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CENSURAS
Mario Vargas Llosa
"Não é a literatura que envenena a vida", copyright O Estado de S. Paulo, 15/6/03
"Durante a recente campanha eleitoral na Espanha para renovação das municipalidades e comunidades autônomas, alguns políticos da oposição descobriram que Miriam Tey, diretora do Instituto da Mulher - um organismo oficial -, havia publicado em sua pequena editora, El Cobre, um livro de contos de Hernán Migoya intitulado Todas Putas, no qual os personagens - estupradores e pedófilos - de duas histórias fazem uma apologia do estupro.
Imediatamente foi iniciada uma campanha exigindo a renúncia de Miriam Tey e do ministro do Trabalho, Eduardo Zaplana, que a havia nomeado para dirigir aquele instituto. O ministro foi acusado de apoiar a publicação de um livro ofensivo, degradante e que instiga a violência contra as mulheres, hoje um tema central na Espanha graças ao alarmante número de assassinatos e maus tratos de pessoas do sexo feminino registrados quase diariamente no país.
Em Bruxelas, as eurodeputadas socialistas Elena Valenciano e Soraya Rodríguez denunciaram perante a Comissão Européia a Espanha por não destituir de seu cargo Miriam Tey e por não ter iniciado ações legais contra ela ‘como responsável por um delito de apologia do estupro e da pederastia’.
Além das abundantes declarações e protestos de políticos oposicionistas contra o livro incriminado, contra sua editora e o governo ‘cúmplice’, houve muitas cartas enviadas a jornais por leitores sinceramente escandalizados pelo fato de que se tenha permitido publicar um livro onde se liam frases como esta: ‘Agora que todos os negros são bons e todos os maricas são seres muito simpáticos, vejamos se a sociedade se reúne e decide de uma vez que nem todos os estupradores são gente má ... sempre será melhor estuprar uma mulher e deixá-la viva do que não estuprá-la e matá-la. Eu não seria capaz de matar uma mulher, não teria estômago para isso. Mas asseguro-lhes que estuprá-las não me produz nenhum remorso.’ A pressão teve efeito, pois a editora El Cobre decidiu retirar o livro de circulação. Ninguém prestou a menor atenção às declarações de Hernán Migoya, recordando que não se deve confundir os personagens de uma ficção com o autor que os inventa, atribuindo a este as opiniões daqueles (se não fosse assim, os três astros do cinema espanhol, Buñuel, Berlanga e Almodóvar deveriam ter sido condenados à prisão perpétua por propagarem a ‘violência doméstica’ e não sei quantos horrores mais).
A primeira coisa que nos cabe concluir deste episódio é que aqueles que, por oportunismo, hipocrisia ou simples ignorância se precipitaram a lançar o livro de contos Todas Putas como um dardo contra Miriam Tey e o governo que a nomeou têm uma idéia da literatura que coincide milimetricamente com a dos regimes autoritários - clericais, comunistas e fascistas - para os quais a atividade literária deve ser submetida a uma rigorosa censura prévia a fim de impedir que alguns textos dissolventes, imorais ou violentos causem estragos aos leitores incautos, convertendo-os em subversivos, terroristas, assassinos e pervertidos. Por trás desta concepção ingênua e confusa da maneira como as ficções da literatura influem na vida existe, na verdade, um medo da liberdade que raia o pânico.
Se os horrores contidos nos romances, nos poemas, nos dramas e nos contos contagiassem os leitores como a escarlatina, a vida teria desaparecido há tempos do planeta ou, pelo menos, das sociedades ágrafas e cultas, e apenas teriam sobrevivido as analfabetas e bárbaras. Pois é preciso ter lido muito pouco ou nada de literatura para não saber que ela está infestada de brutalidades e de sangue, de monstros e de seres vis, de estupradores e degenerados que praticam os mais abjetos delitos. E, naturalmente, de inúmeráveis estupros. Sem ir muito longe, o Tirant lo Blanc, o mais extraordinário romance escrito em Valência - onde o Bloc-EV de Pere Mayor, partido da oposição, esteve à testa da gritaria contra Todas Putas e contra Miriam Tey - tem como seu centro o feroz defloramento da princesa Carmesina pelo herói - um maravilhoso episódio que é impossível não ler com infinita admiração e prazer pela maestria formal e a genialidade com que Joanor Martorell o concebeu. Mais de meia dúzia de vezes eu reli este soberbo capítulo e juro por minha santa mãe que ainda não estuprei nem mesmo uma mosca. Entre os clássicos da língua espanhola não existe, depois do Quixote, nenhum outro livro pelo qual eu tenha mais carinho e fascinação do que por La Celestina, um romance em forma de drama, entulhado de prostitutas, bruxas, alcoviteiras e cornos, e do qual transpira uma idéia do sexo e do amor que - pelo menos em mim - produz náuseas. Mas a genialidade com que é contada esta história de tremenda violência moral e de esperma sujo confere ao livro um irresistível poder de persuasão que arrebata o leitor e, vencendo todas as resistências, ao mesmo tempo em que o afunda na imundície, o torna feliz. Poderíamos dizer o mesmo a respeito de inúmeros livros terríveis, desde as tragédias com canibais e incestos de Shakespeare até as fantasias de Jonathan Swift, que, como se sabe, recomendou imitar a receita de Herodes - o assassinato maciço de crianças inocentes - para acabar com o problema da superpopulação na Irlanda.
