18/11/2003 5/24

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DITADURA DERROTADA
Augusto Nunes

"Parceria incomparável", copyright Jornal do Brasil, 15/11/03

"Os dois primeiros volumes já figuram em qualquer lista dos dez melhores livros escritos em qualquer tempo sobre História do Brasil. Acrescentou-se a tal relação, no começo de novembro, o terceiro da série extraída das investigações e análises Elio Gaspari sobre o parto e a agonia da última ditadura militar. Os anteriores continuarão na categoria dos grandes.

Mas A ditadura derrotada, com notas altíssimas em em todos os quesitos, já virou primeiro da classe. Poucas obras podem ser comparadas ao volume que prossegue a devassa da saga republicana entre o início dos anos 60 e o final dos 70. Convém ressalvar que faltam dois para que o conjunto se complete. E não se sabe o que ainda nos reserva o maior jornalista do país.

Editorialmente, a certidão de nascimento apresenta o terceiro volume como o filho do meio. Mas os leitores estão sendo apresentados ao patriarca da linhagem, como reafirma em código o subtítulo da obra: O Sacerdote e o Feiticeiro. Não é difícil identificá-los. Jeitão de sacerdote quem sempre teve foi o general Ernesto Geisel. Bruxarias e urdiduras de alquimista ficavam por conta do general Golbery do Couto e Silva, feiticeiro de muitas vidas passadas.

Ao fechar a lente sobre a parceria incomparável, Gaspari localizou um jovem militar fascinado por registros históricos, gravados ou escritos. Heitor Ferreira, alternando com chefes bem mais idosos duetos que a lógica dos bemóis e sustenidos parecia tornar inverossímeis, seria uma peça essencial na remontagem do quebra-cabeças, por permitir ao autor o acesso a labirintos ignorados, esquecidos ou supostamente impenetráveis.

Quando a idéia de escrever algo extenso sobre Geisel e Golbery era apenas um brilho nos olhos de Gaspari (e um amontoado de informações na cabeça do repórter congênito), o então diretor da revista Veja já escolhera o título. ‘Vai se chamar O Sacerdote e o Feiticeiro’, avisou. Quase desistiu ao descobrir que, para compreender o que ocorrera naquele período, teria de andar para frente e para trás - e andar muito. Teria de consumir centenas de horas, percorrer milhares de páginas, ouvir quilômetros de fitas, juntar dias de conversas, ler livros aos lotes.

Teria de investigar várias outras parcerias, duradouras ou efêmeras, algumas de enorme importância, todas muito interessantes. Uma delas foi formada por Medici e Geisel: mal haviam convivido nos 40 anos de carreira militar, mas ‘Milito’ decidiu que o ‘Alemão’ era o mais qualificado para sucedê-lo no cargo. O que houvera exatamente? Seria preciso investigar. Outro desistiria. Gaspari topou a parada, e só mesmo ele poderia enfrentá-la com chances de sucesso. Os resultados têm alcançado notáveis altitudes.

Os livros anteriores iluminam o Brasil do governo João Goulart até a ascensão ao poder de Emilio Medici, terceiro da ninhada de generais-presidentes. Agora O Sacerdote e o Feiticeiro começou. O verbo é esse: começou. Como informa o jornalista Marcos Sá Corrêa no texto de apresentação distribuído pela editora, A ditadura derrotada abre a primeira parte de um tríptico. Vai dos primeiros vagidos da candidatura, ainda em 1971, até as eleições de 1974. O regime militar se estenderia por mais dez anos. Mas Geisel entendeu o recado dos eleitores: era hora de organizar a retirada em ordem para os quartéis.

Como os demais, também este livro de Gaspari desenha um painel admirável. Obras do gênero devem ser percorridas com vagar e atenção, para evitar-se um risco sempre presente: as peças mais impressionantes do conjunto podem camuflar detalhes apaixonantes, ou descolorir matizes que configuram esplêndidos fachos de luz. Guernica, de Pablo Picasso, oferece um perfeito resumo do horror e da abjeção mesmo aos olhos apressados de turistas em procissão. Quem o contempla como se deve vê, além da tradução do essencial, também minúcias deslumbrantes.

