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GUERRA OLÍMPICA
Alberto Dines
"A guerra Rio X São Paulo", copyright Jornal do Brasil, 11/7/03
"Santos Dumont matou-se quando viu aviões ‘legalistas’ bombardeando as posições ‘rebeldes’ no litoral paulista. Os 71 anos da Revolução Constitucionalista foram lembrados dois dias antes do fatídico 9 de Julho, quando as briosas lideranças do Rio e de São Paulo enfrentaram-se diante do COB para escolher a cidade que representará a candidatura do Brasil a sediar as Olimpíadas de 2012.
Dia seguinte, na Ponte Aérea (por onde circulam as 5 mil abelhas da gigantesca colméia interestadual), todos, sem exceção, estavam felicíssimos - tanto os paulistas que moram no Rio quanto os cariocas que trabalham em São Paulo. Sabem que dentro de nove anos, completada a primeira década do século XXI, os dois grandes centros urbanos estarão ainda mais interligados e interdependentes.
O Rio é um produto imbatível e, São Paulo, reduto inesgotável. Separados, valem a metade; juntos, triplicam de valor. O confronto ‘beleza é fundamental’ versus ‘grana é tudo’ pode dar samba mas não resiste à constatação de que as megalópoles são inevitáveis.
O processo de desenvolvimento urbano é regido por um magnetismo que ultrapassa distâncias, topografia, fronteiras administrativas e rivalidades bairristas. A faixa costeira de Boston a Washington - compreendendo as regiões metropolitanas de Nova York, Filadélfia e Baltimore - é um desses irresistíveis pólos urbanos e políticos fabricados por eixos econômicos combinados às linhas de força culturais.
O COB foi sensato, aos governantes não resta outra alternativa senão um mínimo de sabedoria. A votação da segunda-feira devolveu à cidade do Rio a esquecida auto-estima, mas também lembrou o desafio de superar o paroquialismo e os seus subprodutos mais perniciosos: populismo e demagogia.
A troca de farpas sobre índices de segurança entre autoridades que disputavam a cidade-sede das Olimpíadas, além de lembrar as edificantes brigas entre quitandeiras, esconde um logro federal: a central do crime organizado não está no Complexo da Maré ou no presídio de Guarulhos (onde, horas antes, bandidos paulistas tentaram usar um helicóptero para libertar os cúmplices). A segurança nas ruas do Rio, São Paulo, Vitória e Recife relaciona-se com o que ocorre no território controlado pelas Farc na Colômbia.
A governadora do Rio teve todos os motivos para comemorar a goleada de 23 a 10 que premiou a Cidade Maravilhosa. Dois dias depois, a ressaca: foi obrigada a atestar publicamente a incompetência do consorte quando converteu o subsecretário de Segurança, Marcelo Itagiba, no responsável pela supervisão, comando e controle do combate ao crime no estado.
Os cariocas de todo o Brasil regozijam-se com a oportunidade para mostrar ao mundo a sua capacidade de organização mas, enquanto continuarem jorrando do propinoduto fluminense tantas suspeitas e evidências, dificilmente será estabelecido aquele mínimo de credibilidade necessário à administração dos recursos para um evento do porte de uma Olimpíada.
Impossível prever os atletas que disputarão o Pan-americano de 2007 e os Jogos de 2012, mas uma coisa é sabida: a organização do desporto exige probidade. Competições devem ocorrer em ambientes onde impera a lisura. O secretário dos Esportes do Estado do Rio, Chiquinho da Mangueira - acusado de ligações com a contravenção e o narcotráfico -, não tem condições de participar sequer do planejamento de qualquer um dos certames.
Armas recolhidas, mágoas saradas e dignidades recuperadas, bola para a frente: agora trata-se do Brasil. O país não pode perder nenhuma oportunidade para mostrar maturidade, coesão, engenho, talentos e recursos. A guerra Rio-São Paulo só interessa àqueles que precisam da confusão para esconder suas incompetências."
TEIXEIRA REELEITO
Armando Nogueira
"Viva a democracia", copyright Jornal do Brasil, 13/7/03
"Ricardo Teixeira fica mais quatro anos na CBF. Venceu de goleada, 46 a 1. Vitória esmagadora. Poderia ter sido 47 a 0. Só não foi porque um gaiato qualquer logo lembraria a frase de Nelson Rodrigues, segundo a qual toda unanimidade é burra. E, convenhamos, é certo que cartola algum, dificilmente, será admitido no reino do céu, mas nunca será pelo pecado da burrice.