Não é a literatura que envenena a vida: mas, ao contrário, os livros imaginados pelos escritores estão cheios dos fantasmas que moram em nós e precisamos pôr para fora, para não sermos asfixiados por eles e para que nossa vida nos pareça mais digna de ser vivida. Somos nós, e não os livros, os que, no segredo de nossa intimidade, adotamos esses desejos loucos e sonhos excessivos, às vezes ignominiosos, que enchem de febre e espanto certas histórias literárias.
Nós, os seres humanos, estamos dotados de uma imaginação e uns desejos que nos levam a viver mais e melhor ou pior do que vivemos, mas, seja como for, de uma maneira distinta - mais intensa, mais temerária, mais insana - do que aquela que a sorte nos brindou. A literatura nasceu para que essa impossibilidade se tornasse possível, para que, graças à ficção, vivêssemos tudo aquilo que as limitações e proibições da vida real nos impedem de viver. E, por isso, a literatura está repleta de aventuras - inclusive, de atrozes aventuras - que podemos viver na pele do outros, graças à magia da arte, na pura ilusão. Esta vida fictícia nos completa, nos devolve tudo aquilo que precisou ser cerceado de nossa vida - a dimensão instintiva, faminta e destruidora de nossa personalidade - para que a coexistência social fosse possível e nos refaz em nossa integridade perdida. Isso não causa dano à sociedade, dando-lhe más idéias: pelo contrário, a liberta delas, e dos medos e frustrações encrustrados nos sótãos da personalidade, onde se formam muitas condutas violentas. A fantasia em liberdade ‘produz monstros’, sim, mas isso é algo profilático, uma libertação catártica para a coletividade. Ao contrário, é quando se reprimem tais fantasmas que eles irrompem na vida corrente em ações destruidoras. Um dos melhores ensaios de George Orwell versa sobre este tema - A Decadência do Crime Inglês - e seria conveniente que este livro fosse lido pelos ingênuos demagogos que vêem uma relação de causa e efeito entre as fantasias misóginas de Migoya e os assassinatos e maus tratos contra as mulheres cometidos na Espanha, uma sociedade onde a veloz modernização dos costumes e o rápido processo de emancipação da mulher das anacrônicas estruturas tradicionais que a mantinham discriminada e submissa provoca em grande medida, sobretudo nos meios marginais de escassa informação e cultura, essas reações machistas de violência cega e irracional. Uma sociedade na qual a ficção pode desenvolver-se livremente, sem inibições nem censuras, é uma sociedade mais sã, menos neurótica e frustrada do que outra, na qual esta fonte da criatividade humana está cerceada e controlada por carcereiros intelectuais, em nome da moral. Que fique claro: nem toda literatura é maldita, como nos romances de Sade ou nos contos do criticado Migoya; ela existe também, e com altíssima qualidade, fantasiada a partir dos aspectos mais nobres, altruístas e generosos da vida humana. Mas o fazer literário, a construção de ficções verbais emanam da totalidade da existência, e esta não pode ser dividida, como se fosse uma maçã. Aqueles fantasmas com os quais é mais difícil para nós, homens e mulheres, convivermos, por causa de sua natureza beligerante, retorcida e às vezes perversa, esses demônios que nos envergonham e assustam e não sabemos como tirar de cima de nós tradicionalmente encontraram na literatura uma válvula de escape privilegiada. A literatura permite isso porque, projetados em ficções, aqueles monstros dos abismos da personalidade deixam de ser malignos. A palavra os domestica e, assim amansados, também eles ganham o direito à cidadania.
