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CIDADE DE DEUS NA TV
Marcelo Marthe

"Notícias da guerra", copyright Veja, 16/10/02

"Um grupo de garotos conversa sobre seu cotidiano numa favela carioca. Um deles conta que viu a polícia jogar uma bomba de gás lacrimogêneo no barraco de seu primo, o que resultou na morte desse último, carbonizado. Outro narra que certa vez deu de cara com três cadáveres boiando num tanque em frente de sua casa. Um terceiro fala sobre um amiguinho que levou tantos tiros no rosto que teve de ser enterrado de costas, por causa das deformações sofridas. Esses depoimentos - reais - estão numa das muitas cenas chocantes de Cidade dos Homens, minissérie em quatro episódios que a Rede Globo exibe a partir desta terça-feira, na faixa das 23 horas. O programa é um filhote legítimo do filme Cidade de Deus, o grande sucesso nacional da temporada, que nesta semana poderá atingir a marca dos 2 milhões de espectadores. O cineasta Fernando Meirelles dirigiu um dos episódios, do qual escreveu o roteiro em dobradinha com a atriz Regina Casé. A co-diretora Katia Lund assina outros dois, tendo como parceiro Paulo Lins, autor do livro que inspirou Cidade de Deus. César Charlone, diretor de fotografia, cuida do último deles. Além disso, vários dos excelentes atores amadores do filme estão em cena. Mudam o cenário e os personagens - agora, a ação se passa na favela de Santa Marta e os protagonistas são os garotos Acerola (Douglas Silva, o Dadinho de Cidade de Deus) e Laranjinha (Darlan Cunha, que interpretou Filé com Fritas).

Os melhores episódios chamam-se A Coroa do Imperador e Uólace e João Victor. No primeiro, dirigido por Charlone, faz-se uma comparação surpreendente - e muito bem resolvida na tela - entre as guerras napoleônicas na Europa do século XIX e as batalhas do tráfico de drogas nos morros do Rio. O segundo, feito por Meirelles e Regina Casé, gira em torno de dois adolescentes - um favelado, outro de classe média - cujas existências se cruzam tanto geograficamente quanto nos sonhos de consumo. Tudo leva a crer que a solução da trama se encaminhará para um clichê, mas esse risco acaba sendo driblado com maestria. Anunciado como a primeira grande parceria entre a Globo e uma produtora independente, Cidade dos Homens é uma prova de que esse tipo de co-produção pode arejar as fórmulas batidas da TV brasileira, como já ocorre em outros países."

 

Maria do Rosário Caetano

"‘Cidade dos Homens’ ganha as telas da Globo", copyright O Estado de S. Paulo, 15/10/02

"A turma do filme Cidade de Deus, visto por quase 2 milhões de espectadores, volta hoje à tela da Globo. A emissora, que lançou Palace II, vai exibir - dentro da programação especial da Semana da Criança - quatro episódios da série Cidade dos Homens. Na origem do projeto está o seminal romance de Paulo Lins. E o próprio Lins co-dirige dois episódios: O Carteiro e O Cunhado do Cara. Ambos em parceria com Kátia Lund.

Cidade dos Homens completa-se com os episódios A Coroa do Imperador, dirigido pelo fotógrafo uruguaio-brasileiro Cesar Charlone, e Uólace e João Vitor, parceria de Fernando Meirelles com Regina Casé. As quatro narrativas (amarradas pela dupla Laranjinha & Acerola, a mesma do controvertido Palace II) vão ao ar de hoje a sexta, após os programas Casseta & Planeta, A Grande Família, Ligação Direta e Globo Repórter.

Pelo trailler dos episódios mostrado à imprensa, a série não deve provocar polêmica tão acirrada quanto a que sucedeu a exibição de Palace II (na série Brava Gente e, como curta-metragem, em festivais) e Cidade de Deus (ainda em cartaz nos cinemas).

Só para lembrar: Palace II é tido como o cartão de visitas de projeto estético que a ensaísta Ivana Bentes chamou de Cosmética da Fome, em oposicão às idéias esboçadas por Glauber Rocha no manifesto Estética da Fome (1965). Em diversos fóruns, Ivana, que prepara livro sobre o assunto, vem repetindo que não defende o regresso à Estética da Fome glauberiana. O que tem feito é lembrar que ‘questões colocadas pelo cinema brasileiro na década de 60 ainda não foram resolvidas’. E cita a principal delas: ‘Como fazer um cinema sobre a miséria, a fome, a violência sem cair no exotismo, no paternalismo, no humanismo lacrimoso? Ou sem cair nos clichês que a televisão faz circular diariamente sobre os negros-favelados-assassinos que vão descer o morro para instaurar cultura-do-terror-e-do-medo e discursos reativo-autoritários?’