Depois do pleito, o vencedor exaltava a maravilha que é o instituto do voto, sobretudo, quando espelha a sacrossanta vontade dos amigos, também conhecidos como cúmplices.
Uma das coisas que mais me contentam na vida é o exemplo de democracia que nos dá o futebol. No caso de Teixeira, ele está indo pro quinto mandato consecutivo. Aprendeu direitinho a lição do ex-sogro, João Havelange, que foi presidente da Fifa pelo curto período de 24 anos.
O próximo passo é a perpetuação de Teixeira. Quem duvidar que duvide. Pois agora mesmo, o dito Teixeira, junto com seus pares do continente, acabam de aclamar o paraguaio Nicolas Leos presidente vitalício da Confederação Sul-Americana de Futebol.
Passa o tempo, passa o craque, a uva passa, só o cartola traspassa. Trapaça.
Sinistra retranca
A vitória do Boca, derrotando o Santos, na Libertadores, me deixou um tanto preocupado. Temia que o estilo do campeão pudesse ser imitado por times brasileiros. Fui um dos poucos críticos que deploraram a retranca.
No mais, com raras exceções, todo mundo falou maravilhas da organização tática do time argentino, que ficou lá atrás, renunciando a qualquer risco pra acabar vencendo no manjado contra-ataque. Não faltou sequer o clichê de que Bianchi deu um nó tático em Leão.
O futebol mundial passou uns vinte anos estigmatizado por esse estafermo chamado retranca, que reduzia qualquer partida à chatice do zero-a-zero. A vitória, quando ocorria, não passava de 1 a 0.
Faço esse breve comentário, com travo de libelo, pra lastimar que o time do Santos tivesse recorrido à retranca pra sustentar o 1 a 0 que imporia ao Corinthians quase até o fim da partida de quarta-feira à tarde, no Morumbi.
No fim, deu no que deu: mesmo desconjuntado, o time do Corinthians assumiu o controle da partida, martelou, martelou, até que alcançou o empate. Foi assim o segundo tempo inteiro: o Santos encolhido na mais temerária das retrancas e o Corinthians, mesmo aos trancos e barrancos, a mandar no jogo.
Gente, esquece o Boca. Aquela vitória, em duas partidas, foi uma eventual exaltação do antijogo. É bom lembrar que o campeão argentino é o River, que é o oposto do Boca, que joga de peito aberto, ofensivamente.
O resto é velhacaria.
Rápidas e rasteiras
Uma das arbitragens mais calamitosas do momento foi a do juiz Heber Lopes, no jogo do Vasco com o Inter, no Beira-Rio. A figura cometeu erros capitais, tendo sido seu apito o fator determinante da derrota do Vasco da Gama. O vacilo que foi a expulsão de um jogador do sul foi pinto se comparado aos dois gols contra o Vasco. E, pasmem, meus amigos, esse Heber Lopes é árbitro oficial da Fifa.
Não tem pegado nada bem o papel de duas caras que anda fazendo o presidente Hélio Ferraz, do Flamengo. Me lembro que, no caso da fracassada insurreição da CBF contra o Estatuto do Torcedor, Helinho fez que disse mas não disse, fez que ia mas não foi. Agora, na reeleição de Ricardo Teixeira, enquanto o Flamengo, oficialmente, declinava de votar no candidato favorito, Helinho tomava o chope da vitória com Teixeira, numa churrascaria da Barra da Tijuca.
Recebo Histórias da Galera, um livro delicioso com 50 relatos fantásticos nos campos de futebol. O autor é Edson de Oliveira.
Paula, a musa perpétua do basquete, em entrevista no Papo com Armando Nogueira (Sportv) dá a palavra definitiva sobre a maior jogadora de basquete que viu em toda a sua carreira: Hortência."
JORNALISMO & ARTICULISTAS
Carlos Chaparro
"A falta que faz o bom articulismo", copyright Comunique-se(www.comuniquese.com.br), 11/7/03
"O XIS DA QUESTÃO - Falta ao jornalismo brasileiro um articulismo mais definido, voltado para o cerne dos conflitos e com a perspectiva de levar à discussão pública, com idéias, os grandes temas e fatos da atualidade.
1. Fenômeno de audiência
No espaço do telejornalismo português, em termos de prestígio, audiência e influência na opinião pública, ninguém bate o analista político Marcelo Rebelo de Sousa. Aos domingos à noite, durante cerca de 15 minutos, partilhando a cena com o apresentador do telejornal da TV Independente (TVI), que propõe os temas e faz as perguntas do roteiro, Marcelo comenta a semana política do país. E o faz com brilho, conhecimento, precisão de linguagem e charme que o distinguem no cenário jornalístico da televisão lusitana.
