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ECOS DE BLAIR
Merval Pereira
"Espelho, espelho meu", copyright O Globo, 22/06/03
"Ainda mal saída da tempestade que levou à demissão a cúpula de seu maior ícone, o jornal ‘The New York Times’, a imprensa americana, um exemplo para a brasileira há pelo menos meio século, ainda debate-se no que parece ser sua maior crise nos últimos anos. Semana passada, outro símbolo, o ‘Washington Post’, se encarregou de colocar a pá de cal num dos mitos criados pela própria imprensa durante a guerra do Iraque.
A soldado Jéssica Lynch, transformada em heroína pelos meios de comunicação, agora tem sua história devassada e demolida por reportagens que mostram que seu resgate pelas forças americanas e sua atuação antes de ser capturada nada tiveram de heróico.
Na verdade, a imprensa americana tem estado mergulhada ha vários anos numa crise de identidade sobre suas funções, suas responsabilidades sociais e suas ligações com a comunidade, analisa o jornalista brasileiro Rosental Calmon Alves, professor da Universidade de Austin, no Texas, e diretor do Centro de Jornalismo para as Américas. Ele diz que essas crises são cíclicas na historia do jornalismo americano e sempre acabam num movimento reformista, uma auto-reflexão que ajuda os jornalistas a reencontrarem o caminho ou a revitalizarem o jornalismo. Em vários momentos, durante o século passado, houve essa auto-análise, esta auto-avaliação do jornalismo, lembra Rosental, para dar o exemplo do estudo feito pela AP, que em 1908 mandou um grupo andar pelo país perguntando o que estava havendo com o jornalismo. E outro, ainda mais importante, foi a Comissão Hutchins, dirigida pelo ex-diretor da Faculdade de Direito de Yale Robert Hutchins, criada graças a uma doação do Henry Luce, fundador da revista ‘Time’, que estava muito preocupado com os rumos do jornalismo.
Atualmente, há jornalistas que procuram mostrar que o excesso de ‘corporatização’ da imprensa americana está causando um declínio da qualidade. O professor Phil Meyer, da Universidade da Carolina do Sul, por exemplo, está levando adiante um projeto de três anos para tentar quantificar a qualidade de um jornal de modo que o pessoal de Wall Street entenda, partindo do princípio de que números e dinheiro são as únicas coisas que eles entendem.
A partir de 1997, um grupo de jornalistas, liderado por Bill Kovach e Tom Rosenstiel, organizou seminários, entrevistas e pesquisas pelo país para fazer uma análise da imprensa americana. O trabalho resultou no livro ‘Os elementos do jornalismo - O que os jornalistas devem saber e o público exigir’, que acaba de ser lançado no Brasil. As questões sobre o papel da imprensa já eram, então, tema de um grupo de jornalistas americanos que criou o Movimento de Jornalistas Preocupados. O objetivo seria redefinir os valores básicos do jornalismo, diante dos desafios criados por novos aspectos tecnológicos e empresariais da mídia. Assim como no Brasil, as pesquisas de opinião já registravam vertiginosa queda do prestígio da imprensa. A maioria dos americanos considerava que o noticiário político é preconceituoso ou muito preconceituoso.
Há quem identifique na mais recente crise de credibilidade da imprensa americana, provocada pelo excesso de patriotismo das coberturas, a pressão por lucros, que estaria prejudicando a liberdade de expressão nos EUA. Principalmente na TV com o chamado ‘efeito Fox’ - televisão do magnata Rupert Murdoch, que assumiu um noticiário claramente favorável ao governo Bush. O noticiário ideologicamente carregado nas tintas da Fox estaria influenciando outras redes. Há quem, como o economista Paul Krugman, veja também na mudança das leis das telecomunicações, permitindo a propriedade por um mesmo grupo de vários veículos num mesmo estado, uma pressão da Casa Branca sobre a imprensa. O presidente da comissão que autorizou a flexibilização é filho do secretário de Estado, Colin Powell, e os grupos de mídia interessados em ampliar seus domínios teriam tido mais boa vontade com o governo durante a guerra do Iraque.
