21/10/2003 6/22

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TRANSGÊNICOS EM DEBATE
Marcelo Leite

"É isso aí, companheiro", copyright Folha de S. Paulo, 19/10/03

"A guinada pró-transgênicos do PT instalado no poder é apenas a ponta do iceberg

Mesmo quem nunca votou em Fernando Gabeira, nem leu o livro ‘O que É Isso, Companheiro?’, tem razões para admirar-se com sua coerência e com sua decisão de deixar o PT, depois dos safanões que o partido de Lula e Dirceu andou dando na política ambiental (para não falar da social, da econômica, da de direitos humanos etc., pois este não é o local apropriado).

Ambiente, porém, constitui um desses temas em que a complexidade - e portanto a pesquisa científica - é ingrediente fundamental. Gabeira, em seu discurso de despedida, pôs o dedo na ferida: o governo lulista parece estar impregnado de uma visão produtivista estreita da economia, como os dirigentes socialistas do Leste Europeu antes da queda do Muro de Berlim, em 1989.

A coisa pode ser resumida assim: se a saúde do ambiente ficar no caminho da meta de produção fixada, azar dela. Quem visitou a cidade de Bitterfeld, na antiga Alemanha Oriental, antes da reunificação do país em 1990, teve uma visão dantesca do que essa determinação revolucionária pode provocar na paisagem e na qualidade do ar.

É óbvio que o desenvolvimentismo capitalista também pode engendrar desastres de igual calibre, como fica provado com a vizinha Cubatão, mas muita gente supunha que uma das coisas que estavam sendo revolucionadas na esquerda ocidental pós-Muro era sua visão da política ambiental.

É ocioso discutir, nesta altura, se o claro viés antiambiental do governo do PT decorre do passado stalinista de alguns de seus integrantes (mesmo porque muitos de seus críticos à esquerda não o são em menor medida), ou se, ao contrário, escorre da recém-adotada opção preferencial pelo capital, sobretudo o financeiro.

Simplificando e reduzindo muito algo que os economistas e cientistas sociais deveriam estar esmiuçando melhor, funciona assim: para não cair em desgraça em Wall Street, o país precisa de quantidades crescentes de dólares; o agronegócio é no presente uma grande fonte de moeda forte; logo, vale tudo para favorecê-lo e às suas exportações.

A guinada pró-transgênicos do PT instalado no poder é apenas a ponta do iceberg. Gabeira, e mais discretamente a ministra Marina Silva, contribui para fazer dela algo com importância provavelmente maior do que de fato tem, no varejo - na medida em que a soja resistente a herbicida está longe de ser o mais problemático dos organismos geneticamente modificados.

No atacado, porém, sua resistência pertinaz pode se revelar acertada, pois terá talvez forçado uma discussão e um controle públicos que, de outro modo, seriam soterrados sob o trator tecnocientificista da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança).

Engana-se mais uma vez quem acreditar que essa motoniveladora vai atropelar só a questão dos transgênicos. Ela já está abrindo o terreno para as estradas da soja no cerrado e na Amazônia, assim como para um acréscimo das taxas de desmatamento e uma revisão da política de demarcação de terras indígenas.

De um modo ou de outro, esse desenvolvimentismo empedernido tem sido a marca de Lula em seus primeiros dez meses no Planalto.

Gabeira só erra ao dizer que ele, na questão dos transgênicos, foi mais longe do que FHC - que na realidade só não fez mais a favor deles porque não conseguiu. Os companheiros de Gabeira foram à Justiça e o impediram."

 

IMPRENSA REGIONAL
Folha do Amapá

"Deputados pedirão ação do governo para esclarecer ameaças ao motorista da Folha", copyright Folha do Amapá <http://folhadoamapa.com.br/>, 13/10/03

"Os deputados Randolfe Rodrigues (PT) e Ruy Smith (PSB) anunciaram que pedirão providências do Governo do Estado para esclarecer o episódio em que o carro de um universitário que presta serviços de motorista à Folha foi interceptado e ameaçado. O caso ocorreu quarta-feira passada, numa rua central, quando o motorista de um Gol cinza sem placas fechou e fez parar o outro veículo e o condutor do primeiro empunhou uma arma para reforçar as ameaças. Estas, segundo o autor, estariam relacionadas com reportagens feitas pelo jornal.

