10/20

Envie para um amigo  Procure no arquivo

JORNALISMO & AUTONOMIA
Marcio Varela

"‘Onde foi parar a autonomia do profissional?", copyright Agência Carta Maior <www.agenciacartamaior.uol.com.br>, 14/11/02

"Onde foi parar a autonomia profissional, moral e intelectual do repórter latino-americano? Hoje, o jornalista sai da redação devidamente orientado, com a matéria quase escrita - seria ele, o repórter, um mero preenchedor de dados de modelos de reportagens devidamente xerocados nas redações? Infelizmente, parece que é assim.

No meu tempo de foca, no Correio Braziliense (DF), eu saía da redação preparado para dar ao leitor, principalmente, o porquê da notícia. O chefe de reportagem chamava a gente e dizia: ‘Olha, seqüestraram uma garota de 7 anos de idade. O nome dela é Ana Lídia. Ela mora em tal lugar. Não esqueça: estamos numa ditadura.’ E pronto.

O que eu procurava passar ao leitor, ao escrever a matéria, era uma visão universal do fato, mostrando, acima de tudo, que a tal da ditadura impedia que os órgãos de segurança e a Justiça fizessem o seu trabalho. Resultado: até hoje não se sabe, ao certo, quem matou a menina. Suspeitos: cinco, todos filhos de autoridades do Executivo e do Legislativo da época.

No julgamento do ex-deputado Francisco Pinto, nesta época estava na Veja de Brasília, o então diretor da sucursal, Pompeu de Souza, me chamou e disse: mostre o lado psicológico do julgamento, os tiques nervosos, de onde veio o relatório, o tom da voz do relator, o clima de revolta, não envolva as pessoas que estão em confronto direto com os militares. Fiz o melhor que pude: mostrei o tique do relator de então, o atual ministro do STF Moreira Alves (seus pés não paravam de balançar, tamanho o seu nervosismo), mostrei em foto de Luís Humberto o relatório chegando por trás do prédio do Supremo num carro Opala oficial preto do Estado Maior das Forças Armadas, mostrei o medo estampado no rosto dos outros ministros. Foi um julgamento sob ameaça de bala.

Hoje estamos sob uma democracia autoritária ou um capitalismo autoritário? Que é autoritário, não tenho dúvidas. Hoje o repórter não pensa por si próprio, existe um texto-padrão, já vendido aos patrocinadores. Mais do que nunca a velha frase ‘o jornalismo é a arte menor de se escrever nas costas de um anúncio’ é atual. A Veja continua manipulando a classe média, vive por ela e dela, incapaz de atacá-la, o que pode ser visto neste caso dos crimes no Brooklin velho de Sampa, em Campo Belo. Não só a Veja, mas todos os outros meios de comunicação que estão cobrindo o caso estão omitindo dados, causas e conseqüências do crime.

Até agora, nenhuma rede de TV, revista ou jornal se propôs a analisar com seriedade o comportamento dos três jovens. Há que se ter uma entrevista com sociólogo especializado no urbano, com um educador especializado em adolescente.

No caso Ana Lídia (ocorrido em 10 de setembro de 1973), os motivos que levaram ao assassinato de uma criança de 7 anos foram exatamente os mesmos que levaram os rapazes de Campo Belo a matar os pais de Suzane. Pela ordem:

1) A certeza da impunidade. No caso da Ana Lídia, os assassinos eram filhos de gente que apoiava e trabalhava para a ditadura. No caso Campo Belo, eles pertencem à classe média alta, protegida dos meios de comunicação e pelos juízes e delegados de polícia.

2) Educação. Hoje, como ontem, o mecanicismo domina as salas de aula, as matérias se fragmentaram em 10, conheço médicos que são experts em avaliar problemas do coração via computador (formados nos EUA), mas incapazes de aplicar uma injeção ou diagnosticar um pedaço de vidro enterrado num pé. Não existe ensino de humanidades nas salas de aula, nem de cidadania, nem de urbanidade - o ensino é grosseiro, robótico, direcionado e pessimamente intencionado. Não há universalismo. O que importa são os produtos, o lucro, as comissões, os brainstorming, os upgrades, os agregados (pouquíssimos sabem aplicar esta palavra corretamente, mas todo mundo fala, porque deve ser a linguagem dos executivos americanos). Na escola, não se aprende nada em relação à vida, à convivência, à humildade, à paciência, à caridade, ao entendimento, ao consenso.

