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VALOR ECONÔMICO
Eduardo Ribeiro
"Valor aposta num 2003 melhor", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 10/01/03
"Em letras garrafais, a manchete do anúncio publicado na última segunda-feira (06/01) na Folha de S. Paulo (e provavelmente também em O Globo, que não tive a oportunidade de ler), sobre o Valor Econômico, dizia: ‘Crise? A gente estava muito ocupado para prestar atenção nela’.
Considerando os tempos bicudos enfrentados pela mídia impressa desde a metade de 2001, crise que se agravou em 2002, fruto sobretudo do alto endividamento das empresas e da sobrevalorização do dólar, ver as inúmeras realizações do Valor Econômico no ano é um fato digno de registro. Mais ainda, levando-se em consideração que o jornal enfrentou - e venceu - o desafio de caminhar com suas próprias pernas, diante da decisão de seus acionistas - Folha de S. Paulo e O Globo - de estancarem os investimentos inicialmente programados.
Nem tudo foram flores, é certo, pois para superar o trauma da decisão dos acionistas, Flávio Pestana (presidente), Celso Pinto (diretor de Redação) e cia tiveram de fazer um ajuste na equipe, sacrificando algumas vagas e cortando outras despesas, para poder equilibrar o orçamento da empresa.
De outro lado, a crise os obrigou a buscar alternativas de receitas e estão aí as várias iniciativas já realizadas e uma série de outras em gestação para 2003, seja no campo editorial e mesmo na linha de eventos.
No anúncio citado na abertura deste artigo, o texto afirma: ‘Confiante de que é nos momentos de crise que surgem as grandes soluções, o Valor remou contra a maré e enfrentou as ondas de pessimismo da economia mundial: enquanto muitas empresas cancelavam lançamentos, apresentamos ao mercado o Valor 1000 (2ª.edição), o Valor Grandes Grupos, o Valor Financeiro, o Valor Investe e um Suplemento Especial por Semana’.
Não é pouco, sobretudo se considerarmos que o jornal foi lançado para concorrer com a Gazeta Mercantil, jornal que mesmo enfrentando uma crise sem precedentes ainda goza de muito prestígio nos meios empresariais e econômicos, graças sobretudo à sua história e à garra de um grupo de profissionais que tem passado por cima de inúmeras adversidades para manter o produto vivo.
O Valor arrematou prêmios, criou outros, ampliou a natureza de negócios e dia-a-dia consolida uma marca que foi criada com a intenção de buscar a liderança do mercado.
Conquistar essa liderança, nas várias áreas (circulação, publicidade etc.), é questão apenas de tempo e de um pouco de paciência, coisa que acionista nem sempre tem, como Folha e O Globo já demonstraram ao suspender o fluxo de investimentos previsto. Até lá e até que a empresa consiga uma situação financeira digamos assim mais confortável terá de caminhar com o cinto apertado e com muito pouca (para não dizer nenhuma) gordura.
Em termos de mercado, a nossa torcida é que realmente o Valor avance, gere novos produtos e empregos, e que a Gazeta Mercantil encontre saídas para a crise. São dois importantes empregadores de mão-de-obra e é importante que ambos estejam aí, fortes, para duelar, na busca desta liderança.
Equipes editoriais valorosas ambos têm. O mesmo já não se pode dizer em termos administrativos, financeiros e de lastro econômico, fatores em que o Valor mostra-se disparamente mais forte.
Daí a forte aposta que o jornal faz num 2003 mais vigoroso e próspero."
JORNALISMO ECONÔMICO
Ivson Alves
"Os economistas bombril da mídia", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 12/01/03
"Idéia para estudantes que estejam prestes a fazer monografia de fim de curso: acompanhar durante uns três meses a editoria de Economia de um grande jornal da região, da linha elitista (no Rio, Globo e JB; em Sampa, Folha e Estado), ou mesmo um jornal de economia tout-court, como Gazeta, Valor, JC ou DCI. Durante estes três meses, montar um tamborete de dados (banco é muito para um levantamento desses), com a data da edição, os nomes dos economistas que aperecem nas matéria ou colunas, os assuntos de que trataram (mesmo em menções ou exemplos), como foram apresentados (economista do banco não-sei-quê, especialista sobre-tal-assunto, professor de não-sei-onde) e o nome do/da coleguinha que fez a matéria (quando assinada for) ou coluna.
Depois dos três meses, entrevistar os coleguinhas da editoria em questão (de preferência aqueles ou aquelas que assinaram mais matérias) e saber o motivo pelo qual o tal economista é tão citado. A hipótese que tenho - e que pode ou não ser confirmada pelo levantamento: é um cruzamento de bom trabalho de lobby com preguiça dos coleguinhas.
