13/01/2004 13/25

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SUSPEITA DE FRAUDE
Folha de S. Paulo

"Jornalista é investigado por fraude", copyright Folha de S. Paulo, 9/1/04

"Jack Kelley demitiu-se do jornal americano ‘USA Today’ anteontem depois de longo processo em que suas matérias foram investigadas pelo jornal. Muitas matérias baseavam-se em fontes anônimas e em eventos não testemunhados por outros jornalistas, mas ele negou ter faltado com a ética. Suas matérias sobre centros de terrorismo lhe valeram a final do Prêmio Pulitzer em 2002. Outro repórter do ‘USA Today’ foi designado para checar o trabalho passado de Kelley, sem comprovar fraude."

 

Pedro Dória

"O novo Jayson Blair?", copyright No mínimo (http://nominimo.ibest.com.br), 9/1/04

"Jack Kelley não é um novo Jayson Blair – o repórter do ‘New York Times’ que terminou demitido por fraude – mas suas histórias são parecidas. Até o início da semana, era o principal correspondente internacional do ‘USA Today’, importante jornal popular (não sensacionalista) dos EUA. Na manhã de quinta-feira, demitiu-se após a conclusão de uma investigação envolvendo suas reportagens.

Entrevistada pelo colunista de mídia do ‘Washington Post’ Howard Kurtz, a editora de Kelley no ‘USA Today’, Karen Jurgensen, disse que nada foi encontrado que descredenciasse qualquer uma de suas reportagens. No entanto, após seis meses de investigação durante os quais esteve afastado do trabalho, Kelley pediu o chapéu sem outro emprego em vista. Kelley é um repórter-estrela. Foi o primeiro do jornal a se aproximar do Prêmio Pulitzer, mais prestigioso da profissão nos EUA, quando foi finalista há um ano. Seu trabalho é ousado, por vezes traz um sabor de aventura, e após duas décadas alcançou prestígio internacional. Entrevistou 38 chefes de Estado, incluindo Yasser Arafat, Fidel Castro e Mikhail Gorbachev.

Uma de suas matérias de maior repercussão foi sobre a explosão da Pizzaria Sbarro, mais grave atentado a Jerusalém até então. Ocorrido em agosto de 2001, menos de um mês antes da queda das torres, recebeu cobertura com destaque por toda a imprensa, mas a reportagem de Kelley foi especial. Ele tinha acabado de deixar a pizzaria e a explosão o jogou ao chão. Foi, segundo descreveu, repórter e testemunha, conforme tentava decidir se sacava o bloco de notas ou ajudava pessoas.

Segundo carta anônima recebida pela direção do ‘USA Today’, esta seria uma das reportagens em que mentiu. Neste caso, Mark Memmott, seu colega de redação, conseguiu localizar o oficial militar israelense que o acompanhava e que confirmou a história. Durante o trabalho, Memmott confirmou as informações de Kelley – ou então não localizou as fontes do jornalista. No fim, nada pode ser negado, nenhum exagero foi confirmado.

Ao final, o clima na redação, segundo o ‘Washington Post’, ficou hostil ao repórter. Kelley era convidado freqüente para comentar na CNN, então talvez consiga algo por lá. De repente, uma revista ou jornal manifesta interesse. Ou, então, está queimado no mercado e precisará procurar emprego em algum veículo obscuro.

Embora o USA Today não tenha oficialmente comprovado fraude, são várias as histórias mal explicadas. Uma das de maior repercussão foi a entrevista que conduziu com o presidente paquistanês Pervez Musharraf após o 11 de setembro e antes da invasão norte-americana ao Afeganistão. Na entrevista, Musharraf criticava a estratégia dos EUA. Uma vez publicada, no entanto, o presidente negou que tivesse recebido o repórter.

Neste caso, Kelley estava acompanhado de uma jovem repórter da Rádio CBS que também levou as críticas ao ar – mas ela não tinha qualquer gravação do presidente. Mais tarde, ambos explicaram que foi uma das raras entrevistas exclusivas concedidas pelo presidente, por isso não houve outras testemunhas.

Outra reportagem notória ocorreu no final de 2002. Segundo o repórter, terroristas da Al Qaeda estariam codificando mensagens em imagens publicadas na Internet. As imagens com código escondido teriam sido espalhadas em sites os mais diversos, de pornográficos ao leilão virtual eBay, e só terroristas com senha poderiam desvendá-las. Kelley afirmava que a eBay preferiu não fazer declarações a respeito – a empresa, no entanto, afirmou que nunca foi procurada. E, até hoje, nenhuma fotografia com mensagem cifrada da Al Qaeda foi encontrada.

Diferentemente do caso Blair, o de Kelley termina sem comprovação mas com muitas dúvidas. Suas reportagens são do tipo que circulam o mundo e que fazem editores dos jornais concorrentes arrancar os cabelos. A dúvida é se ele era um repórter com constante acesso a informação privilegiada que seus colegas não conseguiam confirmar – ou se inventava pura e simplesmente. Os antecedentes não favorecem."

