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ERA DO RÁDIO
Ruy Castro

"Abanando-se de novo com a ‘Revista do Rádio’", copyright O Estado de S. Paulo, 16/11/02

"O Brasil já teve uma era do rádio, sabia? E tão agitada e rica quanto a que, nos Estados Unidos, inspirou Woody Allen a fazer um belo filme com esse título, passado nos anos 30 e 40 do último século. A nossa era do rádio, com o proverbial atraso, foi nos anos 40 e 50, mas valeu. Os formatos eram parecidos: musicais de inúmeros gêneros, novelas, noticiários, programas de humor, seriados de aventuras, transmissões esportivas, hora certa, jingles deliciosos (jingles eram os comerciais cantados). Durante 20 anos, o brasileiro viveu ao pé do rádio, sua principal fonte de informação e deleite. As vozes dos ídolos penetravam em todas as casas de família (nas que não eram ‘de família’ também) e despertavam paixões e iras, embora a poucas dessas vozes os ouvintes pudessem atribuir rostos. Mas ninguém se queixava - as vozes bastavam. Em fevereiro de 1948, surgiu uma revista para mostrar não apenas como eram, fisicamente, os donos das vozes, mas também o que sentiam, pensavam e faziam fora do microfone, com quem estavam ‘saindo’, quanto ganhavam, qual era a marca do seu carro ou da pasta de dente e se ainda moravam ou não com a mãe. Era a Revista do Rádio, de Anselmo Domingos.

Pelos 22 anos seguintes, até 1970, seus mais de mil números foram de leitura obrigatória para os fãs sedentos de fofocas. Hoje, folhear sua coleção pode oferecer subsídios para a História, porque a Revista do Rádio documentou a evolução do maior veículo de comunicação no Brasil e testemunhou o seu progressivo destronamento pela televisão (e, por isto, teve também de adaptar-se, passando a chamar-se Revista do Rádio e TV a partir de 1960).

Como muitas publicações importantes do passado, a Revista do Rádio deixou de existir e a memória sobre seu funcionamento é privilégio de alguns poucos sobreviventes. O próprio Anselmo Domingos, ao morrer no começo dos anos 70, com pouco mais de 50 anos, já devia ter perdido a sua. Agora, um pesquisador carioca, Rodrigo Faour, levanta a história em seu livro Revista do Rádio, dentro da coleção Arenas do Rio, editada pelo RioArte e pela Relume-Dumará.

Pelo livro desfilam Emilinha Borba, Marlene, Dalva de Oliveira, Cauby Peixoto, Ângela Maria e tantos outros que seduziram o povo brasileiro através do rádio e dos discos - e da revista, que parecia acompanhá-los aonde quer que fossem. A popularidade desses cantores não tem comparação com a de nenhum outro ídolo que os sucedeu. Eles eram o Brasil urbano, suburbano e rural, e tinham admiradores em todas as classes. Seus palcos iam das boates de Copacabana, onde três doses de uísque custavam um salário mínimo, aos auditórios das rádios Nacional, Mayrink Veiga e Tupi, todas do Rio, onde provocavam alaridos e puxões de cabelo entre as ‘macacas’, como as apelidou o jornalista Nestor de Holanda. Como toda celebridade em qualquer lugar e época, esses artistas tinham vidas pessoais agitadas, mas a Revista do Rádio era, à sua maneira, elegante ao falar deles - imagine se Anselmo Domingos se atreveria a ofender as fãs de Emilinha ou Cauby! Ao mesmo tempo, tinha de produzir matérias com uma pitada de ‘escândalo’, para manter a peteca no ar.

O resultado era uma série interminável de reportagens sobre os ‘noivados’ do criador de Conceição ou especulações alarmistas sobre a possibilidade de este ou aquele artista ‘abandonar o rádio’. Ao se ler as matérias, via-se que não era bem assim, e as fãs respiravam aliviadas. Era um jogo, mas do bem, e ninguém queria que fosse diferente.

