mais contra a luta armada.’

Segundo Nilmário, ‘hoje a questão é achar os corpos’. Ele é contrário a medidas punitivas: ‘É preciso um esforço da sociedade, inclusive de quem participou das operações, para descobrir onde estão os corpos. Mas não se trata de punições’.

A representante dos familiares na Comissão de Mortos e Desaparecidos, Suzana Lisboa, afirmou que o jornalista ‘prestou um favor à história’ ao revelar as gravações. ‘É um favor à história e à nação. Comprova as denúncias que nós, familiares, vínhamos fazendo’. Segundo Lisboa, as gravações provam a responsabilidade do Estado na morte de presos."


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