Além de advogado e professor de Direito, Marcelo Rebelo de Sousa tem história política. Faz quatro anos, foi até secretário geral do PSD, o partido que hoje governa o país. Na época, estava no poder o Partido Socialista. Como principal líder da oposição, e por se tratar de um regime parlamentarista, Marcelo era, portanto, o homem mais importante da política portuguesa depois do então primeiro-ministro Antônio Guterres.
Apesar desse passado de fortes vínculos partidários, o hoje analista político Marcelo Rebelo de Souza consegue passar, na televisão, um conceito de observador independente. Quando se pergunta sobre ele às pessoas, é comum ouvir-se: ‘Não o perco aos domingos. Vale a pena ouvi-lo’. Diria mais, repetindo o que ouvi de um colega jornalista português: a intervenção semanal de Marcelo no telejornalismo ‘tornou-se uma espécie de missa dominical de freqüência obrigatória. Só que é à noite’.
Assisti-o domingo passado, em Lisboa. O homem é realmente notável, com uma retórica de sofisticado raciocínio e recheios irônicos escorrendo por um fraseado ao mesmo tempo elegante e claro. Na base do sucesso, duas competências que exibe naturalmente, sem soberbas: conhece bem as táticas e as estratégias políticas, tanto de Portugal quanto da Europa, e seleciona os fatos e os temas por um lúcido critério de relevância política. Ou seja: sabe como falar de política ao povão, embora os principais recados sejam para as elites.
2. A força do articulismo
Para se entender o sucesso de Marcelo Rebelo de Sousa no espaço jornalístico é preciso elucidar duas características que marcam o jornalismo do país.
A primeira delas deriva do fato de lá não haver a nossa tão conhecida reserva de mercado, com a exigência do diploma de jornalista para o exercício da profissão. Isso cria a possibilidade de não jornalistas serem contratados para atuarem como comentaristas de televisão ou como articulistas cativos dos jornais que os contratam. Tanto na TV quanto na imprensa, políticos e intelectuais não jornalistas dividem, pacificamente, espaços e poder de influência com uma certa elite de jornalistas também atuantes nas áreas do comentário.
A segunda característica está na preponderância do articulismo no discurso e na identidade do jornalismo português. Ao contrário do que se vê no Brasil, o que em Portugal provoca a discussão pública é o artigo, não a reportagem. E a força cultural do articulismo é tal que o estilo argumentativo invade ostensivamente o relato jornalístico, de forma mais acentuada nos chamados jornais de referência, onde é comum ler aberturas de reportagens que parecem editoriais.
A força política e cultural do articulismo português apóia-se, ainda, em uma sinergia que também não temos no Brasil, a de pertencer aos articulistas dos meios impressos as cadeiras nos comentários e nos debates que marcam fortemente o telejornalismo, em Portugal. Entre nós, isso só acontece na área do comentário econômico, com Joelmir Betting, Miriam Leitão e Luís Nassif. Mas sem grandes efeitos na opinião pública, por ser o debate de economia pensado e feito para as elites, até no formato especializado da linguagem. Já em Portugal, o que se comenta é política, e sempre como prato nobre dos telejornais de maior audiência.
De qualquer forma, há atrás dessa força do estilo argumentativo no jornalismo português influências históricas fortemente enraizadas no jornalismo francês, às quais também se conecta a força dos semanários de lá. As mesmas influências deram tom e jeito ao jornalismo brasileiro, até a década de trinta do século passado. Mas, ainda nos anos vinte, começou a ser tecida a teia da influência americana que, lenta e progressivamente, acabou por dar rumo e estilo ao jornalismo brasileiro do pós-guerra. Os paradigmas que a cultura jornalística brasileira produziu (Última Hora, Diário Carioca, Projeto JB, Projeto Folha) são todos inspirados em padrões americanos. E o mesmo aconteceu e acontece no ensino do jornalismo, bem mais voltado para as técnicas da reportagem do que para os exercícios intelectuais do artigo.
Há possíveis e belas discussões embutidas na comparação entre os dois modelos de jornalismo, o brasileiro e o português, cada um deles com vantagens e desvantagens. Por isso, talvez volte ao tema na próxima semana.
Vale a pena, porém, adiantar um mote inevitável na eventual retomada do assunto: estou convencido de que faz falta ao jornalismo brasileiro um articulismo mais definido, voltado para o cerne dos conflitos e com a perspectiva de levar à discussão pública, com idéias, os grandes temas e fatos da atualidade."
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