Neste departamento, o prato forte da Revista do Rádio era a seção Mexericos da Candinha. Embora a página mostrasse o desenho de uma mulher de óculos-gatinho, cabelo curto e pinta no queixo, Candinha não existia, era uma criação da redação - o que não impedia que artistas ligassem para a revista à sua procura, para reclamar de alguma nota que os tivesse ‘deixado mal’. Essas notas eram aparentemente inocentes: ‘O que o meu querido Fulaninho estava fazendo no dia tal pelos lados do Leblon?’ Para quem estava por dentro, implicavam uma certa malícia, sabendo-se que, nos anos 50, quem não morava no bairro só o freqüentava por causa do Hotel Leblon, o motel das celebridades. Mas, em matéria de fofoca, nada muito além disto. Não havia possibilidade de a Revista do Rádio criar um problema grave para um artista a ponto de motivar um processo - como, no futuro, cansaria de acontecer com Amiga (chamada pelos artistas de Inimiga) e outros sucedâneos da revista de Anselmo Domingos.

O livro de Faour é forte na análise do conteúdo da Revista do Rádio.

Descobre-se, por exemplo, que, assim como os artistas deviam ser admirados por seu sucesso (as reportagens davam grande ênfase aos salários que eles ganhavam, seus carrões e suas viagens ao exterior), os textos deviam enfatizar que, apesar disso, eles continuavam a ser pessoas simples e ‘humildes’ - ou seja, muito parecidos com os fãs. Da mesma forma, qualquer desvio da média era apontado: nenhum artista podia ser gordo ou magro demais, cantar grosso ou fino demais, vestir-se de menos ou demais - as exceções eram as que viviam de suas personalidades provocantes, como Elvira Pagã ou a nudista Luz Del Fuego. E, assim como fazem certas revistas de hoje, a Revista do Rádio adorava mostrar onde e como viviam as celebridades.

A diferença é que, para os padrões atuais, mesmo os artistas de enorme sucesso dos anos 50 viviam com relativa modéstia: em seus apartamentos, as grandes atrações eram um ‘hi-fi’ (um aparelho de som) ou uma geladeira - reflexo de um país que ainda estava descobrindo os eletrodomésticos...

A revista refletia a personalidade de Anselmo Domingos, um católico extremado (começou sua carreira no rádio escrevendo novelas religiosas), homossexual (assumido e discreto), com grande visão comercial e de uma generosidade pessoal que chegava a beirar o irresponsável. Em 1947, ele percebeu a ausência no mercado de uma revista que desse maior cobertura ao rádio - outras revistas, como Carioca e Noite Ilustrada, preferiam falar de cinema - e, com um capital que lhe foi adiantado por um banqueiro de bicho, partiu para a criação de seu miniimpério. Sua redação sempre funcionou em prédios próprios, a gráfica era dele também e ele soube diversificar a produção, fazendo revistas religiosas e para a enorme e rica colônia portuguesa no Rio. Faour não conta, mas, em 1959, sob o impulso da conquista pelo Brasil da Copa do Mundo da Suécia no ano anterior, Domingos criou também a ótima Revista do Esporte, na mesma linha da do rádio e destacando inclusive a Candinha.

O carro-chefe, evidentemente, sempre foi a Revista do Rádio, cuja leitura, segundo depoimentos, não se limitava aos salões de cabeleireiro e às empregadas domésticas (as madames, envergonhadas de pedi-la na banca, ‘pediam às empregadas que a comprassem’). O casamento de um artista esgotava a tiragem e exigia reedições. Um desquite, desde que consumado, idem - a revista conseguiu manter uma atitude olímpica até diante do tremendo escândalo que envolveu a separação de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins em 1952. Enquanto o Diário da Noite abria manchetes diárias contra Dalva (em sórdidos artigos de David Nasser, assinados por Herivelto), a Revista do Rádio, sempre ao lado de Dalva, conseguia não ser ofensiva contra seu ex-marido, grande compositor e homem influente da Rádio Nacional.

Todos os segmentos do rádio mereciam espaço na revista. Os astros das novelas tinham finalmente suas fotos expostas para o público e, de vez em quando, revelava-se que o grande galã da novela xis era, na verdade, um homem feio e já de idade (porém charmoso e irresistível por causa da voz).