Randolfe Rodrigues - além de se solidarizar com o jornal - disse que vai enviar ofício ao governador Waldez Góes e ao seu secretário de Segurança, Eder Abreu, pedindo providências para esclarecer a ocorrência e garantias para que o jornal e seus trabalhadores não sofram ameaças ou quaisquer outros constrangimentos. Seu colega Ruy Smith anunciou que fará pronunciamento amanhã no plenário da Assembléia Legislativa, quando condenará o atentado e solicitará garantias à liberdade de imprensa."

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"Notícias e ameaças", copyright Folha do Amapá <http://folhadoamapa.com.br/>, 18/10/03

"Normalmente um meio de comunicação serve como transmissor da notícia para os seus receptores, sejam eles leitores, ouvintes ou telespectadores, ou seja, o ato de informar é intermediário entre o fato e o receptor. Às vezes, porém, o que era meio se transforma em fim e acaba virando notícia.

Foi isso que aconteceu com a Folha do Amapá na semana que passou. A Folha foi notícia. Nossa manchete de capa repercutiu fortemente. Quase todas as cópias do jornal sumiram das bancas e tivemos que redistribuir a edição de número 438. A TV Amapá, afiliada local da Rede Globo, acabou seguindo as pistas abertas pela Folha e publicou excelente reportagem sobre o tema de nossa capa.

Até aí, tudo bem. A Folha só começou a virar notícia quando uma matéria publicada causou reação inesperada: uma ameaça. Três homens, num Gol cinza, interceptaram o motorista que presta serviços para a Folha e um deles, com uma arma na cintura, ameaçou-o dizendo que se fosse publicado algo que o incomodasse, ele deveria tomar cuidado. A ameaça foi levada para a delegacia, onde foi lavrado boletim de ocorrência.

Essa ameaça foi explícita, não existe dúvida sobre sua existência. Mas outros fatos estão acontecendo, que não são tão explícitos assim. O programa Revista Matinal, da Rádio Equatorial, foi tirado do ar sem nenhuma justificativa concreta. Sabe-se, porém, que era um programa que não tinha medo de tecer críticas ao status quo. O programa Transa Ação, na Transamérica FM, que trazia um bloco de notícias que também não era adepto do baba-ovismo, teve uma hora de seu tempo cortada.

O Amapá vive uma época em que dizer a verdade dos fatos é tachado de promover desarmonia. Mas queremos tranqüilizar nossos leitores, pois continuaremos seguindo a linha que sempre seguimos. O deputado Ruy Smith apresentou requerimento na sessão da última terça-feira, na Assembléia Legislativa, pedindo que o Governo do Estado, através da Secretaria de Justiça e Segurança Pública, apure a ameaça. Enquanto aguardamos o resultado das investigações, continuamos cumprindo o nosso papel.

Agora todo mundo quer saber quem é Gutembergue Jácome, que sem dúvida é a pessoa mais comentada do grupo de Waldez Góes. Certamente não por ser autor de grandes realizações, mas por estar envolvido em uma sucessão de escândalos que começam a fazer com que ele seja comparado ao fiel escudeiro do ex-presidente Collor, o PC Farias. Nesta edição, a Folha apresenta a nova face do poder no Amapá."

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"Governo contra-ataca e mexe nas comunicações", copyright Folha do Amapá <http://folhadoamapa.com.br/>, 18/10/03

"A nota do ex-senador Gilvam Borges (PMDB) e as denúncias sobre a atuação do Ibrape coincidiram com uma campanha publicitária do governo nos principais canais televisivos, mostrando obras que estão em andamento ou concluídas. Mas a resposta oficial não ficou só na campanha televisiva. O programa Revista Matinal, comandado pelos radialistas Humberto Moreira e Domiciano Gomes, foi tirado do ar pelo proprietário da Rádio Equatorial, José (Zelito) de Matos Costa. Ele alegou que vinha sofrendo pressões da Companhia de Eletricidade do Amapá para retirar o programa do ar, sob pena de ser cortado o fornecimento de energia elétrica nos prédios da empresa.