Na verdade, a flexibilização da lei veio para referendar os avanços tecnológicos que hoje permitem uma sinergia de meios antes não existente. Para Rosental, os meios de comunicação aceitaram pressões da Casa Branca por causa do clima patriótico causado pelos ataques de 11 de setembro. O fato é que o noticiário ficou nitidamente mais oficialista, as fontes passaram a ser citadas pelo ‘New York Times’, por exemplo, de forma anônima muito mais amplamente do que antes. No Livro de Kovach e Rosenstiel há a definição de quais seriam os nove princípios do bom jornalismo. Além de coisas óbvias e indefinidas como cobrir assuntos ‘de forma interessante e relevante’ ou dar espaço ‘abrangente e proporcional’ aos diversos assuntos, há a reafirmação da necessidade de o jornalista ter compromisso com a verdade e ser independente, além de trabalhar ‘livre com sua consciência’. A lealdade com os cidadãos e a necessidade de ser ‘monitor independente do poder’ são também ressaltados. Vários desses aspectos estão agora em xeque nos Estados Unidos. A imprensa brasileira, que há pelo menos meio século se espelha na americana e é afetada hoje por séria crise econômica, tem oportunidade agora, com o livro de Kovach e Rosenstiel, de participar do debate."
José Nêumanne
"‘Me engana, que eu gosto’", copyright O Estado de S. Paulo, 18/06/03
"‘Jayson Blair estaria muito melhor na política, em que a mentira é um modo de vida mais aceitável’, disse Gay Talese, o historiador do New York Times (O Reino e o Poder), a Daniel Piza, numa entrevista publicada neste jornal, na qual comentava o escândalo do falsário que, aproveitando-se da tolerância de suas chefias, sujou de lama a credibilidade do jornal mais conhecido dos EUA no exterior plagiando textos e inventando notícias. Talese meteu o dedo na ferida purulenta do ‘politicamente correto’, lembrando que o pivô do escândalo, jovem e negro, se aproveitou de forma oportunista do fato de um chefe ser negro e o outro, branco do Alabama - portanto, preocupado em não parecer racista na liberal Ilha de Manhattan -, para prosperar em sua infausta carreira de falsificador de reportagens. Mas ele também escorregou no facilitário demagógico ao tentar livrar a cara da própria profissão, não justificando-a, mas apelando para a descrença popular em palavra de político.
Ao fugir pela tangente, transferindo a crítica para um alvo mais fácil, esse brilhante redator, que entrou para a história da literatura americana por haver fundado o ‘novo jornalismo’, perdeu uma boa ocasião de inaugurar uma discussão sobre a leniência com que seus compatriotas têm tratado a mentira na política e nos meios de comunicação. Estes, que depuseram um presidente, o republicano Richard Nixon, que se recusara a admitir sua participação na invasão do escritório de campanha do adversário no edifício Watergate, e quase derrubaram o democrata Bill Clinton, que não contara uma ‘relação sexual incompleta’ com uma estagiária na Casa Branca, têm sido tolerantes demais com o atual ocupante do Gabinete Oval. George W. Bush, eleito no rastro do pecado do antecessor e beneficiado pela vista grossa da imprensa americana para os escândalos contábeis envolvendo empresas dele e de seus assessores de confiança, até agora não contou onde estavam as armas de destruição em massa que ele e outro Blair, Tony, britânico e branquelo, usaram como pretexto para mandar suas tropas invadirem o Iraque.
Se políticos como Bush e Blair justificam o ataque de Talese em defesa dos coleguinhas, não é correto omitir a evidência de que a tolerância com essa dupla de Pinóquios não se limita à sua classe, mas também tem sido exercida sem parcimônia nos meios de comunicação. A manipulação do fundamentalismo patriótico é o pretexto politicamente correto da direita, assim como a tradição de intolerância racial nos EUA pode ter tornado os chefes do ambicioso ‘foca’ negro menos dispostos a descobrir suas fraudes e, por elas, puni-lo.
Esteja Talese certo ou não, políticos e jornalistas têm abusado da permissão que o público sempre lhes deu para tapeá-lo, gozosa e impunemente. Se alguém ainda tem alguma dúvida quanto à sordidez dessa aliança (provavelmente involuntária) entre partidos e redações para enganar seus eleitores e leitores, deve ler o artigo de Mário Vargas Llosa no Estado de domingo. O texto narra o caso do asqueroso fuzilamento político de Miriam Tey, diretora do Instituto da Mulher, ligado ao governo espanhol, por haver a Editora del Bronce, da qual é acionista, publicado um livro de contos intitulado Todas Putas, de Hernán Migoya. O personagem anônimo do primeiro conto do livro, O Violador, defende, com suas palavras (a narração é na primeira pessoa), uma teoria antes defendida pelo incorrigível doutor Paulo Maluf: ‘Estupra, mas não mata.’ Não dá para comparar a literatura de Migoya com a de Vargas Llosa, em termos de qualidade. Mas a tentativa de usar a incorreção política de seus contos para prejudicar eleitoralmente o governo (os jornais fizeram grande estardalhaço sobre o caso a duas semanas das eleições municipais), já às voltas com problemas por ter apoiado a invasão do Iraque, é moralmente abjeta, muito pior que ela - como destacou o autor de A Guerra do Fim do Mundo. Nas urnas, o eleitorado espanhol mostrou-se mais escaldado do que imaginavam esses espertalhões e a derrota de Aznar não foi tão acachapante como eles previam. Mas a intolerância cobrou seu preço: a editora foi forçada a recolher a obra.
