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TV RECORD, 50 ANOS
Carol Knoploch
"Nostalgia aos 50", copyright O Estado de S. Paulo, 20/04/03
"É Show, Turma do Gueto, Roleta Russa, Cidade Alerta, Fala que eu te Escuto... Se permanecer no ar por mais 50 anos, a Rede Record, que comemora meio século de existência no próximo dia 27 de setembro, vai se orgulhar do quê? Há tempos não produz atrações como os Festivais de Música Popular Brasileira (quando surgiu a Jovem Guarda), Show do Dia 7, Família Trapo, Os Insociáveis (nome original de Os Trapalhões), Praça da Alegria (hoje, a Praça é Nossa), O Fino da Bossa, Show em Sí... monal, Circo do Arrelia, Chico Anysio Show e por aí vai. A Record, a ‘Rede Globo dos anos 60’, liderava a audiência, mantinha contrato com os melhores profissionais da época, revelou astros da música e da dramaturgia e tinha programação cultural.
‘Era uma época mais romântica, as pessoas usavam aqueles cabelinhos arrumadinhos e maravilhosos. Os tempos mudaram e a televisão, e não só a Record, é um retrato da sociedade. Mostra o que a população quer ver, de reality show a atrações do gênero do Cidade Alerta. Os números da audiência comprovam isso’, defende-se Del Rangel, diretor artístico da Record. ‘Se colocarmos O Fino da Bossa no ar hoje, não terá a audiência do passado.’
Esse passado glorioso da atual terceira rede do País (em audiência) - e a mais antiga em operação - está sendo resgatado em comemoração ao 50.º aniversário. Além de boletins diários que já mostram parte da história do Canal 7 de São Paulo - serão mais de 150 até setembro -, o pacote inclui cinco programas especiais misturando presente e passado e um grande show no dia 27 de setembro, provavelmente na casa de espetáculos Olympia.
‘Não é brincadeira contar a história de 50 anos de uma emissora como a Record. Se fosse outra, o trabalho seria mais fácil. A responsabilidade é enorme. A Record é a grande academia de televisão desse país, a grande Hollywood da televisão’, comentou Wagner Matrone, diretor do núcleo 50 anos, criado especialmente para a data. No próximo dia 28, será gravado o primeiro deles, no auditório da Barra Funda.
Segundo Matrone, serão cinco programas mensais no estilo Oscar, ‘com espetáculos, platéia e black-tie’. A apresentadora Adriane Galisteu dividirá o palco com pessoas que fizeram ou fazem parte da história do canal.
Na primeira atração, terá a companhia de Boris Casoy, Chico Anysio, Raul Gil e Miele. Zezé di Camargo e Luciano cantarão Disparada (de Geraldo Vandré e Téo de Barros) - música vencedora do Festival de 1966, interpretada por Jair Rodrigues. A banda (de Chico Buarque), que empatou com Disparada no primeiro lugar, com Chico Buarque e Nara Leão, ficará a cargo de Daniela Mercury.
Os Titãs interpretarão seu primeiro sucesso, Sonífera Ilha, e os herdeiros de Jair Rodrigues, Wilson Simonal e Elis Regina, respectivamente Luciana Mello, Simoninha e Pedro Mariano, lembrarão, com Selma Reis ou Fernanda Porto, algumas músicas que fizeram história nos idos de seus pais. Leandro Leart, Paula Lima, Elizeth Cardoso e Ciro Monteiro vão reviver O Fino da Bossa e Bossaudade, atrações lançadas pela casa em 1965.
‘Já está na hora de a televisão voltar a fazer musicais como antigamente’, disse Jair Rodrigues, fã do Ensaio, de Fernando Faro, na Cultura. ‘Eu saí da noite e fui para a televisão e para o rádio. Tem muita gente boa perdida por aí.’
As garotas-propaganda, que anunciavam produtos ao vivo na era pré-videoteipe, serão lembradas no primeiro programa. Idalina de Oliveira, a mais famosa, era responsável por segurar a audiência enquanto as câmeras eram deslocadas de um estúdio ao outro.