3) Os pais desses rapazes e da menina não conseguiram, e por que não poderemos jamais saber, ensiná-los a lidar com frustrações e limites. Este também é um dever da escola. O mesmo deve ter acontecido com os pais dos supostos assassinos de Ana Lídia.

4) O fator mais importante, e que determinou as mortes em Campo Belo e Brasília, foi o uso da droga (álcool, maconha, cocaína, LSD). Aqui, o delegado que elaborou os autos do processo da Ana Lídia foi afastado do cargo e sumiu no mundo, nunca mais se ouviu falar dele. Ele constatou o uso de drogas (chá de cogumelo, LSD e maconha) pelos filhinhos de papai acusados. Em São Paulo, pouco se fala sobre isso. Tenho a certeza de que envolver a droga afugentaria os traficantes dos bairros ricos das grandes cidades.

Por fim, tenho a impressão de que querem institucionalizar as quadrilhas de bandidos - já fizeram isto com os bandidos do colarinho branco (Luís Estevão, o psicótico, que deveria estar sendo tratado numa clínica especializada) e agora estão fazendo com o Beira-Mar e seus asseclas. Acho que todos devem ter a oportunidade de reparar erros e ser reintegrados à sociedade, por meio de terapia e aprendizado constante. Esta seria uma grande vitória do espírito humano. Prisão é coisa medieval.

Promover a descriminalização das drogas é coisa urgente. Acabaria com o tráfico e seus comissionados. Mas é preciso ter um programa de controle do uso, de ajuda ao dependente.

O jornalista deve ter uma visão mais universal, política e crítica da notícia. No ano passado, fiquei estarrecido ao ver que ninguém neste país se manifestou sobre uma suspeita, para mim mais que aparente, de manipulação da opinião pública, ocorrida durante o seqüestro da filha do Sílvio Santos, e depois a invasão do suposto seqüestrador à casa do próprio, e da ida do governador Alckmin à casa do amigo para resolver o problema. O que seria isto? E o Gugu apresentando os programas do Serra? E a TV do Gugu? E a lei que permite a entrada de até 30% do capital estrangeiro no capital social de empresas de comunicação brasileiras?

Será que o fio condutor das respostas seria o mesmo? O que estará por trás de tudo? Cadê as críticas? Cadê a imprensa?"

 

CNN vs. FOX
Sérgio Dávila

"CNN perde liderança para conservadora Fox", copyright Folha de S. Paulo, 17/11/02

"É difícil dizer o que veio antes, se o ovo da informação ou a galinha do telespectador, mas o fato é que a guinada conservadora dada pelos Estados Unidos nas eleições gerais do último dia 5 já tem seus reflexos na mídia local, que podem ser comprovados pela recente ascensão da emissora de notícias Fox News.

Em pouco mais de um ano, pelo menos desde 11 de setembro de 2001, a empresa de propriedade do empresário australiano Rupert Murdoch bateu em todos os aspectos a pioneira e até então líder CNN, fundada pelo liberal Ted Turner em Atlanta, no começo dos anos 80, e atualmente de propriedade do conglomerado AOL-Time Warner.

Hoje, a Fox já é a maior emissora em número de telespectadores em geral, no horário nobre e em faturamento publicitário (US$ 269,6 milhões em 2001, contra US$ 260,5 milhões da rede concorrente).

A consagração veio nos últimos dias. No último dia 4, véspera das eleições para o Congresso e o governo de alguns Estados, o programa de entrevistas de Larry King na CNN, o líder de audiência do gênero no horário desde sua estréia, há 16 anos, perdeu pela primeira vez para um concorrente, ‘Hannity & Colmes’, um ‘talk show’ transportado do rádio pela Fox News.

Não que ‘Larry King Live’ prime por sua contundência jornalística -pelo contrário, o nova-iorquino eternamente de suspensórios e dono de uma cabeça enorme é conhecido por seu estilo ‘levanta-a-bola’.