Em outras circunstâncias, provavelmente, o ocorrido com o livro de Migoya teria provocado uma grande mobilização de protesto de intelectuais e escritores da Espanha, dada a justificada hipersensibilidade que existe sobre o assunto da censura num país que padeceu durante 40 anos do rigor dos censores de Franco. Mas não foi assim. Os protestos foram escassos. Eu, pelo menos, não vi mais condenações enérgicas contra os energúmenos que pediam as cabeças de Migoya e Miriam Tey além das que partiram de um punhado de escritores (Antonio Muñoz Molina, Pere Gimferrer, Elvira Lindo, Juan Manuel de Prada e alguns outros mais), enquanto os outros guardavam silêncio ou, pior ainda, somavam-se à ofensiva inquisitória. Como isso se explica? Pela razão política, é claro. Aqueles energúmenos eram de ‘esquerda’, enquanto Miriam Tey e o governo que a nomeou diretora do Instituto da Mulher eram de direita. Logo, a correção política exigia que fosse justificada a campanha ‘progressista’ contra os conservadores, embora essa campanha implicasse a defesa da censura e a perseguição e desqualificação de um escritor por escrever exercitando sua soberana liberdade. São necessárias mais provas da grotesca nulidade que os conceitos de ‘direita’ e ‘esquerda’ alcançaram em nossos dias?"
MEMÓRIAS DO PRESENTE
Mario Sergio Conti
"Foto, jornalismo", copyright no míninimo (http://nominimo.ibest.com.br), 14/6/03
‘Vivo o meu presente e sou hoje uma pessoa magoada. Magoada com a incapacidade de exercermos o nosso ofício. Tem sido muito complicado poder exercer tão esporadicamente a minha profissão, com toda essa energia que tenho. Falo com uma pessoa que está sendo desaproveitada pela cultura que assumiu. Quero que isso fique gravado, porque vou dar os melhores anos da minha vida a esse país, que adotei e já representei, e não estou sendo respeitado em nenhuma das minhas prioridades básicas como profissional, como homem sério, detentor de um know-how e de um arquivo profissional de respeito. Pois não há cinema. Durante o último Festival de Brasília, eu me perguntava se não haveria nenhum curta-metragista com colhões para subir naquele palco e pendurar uma tela preta de luto pelo cinema brasileiro. Ficou todo mundo sentado puxando o saco daqueles três ministros de merda que estavam lá sentados, assistindo uma amostragem de botar vergonha’.
Hector Babenco, cineasta, abril de 1995.
‘Eu não sou um cético. Sei que é muito difícil, com a passagem do tempo, até não ser indiferente do ponto de vista moral, cair num negativismo muito grande, ou no cinismo. Mas eu acredito. Não consigo ser um pessimista, mesmo em relação ao Brasil, onde estão impelindo esse negativismo, sobretudo aos jovens. Estamos passando por um período de baixa, evidentemente. Mas acho que é passageiro. Nós vivemos um período ufanista muito longo. Depois, todos os conceitos foram lançados num liquidificador - reforma agrárias, industrialização -, e, para quem acreditou dogmaticamente nesses postulados sociais e vê tudo isso desabando, é muito difícil acreditar com a mesma fé’.
Otto Lara Resende, escritor e jornalista, abril de 1992.
‘Há alguns lugares onde a baixeza própria à sociedade moderna se acumula e se condensa. A televisão certamente é um deles, os jornais são outro. São lugares que levam a experimentar o caráter inextricável da enrascada em que vivemos. Por isso mesmo, o sentimento de impotência e perplexidade frente à TV ou instituições parecidas é crucial, que poderia ser didática, se os espíritos oposicionistas fossem menos acomodados. A TV é tão pesada e intolerável que dificilmente alguém se anima a parar para lhe tomar a medida, para lhe especificar os horrores, com a paciência e a determinação necessárias. A tolerância e a simpatia com que ela conta na intelectualidade brasileira é um indício seguro da nossa falta de espírito crítico’.
Roberto Schwarz, crítico literário, julho de 1993.
‘Trabalhar sobre a realidade e fazer da linguagem algo tão eminentemente funcional, como você está obrigado a fazer no jornalismo, pode criar tiques, hábitos: o recurso ao estereótipo, ao clichê. Isso é um risco. E, quando você faz literatura, tem que haver essa espécie de luta para criar um estilo, quer dizer, para romper justamente com os estereótipos e tudo que é linguagem morta. O que para mim foi muito positivo no jornalismo foi me manter sempre com um pé na rua. Creio que em tudo o que escrevi se percebe uma curiosidade, um interesse, uma preocupação, uma paixão pelo que está ocorrendo agora, em meu tempo, em meu mundo’.