O segundo especial deverá misturar esporte, dramaturgia e o surgimento da Jovem Guarda. Pelé foi convidado. O esporte é capítulo de destaque na história da Record. Raul Tabajara e Geraldo José de Almeida apresentavam o Mesa Redonda, de 1954. O primeiro dono da emissora, Paulo Machado de Carvalho - que dá nome ao estádio do Pacaembu -, chegou a chefiar a seleção brasileira de futebol nas Copas de 1958 e 1962. Em ambas, o Brasil venceu. Jair Rodrigues fez uma música em homenagem a Paulo Machado (Marechal da Vitória), em 1962.
Silvio Santos, que estreou como animador em 1973 e depois se tornou sócio da Record, pode participar das comemorações. ‘Temos imagens do Silvio entrevistando gente na rua e defendendo o Roberto Carlos em Quem Tem Medo da Verdade?’, disse Matrone. Essa atração, do início da década de 70 e produzida por Carlos Manga, Mário Wilson e Flávio Porto, imitava um julgamento - Roberto Carlos foi réu num deles.
Arquivo - Grande parte do arquivo da emissora foi destruída em seis incêndios - as produções de 1953 a 1960, quando não existia o videoteipe, não eram registradas. Mesmo após os incêndios, a Record não saiu do ar. Foi cortada em outras ocasiões. Uma delas, em 1972, por motivo curioso: uma entrevista com uma hippie presa pela polícia. Segundo o então ministro das Comunicações Alfredo Buzaid, estava sob efeitos do LSD e ofendeu os princípios morais do povo.
O que sobrou do fogo e da má conservação está sendo recuperado e organizado. Materiais em 16 milímetros estão em restauração. De acordo com o diretor de Programação, Hélio Vargas, cerca de 80% refere-se ao jornalismo. ‘Algumas fitas estão com as identificações dos cinegrafistas. Uma delas traz a inauguração da Av. 23 de Maio.’
No ano passado, a Record começou a investir cerca de R$ 2 milhões no arquivo de cerca de 60 mil fitas - metade está em beta-digital. Nos próximos anos passará a ser de alta definição (HD). Para se ter uma idéia, algumas delas eram reaproveitadas e o material não era arquivado de forma organizada. Em junho de 2000, quando um ônibus da linha 174 (Central-Gávea), no Jardim Botânico, no Rio, foi seqüestrado, a emissora teve dificuldade para encontrar as imagens para vendê-las.
‘Há quatro meses, quando o arquivo começou a ser organizado, a Record pôde comercializar mais suas imagens. ‘É uma fonte de renda que não tínhamos e que está sendo revertida para o próprio arquivo’, explica Vargas, que nesse período faturou R$ 100 mil. ‘Os programas ficam por três anos guardados no tráfego. Após esse período, são compactados e cerca de 40% do original, mantido e arquivado.’
Para os especiais, Matrone conta que sua equipe não achou os originais de algumas novelas. ‘Se não acharmos, faremos a reconstrução de segmentos com convidados’, comenta. Não há registro, por exemplo, da primeira trama, baseada em radionovela de Amaral Gurgel, Banzo (1964), de Walter Negrão e Roberto Freire e direção de Silney Siqueira e Nilton Travesso. Nem de Éramos Seis, de 1958, com Gessy Fonseca e Gilberto Chagas, exibida apenas duas vezes por semana. Grandes nomes como Fernanda Montenegro, Francisco Cuoco, Aracy Balabanian, Eva Wilma, Suzana Vieira, Dina Sfat, Betty Faria, Fúlvio Stefanini e outros viveram momentos gloriosos em novelas da casa - a pioneira do gênero foi a Tupi.
Da Família Trapo, humorístico criado em 1967 pela Equipe A (Nilton Travesso, Manoel Carlos e Raul Duarte) e escrito por Carlos Alberto de Nóbrega e Jô Soares - que também fazia um dos papéis -, sobraram cinco ou seis episódios. O programa liderou a audiência por três anos. O episódio Moulin Rouge, que misturou Show do Dia 7 com Família Trapo, é uma das raridades preservadas.
Fundador - Ao lado de Manoel Carlos, Raul Duarte e Solano Ribeiro, Nilton Travesso foi um dos responsáveis pelo sucesso dos Festivais de MPB na Record, de 1966 a 69 - o primeiro, em 65, foi realizado pela TV Excelsior. ‘Na verdade, fui um dos fundadores da Record. No dia 27 de setembro de 1953, às 20 horas, eu ajudei a colocar a emissora no ar. Era um dos câmeras’, conta o diretor, que trabalhou 21 anos na Record.
