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GLOBO & BNDES
Bispo Rodrigues
"Por que só para a Globo?", copyright Folha de S. Paulo, 19/03/02
"Todos nós acompanhamos, atônitos, as notícias da semana passada, com relação ao megaempréstimo concedido pelo Banco de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, às Organizações Globo, mais especificamente à Globo Cabo, ramo da Rede Globo que administra a televisão a cabo.
O empréstimo, no valor de R$ 284 milhões, servirá para um socorro à Globo Cabo, que amargou prejuízo de R$ 700 milhões no ano passado e acumula dívidas em torno de R$ 1,5 bilhão.
Interessante notar que o BNDES já é um dos sócios da Globo Cabo, tendo a menor participação acionária, cerca de 4,8%, e, neste caso, foi quem mais investiu para tapar o enorme rombo da empresa.
Cabem aqui algumas considerações.
É público e notório que as Organizações Globo têm um alto padrão de gastos. Tudo deles é grande, é o melhor, é o mais moderno e atual, tornando ainda mais difícil a concorrência entre as televisões brasileiras. Até aí, tudo bem. Quem não gosta de ter o que há de melhor? Porém tudo isso custa dinheiro -e muito dinheiro.
A TV Globo compra quase todos os horários, do Campeonato Brasileiro de Futebol, da Copa Mercosul, da Fórmula 1, de tudo que é importante e pode dar audiência. Um exemplo: na Copa do Mundo, a Record ofereceu US$ 80 milhões para transmitir os jogos, o SBT ofereceu US$ 90 milhões, a Globo pagou US$ 150 milhões, acabando com qualquer tipo de acordo ou negociação.
Quando a Globo contrata algum artista- seja ator ou atriz, apresentador etc-, a empresa costuma pagar salários irreais, extremamente altos, não permitindo também desse modo nenhuma concorrência com as outras televisões, subtilizando, muitas vezes, os serviços desses artistas, pagos a peso de ouro.
Uma empresa administrada dessa forma não poderia nunca dar lucro.
Quando a Globo compra ‘a peso de ouro’ certas programações, como algum campeonato de futebol, ainda se dá ao luxo de não transmitir os jogos, apenas informando o resultado em algum de seus telejornais, só para não permitir que outras emissoras possam transmitir o evento.
Assim, sendo administrada dessa maneira, não é de estranhar que esteja com uma monstruosa dívida.
O que me preocupa nesse empréstimo concedido pelo BNDES é que o governo federal está transformando a TV Globo em uma empresa estatal, totalmente a seu serviço, coincidentemente nas vésperas das eleições presidenciais.
O BNDES possui um caixa grandioso, constituído fundamentalmente por dinheiro público, ou seja, dinheiro dos nossos suados impostos pagos ao governo, que cada mês arrecada mais.
Será que o BNDES vai abrir seu generoso caixa para os outros, que também estão a necessitar de uma ajudinha ? Por que o governo não auxilia, por exemplo, a Transbrasil, cujos funcionários não recebem salários há vários meses?
Que interesses estão por trás dessa operação?
De minha parte, cumprirei meu papel constitucional de fiscalizar o bom uso do dinheiro público. Já requisitei todos os contratos e outros documentos inerentes a esse empréstimo, que é, no mínimo, curioso. Não tenham dúvida de que, se necessário for, tomarei todas as medidas para proteger o povo e seus recursos, tão escassos. (Carlos Alberto Rodrigues Pinto, o Bispo Rodrigues, 44, radialista, deputado federal pelo PL-RJ, é o segundo bispo e coordenador político da Igreja Universal do Reino de Deus, dona da Rede Record.)
Chico Santos
"Dívida com o banco é de R$ 285,79 milhões", copyright Folha de S. Paulo, 13/03/02
"A dívida da Globo Cabo com o BNDES, de acordo com os dados disponíveis da empresa e do banco, soma R$ 285,79 milhões.
Segundo os números do balanço da empresa do terceiro trimestre de 2001, de uma dívida total de R$ 1,817 bilhão, o BNDES era credor de R$ 157,79 milhões, sendo R$ 70,65 milhões no curto prazo e R$ 87,14 milhões no longo prazo.
Além disso, a BNDESPar detém na sua carteira mil debêntures conversíveis em ações da Globo Cabo, no valor de R$ 128 milhões.
Fora os créditos, o BNDES, por meio da BNDESPar, possui 4,8% do capital total e 7,95% do capital votante da Globo Cabo.
A rolagem da dívida de curto prazo vinha sendo negociada entre a empresa e o banco desde o final do ano passado, mas nenhuma das partes chegou a divulgar o desfecho da operação. O BNDES não dá informações sobre suas negociações com a empresa.
Questionado sobre a operação, o presidente FHC disse que abordagens sobre o assunto ‘devem ser encaminhadas ao banco’."
César Baima
"‘Acerto político? Não sei’", copyright Jornal do Brasil, 14/03/02
"Não é comum uma operação de crédito Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) antes mesmo de concretizada passar por amplo debate público como o anunciado socorro de R$ 1 bilhão à Globo Cabo, das Organizações Globo. Ontem, o presidente do BNDES, Eleazar Carvalho, viajou para Londres. Deixou no Rio o vice-presidente do banco estatal, José Mauro Carneiro da Cunha, para explicar a ajuda do banco estatal, que é acionista minoritário d a empresa. O BNDES está sob críticas porque a operação de auxílio à Globo Cabo (leia acima e ao lado), está sendo vista dentro e fora do Congresso Nacional como um negócio essencialmente político, em plena temporada de sucessão presidencial.
‘De acerto político não sei e não tenho nenhuma idéia’, afirmou Cunha. ‘Ela obedece rigorosamente a todos os padrões de aprovação dentro do BNDES , afirmou Cunha. que levou para o encontro com jornalistas dois executivos do banco : Eduardo Gentil, diretor de Produtos Estruturados; e Walim Vasconcelos, superintendente de Renda Fixa.
As críticas têm como base o fato de o BNDES ser o sócio com menor participação no capital da Globo Cabo (4,8%), mas estar disposto com mais de 28% do valor da operação de resgate (R$ 284 milhões). O aporte financeiro do banco federal é cinco vezes superior ao do grupo de comunicações gaúcho RBS, que detém 12,2% da empresa, e quase três vezes maior do que o do Bradesco, dono de uma fatia de 6%. Só perde para a injeção de capital da Globo, R$ 542 milhões, sendo que a maior parte já foi ministrada para que a Globo Cabo continuasse funcionando.
Segundo Gentil, o objetivo é melhorar as condições de sobrevivência da Globo Cabo e assim não arriscar os investimentos já feitos pelo banco na empresa. O executivo explicou que a estrutura de capital da empresa não estava adequada ao negócio, com a dívida bruta de mais de R$ 1,6 bilhão ultrapassando em seis vezes seu lucro operacional (antes de impostos, juros e depreciação) de cerca de R$ 280 milhões. Com a capitalização, essa proporção cairá pela metade para aproximadamente três vezes e meia."
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