É compreensível que os comentários já publicados sobre o livro se tenham concentrado em momentos surpreendentes demais ou em lances de altíssima voltagem. A esses instantes Gaspari costuma chamar de ‘encrencas’, maiores e menores. Não há como deixar de espantar-se com a naturalidade traída por Geisel ao ouvir do general Dale Coutinho, antes da posse, que a solidez do regime e a tranqüilidade da nação se haviam consolidado depois que os militares passaram a matar.

Geisel achava aquilo uma ‘uma barbaridade’. Mas necessária, tanto que Coutinho acabou nomeado ministro do Exército. Seria uma evidência de que o ‘Alemão’ tinha a marcá-lo um temperamento glacial, treinado em temperaturas típicas da formação germânica. Nada tem contornos assim tão simples. É o que demonstra a reação de Geisel à morte do filho Orlandinho, de 16 anos, atropelado por um trem quando tripulava sua bicicleta nas imediações do quartel de Quitaúna.

O homem habituado a lidar com golpes e conspirações desde os tempos de Getúlio Vargas imolou-se numa tristeza irremovível. Embora ressalvasse, com motivos de sobra, ter sido premiado com uma grande mulher (Lucy) e uma filha extraordinária (Amália Lucy), seria para sempre um infeliz incurável. ‘Sou mesmo um chucro’, dizia. Vivia recluso com a família. Evitava estranhos e só se permitia compromissos sociais inevitáveis.

Visitas de misses ao palácio, por exemplo, nem pensar. Recusou-se a comparecer ao jantar em homenagem à duquesa de Kent com uma pergunta-resposta no melhor estilo Ernesto Geisel: ‘Só por que ela é princesa?’ Estava na Presidência havia um ano quando se deu conta de que não convidara para jantar gente que lhe era tão íntima enquanto durava o expediente. Golbery e Heitor, por exemplo.

Heitor permanecia de pé enquanto despachava com o presidente. Golbery fazia piruetas retóricas para construir frases sem pronomes de tratamento. Seria estranho chamar de ‘senhor’ o velho parceiro. Não lhe parecia conveniente o uso do ‘você’.

Geisel raramente se comovia ao recordar algum episódio. Num deles, viu-se constrangido a comunicar ao irmão Orlando, ministro do Exército de Medici, que não continuaria no cargo. Ambos sempre tiveram uma relação turbulenta. Quando se visitavam, trajavam ternos. Chamavam de ‘mãe’ as próprias mulheres, que preferiam passar ao largo das brigas sucessivas entre os irmãos turrões.

Golbery parecia divertir-se com o trabalho de alquimista. Promoveu bruxarias de primeira, como a implosão da candidatura do ex-ministro Delfim Netto ao governo de São Paulo, ou a aproximação da cúpula da Igreja Católica com o presidente luterano e desconfiado. Mas a montagem do governo comandado pelo Sacerdote, com um Feiticeiro agindo nas sombras, coleciona capítulos bisonhos. Alguns ministros foram escolhidos por critérios que deixariam confuso o pior dos jurados de desfiles na Sapucaí. Outros Geisel só conheceu ao formalizar o convite.

O governo começou sem projetos definidos. Não sabia direito o que fazer com um país que ficara diferente. O ‘milagre econômico’ ganhara aspas impostas pela verdade. E as eleições de 1974 prenunciariam a iminente subida ao cadafalso do regime condenado. O que ocorreu?

Ainda bem que Gaspari ficou intrigado com isso tudo. Acabou redescobrindo um Brasil. O real."

 

Marcelo Ridenti

"Gaspari demonstra o sabido sempre negado", copyright Folha de S. Paulo, 15/11/03

"No terceiro volume de sua saga histórico-jornalística sobre o período da ditadura, Elio Gaspari demonstra irrefutavelmente o que já era sabido, mas negado até hoje pelas autoridades de então: gravações inéditas provam que Geisel (1907-1996) ‘conhecia, apoiava e desejava a continuação da política de extermínio’ do que restara da esquerda armada quando assumiu o poder (p.388).

Entendia que ‘esse negócio de matar é uma barbaridade, mas acho que tem que ser’ (p.324). Mais sinistro: seria preciso ‘agir com muita inteligência, para não ficar vestígio nessa coisa’ (p.387). Pelo menos desde janeiro de 1971, Geisel já era o favorito de Medici para sucedê-lo (p.185).