Disso resta um travo amargo difícil de digerir: o desapreço pela verdade, que Talese identificou na atividade cada vez menos nobre da política profissional, tem contaminado perigosamente os meios de comunicação nesta nossa era em que os repórteres não precisam mais se encontrar pessoalmente com as fontes, ‘acessando-as’ por computador ou telefone, nem são vistos ou cobrados, como teriam de ser, por seus chefes. Doses excessivas de intolerância e tolerância, que se potencializam mutuamente, estão solapando a ética no discurso político e no noticiário e sabotando a democracia, ao torná-la um cínico pacto mútuo do gênero ‘me engana, que eu gosto’."
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"O espetáculo no lugar da notícia", copyright Jornal da Tarde, 24/06/03
"Por trás da crise de credibilidade da grande imprensa americana está a troca do fato real pela fantasia pitoresca
Uma revista semanal pôs na capa de sua edição de lazer para São Paulo um perfil das damas da sociedade que abrem seus suntuosos salões. Uma concorrente gastou tinta e papel com o filho galã de um empresário com problemas na Justiça cujo feito heróico seria ter namorado uma topmodel patrícia. Filhas de vips da política que se dedicam à carreira de modelo; a manicure do Palácio do Planalto declarando que o ex-presidente não conversava com ela, enquanto o atual lhe dá conselhos; e empregadas domésticas que brilham nas novelas de televisão ganharam destaque na primeira página dos dois maiores jornais da cidade. É um festival de ‘faits divers’ capaz de surpreender o semiólogo Roland Barthes, que pesquisou o tema a fundo.
O que Pascal Pia pensaria da leitura da imprensa paulistana de domingo? Aquele bravo combatente da resistência francesa à ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial entrou para o folclore do jornalismo por uma piada célebre. Quando o jornal cuja redação dirigia, o parisiense Combat, saiu da clandestinidade e passou a ser vendido em bancas, teria sido feita uma reunião para debater mudanças em sua linha editorial. Alguém da equipe, da qual fazia parte o argelino Albert Camus, Prêmio Nobel da Literatura, sugeriu abrir suas páginas para os leitores. E ele rebateu, com veemência: ‘neste jornal, os leitores lêem; quem escreve somos nós’. Mais de meio século depois, consagradas as seções de cartas de leitores em todos os periódicos impressos do mundo, Pia talvez se sentisse um tiranossauro, mas talvez não por isso ou pelo menos não só por isso: o tipo de jornalismo que ele fazia - e que foi predominante desde a invenção da gráfica de tipo móvel pelo alemão Gutenberg -, de combate político, como configurava o título do jornal que ele dirigia, finou e foi substituído por uma imprensa só de negócio, em que o resultado não é mais medido pelo efeito político e institucional de suas campanhas, mas apenas pelos milhões de consumidores a cujo gosto, seja qual for, atende.
Trata-se de uma mudança que parece estar passando despercebida, e não apenas pelo grande público, mas também pelos profissionais do ramo. E ela é o principal resultado da confusão cada vez maior entre veículos e seus conteúdos, confirmando, enfim, a previsão do teórico de comunicação canadense Marshall Mc Luhan - ‘o meio é a mensagem’ -, que chamou a atenção de um dos papas da imprensa conservadora americana, William Safire. O Estadão (fundado para servir às causas abolicionista e republicana e que atuou durante um século de forma decisiva e relevante na cena política nacional) de há uma semana reproduziu o texto em que o colunista do New York Times protestou contra a decisão tomada no começo de junho pela agência federal de comunicação (FCC) dos EUA, afrouxando os controles vigentes havia quase 30 anos sobre o sistema de propriedade no setor. Segundo Safire, a decisão ‘abriu as comportas para uma onda de fusões na mídia que esmagará ainda mais a diversidade local e concentrará o poder de moldar a opinião pública nas mãos de um número cada vez menor de companhias gigantescas’.
Fatos recentes - como a descoberta de um falsário carreirista na redação do mais venerado jornal americano (o mesmo New York Times de Safire), o promissor ‘foca’ (repórter iniciante) Jayson Blair, e a guerra entre as redes de TV americanas por uma entrevista exclusiva da soldado Jessica Lynch, cujo resgate em plena invasão do Iraque, aliás, parece ter sido uma grande farsa bancada pelo Pentágono com a cumplicidade dos meios de comunicação do país que sempre se considerou Pátria e guardião da verdade e da liberdade - dão razão a todos quantos temem a preservação das instituições e dos valores da democracia, comprometida pela concentração do poder na mídia e pela transformação da notícia na matéria prima de uma grande indústria de entretenimento, cujo código de ética foi substituído pelos relatórios de circulação e audiência.