Para ‘facilitar’ a captação de imagens de Palace II, a pele dos atores negros foi lustrada. Ou seja, foi literal e simbolicamente ‘cosmetizada’. Em Cidade de Deus, fotografado pelo mesmo César Charlone, o recurso foi atenuado. O trailler dos quatro episódios de Cidade dos Homens também mostra contenção no uso do polêmico recurso. Resta conferir a versão integral de cada episódio.

Gueto negro - Outra voz que fez restrições a Cidade de Deus foi a da antropóloga Alba Zaluar, autora do livro A Máquina e a Revolta. Boa parte da matéria-prima do romance Cidade de Deus foi colhida por ela e quatro assistentes (entre eles, Paulo Lins) em minuciosa pesquisa realizada ao longo de uma década. Para a antropóloga, o filme espelha-se mais nos guetos negros norte-americanos, que nas favelas cariocas. Alba assustou-se com a opcão total pelo rap e funk, em detrimento de outros ritmos também cultivados na favela (o samba, o pagode, o forró). No trailler de O Cunhado (de Kátia e Lins ), dá para ouvir animado forró.

Muitas das vozes que se levantaram contra Cidade de Deus o fizeram por causa do processo de ‘absoluta guetificação’ dos favelados. A população parece viver isolada do mundo. Nenhum favelado desce o morro para trabalhar em casas ou firmas comerciais da zona sul.

Tudo indica que o melhor episódio de Cidade dos Homens (ressalve-se que a avaliação é feita a partir de versões compactas) é Uólace e João Vitor, dirigido por Fernando Meirelles (de Cidade de Deus) e por sua nova parceira, a atriz Regina Casé. Regina, como todo mundo sabe, é louca pela gente brasileira, suas histórias e cultura. E é mãe. Assim sendo, ela se somou a Meirelles, Jorge Furtado e Guel Arraes para, juntos - e a partir do livro Uólace e João Victor, de Rosa Amanda Strausz -, meter Laranjinha e Acerola numa história de confronto racial/social, relações familiares e crítica ao sistema educacional.

Há pontos de convergência e divergência entre Uólace (que os amigos apelidaram de Laranjinha) e João Vitor. Convergência: os dois são siderados por hambúrguer e não suportam média-com-pão-e-manteiga. Os dois vêem a escola com distanciamento e certa impaciência.

Laranjinha e o amigo Acerola sabem que as aulas perdidas com mais uma greve de professores serão repostas, de qualquer jeito, aos sábados, e que todos acabarão aprovados. O momento mais contundente do episódio (de divergência racial e social) ocorre no confronto entre Uólace e Laranjinha (negro e favelado) e João Vitor (branco e classe média) quando os dois se enfrentam em diagonal de olhares e xingamentos.

Outro diferencial entre Cidade dos Homens e Cidade de Deus se dá na abordagem da vida cotidiana. No filme, os favelados - negros em sua maioria - parecem viver em função da guerra do tráfico. Já na série da Globo, há vida cotidiana, avós doentes precisando de remédio e criança querendo comer hambúrguer ou pastel.

O gancho deflagrador de A Coroa do Imperador, de César Charlone, é a proposta pedagógica de visita ao Museu Imperial petropolitano. Para tanto, Laranjinha e Acerola precisam de R$ 6,50 para pagar a ‘excursão escolar’.

Detalhe importante: Charlone convidou Adriano Goldman para assinar a fotografia. Goldman assina também as imagens de O Correio e O Cunhado do Cara. Charlone só fotografou Uólace e João Vitor. E, embora insista em defender o óleo que fez brilhar a pele dos atores negros em Palace II, tudo indica que dificilmente tal recurso voltará a ser usado nas excessivas medidas do ‘curta-laboratório’.

O episódio O Correio mostra Acerola e Laranjinha envolvidos em função fundamental, embora complicada, na favela: a de carteiro. Acerola é interpretado por Douglas Silva e Laranjinha por Darlam Cunha. Como a favela é um labirinto sem ruas nomeadas, os carteiros têm dificuldade em localizar os destinatários. Um comandante do tráfico resolve colocar moleques espertos no ofício. Dadinho e Acerola são recrutados. Acham a tarefa chatíssima. Em busca de solução, desenham mapa da favela para facilitar o trabalho dos carteiros profissionais. O tráfico, claro, não vai gostar.