Essas revelações por si sós justificariam o esforço de anos de pesquisa do autor, que utilizou fontes a que só ele teve acesso, como inúmeras entrevistas e o famoso arquivo de Golbery (1911-1987), organizado por seu ex-secretário, Heitor Ferreira, que também assessorou Geisel. Ferreira cedeu a Gaspari seu diário manuscrito de 1.500 páginas e incontáveis horas de entrevistas gravadas de Geisel com diversos interlocutores de outubro de 1973 a março de 1974.

O livro retrata o cotidiano dos ditadores de 1970 a 1974, apresentando um painel dos eventos históricos que remontam aos anos 1930, sempre preocupado com a citação das fontes em notas de rodapé. O leitor corre o risco de se perder: são demasiados os detalhes e, por vezes, fica sem ter clareza de onde o autor quer chegar, dada a narrativa de uma sucessão quase infindável de acontecimentos e personagens.

Entretanto, parece haver ao menos duas teses centrais interligadas: 1. na intervenção militar, teriam imperado as ações impostas ao sabor das circunstâncias, em resposta às atribulações da conjuntura política, jamais uma racionalidade premeditada; 2. os militares resolveram deixar o poder quando -a despeito de reinarem absolutos, submetendo todo tipo de oposição- viram sua unidade ameaçada pela autonomia dos órgãos repressivos em relação à hierarquia tradicional e pela luta de grupos militares para conseguir o poder.

Geisel e Golbery -que ajudaram a construir a ditadura entre 1964 e 1967- teriam sido os principais responsáveis pelo seu desmonte entre 1974 e 1979, ao constatar que o regime militar, outorgando-se o monopólio da ordem, gerara novamente a insubordinação no interior das Forças Armadas. Justamente pela atuação decisiva dos dois generais nesse processo, eles são tratados no livro com respeito e até admiração -descontada a divergência explícita sobre os direitos humanos.

A hipótese da ausência de racionalidade premeditada na intervenção militar não é propriamente nova. A questão é saber se a história da ditadura deve centrar-se na dinâmica da corporação militar, deixando em segundo plano outros agentes históricos e as condições materiais envolvidas.

Visto de perto, qualquer Estado -particularmente o policial- está sujeito a um sem-número de irracionalidades. Mas isso por si só não quer dizer que impere a falta de planejamento tático e estratégico, inerente à própria dinâmica militar.

O livro, ademais, suscita questões que não analisa. Por exemplo, comenta com naturalidade que Geisel dirigiu a Petrobras, que Golbery teve alto cargo na Dow Química e Heitor Ferreira no Projeto Jarí. Não estaria aí um prenúncio do troca-troca de posições, hoje exacerbado, entre a máquina burocrática do Estado e as grandes empresas privadas e públicas?

A gravação de conversas -de que Geisel tinha conhecimento, mas em geral não seus interlocutores- teria sido mero ‘interesse na preservação de um registro histórico’, como afirma Gaspari (p.423), ou algo ‘pior que Watergate’, como comentou a filha de Geisel (p.424), cacoete de gente que se sentia acima do bem e do mal, acostumada primeiro a conspirar e depois a mandar com base em experiências pessoais no Serviço Nacional de Informação?

Os livros de Gaspari tornaram-se um fenômeno editorial e de recepção que fazem refletir sobre os contrastes da sociedade brasileira. De um lado, uma obra que lança mão de recursos profissionais dos mais avançados, com dezenas de pessoas envolvidas nas atividades de edição -por exemplo, o competente trabalho iconográfico de Vladimir Sacchetta e a revisão acadêmica minuciosa das notas por Marco Villa; enfim, um produto cultural de qualidade, apoiado por intensa campanha de marketing, que deve chegar à lista dos best-sellers.

De outro lado, essa obra só foi possível devido à amizade que Gaspari cultivou com Golbery, Geisel e Heitor Ferreira, o que lhe garantiu a guarda exclusiva do material. Não deixa de ser um paradoxo que esses documentos públicos não estejam depositados em dependência pública e só tenham sido salvos graças a uma rede de relações pessoais.

A Ditadura Derrotada

Autor: Elio Gaspari Editora: Companhia das Letras Quanto: R$ 49,50 (538 págs.)

Marcelo Ridenti é professor de sociologia na Unicamp, autor de ‘Em Busca do Povo Brasileiro - Artistas da Revolução’ (Record, 2000), entre outros livros"

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