Exemplo concreto? Um case, como gostam os marqueteiros? Vamos lá.
Luiz Roberto Cunha é figurinha fácil nas matérias sobre economia nos jornais do Rio. Vira e mexe, aparece defendendo as posições mais conservadoras. O tema? Qualquer um: combate à fome, tendência da inflação, reestruturação do setor energético, fim da universidade pública gratuita...O que aparecer pela frente ele traça.
Outro ponto interessante deste economista - mas não só dele - é a identificação nas matérias. Dependendo do assunto a ser tratado, ele é apresentado ao distinto leitor como economista da Fecomércio (a Federação de Comércio do Rio), como professor da PUC-Rio ou como os dois, sendo que esta última forma é mais comum quando ele dita cátedra sob dois assuntos completamente diferentes em suas opiniões.
Exemplo desta extraordinária flexibilidade - que faz Luiz Roberto Cunha ser páreo nas páginas até para o Romário - pôde ser observada em matéria publicada no Globo da segunda, dia 6. No meio de reportagem sobre déficit da previdência, Luiz Roberto Cunha mandou bala no conceito de universidade pública gratuita. Segundo ele 90% dos que passam no vestibular para escolas públicas são egressos de escola particular.
Com esta afirmação (que não sei se tem base nos dados do MEC, mas vou dar de barato que sim. Afinal, não ficaria bem pensar que tão ilustre sábio estivesse manipulando dados...), ele quer dizer que quem passa para universidade pública é rico, pois toda vez que se fala em escola particular, pensa-se em CEAT, CEL e Escola Americana. Assim, como ele diz na matéria, o Estado estaria financiando quem pode pagar, digamos, uma mensalidade da PUC-Rio para cursar uma universidade pública. O economista talvez não saiba que colégios particulares também são o Rezende-Rammel, de Bento Ribeiro; o Cambaúba e o Lemos Cunha, da Ilha, e o Renovação, de Nova Iguaçu, nos quais, pelo que me consta, não estudam ricos, mas jovens de classe média-média, média-baixa e até mesmo pobres, cujos pais se sacrificam para tentar dar uma chance de futuro aos filhos.
Este fato simples foi lembrado pelos coleguinhas naquela matéria ou em outra qualquer sobre o assunto? É ruim, hein? No mais das vezes, quando pegam a entrevistar um sujeito desses - articulado, inteligente, com mais argumentos que efeitos especiais em filme do George Lucas -, os jornalistas simplesmente fazem papel de taquígrafos. Vão anotando, anotando (tomando cuidado para que as palavras sejam aquelas mesmas, vamos admitir) e depois só transcrevem. Perguntas? Só se forem como as do Maurício do vôlei: perfeitas levantadas. Creio que pensam que fazer uma pergunta mais crítica é coisa que não se faz entre pessoas educadas. Ou então guardam o pensamento crítico para as raras entrevistas com economistas progressistas, e, assim mesmo, quando estes economistas estão discordando de uma proposta também progressista (você certamente tem lido coisas do tipo agora neste debate sobre o Fome Zero). Aliás, essa é praticamente a única forma de economista de esquerda aparecer em jornal, fora das matérias sobre desemprego ou fome - como formulador de políticas públicas, só se for malhando outra idéia de esquerda.
Assim, a vida desses economistas e/ou professores de Economia pagos por empresas ou entidades conservadoras para defender seus pontos de vista se torna uma maravilha. Não precisam correr atrás para justificar o salário, pois os coleguinhas vão a eles qual peregrinos a Roma em busca de suas palavras e bênçãos. Tudo bem. Estão no papel deles. O que não acredito é que seja papel de jornalista fazer os outros faturarem fácil, mesmo que isso signifique também receber o contracheque no fim do mês sem muitas aporrinhações.
Sem surpresa - Não sei qual o motivo para tanto estardalhaço pela sentença da juíza de São Paulo contra o jornalismo (e os seus profissionais, os jornalistas). A liminar já era quase uma sentença e ela apenas a reafirmou. Na verdade, agora tem uma vantagem: como é sentença, cabe recorrer às instâncias superiores, que julgarão direto o mérito.
Outra coisa boa é que vai forçar a Fenaj a fazer alguma coisa além de escrever notas de repúdio (uma especialidade da casa, devo reconhecer). E espero que a entidade se mova em duas direções ao mesmo tempo: na derrubada da sentença e na mobilização visando a aprovação do Conselho Federal de Jornalismo, esse sim o ponto final para a angústia de ser considerado profissional de quarta categoria (é, de quarta. Para os de segunda, exige-se diploma de Ensino Médio, e para os de terceira, do Ensino Fundamental)."
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