Na semana anterior à saída da Revista Matinal, o secretário de Comunicações do governo, Olímpio Guarany, fez várias visitas ao empresário Zelito, num sintoma claro de que havia uma negociação para a retirada do programa.

Antes mesmo disso acontecer, a Rádio Equatorial ficou várias vezes fora do ar justamente no horário do programa, levantando a suspeita de que algo estranho estava acontecendo.

Na segunda-feira o site do jornalista Antônio Correa Neto informou que o empresário José de Matos Costa recebeu a visita do radialista Luís Melo, que estaria de saída da Rádio Antena 1 por causa da mudança de atitude do grupo político do ex-senador Gilvam Borges. Melo estaria negociando a possibilidade de levar o programa que comanda na Antena 1 para a rádio do Zelito. Além da provável saída de Melo, está praticamente confirmada a ida de J. Ney para a Rádio Difusora de Macapá, a exemplo do que já vem ocorrendo com o apresentador Hélio Nogueira, que vai ser ‘a voz do governador’ na programação da RDM. Ele apresentará um programa com uma hora de duração começando ao meio-dia, de segunda a sexta-feira."

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"Corrêa Neto online", copyright Folha do Amapá <http://folhadoamapa.com.br/>, 14 e 15/10/03

"O programa Revista Matinal, que vinha sendo apresentado pelos radialistas Humberto Moreira e Domiciano Gomes, pela Rádio Equatorial/Transamérica AM, está fora da grade de programação da emissora. A emissora ‘deve muito para a Companhia de Eletricidade do Amapá e seu proprietário foi ameaçado de execução da dívida, caso não tirasse o programa do ar’, segundo José de Mattos Costa disse aos dois radialistas.

O que já era esperado aconteceu. José de Mattos Costa, o Zelito, dono da rádio Equatorial AM, tirou do ar o programa ‘Revista Matinal’, que vinha sendo apresentado pelos radialistas Humberto Moreira e Domiciano Gomes, depois de reunir com os dois profissionais e dizer sem meias palavras: ‘tenho uma dívida muito grande com a CEA e fui pressionado por eles. Ou tiro o programa do ar ou eles executam a dívida’. E o programa foi retirado.

Quando o governador Waldez Góes assumiu, diversos profissionais que vinham atuando na Rádio Difusora de Macapá, e que haviam conseguido recuperar a credibilidade e a audiência da emissora oficial ficaram sem trabalho. Um desses profissionais era Humberto Moreira, que apresentava o programa Revista Matinal todos os dias de segunda a sexta. Ao mesmo tempo a Rádio Equatorial AM se mantinha sem praticamente audiência alguma.

As negociações foram estabelecidas, algumas falharam mas Humberto conseguiu acertar seu ingresso na chamada Equatorial/Transamérica, com o mesmo programa, abrindo espaço para todas as correntes o que elevou a audiência da rádio e em conseqüência o poder de barganha de seu proprietário. O resultado é o que está se vendo: Zelito chamou os dois apresentadores do programa Revista Matinal e disse: ‘Tenho uma dívida muito grande com a CEA. O programa de vocês não me dá retorno financeiro e estou sendo pressionado por eles para o tirar do ar. Se eu não tirar, eles executam, a dívida’. E assim saiu do ar o programa Revista Matnal, que não por coincidência vinha abrindo espaço para comentários sobre ‘denúncias de corrupção no governo do Estado. Nos últimos dias o assunto mais em pauta foi o caso Ibrape, o Instituto de propriedade da família Jácome, que mesmo sem ter registro na Junta Comercial, e ter como proprietárias, pessoas que ocupam cargos de confiança no governo, já faturou mais de um milhão de reais em contratops de aperfeiçoamento e formação profissional em apenas oito meses de administração.