O Cunhado do Cara coloca Acerola na função de cunhado de Deco, chefe do tráfico na favela (Leandro Firmino da Hora, o ótimo intérprete de Zé Pequeno). O garoto fica todo prosa. Até se afasta do amigo Laranjinha. Só que o namoro entre Deco e a mana de Acerola chega ao fim. Para não se dar mal, o garoto pede ajuda a Laranjinha. Juntos tentarão reaproximar o casal, para, assim, livrarem-se de atos de retaliação."

 

SEX AND THE CITY
MM

"Essa mulher é um vulcão", copyright Veja, 16/10/02

"Sucesso na televisão americana há quatro anos, o seriado Sex and the City tornou-se referência comportamental. Suas heroínas, quatro amigas nova-iorquinas que são solteiras e liberalíssimas quando o assunto é sexo, viraram ícones de um certo neofeminismo (aquele que não dispensa sapatos de 500 dólares). No Brasil, o programa também já conquistou seu público. Transmitido pelo canal Multishow desde agosto, é um dos dez seriados mais vistos da TV paga - com uma audiência composta em 65% de mulheres. Embora sua protagonista seja a escritora Carrie (Sarah Jessica Parker), uma outra personagem traduz melhor o espírito da série: a relações-públicas Samantha, quarentona que não perde uma chance de desfrutar as delícias da carne. Ela já fez amor num carro de bombeiro (com um jovem representante da categoria) e se enroscou com outras mulheres. ‘Sou trissexual’, diz a personagem. A assanhada Samantha é o maior papel na carreira de Kim Cattrall, atriz inglesa criada no Canadá, que por muito tempo foi lembrada por comédias trash como Porky’s. ‘Fiz filmes ridículos antes de me consagrar e só estava neles por causa do meu corpo’, reconheceu ela em entrevista a VEJA.

Aos 46 anos, Kim está enxutíssima. Recentemente, aproveitou a fama para lançar, em parceria com o marido, o músico de jazz Mark Levinson, um manual de auto-ajuda: Satisfação - A Arte do Orgasmo Feminino. O livro (sim, ilustrado) ensina como aumentar o prazer a dois. Tem lições impróprias para esmiuçar aqui, como um exercício de ‘turbo-língua’. ‘Nascemos dotados do equipamento para fazer sexo, mas é preciso um aprimoramento técnico desses recursos’, diz Kim. No prefácio, ela afirma que só alcançou o verdadeiro prazer há quatro anos, depois de casar pela terceira vez. ‘Passei décadas tendo relações pouco intensas e agora quero dividir minha experiência com minhas fãs.’

Kim mantém a forma comendo ‘só alface’ e odeia televisão a ponto de não ter o aparelho em casa. A brasileira Sonia Braga entrou em seu rol de amizades desde que fez uma participação especial em Sex and the City. Especial, não, especialíssima. Ambas foram protagonistas de uma cena de lesbianismo que causou barulho nos Estados Unidos no ano passado - e que deverá ser mostrada por aqui em 2003. ‘A empatia entre nós foi enorme. Amo Sonia’, derrete-se a atriz. Na mais recente temporada da série, em exibição na televisão americana, os roteiristas resolveram economizar nas cenas picantes e injetar mais temas sérios. Só mesmo a personagem Samantha passou incólume por essas mudanças: num dos episódios, tasca um beijo numa bissexual vivida pela popozuda Jennifer Lopez.

Durante quase toda a sua carreira, Kim Cattrall interpretou personagens que são o estereótipo da mulher-objeto. Ficou tão marcada por isso que as pessoas à sua volta muitas vezes confundem a Kim real com a das telas. Um namorado chegou a pedir que ela fizesse amor usando um quepe, como o de sua personagem em Loucademia de Polícia. A atriz encara com tranqüilidade esse tipo de fantasia, mas prefere ressaltar o lado mais profundo, digamos assim, de seus papéis. Samantha, por exemplo, representa para ela um avanço na forma como o cinema e a televisão americana retratam as mulheres. ‘Em Hollywood prevalece a idéia de que o papel da mulher é casar e ter filhos. As mais liberadas, ainda hoje, são tratadas como prostitutas’, dispara."


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