Mario Vargas Llosa, escritor, novembro de 1994.
‘As mensagens habituais da publicidade são dignas de um novo processo de Nuremberg. Continuam nos dizendo que todas as mães são loiras, que todas as famílias são felizes, que nosso carro representa nosso poder e nossa potência até física e sexual, que você é o que consome e será respeitado por isso, que o creme de merda que você coloca na cara espalha perfeitamente a beleza que você poderia vir a ser se copiasse Isabella Rossellini. Pergunto-me quando vamos acordar. Estou escandalizado’.
Oliviero Toscani, publicitário, novembro de 1994.
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Essas citações foram tiradas de entrevistas feitas ao suplemento ‘Mais!’, da ‘Folha de S. Paulo’, e estão reunidas num livro que acaba de ser publicado com o título de ‘Memórias do presente’. (Esclarecimento: o livro traz entrevistas minhas).
Na França, e também nos Estados Unidos, a entrevista é considerada um ramo menor do jornalismo. Ou, quando muito, um gênero que frutifica em ambientes circunscritos, caso das entrevistas com escritores da ‘Paris Review’. Em jornais e revistas franceses e americanos, dá-se preferência ao perfil, que é bem mais difícil de fazer que uma entrevista - pois é preciso construi-lo, buscar informações com outras pessoas que não o entrevistado, achar um ponto de vista - mas possibilita uma abordagem mais rica.
No perfil, não é o entrevistado que fica com a palavra final, e sim o jornalista. Como entrevista não é interrogatório policial nem bate-boca, nela o entrevistado sempre projeta a imagem de si mesmo que lhe convém. Tanto que, no ‘Le Monde’, as entrevistas são precedidas de um esclarecimento dizendo se o entrevistado releu e emendou o texto. Há também o problema do custo. Um bom perfil leva dias, semanas, às vezes meses para ser feito - como é os da ‘New Yorker’.
No Brasil, pois, as entrevistas pululam. Por preguiça, incapacidade de fazer perfis, economia.
Ainda assim, as entrevistas do ‘Mais!’ dão o que pensar. O livro é excelente. Nele se encontram as cabeças mais disparatadas dizendo coisas instigantes e intrigantes. ‘Memórias do presente’ tem uma riqueza de raciocínios e de experiências rara num livro cujo matéria prima é a imprensa.
A boa entrevista é aquela que uma voz, uma maneira de pensar e sentir, se expressa com a fluidez que a linguagem oral permite. Isso é conseguido, primeiro, com um bom entrevistado.
O pintor Iberê Camargo, por exemplo, diz na sua entrevista: ‘Não amo as flores. Acho que Deus criou as flores num momento de frescura. Prefiro os gravetos, os espinhos, os cardos. Sempre digo para a minha mulher: ‘Se fores à fria campa, não me leves flores, me leves espinhos’. É uma observação engraçada e inteligente, que só ele poderia fazer.
Mas o bom entrevistador é fundamental. Ele precisa ter estudado antes quem é a pessoa à sua frente, ser curioso, saber tirar dele o que tem de melhor. E, depois, é preciso editar a entrevista, um trabalho que, desconfio, o leitor não tem idéia do quanto é difícil: é preciso selecionar os raciocínios, achar o ritmo do entrevistado. Sergio Augusto deve ter ficado louco para editar a entrevista com Schwarz, Susan Sontag e Marilena Chaui. Nelson de Sá e Otavio Frias Filho avisam logo de cara: ‘José Celso Martinez Corrêa não é de falar pouco’. Pois o diretor falou seis horas e os entrevistadores conseguiram dar nexo à sua verborragia.
O entrevistador de Iberê Camargo, Augusto Massi, poderia ter achado a frase sobre as flores uma frescura, e a cortado. Mas soube ver a sua beleza intrínseca, a sua pertinência quando contraposta à pintura de Iberê Camargo.
Os entrevistadores de ‘Memórias do presente’ são ótimos. Alguns deles nem jornalistas são. Mas, na regra, todos estão ligados à imprensa, como articulistas ou colunistas. E, o que é decisivo, as entrevistas só puderam ser feitas porque jornalistas da ‘Folha’ assim quiseram e assim fizeram. Nomeadamente: os editores Adriano Schwartz, Alcino Leite Neto, Marcos Augusto Gonçalves e o diretor de redação Otavio Frias Filho. ‘Memórias do presente’ mostra que a imprensa brasileira transformou a entrevista num gênero maior do jornalismo.
