16/09/2003 9/24

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AÉCIO & CENSURA
CMI Brasil

"Aécio Neves censura imprensa em Minas Gerais", copyleft CMI Brasil (www.brasil.indymedia.org), 4/09/03

"Contrariando a Constituição Nacional e suas próprias palavras de ‘apreço e respeito pela imprensa e seus profissionais’, o Governador de Minas Gerais, Aécio Neves, vem ressuscitando uma prática muito comum durante a ditadura militar no Brasil: perseguição política a jornais e jornalistas mineiros tem sido uma constante nos últimos meses. Denúncias têm sido encaminhadas à diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG), dando conta da interferência direta do governo no dia-a-dia das redações e ingerência nos assuntos internos de empresas de comunicação. Exemplos dessa interferência estão na censura de matérias do jornal Estado de Minas, censura à coluna de Cláudio Humberto, do Hoje em Dia, e demissões de jornalistas na TV Globo, Rede Minas e Rádio Itatiaia.

De acordo com o Juiz da Infância, Dr. Tarcísio Martins Costa, ‘matérias da Vara da Infância, que demonstravam descaso e insensibilidade do Estado não foram publicadas pelo jornal Estado de Minas, porque comprometiam a imagem do Governador. Estas matérias diziam respeito à violência, tráfico de drogas e aos cortes promovidos pelo Estado em convênios com entidades assistenciais, que comprometiam inclusive a alimentação de crianças e adolescentes.’ As manifestações populares de todos os tipos também têm sido boicotadas. Até o presidente da Associação dos Oficiais da PM e Corpo de Bombeiros do Estado bateu às portas do Sindicato dos Jornalistas denunciando a deturpação nas coberturas das manifestações de policiais.

Ainda seguindo os moldes do regime militar, Aécio Neves colocou sua própria irmã, Andréia Neves, para vigiar as redações dos jornais e emissoras de rádio e TV mineiras. Durante o lançamento de um projeto do Governo, na última semana de junho, Andréia Neves passou a tarde na redação da Rádio Itatiaia. Nenhum texto foi ao ar sem antes passar pelo crivo da irmã do governador. Um chefe de redação foi impedido de marcar entrevista com um sindicato. O mesmo se rebelou e pediu demissão.

Nem a poderosa Rede Globo resistiu às pressões do governador. Depois da série de matérias sobre a venda de crack a poucos metros do Departamento de Investigações da Polícia Civil, caso noticiado no Jornal Nacional, a Globo Minas teve que transferir seu diretor de Jornalismo para Alagoas, após um telefonema da irmã de Aécio para a sede da emissora. Também por interferência do Palácio da Liberdade, o jornalista Gilberto Menezes perdeu seus programas Palavra Cruzada, na Rede Minas, e Café com Notícia, na TV Comunitária, neste último caso envolvendo interesses do PT mineiro."

 

TRANSGÊNCIOS & MÍDIA
Marcelo Leite

"Patacoadas transgênicas", copyright Folha de S. Paulo, 14/09/03

"Está difícil ler coisas sérias sobre alimentos transgênicos, contra ou a favor, em particular na imprensa leiga. Na véspera da tardia decisão do Executivo federal sobre a questão, muita gente que pouco ou nada entendia do riscado se meteu a pontificar sobre biotecnologia. Foi chute e lobby para todo lado.

Houve até quem dissesse que os inimigos dos transgênicos os atacam porque provocariam alterações da genética humana, o que constitui um disparate duplo. Para o bem da verdade, registre-se que esse argumento ensandecido nunca foi usado por adversários dos OGMs (organismos geneticamente modificados).

Teme-se pela passagem de transgenes das plantas engenheiradas para ervas daninhas aparentadas (e é bom que se diga que a soja não tem parentes silvestres no Brasil). No máximo, para bactérias do trato intestinal humano, hipótese ainda muito polêmica (o que não impede os mais exaltados de aventá-la, para apavorar um pouco mais o consumidor).

Seres humanos comem há milênios um bocado de DNA (genes) nas células animais e vegetais que ingerem. Nem por isso começaram a mugir, a criar penas ou a fazer fotossíntese. Mesmo crus e vivos, plantas e bichos não têm a capacidade de enxertar os próprios genes em outros organismos, como fazem os vírus.

De vez em quando, porém, o desalento é temperado por algum texto inteligente. É mais provável que isso ocorra numa língua estrangeira, como o inglês. Foi o caso do artigo ‘Unnatural Selection’ (seleção não-natural), de Allison Snow, da Universidade Estadual de Ohio (EUA). Saiu na seção Concepts da revista científica ‘Nature’ (www.nature.com) de 7 de agosto, mas não perderá tão cedo a validade -ao contrário do que há para ler na Terra dos Papagaios. Confira na pág. 619 da publicação científica britânica.

Snow já havia atraído atenção em agosto de 1998, quando uma pesquisa sua mostrou que transgenes inseridos na canola (Brassica napus) se transferiam para ervas daninhas do mesmo gênero, como a Brassica rapa. Pior, o estudo comprovava que a erva daninha continuava bem de saúde depois de assimilar o gene estrangeiro, contrariando previsão dos defensores dos transgênicos de que se tornaria inviável.

Snow não é uma inimiga dos OGMs, mas sim uma cientista. Parte do texto é uma defesa da expressão ‘geneticamente engenheirado’ (GE, em lugar de ‘geneticamente modificado’, GM). Segundo ela, ‘GE’ descreve com mais precisão o que fazem os biólogos moleculares. Exatidão terminológica, como se sabe, é condição essencial da pesquisa científica.

No campo mais programático, Snow afirma no artigo, com todas as letras: ‘Variedades geneticamente engenheiradas que aumentem colheitas, melhorem a saúde humana e tornem a agricultura mais sustentável devem ser encorajadas’. Mas também afirma que ‘a promessa humanitária dos OGEs está no futuro, mais do que nos produtos hoje usados’, e que ‘os principais riscos da tecnologia ainda estão eles próprios por se manifestar, provavelmente’.

Opiniões abalizadas como a de Snow bastam, ou deveriam bastar, para pôr um grão de sal nas afirmações de que há um consenso entre cientistas a favor dos transgênicos. Depende do cientista e depende do transgênico. Mas quem vai se dar ao trabalho de ler o que ela tem para dizer, se a decisão já está tomada e as cabeças, feitas?"


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