Mas o atual campeão, ancorado por Sean Hannity e Alan Colmes, é quase um porta-voz oficial do Partido Republicano e da administração do presidente George W. Bush, os grandes vencedores da disputa eleitoral.

Além disso, ao longo da cobertura das eleições gerais, entre 20h e 3h, horário considerado nobre em dia de voto, a lavada foi ainda maior

A Fox News conseguiu uma média de 2,2 milhões de telespectadores, ou 16% a mais do que o 1,9 milhão alcançado durante o mesmo período nas polêmicas eleições presidenciais de 2000, na qual a disputa acirrada em diversos Estados mobilizou a audiência americana.

Enquanto isso, a CNN chegava em segundo lugar, com 1,9 milhão de telespectadores, despencando incríveis 66% em relação ao dia 5 de novembro de 2000, quando arrastou para a frente da TV cerca de 5,6 milhões de pessoas. Os números são do Instituto Nielsen e tiveram sua metodologia contestada pela emissora de notícias de Atlanta.

‘Diversão’

Há quem atribua a virada da Fox News ao estilo de seu diretor-executivo, o norte-americano Roger Ailes, 62, no comando da emissora desde sua fundação, em 1996.

Filho de um operário de Ohio e ex-assessor dos presidentes republicanos Richard Nixon (1969-74), Ronald Reagan (1981-89) e George Bush pai (1989-93), o jornalista não tem papas na língua.

A começar da maneira como se refere publicamente à concorrente: ‘Crisis News Network’.

Alies, que extinguiu o cargo de vice-presidente de marketing, é responsável ele mesmo pela publicidade institucional da Fox News. Foi idéia dele, por exemplo, comprar os direitos do outdoor em frente à sede da CNN em Atlanta, que desde então trazem anúncios da concorrente.

É idéia dele também o caminhão com o slogan da Fox News (‘Nós reportamos. Você decide’), que pode ser visto de vez em quando passando ao fundo do estúdio da CNN no centro de Nova York, que conta com uma parede de vidro atrás dos âncoras mostrando o movimento da rua. ‘É tudo diversão’, disse Ailes.

Crítica

Nem todo mundo está rindo. ‘O slogan verdadeiro deveria ser ‘Nós reportamos. Nós decidimos’, criticou a revista especializada ‘Advertising Age’.

Com a publicação concorda Emily Whitfield, da ONG liberal ACLU (União Americana das Liberdades Civis, na sigla em inglês), para quem o jornalismo na Fox News é tratado como um ‘esporte sanguinário’.

A briga está só começando, e o telespectador do Brasil já pode acompanhá-la de perto: desde o mês passado, a Fox News passou a ser exibida na TV paga brasileira, como já acontecia com a CNN."

 

AL JAZEERA
FSP

"TV Al Jazeera recebe manifesto da Al Qaeda", copyright Folha de S. Paulo, 18/11/02

"Um dos principais jornalistas do canal de TV árabe Al Jazeera disse que recebeu um documento de seis páginas da rede terrorista Al Qaeda em que a organização fala de sua estratégia, que inclui ataques a civis norte-americanos. Um alto funcionário do governo dos EUA, contudo, afirmou que o manifesto não traz nada de novo.

Yosri Fouda disse, em entrevista à rede de TV CNN, que recebeu o papel na semana passada e que está convencido de sua autenticidade. O manifesto ameaça com novos ataques terroristas a Nova York e Washington e menciona vítimas civis.

Nos EUA, o diretor do Departamento de Segurança Interna, Tom Ridge, disse que o governo já está ‘familiarizado com esse tipo de informação’ e acrescentou que não lhe atribui nenhum significado especial. ‘São o mesmo tipo de ameaças que ouvimos desde o ano passado’, disse Ridge.

No Kuait, forças de segurança afirmaram que desbarataram planos de terroristas para explodir um hotel muito frequentado por norte-americanos no Iêmen. O plano foi frustrado depois da prisão de um membro da Al Qaeda que estava ajudando nos preparativos para o ataque.

No Reino Unido, a polícia disse que prendeu, com base nas leis antiterrorismo, três homens de origem norte-africana, mas negou informações veiculadas pela imprensa de que os suspeitos planejavam lançar um ataque com gás contra o metrô de Londres. (Com agências internacionais)"


Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe