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HOMENS & NOVELAS
Etienne Jacintho

"Quem disse que só mulher gosta de novela?", copyright O Estado de S. Paulo, 12/01/03

"Novela não é diversão só para mulheres. Muitos homens acompanham as histórias e embarcam nas aventuras dos folhetins. Segundo o Ibope, a atual trama das 8 da Globo, Esperança, tem uma boa audiência masculina. No período de 18 a 24 de novembro, a novela alcançou 36 pontos de média e 40,93% dos telespectadores eram homens. ‘As primeiras telenovelas atingiam somente o público feminino por causa das histórias de amor lacrimosas’, comenta o técnico em informática Nilson Xavier, de 33 anos. ‘Histórias como Beto Rockefeler e Irmãos Coragem conquistaram o universo masculino.’ Nilson Xavier é mais do que um fã de teledramaturgia. Ele é o criador de um dos mais completos sites de telenovelas e dedica muito tempo para catalogar os folhetins. E Nilson não é uma exceção... A paixão transforma a vida de muitos dos aficionados pelo gênero.

Nilson Xavier sempre se interessou por TV. A primeira novela que acompanhou foi Éramos Seis, na extinta Tupi, em 1977. Sua obsessão por datas, fatos e elenco dos folhetins começou em 1979, impulsionado pela trama de Marrom Glacê, da Globo. ‘Eu tinha 10 anos e catalogava tudo em um caderninho. Para se chegar a esse ponto é preciso gostar muito de novela’, brinca Nilson que escondia suas anotações. ‘Havia muito preconceito, pois novela era tida como subcultura’, explica.

A idéia da criação do site www.telenovela.hpg.com.br surgiu enquanto Nilson navegava pela internet. ‘Não encontrei nenhuma página atraente sobre o assunto e pensei em dividir minhas informações com os internautas’, lembra. Então, o técnico em informática achou um site sobre o autor Gilberto Braga em Portugal. Ele entrou em contato com o responsável pelo site que o ajudou a montar a home page tão sonhada. O site tornou-se realidade em abril de 2000. Hoje, Nilson recebe e-mails de anônimos que querem contato com famosos e de famosos que elogiam o ilustre anônimo. ‘Já recebi mensagens do Miguel Falabella, do Daniel Filho, do Manoel Carlos...’, orgulha-se. Para Nilson, as telenovelas não têm mais a qualidade dos anos 70 e 80. Sua trama preferida é Roque Santeiro (1985), da Globo. Mesmo com suas críticas à produção dos anos 90, o ‘noveleiro maníaco confesso’ destaca positivamente algumas histórias: A Viagem, Rei do Gado, Força de um Desejo, Laços de Família, Por Amor e O Clone. Nilson não assiste a todas as novelas, pois não tem tempo nem paciência. ‘Quando tenho aula não vejo as tramas das 6 (Sabor de Paixão) e das 7 (O Beijo do Vampiro) da Globo’, fala. ‘E nenhuma delas me atrai.’

Projetos - O publicitário Renato Andrade, de 25 anos, adora TV em geral, mas os folhetins são seu xodó. Entretanto, ele não gosta de nenhuma das novelas que estão no ar. ‘A melhor no ar atualmente é Por Amor, no Vale a Pena Ver de Novo (que terminou sexta-feira passada). Mas tenho boa expectativa para a próxima novela do Manoel Carlos, Mulheres Apaixonadas’, diz o fã de Vale Tudo, de Gilberto Braga. Para ele, a TV deveria melhorar o nível de seus programas e arriscar mais. Como exemplo das inovações, Renato cita as microsséries Pastores da Noite, de Guel Arraes, e Cidade dos Homens, de Fernando Meirelles. Quanto às produções do SBT, o publicitário só tem críticas. ‘É um absurdo as novelas do SBT terem textos mexicanos’, fala. ‘A emissora deveria buscar autores nacionais e evitar personagens tão estereotipados.’

O amor pelos folhetins fez Renato ter a necessidade de entender o que ocorre por trás das telas. Ele leu muitos livros técnicos e começou a trabalhar na TV interna de sua faculdade. A obsessão rendeu até curso de roteiro e desejo de entrar para os bastidores de uma emissora de televisão. Mas o hobby virou coisa séria para ele em 2000, quando decidiu criar programas para os contratados da Globo que estavam na geladeira - Cazé, Luciano Huck, Ana Maria Braga, Cris Couto e Serginho Groisman. ‘Criei as atrações em função de um material que uma amiga trouxe da Mipcom, a feira de TV em Cannes’, conta. Então, Renato teve um clique. ‘Se os executivos vão ao exterior buscar idéias, por que não criá-las aqui?’ Com essa questão na cabeça, o publicitário realizou seu projeto e chegou a apresentá-lo na Globo, que estava começando um Núcleo de Criação. Mas, como o noveleiro não é da área de Rádio e TV, a tentativa de ter o emprego dos seus sonhos não deu certo. Mesmo assim, ele não desistiu e, em 2002, realizou um novo projeto, desta vez para as redes paulistas mais populares - Record e SBT. As idéias estão no papel, mas Renato ainda não teve a chance de mostrá-las para as emissoras.

Profissional - A carreira do especialista em TV Mauro Alencar, que é consultor da Globo, emplacou por causa de sua obsessão por novelas. Tudo começou quando ele tinha 5 anos e consumia muito chocolate em pó para ganhar o robô da série Perdidos no Espaço, que vinha em uma promoção. Até os 8 anos, seu foco de interesse eram os seriados americanos. Mas em 1970 estreou Irmãos Coragem e tudo mudou. ‘Era época de Copa do Mundo, ano do tricampeonato e a trama mostrava o futebol’, lembra o fanático que sentia falta quando uma novela chegava ao fim. ‘Assim, passei a guardar as poucas matérias que saíam na imprensa, pois novela não era nada cult.’ Mauro Alencar acha que as trilhas sonoras são fundamentais para uma novela. ‘Eu gravava os temas direto do televisor para uma fita cassete com um gravadorzinho’, lembra. ‘Servia para eu recordar a trama.’

