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BATE BOCA NA CBN
Flávio Pessoa
"Garotinho bate boca em entrevista à CBN", copyright O Globo, 11/12/03
"Uma entrevista concedida por telefone pelo secretário de Segurança, Anthony Garotinho, ao apresentador Sidney Rezende, da Rádio CBN, terminou ontem de manhã em bate-boca. Garotinho atribuiu o problema da violência no Rio ao crescimento desordenado da cidade, criticando o prefeito Cesar Maia — que fora entrevistado no mesmo programa pouco antes — e exaltou-se ao ser interpelado pelo apresentador. Rezende alegou que o secretário estava se distanciando do foco da entrevista.
A irritação de Garotinho começou quando Rezende comentou uma declaração de Cesar sobre o afastamento do coordenador da Vila Olímpica da Maré, Amaro Domingos. O apresentador disse que o prefeito afirmara, categoricamente, que Domingos deixara o cargo depois de ser ameaçado por traficantes. Garotinho reagiu dizendo que a afirmação partira de Rezende. Depois, chamou Cesar de irresponsável, afirmou que o Complexo da Maré já viveu momentos de violência mais graves e acusou o prefeito de produzir mais um factóide:
‘Essa informação do prefeito não é verdadeira. Mais uma vez o prefeito tenta misturar política eleitoral, eleitoreira, com política de segurança. É uma irresponsabilidade do senhor prefeito Cesar Maia querer transformar um fato de rotina (um funcionário se afastar por problemas de saúde) num fato político, apenas por que está se aproximando o período eleitoral’.
Depois de falar sobre sua atuação à frente da secretaria, Garotinho criticou a urbanização da cidade que, segundo ele, seria a maior responsável pela situação da violência no município. Ele ressaltou que o uso do solo é atribuição da prefeitura.
Em seguida, passou a falar das diferenças entre o Rio e outros lugares, a começar por Brasília, que teria índices de violência mais altos, assim como São Paulo, segundo dados da Secretaria nacional de Segurança Pública, do Ministério da Justiça.
Em sua entrevista, além de negar que Amaro tenha pedido demissão por problemas de saúde, como havia alegado anteontem, Cesar Maia voltou a afirmar que decidiu antecipar o encerramento das atividades deste ano da Vila Olímpica da Maré devido às ameaças de traficantes. Ainda segundo o prefeito, os bandidos exigiam não só R$ 30 mil mensais, a título de ‘proteção’, como também queriam influir em todas as contratações de funcionários para o pólo esportivo.
Prefeito diz estranhar reação do secretário
Cesar disse ainda ter estranhado a reação de Garotinho, por negar o problema sem que tenha havido uma investigação aprofundada do caso.
O prefeito deu à Rádio CBN sua versão para o episódio:
‘O constrangimento foi sobre ele (Amaro Domingos). É claro que ele vai dizer que foi por problemas de saúde. Ele tem que tratar da saúde dele. Os problemas de saúde são outros. Saúde é um eufemismo, que quer dizer constrangimentos à sua própria integridade física.’."
REUNIÃO DO G20
Clovis Rossi
"Os distraídos", copyright Folha de S. Paulo, 13/12/03
" Parece haver mais jornalistas estrangeiros do que brasileiros cobrindo a reunião do G20, o grupo de países em desenvolvimento que busca a liberalização agrícola dos países ricos, e o encontro desse pessoal com o comissário europeu para o Comércio, Pascal Lamy.
Tudo bem que negociações comerciais internacionais não sejam exatamente um tema capaz de emocionar o pessoal que circula pela rodoviária de Brasília.
Mas o fato é que o tal G20 provocou uma mudança de qualidade nas negociações internacionais que deveria merecer atenção ao menos do público brasileiro que tem obrigação de estar informado e atento.
Não é todo dia que sentam-se à mesma mesa representantes dos dois países de maior população no mundo (China e Índia), dos cinco países mais relevantes da América Latina (Brasil, Argentina, México, Chile, Venezuela), dos dois mais importantes da África (Nigéria e África do Sul) e do país de maior população muçulmana no planeta (Indonésia).
É possível que o grupo não chegue a lugar nenhum, mas, se conseguir uma abertura ainda que mínima da agricultura no mundo rico, já terá consequências positivas, indiretas ou diretas, até para o povo da rodoviária de Brasília.
Mas nem um mísero parlamentar compareceu para acompanhar as reuniões. É verdade que o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) esteve ontem no Itamaraty, mas por outros motivos.
Fica cada vez mais evidente que o então presidente Fernando Henrique Cardoso tinha razão ao dizer que o brasileiro é ‘caipira’. Disse-o não em sentido pejorativo, mas para simbolizar que olha mais para dentro do que para fora, como é habitual em países de dimensões continentais.
Mas, se tivesse adotado um tom pejorativo, talvez não estivesse tão longe da verdade. O G20 é, talvez, a mais recente e vistosa expressão de como a tal da globalização bate às portas, goste-se ou não dela, seja ou não entendida. Quanto mais distraído estiver o brasileiro, pior para ele."
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