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FRAUDE NO NYT
Roberto Dias
"Jornal cria comitê para evitar fraude", copyright Folha de S. Paulo, 14/05/03
"Em e-mail enviado à redação do ‘The New York Times’, o publisher e os dois principais editores do jornal reconheceram ter parte da responsabilidade pela crise que tomou o diário após a revelação de que um ex-repórter publicou textos fraudados.
A mensagem foi assinada pelo publisher do ‘Times’, Arthur Sulzberger Jr. ‘Nossas salvaguardas de organização e nossas respostas individuais foram insuficientes. Howell, Gerald e eu aceitamos a responsabilidade por isso’, escreveu ele, numa referência aos dois principais editores, Howell Raines e Gerald Boyd.
Sulzberger foi criticado pela postura que adotou desde o domingo, quando o jornal publicou um grande dossiê relatando uma série de irregularidades cometidas pelo repórter Jayson Blair, que pediu demissão no dia 1º.
Antes do e-mail, ele afirmara que a responsabilidade pelos textos incorretos publicados pelo ‘Times’ cabia apenas a Blair e que não aceitaria ser demonizado por causa dos erros. Na opinião do publisher, haveria pouco a fazer para evitar que o jornal corra o risco de enfrentar um caso assim -não valeria o preço de implementar um sistema no qual todos os funcionários seriam alvo de dúvidas, argumentou.
Mas, em e-mail enviado após a mensagem de Sulzberger, Raines, que é o editor-executivo do jornal, anunciou a formação de um comitê para descobrir erros de procedimento na redação.
Além disso, avisou que ele e Boyd vão buscar uma maneira de conferir as movimentações de repórteres analisando suas prestações de contas. Investigação do ‘Times’ em notas fiscais apresentadas por Blair mostrou que ele se encontrava em lugares diferentes dos quais deveria estar em determinados dias -e de onde, em tese, assinava as reportagens publicadas pelo jornal. Blair, 27, não se manifestou após a publicação do dossiê contra ele."
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"Ex-repórter do ‘Times’ lamenta fraudes", copyright O Estado de S. Paulo, 19/05/03
"Em sua primeira declaração após ser acusado pelo diário ‘The New York Times’ de inventar e plagiar reportagens no próprio jornal, o jornalista Jayson Blair, 27, disse sentir ‘culpa’ e ‘tristeza’ em um curto depoimento à revista ‘Newsweek’. Ele se recusou a autorizar a revista a publicar suas respostas à maioria das questões.
‘Não posso dizer nada além do fato de que sinto um leque de emoções, incluindo culpa, vergonha, tristeza, deslealdade, liberdade e apreciação por aqueles que ficaram do meu lado e se deram ao trabalho de tentar entender que há uma história mais profunda e não acreditaram em tudo o que eles lêem nos jornais’, disse.
O jornalista se recusou a falar, por exemplo, de um assunto que a própria ‘Newsweek’ discutiu neste final de semana: sua relação com o álcool e as drogas.
Há duas semanas, segundo publicou a revista, o jornalista estava internado em um hospital em Connecticut, onde tratou de um histórico que reuniria alcoolismo, uso de cocaína e sintomas maníaco-depressivos.
‘Blair diz que ele está ‘limpo’ há mais de um ano, mas até ele sabia que seu comportamento estava se tornando cegamente autodestrutivo’, escreveu a ‘Newsweek’.
Na semana passada, relatou a revista, Blair mandou um e-mail a diversas pessoas, inclusive ex-colegas do jornal, para dizer qual é seu novo endereço eletrônico. ‘Espalhem que estou passando tão bem quanto possível para aqueles que ainda se importam’, escreveu no e-mail.
Segundo a revista, após a divulgação do escândalo pelo próprio ‘Times’, Blair perdeu diversos amigos -a maior parte deles é jornalista também. Estaria afastado de sua namorada, que tem sido apontada como um dos elos que impulsionaram a sua carreira no jornal. Filha de uma amiga da mulher do editor-executivo do ‘Times’, ela nega que tenha facilitado seu acesso ao banco de imagens do jornal, de onde ele retiraria detalhes para compor reportagens assinadas de lugares nos quais não pisou.
O jornal, que apontou diversos problemas nas reportagens que Blair escreveu após se tornar um repórter nacional, diz que continua a investigar seu trabalho. Assim, poderá divulgar nova relação de fraudes que seu ex-repórter teria cometido.
Enquanto isso, o jornalista poderá escrever um livro contando sua história. Especialistas do mercado editorial acreditam que sua autobiografia tenha potencial para se tornar um best-seller, dada a repercussão que o caso segue tendo nos EUA."