Ou que a vilã absoluta de todas as novelas era uma pessoa de ótimo coração e mãe extremada, nada parecida com seus personagens. O mesmo quanto aos animadores de auditórios, narradores esportivos e comediantes - nomes como os de César Ladeira, Paulo Gracindo, César de Alencar, Oduvaldo Cozzi, Brandão Filho (o ‘primo pobre’ do Balança mas não Cai), Max Nunes (o maior criador de humor do rádio - e da TV - no Brasil, ainda na ativa), Milton Rangel e Daisy Lúcidi (respectivamente ‘Jerônimo’ e ‘Aninha’ no seriado da Nacional), Mario Lago, Renato Murce (grande revelador de calouros), Janete Clair (que já criava no rádio as mesmas novelas que faria na televisão), Helena Sangirardi (pioneira dos programas femininos), até o irritado Ary Barroso e uma infinidade de outros, todos valiam matéria na revista.

É bom acrescentar que a extrema popularidade dessas pessoas não se devia apenas ao fato de trabalharem em rádios que atingiam todo o País, como a Nacional, a Mayrink Veiga e a Tupi. Elas eram extremamente competentes no que faziam, e quem não fosse bom não tinha vez naquelas emissoras - a competição no rádio carioca era fortíssima. Havia outras emissoras no Rio, também com alcance nacional pelas ondas curtas, e nem por isso arranhavam o prestígio das três maiores.

À prosperidade da Revista do Rádio, seguiu-se a súbita derrocada, e não porque outras publicações, como Radiolândia, mais bem impressas ou escritas, ameaçassem a sua primazia - quando se tratava de lidar com artistas, ninguém tinha o know-how de Anselmo Domingos. O próprio Anselmo cavou seu buraco ao envolver-se com drogas (cocaína, éter) e sofrer as conseqüências inevitáveis da dependência: desorganização profissional, problemas financeiros, ruína pessoal. Mesmo os maiores amigos de Anselmo, como os cantores Jorge Goulart e Nora Ney, foram tomados de surpresa pela sua nova e trágica personalidade.

E, ao deixar os negócios em mãos de associados, sua revista declinou de estalo, arrastando tudo: as outras publicações da empresa, o parque gráfico, as instalações suntuosas. Para Faour, Anselmo pode ter sido levado às drogas por não suportar a contradição entre sua fé religiosa e o homossexualismo.

Mas nem tudo Freud explica e, para mim, Anselmo envolveu-se com drogas apenas porque teve a oportunidade para isto, sentiu que se ‘dava bem’ com elas e tinha dinheiro para sustentar seu consumo. Quando se deu conta, estava fisgado e não teve como escapar. Tudo o mais que se seguiu foi apenas rotina no universo das drogas. Ao morrer, alguns anos depois da Revista do Rádio, já perdera tudo: os Cadillacs, as propriedades, a saúde e, como sói, os amigos, alguns dos quais sustentara ou a quem dera presentes apaixonados.

Durante muito tempo, nos anos 70 e 80, o rádio também pareceu ter ‘morrido’ diante da presença avassaladora da televisão neste País. Mas sua morte é apenas ilusória. Ouve-se muito mais rádio no Brasil do que se imagina, embora ele não seja nem sombra do que já foi. No lugar das atrações ao vivo, que cantavam de verdade nos auditórios, reduziu-se a um vitrolão, controlado, em muitos casos, pelo jabá. Ouvir rádio hoje, dependendo da estação, é um suplício, com locutores sempre aos berros e a ‘música’ idem.

Parece haver uma relação direta entre o apogeu do rádio no Brasil e as melhores fases da música popular. Talvez não por coincidência, o declínio de um acompanhou a decadência da outra. Ultimamente, há sinais de fumaça no ar, apontando para uma grande volta do samba e de outros gêneros musicais legitimamente brasileiros. As rádios que fiquem espertas e sintonizem esta tendência - se quiserem voltar a ser o que eram. E, numa dessas, pode ser que, como dizia a marchinha de Miguel Gustavo em 1958, você volte a se abanar com a Revista do Rádio. (Revista do Rádio. Livro de Rodrigo Faour. Edição da Relume-Dumará/RioArte, coleção Arenas do Rio. 162 págs., R$ 23)"

 

DRUMMOND, 100 ANOS
Luís Edgar de Andrade

"Drummond no purgatório", copyright Jornal do Brasil, 18/11/02

"Parece que Juscelino e Drummond morreram ontem - Drummond sobretudo - e já estão fazendo 100 anos de nascidos. Antigamente, isto é, na minha infância, as pessoas de que se festejava o centenário eram em geral antiqüíssimas. Machado de Assis, por exemplo. Quando a efígie do monstro sagrado apareceu numa moedinha de 500 réis, pensei que Machado fosse tão velho quanto o almirante Tamandaré - era quase - ou mesmo Tiradentes.