A carreira televisiva do especialista começou com um convite de Ismael Fernandes para contribuir em um livro sobre telenovelas. Depois disso, Mauro defendeu tese de mestrado sobre a indústria noveleira e agora prepara seu projeto de doutorado que abrange novela e futebol. Participou da novela O Rei do Gado para entender os bastidores de uma produção. ‘Fiz o papel de um repórter’, conta. Mauro Alencar acredita que não há mais o preconceito contra homens que vêem novelas. ‘Caiu o mito de que novela é só lágrimas, lágrimas e mais lágrimas’, afirma o consultor que busca patrocínio para promover um Prêmio Latino-Americano de Teledramaturgia. ‘A novela faz parte do Brasil assim como a caipirinha, o carnaval e o futebol’, finaliza."

 

BALANÇO 2002 / TV
Esther Hamburger

"Na TV, 2002 foi o ano do ‘reality show’", copyright Folha de S. Paulo, 8/01/03

"A programação da TV em 2002 ficou muito aquém do desejo de mudança que empolga o país. Um olhar retrospectivo sugere que fórmulas que vigoraram nas últimas décadas se esgotaram. É o caso da novela.

O folhetim eletrônico dominou enquanto era possível mobilizar a imaginação nacional em torno de dramas com referência histórica e âncora na conjuntura. ‘O Clone’ (Globo) se destacou como ‘novela de intervenção’ no drama das drogas. ‘Betty, a Feia’ (Rede TV!), versão ‘trash’, marca, com precisão quase cômica, o anacronismo do legado.

2002 foi dos ‘realities shows’, formato que pode ser considerado como parente da novela, versão diluída do gênero -novela de atores que representam a si próprios, novela sem autor.

O ano se iniciou sob o signo da disputa entre ‘Big Brother Brasil’ e ‘Casa dos Artistas’ e teve direito a variantes como ‘Fama’ e ‘Popstars’. Houve momentos de repercussão para além do público de milhares de cidadãos participantes em potencial. Nada que justifique o investimento nessas gincanas fúteis regadas a romance forçado e fofoca eliminatória.

Tampouco se justifica a opção da TV Cultura por gêneros nos quais suas concorrentes são mestres. Vale lembrar que os melhores índices de audiência da emissora foram alcançados com programas que se distinguiram pela originalidade.

Seriados enlatados exibidos por canais de TV a cabo ganham alguma preferência, insuficiente para viabilizar o setor endividado.

Há alguns indícios de novidade. Experiências como a de ‘Os Normais’ sugerem que seriados nacionais podem se tornar uma alternativa ao desgaste da novela. O programa de poucos personagens, gravações quase que só em estúdio, feito com tecnologia digital, está calcado, como o seu antecessor, em textos autorais.

O formato, flexível, pode vir a ser uma porta de entrada para a produção independente. Se as emissoras decidirem investir. ‘Cidade dos Homens’ e ‘A Turma do Gueto’ são exemplos sintonizados com a atual diversificação de representações do Brasil."

 

EU GOSTO É DE MULHER
Xico Sá

"‘Programa de macho’ precisa de testosterona", copyright Folha de S. Paulo, 10/01/03

"Um programa de TV que revele o que andam a pensar os homens sobre o comportamento das mulheres. Aí está uma boa idéia. O macho e suas cafajestadas, o macho e suas fraudes, o macho moderno, o macho sensível -este nicho de ‘mercado’ que se confunde com o desejo publicitário de nos lambuzar de creminhos...

‘Eu Gosto É de Mulher’, cujo título sai de uma música do Ultraje a Rigor, estreou na madrugada de ontem na Gazeta, com essa idéia. A atração promete, é difícil acertar a mão logo no pontapé inicial. Carece de mudanças e mais testosterona.

A primeira: mostrar toda a devoção às fêmeas que o título sugere. A começar pelo apresentador, Renato Bisoni, que pecou pela fineza ensaiada demais. Não precisa ser grosso, o programa não se propõe a isso, mas é necessário, nesse tipo de atração na televisão, que pareça mais sincero. E a real do boteco tem mais ‘punch’.

Entre os convidados, rendeu bem o fotógrafo Paulo Cabral, especialista em clicar mulheres. Bem dosado na canalhice e delicadeza, ao ponto de entender a devoção delas pelo ‘deus’ Lancôme. O gordinho engraçado, Maurício, ator, quase acerta na pele do ‘cafa’ que manda flores. O salva-vidas Hamilton e o ator Renato Nery encaramujaram-se. Timidez mais do que natural.

O tema do programa era ‘presentes’ -dar e receber. Pauta boa. O erro foi achar que podemos sair por aí com bolsos cheios de diamantes -o melhor amigo das mulheres, disse Marilyn Mon-roe. Só se falou em preciosidades. Na enquete com as moças, uma loira, nada Marilyn, foi humilde: escolheu só um carro importado como mimo ideal. Bem-vindo à Dinamarca, senhores.

O momento da ‘gostosa’, com uma modelo/atriz em trajes mínimos, poderia ser mais variado nos planos de câmera. Mais ‘baba, baby’ -o horário permite- e menos pretensão à ‘Playboy’.

A vinheta mixada com o trem de Adoniran Barbosa ficou supimpa. Agora aquela musiquinha ao fundo -o papagaio lá de casa gritou que eram uns tais de Tribalistas- não combina com programa de homem.

Eu Gosto É de Mulher: quarta, 0h, TV Gazeta"

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