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"Ex-repórter do ‘Times’ lamenta fraudes", copyright Folha de S. Paulo, 20/05/03
"Em sua primeira declaração após ser acusado pelo diário ‘The New York Times’ de inventar e plagiar reportagens no próprio jornal, o jornalista Jayson Blair, 27, disse sentir ‘culpa’ e ‘tristeza’ em um curto depoimento à revista ‘Newsweek’. Ele se recusou a autorizar a revista a publicar suas respostas à maioria das questões.
‘Não posso dizer nada além do fato de que sinto um leque de emoções, incluindo culpa, vergonha, tristeza, deslealdade, liberdade e apreciação por aqueles que ficaram do meu lado e se deram ao trabalho de tentar entender que há uma história mais profunda e não acreditaram em tudo o que eles lêem nos jornais’, disse.
O jornalista se recusou a falar, por exemplo, de um assunto que a própria ‘Newsweek’ discutiu neste final de semana: sua relação com o álcool e as drogas.
Há duas semanas, segundo publicou a revista, o jornalista estava internado em um hospital em Connecticut, onde tratou de um histórico que reuniria alcoolismo, uso de cocaína e sintomas maníaco-depressivos.
‘Blair diz que ele está ‘limpo’ há mais de um ano, mas até ele sabia que seu comportamento estava se tornando cegamente autodestrutivo’, escreveu a ‘Newsweek’.
Na semana passada, relatou a revista, Blair mandou um e-mail a diversas pessoas, inclusive ex-colegas do jornal, para dizer qual é seu novo endereço eletrônico. ‘Espalhem que estou passando tão bem quanto possível para aqueles que ainda se importam’, escreveu no e-mail.
Segundo a revista, após a divulgação do escândalo pelo próprio ‘Times’, Blair perdeu diversos amigos -a maior parte deles é jornalista também. Estaria afastado de sua namorada, que tem sido apontada como um dos elos que impulsionaram a sua carreira no jornal. Filha de uma amiga da mulher do editor-executivo do ‘Times’, ela nega que tenha facilitado seu acesso ao banco de imagens do jornal, de onde ele retiraria detalhes para compor reportagens assinadas de lugares nos quais não pisou.
O jornal, que apontou diversos problemas nas reportagens que Blair escreveu após se tornar um repórter nacional, diz que continua a investigar seu trabalho. Assim, poderá divulgar nova relação de fraudes que seu ex-repórter teria cometido.
Enquanto isso, o jornalista poderá escrever um livro contando sua história. Especialistas do mercado editorial acreditam que sua autobiografia tenha potencial para se tornar um best-seller, dada a repercussão que o caso segue tendo nos EUA."
Folha de S. Paulo
"Deu no ‘new york times’", Editorial copyright Folha de S. Paulo, 14/05/03
"O jornal ‘The New York Times’ noticiou com destaque, no fim de semana, o fato de ter mantido em sua redação, durante quatro anos, um jornalista responsável por fraudes em pelo menos 36 reportagens e por informações fictícias em outras 600. Por que encerrar de forma deliberadamente rumorosa um caso que, mesmo fadado ao vazamento, poderia ter sido tratado com maior discrição?
A resposta, obviamente, está no valor da credibilidade. É ela um patrimônio estratégico da boa imprensa, não apenas em sua dimensão ética mas também material. O êxito do diário americano, por exemplo, é indissociável da confiabilidade que o jornalismo por ele praticado veio emprestar à sua marca. Aí está um caso em que o mercado premia o interesse público.
A revelação é ainda mais relevante quando confrontada ao ‘oficialismo cirúrgico’ praticado por grande parte da imprensa americana e ocidental na cobertura da guerra do Iraque. Aqui, o que se viu foi o outro lado da moeda: como o poder é capaz de atrair interesses para obter a rendição incondicional de setores da mídia a seus propósitos.
O adesismo na cobertura do conflito demonstrou o perigo da concentração dos meios de comunicação e ressaltou a importância do pluralismo e da livre concorrência.
Que o ‘New York Times’ tenha investigado e revelado o caso é duplamente positivo. Inicialmente, pela coragem de mostrar o quanto o público está exposto a distorções no processo da informação. Pois, se um dos mais confiáveis jornais do planeta tardou tanto a detectar as fraudes, o que esperar de veículos menos comprometidos com a qualidade? Em segundo lugar, porque a decisão reafirma a crença na transparência e na autocrítica como mecanismos de controle e correção.
Nos dois casos, ganham os leitores e a ética jornalística."
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