 

25 ANOS SEM A LUTA
Clara Teixeira

"Último Número de ‘A Luta’ Publicou-se Há 25 Anos", copyright Público (www.publico.pt), 9/1/04

"Faz hoje 25 anos que se publicou em Portugal o último número do jornal vespertino ‘A Luta’, fundado a 25 de Agosto de 1975 por uma equipa de jornalistas liderada pelo socialista Raúl Rêgo que, três meses antes, tinha sido afastada do ‘República’ por alegadamente ter uma orientação próxima do PS.

O encerramento do jornal, que até ao 25 de Novembro tinha alcançado tiragens elevadas, parece ter ficado a dever-se a divergências editoriais entre a redacção e alguns dos seus dez cooperantes – Mário Soares, Jaime Gama, Salgado Zenha, entre outros -, sobre os critérios que deveriam obedecer à feitura de um jornal que se queria político. ‘Eles achavam que financeiramente as coisas estavam bem, mas eu, como percebia um bocadinho do negócio, sabia que não estavam’, acrescentou, em declarações ao PÚBLICO, Vítor Direito, ex-director-adjunto de ‘A Luta’, título que acabou por abandonar para fundar o ‘Correio da Manhã’.

‘A Luta’ teve origem no chamado ‘caso República’ que, de acordo com o relato de Mário Mesquita na obra ‘Portugal: 20 anos de Democracia’ (coordenada por António Reis e editada pelo Círculo de Leitores), vem chamar a atenção para o problema da liberdade de expressão em Portugal e também para a situação dos jornais no chamado ‘verão quente de 1975’.

Pouco antes do 25 de Abril, o capital da empresa proprietária do ‘República’ passou a ser controlado por personalidades ligadas à Acção Socialista, mas o PCP e outros movimentos de extrema-esquerda possuíam já alguma influência através dos militantes que trabalhavam na tipografia e também na redacção. Após o 11 de Março de 1975, os jornalistas conotados com o PCP saíram do jornal e foram os tipógrafos que, dois meses mais tarde, entraram em conflito com a direcção e a redacção do jornal.

A 19 de Maio, a comissão de trabalhadores do ‘República’ exigiu o afastamento da direcção (liderada por Raúl Rêgo, entretanto falecido) e da chefia de redacção. Os jornalistas opuseram-se e, ao final da manhã, foram sequestrados nas instalações do jornal por um piquete de tipógrafos e administrativos. O jornal encerrou e só regressou às bancas a 10 de Julho, já sob a direcção do coronel Pereira de Carvalho e com uma redacção quase totalmente renovada e muito influenciada pelos movimentos de extrema-esquerda.

Raúl Rêgo e a sua equipa saíram entretanto do ‘República’ e, a 25 de Agosto, apresentaram ao país o primeiro dos 1.012 números que viriam a ser editados sob o título ‘A Luta’. O novo jornal, tal como sucedeu com o ‘Jornal Novo’ de Artur Portela, passou imediatamente a ser identificado com o combate ao ‘gonçalvismo’. Nesse mesmo ano, surgiram ainda na imprensa portuguesa outros títulos de vários quadrantes ideológicos, como ‘O Jornal’ e ‘O Tempo’.

Imprensa no pós-25 de Abril

Mas o país estava ainda em rescaldo do 25 de Abril e os tempos não corriam de feição para a imprensa. Como disse Jean Paul Sartre quando em Abril de 1975 visitou Portugal, a imprensa portuguesa ‘não explica nada. Não explica, por exemplo, o que significa uma ocupação, o que é uma autogestão, o que foi o 11 de Março...’. O intelectual francês acrescentou: ‘Ela nunca procura explicar, ao contrário da imprensa francesa, que também é uma má imprensa, mas que tenta dar uma interpretação, seja em função da teoria marxista, na imprensa de esquerda, seja segundo uma outra teoria na imprensa de direita. Em todo o caso, dá-se sempre uma interpretação dos factos. Perguntei por que é que se passa assim em Portugal e não obtive resposta.’

No ano anterior ao encerramento de ‘A Luta’, um editorial de Mário Mesquita, então director do ‘Diário de Notícias’, tinha sido censurado pelo secretariado nacional do PS, que o acusava de escrever ‘por conta própria, sem reflectir as opiniões do partido a que pertence e mesmo ao arrepio delas’. A resposta do visado foi directa: ‘Toma-se como elogio tal opinião, pois certamente o secretariado nacional do PS não aprecia jornalistas que escrevem por conta de outrem.’

Já depois do fecho de ‘A Luta’, a 8 de Março de 1979, Vera Lagoa, directora de ‘O Diabo’, era condenada a pena suspensa por dois anos por ter sido acusada de ofender figuras públicas como Mário Soares e Pezarat Correia. Chamou-lhes ‘escumalha’ e ‘cambada’. Nesse mesmo ano, a 27 de Setembro, foi criada em Portugal a primeira licenciatura em Comunicação Social, na Universidade Nova de Lisboa."

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