O festival de 1966 consagrou o evento, revelando grandes nomes como Gal Costa, os Mutantes, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Tom Zé... Na terceira edição, surgiu a Tropicália. ‘Lembro do Gilberto Gil me falando que aquilo tudo, a magia, era coisa de Deus... Não há explicação para o que ocorreu na época. É difícil definir o que a Record representou’, declara Travesso.
Acredita, no entanto, que os festivais do passado não seriam sucesso hoje. ‘A época política era outra e despertava a criatividade de grandes nomes da música. Era bárbara a força da juventude daquela época.’ Comenta que Astros do Disco, com Randal Juliano, uma parada musical, também não emplacaria. ‘Não era essa bobagem de hoje de Top 10...’
Travesso explica que atualmente os programas são muito sensacionalistas e pautados pela audiência. ‘Há porcaria demais no ar por causa da audiência.’"
ASTRID FONTENELLE
Renata Gallo
"‘Não tenho vergonha de fazer fofoca na TV’", copyright O Estado de S. Paulo, 20/04/03
"Astrid Fontenelle sempre passou longe daquela imagem de jornalista careta vestindo tailleur atrás da bancada. Muito pelo contrário, sempre fez questão de deixar sua marca registrada. Vive cheia de acessórios e roupas coloridas, tem dez tatuagens espalhadas pelo corpo e faz a linha desbocada e divertida.
Aos 42 anos, se orgulha de ter feito parte de duas importantes inovações na TV: foi apresentadora do TV Mix, programa para o público jovem exibido no fim dos anos 80 pela TV Gazeta, e da formação da MTV Brasil.
Há três anos, no entanto, Astrid se viu decidida a abandonar a emissora que a deixou conhecida e partir para novo rumo. Quando parecia ter acertado a mão com os programas Pé na Cozinha e Barraco foi para a Band, para fazer algo no mesmo tom, o Programaço, atração que acabou naufragando. Na entrevista concedida ao Estado, ela fala como foi vestir tailleur para substituir Sílvia Poppovic e encarar as fofocas do Melhor da Tarde.
Estado - Quando você se formou, imaginava que iria trabalhar com fofoca?
Astrid - Imagina. Eu queria ser a Glória Maria (risos). Ela apresentava o RJTV, fazia matérias de comportamento e pulava de pára-quedas.
Estado - E como é fazer fofoca?
Astrid - Muitas pessoas têm muita vergonha de dizer que fazem fofoca na TV. Talvez para honrar um diploma de Jornalismo que a Justiça já não honra, que a TV não honra. Eu não tenho a menor vergonha porque sei que as pessoas que fazem não são idiotas. Não sou idiota e a concorrência não é.
Estado - No começo, você não achou estranho trabalhar com duas pessoas tão diferentes: Leão Lobo e Aparecida Liberato?
Astrid - Eu não tava entendendo como isso tudo iria encaixar, mas eu não podia ficar fora do ar. Era uma sacanagem comigo mesma. Então, decidi não levar a fofoca a sério e respeitar a audiência. Porque, se é isso que a audiência quer, então vamos fazer com mais humor, com mais inteligência.
Estado - E você está feliz com isso?
Astrid - (Pausa) Eu quero mais, mas sou feliz porque, do contrário, não agüentaria ficar quatro horas gravando.
Estado - O que é este ‘mais’?
Astrid - Não sei. Hoje em dia sei da minha importância e da importância do programa para a Band. Sei que, se eu for pedir mais, vão querer que eu acumule função e não quero. Hoje, a minha prioridade é cuidar de mim, não tenho mais adrenalina de disputar a faixa das 10 na TV.
Estado - Já teve essa neurose?
Astrid - Tive. Já tive assessora de imprensa para ninguém esquecer de mim. Mas sempre faço força para lembrar que sou jornalista, não celebridade, e também, nada como uma geladeira de 11 meses para cair na real.
Estado - Como foi ficar na geladeira?
Astrid - Olhava os programas da tarde: Leão Lobo com Marcia Goldschmidt... Nessa época, era uma baixaria. Ficava olhando e dizia: ‘Meu Deus, por que que estou fora disso? Gente, será que sou tão ruim assim?’ Ficava pensando o quanto eu teria de ceder e o quanto a TV teria de melhorar.