Uma semana atrás, mexendo nos meus papéis, achei um bilhete meu para o Oto Lara, com data de 19 de agosto de 1987, que começava assim: ‘Saudades do Drummond, tão vivo e, no entanto, já enterrado. Juro que não me espantarei se ele continuar telefonando para os amigos, todas as manhãs, em busca de notícias, a começar por você. Quis levar ao velório minhas duas filhas mais velhas - Isabel, de oito, e Bárbara, de sete - para que elas pudessem dizer mais tarde como o Alceu (Amoroso Lima) que viu Machado de Assis no bonde das Águas Férreas: ‘Gente, estivemos no enterro do Drummond’. Minha mulher me dissuadiu lembrando que nunca foram a um cemitério e poderiam ficar traumatizadas.’

Perguntei, ontem, à Isabel se ela se lembra de que eu quis levá-la ao enterro do Drummond no São João Batista. Respondeu-me: ‘Não. Só me lembro de que você me ajudou a escrever um texto para o colégio sobre a morte dele.’

Nessa época chefiava a redação da TV Manchete. Leitor do Drummond desde a adolescência, tive a idéia de uma campanha institucional: mais de 100 vinhetas com versinhos do poeta, com sete segundos cada, 10 no máximo, escolhidos em suas obras completas. No plim-plim para os comerciais, um ator apareceria dizendo: ‘Stop. A vida parou ou foi o automóvel? Carlos Drummond de Andrade.’ Daí a 15 minutos, outra entrada: ‘Perdi o bonde e a esperança. Carlos Drummond de Andrade.’ No intervalo seguinte, a atriz muito bonita declamaria com voz grave: ‘Para onde quer que vades, o mundo é só Adalgisa. Carlos Drummond de Andrade.’ E assim por diante: ‘É feia, mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Carlos Drummond de Andrade.’

Seriam 120 vinhetas, dia e noite, ao longo de um mês. Pronto o projeto, o Oto me deu o telefone do neto - neto do poeta, bem entendido - para que a TV Manchete pedisse licença. O moço por nome Pedro foi muito simpático: ‘Converse com o advogado que trata dos direitos autorais’.

Passados 15 anos, posso estar enganado quanto ao valor exato da cifra, estávamos na inflação entre o velho cruzado e o cruzado novo, mas um mês de vinhetas custaria à TV Manchete o equivalente, na época, a mais ou menos um apartamento de dois quartos em Copacabana. Negativo.

No primeiro centenário, trabalho noutra televisão, a TV E, ainda mais pobre, onde me passou pela cabeça ressuscitar o projeto, durante um mês, de 15 de outubro a 15 de novembro. Com medo, porém, de que os direitos autorais valham, hoje, um apartamento de dois quartos no Leblon, deixei a idéia para o sesquicentenário, em 2052, quando a poesia de Drummond será de domínio público como a de Camões.

Ah, os herdeiros. Melhor não tê-los, diria o Vinícius. Um cineasta de São Paulo fez, há pouco, o roteiro de um filme sobre Clarice Lispector. O fato chegou por acaso a meu conhecimento porque, nas férias, fui em romaria a Tchetchelnik, a aldeia da Ucrânia onde ela nasceu. O projeto esbarrou num e-mail em espanhol: ‘De acuerdo con las recientes intrucciones recibidas de los herederos, no se va a autorizar ningún film biografico de Clarice.’

Estava pensando nisso quando li o artiguinho de Diogo Mainardi na Veja da semana passada, que propõe o purgatório: ‘Chega de Drummond. Pelos próximos 10 ou 15 anos, é melhor ficar longe dele.’ Y de los herederos, digo eu. (Luís Edgar de Andrade (aldeota@bol.com.br) escreve nesta página aos domingos)"


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