Se não hoje mas a TV Amapá vai publicar as matérias que dizem respeito às denúncias envolvendo o nome do advogado Gutembergue Jácome, conselheiro do governador Waldez Góes e membro do conselho de administração da CEA- Companhia de Eletricidade do Amapá. Diante de tantas evidências mostradas por setores da imprensa estadual, a emissora levantou o assunto e preparou o material para divulgação. Houve reação do governo e hoje pela manhã o presidente da Rede Amazônica de Televisão, jornalista Phelippe Daou recebeu um telefonema, em Manaus, supostamente do governador Waldez Góes tentando impedir a publicação da matéria. >>> Hoje, o advogado Gutembergue Jácome passou boa parte da tarde em uma sala da emissora, provavelmente gravando a sua defesa. A decisão do presidente da Rede Amazônica, que teria sido passada por telefone é a seguinte: ‘nós não devemos provocar a autoridade, seja ela qual for, mas não devemos temê-la. Se a notícia existe e é comprovada, vai para o ar."

 

IMPRENSA NA PERIFERIA
Luiz Otávio

"Jornalistas criticam coberturas na periferia", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 17/10/03

"Os jornalistas Elian Guimarães e Márcia Lúcia Cruz publicaram no jornal ‘Pauta’, órgão oficial do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SAJPMG), reportagem analisando as crescentes dificuldades que os jornalistas mineiros vêm encontrando em seu relacionamento com os moradores de favelas e bairros de periferia em Belo Horizonte. Revelaram que as lideranças comunitárias reclamam constantemente das ‘matérias preconceituosas’ preparadas por muitos profissionais e denunciam que muitos moradores já consideram que os repórteres ‘apenas desejam publicar tragédias’. Muitos desses líderes, inclusive, já estariam se recusando a conversar com os a imprensa, temendo a distorção de seus depoimentos.

‘Em coberturas de assuntos policiais, alguns jornalistas chegam até assumir uma espécie de espírito de corporação, chagando a interrogar, como os detetives, algumas pessoas acusadas de crimes’, continua o texto dos dois profissionais. ‘As ocorrências policiais se tornaram uma fonte única de informação, sem se respeitar o princípio básico de ouvir o outro lado, na equivocada avaliação de que se trata só de bandidos’.

Segundo o texto de Eilam e Márcia, alguns veículos de Comunicação têm se dado o direito até de julgar e condenar, antes mesmo do pronunciamento da Justiça ou a instauração de um inquérito. ‘Há ainda jornalistas que não são do ramo que incorporam uma paranóia generalizada e se sentem intimidados quando recebem pautas onde são obrigados a subir aos morros’.

Citam, como exemplo, o caso de uma equipe de TV que solicitou escolta policial para cobrir uma matéria em um posto de saúde situado em uma favela e três viaturas da Polícia Civil, exibindo armas de grosso calibre, deram cobertura aos repórteres. ‘A resistência à periferia muitas vezes começa na própria redação’, comentam os dois repórteres.

‘A imprensa precisa assumir suas responsabilidades sociais, em um país onde o número de pessoas morando em favelas cresce a cada dia. É preciso valorizar este tema, dando-lhe o mesmo espaço reservado à reforma da Previdência e a Tributária. Temos que propor reportagens que discutam a questão e busquem soluções para um dos maiores problemas estruturais brasileiros’, acentuou a reportagem.

Para Eilam e Márcia, atualmente existe uma cisão entre a favela e a cidade ‘e para que este abismo não fique cada vez mais intransponível, é imprescindível que se pense e se produzam pautas sobre as favelas, ultrapassando o lugar comum da violência. Para tanto, é preciso que os profissionais estejam familiarizados não só com as discussões sobre os direitos humanos, mas também sobre os direitos econômicos e sociais daquela população’.

Fonte: Jornal Pauta, do SJPMG"

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