Estado - Você se sentiu frustrada com a mudança para a Band?
Astrid - Sei que tenho de ser safa o suficiente para ser repórter, editora ou vender coco na Bahia e nunca criei muitas expectativas. Não acho que sou a rainha da cocada preta, mas sei que sou boa no que faço. Infelizmente, o mundo e as mudanças do mundo não dependem só de mim.
Estado - Você acabou mudando o visual para substituir a Sílvia Poppovic. Por quê?
Astrid - Estava parada e me chamaram para um teste. É claro que eu tinha capacidade profissional, mas eles queriam saber como eu iria me portar, se eu tinha educação e aquilo mexeu com meus brios. Pintei o cabelo de loiro, alisei e vesti um tailleur cor-de-rosa. Mas aquilo era muito mais moderno que eu, era bizarro. Eu me policiava para não me chocar com os temas (risos). Na verdade, descobri que tudo depende da finesse de quem faz."
JAMAIS TE ESQUECEREI
Leila Reis
"Melodrama do SBT é opção à sanguinolência", copyright O Estado de S. Paulo, 20/04/03
"Antes mesmo de a Pequena Travessa dar adeus a seus seguidores, o SBT já emendou outra novela mexicano-brasileira - Jamais te Esquecerei - em sua programação e se deu bem. Ao estrear a nova novela enquanto exibia os capítulos finais de Pequena, a emissora conseguiu entregar (como se diz nos bastidores da TV) uma boa audiência para a iniciante. Sendo assim, Jamais registrou na estréia média de 18 pontos no Ibope (na Grande São Paulo), índice esse comemorado na Via Anhangüera com todo o entusiasmo.
Essa ‘estratégia’ foi inventada pelo dono do império do SBT há mais de 10 anos e não tem erro. Antes de se despedir de um dramalhão, o telespectador ‘engole’ o novo e, quando se dá conta, foi fisgado por meses.
Não é só o marketing de Silvio Santos que justifica o bom começo de Jamais te Esquecerei ou das tramas escritas por mexicanos, mas dirigidas e encenadas por brasileiros. O público sabe o que esperar de uma novela do SBT e suas expectativas são completamente atendidas.
Sabe que vai ver um melodrama rasgado, um elenco mediano (geralmente excluído do território da Globo), direção quadradinha e pouca pirotecnia a título de inovação. Assim como na Globo, um grupo de atores experientes segura a trama, amenizando os tropeços dos iniciantes.
O enredo central de Jamais te Esquecerei trata do amor de dois jovens - Beatriz e Danilo - que, quando crianças, juraram amor eterno. A mãe do rapaz (Bia Seidl) é contra o romance porque Beatriz é filha do ex-grande amor da vida de seu marido (Jonas Bloch). Tem uma bruaca que quer casar com o moço e desde criança atazana a vida da heroína.
Essas duas vão convencer o casal que eles são irmãos e, ao longo dos próximos meses, ambos vão se amar sem poder realizar o sonho de serem felizes juntos. Orbitando em volta do amor impossível estão outras tramas paralelas que englobam uma perua (Ana Maria Nascimento e Silva) que trai o marido com o vilão, uma mãe alcoólatra (Clarice Abujamra) que atormenta a vida dos filhos e por aí vai.
Ah, há um haras, com leilões de cavalos e música sertaneja. E esse pode ser o grande diferencial, porque as novelas em exibição na Globo atualmente são todas urbanas.
Mesmo fazendo um produto híbrido (meio nacional e meio mexicano), o SBT cumpre seu papel. Na pior das hipóteses está dando emprego e oportunidade para novatos ingressarem na carreira. Na melhor, corresponde aos desejos de um público que quer o folhetim como opção para a sanguinolenta programação que impera no horário.
O duelo entre os policialescos Cidade Alerta e Brasil Urgente - em que a truculência do conteúdo é reforçada pela beligerância de seus robustos comandantes - respinga na boa vontade até dos telespectadores de estômagos mais fortes.
Para escapar da avalanche das rebeliões de menores, dos suicídios de PMs e dos acidentes trágicos que alguns canais espalham pelo vídeo, parte da audiência encontra conforto em historinhas como Jamais te Esquecerei. E nem repara no figurino horrendo e na trilha quase amadora que embala o calvário de Beatriz e Danilo."
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