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Escrevo isso concordando com o que Roberto Schwarz diz acima: a imprensa é uma espécie de pocilga, de cloaca dos tempos modernos. Todas as barbaridades do mundo passam por ela, que as espelha, produz e reproduz.
Uma cloaca necessária, se o que se pretende é construir e viver numa nação civilizada.
As citações não foram escolhidas ao acaso. Elas tentam mostrar visões acerca da dificuldade que é fazer jornalismo no Brasil - e também cinema, publicidade, crítica. (O que Vargas Llosa e Toscani falam tem a ver com o jornalismo brasileiro: a utilização generalizada de clichês, as reportagens que buscam verdades são impressas no verso de anúncios mentirosos).
Sobretudo agora. As notícias que chegam do jornalismo brasileiro são tenebrosas. Demissões, sucateamento, cinismo e desespero são os temas dominantes. Todos os órgãos de imprensa estão piores do que antes, seja em qualidade, circulação ou faturamento. Quatro deles estão em fase terminal, ‘Jornal do Brasil’, ‘Gazeta Mercantil’, ‘Época’ e ‘Jornal da Tarde’. É impressionante. O Brasil tem jornalistas e empresários capazes de fazer jornais e revistas muito melhores do que os que estão publicando. Com mais um pouco de deterioração, entrevistas como as feitas pelo ‘Mais!’ serão uma impossibilidade econômica. Há o risco real, daqui a alguns anos, de parafrasearmos Hector Babenco e dizermos: não há imprensa.
Os empresários do jornalismo são criticados por terem embarcado em aventuras que produziram a atual crise. É certo que houve administrações incompetentes. Em situações e casos específicos, houve roubo puro e simples. E não apenas do patronato. Alguns jornalistas coonestaram com os proprietários, e até tomaram a iniciativa, no processo de degradação da imprensa. Quando se deixa de recolher o INSS, e não se paga o fundo de garantia por tempo de serviço de demitidos, não há como fazer jornalismo.
Mas além das responsabilidades individuais, há o quadro geral do subdesenvolvimento. Não houve progresso, distribuição de renda, incorporação de massas de deserdados ao emprego, aos direitos, à civilização.
O investimento na internet, na privatização das telefônicas e na TV por assinaturas, que grosso modo provocaram o endividamento das empresas jornalísticas, marcaram um momento mundial do capitalismo. Não foram invenção nacional. O desenvolvimento tecnológico forneceu o chamariz para o chamado ‘novo ciclo’ de expansão. Consultores, banqueiros, publicações econômicas só falavam nisso. Mas o tal ciclo não houve. Ele se esboroou logo em seguida.
O editor de ‘Memórias do presente’, Adriano Schwartz, chama a atenção para uma declaração premonitória, feita em 1999, pelo sociólogo americano Immanuel Wallerstein:
‘À medida que o sistema entra em colapso, a ordem social também rui, nacional e internacionalmente. Prevejo uma série de guerras sangrentas e inconcludentes, mas também tumultos sociais internos. E, particularmente, quero enfatizar que esses tumultos - em geral associados a países de Terceiro Mundo, da periferia - agora vão acontecer no Norte. Especialmente nos EUA, mas também na Europa Ocidental, Japão e assim por diante. Será um mundo desagradável para se viver - intelectualmente estimulantes, politicamente muito interessante e pessoalmente muito difícil’.
Num país pobre como o Brasil, a queda foi fatal. Quem tiver curiosidade de ver o que está ocorrendo na imprensa latino-americana verá que a situação é igual à brasileira, senão pior. O que leva a uma constatação pessimista: a crise em que a imprensa brasileira está metida não pode ser resolvida por ela mesma. Não há mágicas. Não há cortes de custos (piora da qualidade, insisto) que possam tirar a imprensa do buraco, torná-la popular, e portanto mais lucrativa. A imprensa hoje espelha a situação brasileira. Ela está se fragmentando e soçobrando. Como o Brasil, está na dependência de uma dinâmica que se lhe escapa.
Há o que se fazer, contudo. A imprensa pode contribuir para esclarecer o debate acerca do que está em jogo, em termos nacionais e internacionais. Como as entrevistas ao ‘Mais!’ fazem."
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