A leniência do legislador americano à concentração do poder empresarial, com a permissão de uma empresa poder possuir numa mesma cidade até 3 emissoras de TV, 8 de rádio, um sistema de TV a cabo, um provedor de internet e um jornal é grave e não é localizada. Essa concentração preocupa Safire porque hoje 6 megacorporações já produzem 90% de tudo quanto a população vê, ou vê e lê. Cá no Brasil se a situação for diferente o será para pior. Sob o falso pretexto de entregar ao público o que o público revela querer aos pesquisadores, essa indústria da notícia-espetáculo está, na verdade, assumindo o controle sobre as mentes e os corações das platéias, de tal forma que agora nem precisa mais repetir uma mentira muitas vezes, como pregava o Dr. Goebbels, para torná-la uma verdade oportuna. Basta contá-la uma vez. Por essa nem Pascal Pia esperava!"
Carlos Alberto Di Franco
"Desafios do jornalismo", copyright O Estado de S. Paulo, 23/06/03
"As fraudes praticadas por jornalistas americanos do New York Times continuam dando o que falar. Autor do mais famoso livro sobre a história do jornal, Gay Talese vê importantes problemas a partir da crise que atingiu um dos ícones do jornalismo mundial. Embora faça uma vibrante defesa do Times, ‘uma instituição que está no negócio há mais de cem anos’, Talese, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, põe o dedo em algumas chagas que, no fundo, não são exclusividade do jornal norte-americano. Elas ameaçam, de fato, a credibilidade da própria imprensa.
‘Não fazemos matéria direito, porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mail, telefones, gravações. Não é cara a cara. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas. Os dois editores não viam a cara do repórter que eles contrataram. E as reclamações de editores de que Jayson Blair deveria parar de escrever foram feitas por e-mail. Isso é muita tecnologia no jornalismo. Não se anda na rua, não se pega o metrô ou um ônibus, um avião, não se vê, cara a cara, a pessoa com quem se está conversando’, conclui Talese. Falta de qualidade e deslizes éticos têm conseqüências. Produzem, a médio ou longo prazo, cicatrizes na credibilidade.
Um amigo gozador costuma dizer-me que a expressão ‘jornalismo de qualidade’ é contraditória em si mesma. Outro dia, quis exemplificar-me essa sua opinião. ‘Veja’, dizia, ‘ boa parte do noticiário de política não tem informação. Está dominado pela fofoca e pelo espetáculo. Não tem o menor interesse para os leitores. Não resolve nada, não questiona nada, não melhora a vida das pessoas.’ O desinteresse crescente dos leitores pelas páginas de política, por exemplo (e o comentário do meu amigo é uma amostragem do que está se passando pela cabeça do consumidor de jornal), está em relação direta com o excesso de aspas, a falta de apuração, a crise da reportagem e a substituição de matéria jornalística por transcrição rotineira de fitas.
O uso de grampos como material jornalístico virou, infelizmente, ferramenta de trabalho. A velha e boa reportagem foi sendo substituída por dossiê. É preciso ter cuidado, muito cuidado, com a fonte que voluntariamente procura o repórter. O grampeamento, além disso, continua sendo um delito.
Independentemente das tentativas de minimizar a gravidade da sua prática, continuo achando que o melhor fim não justifica quaisquer meios. De uns tempos para cá, no entanto, o leitor passou a receber dossiês que, freqüentemente, não se sustentam em pé. Como chegam, vão embora.
Curiosamente, quem os publica não se sente obrigado a dar nenhuma satisfação ao leitor. Dossiê deveria ser ponto de partida, pauta. Entre nós, virou matéria para publicação. Entramos na era do jornalismo sem jornalistas, nos tempos da reportagem sem repórteres. Ficamos, todos (ou quase todos), fechados no nosso autismo, emparedados no ambiente rarefeito das redações.
Enquanto esperamos o próximo dossiê, tratamos de reproduzir declarações entre aspas, de repercutir frases vazias de políticos experientes na arte de manipular a imprensa. O jornalismo está virando show business. Espartilhados pelo mundo do espetáculo, repórteres estão sendo empurrados para o incômodo papel de peça descartável na linha de montagem da ciranda do entretenimento.
Urge combater as manifestações do jornalismo declaratório e assumir, com clareza e didatismo, a agenda do cidadão. É preciso cobrir com qualidade as questões que influenciam o dia-a-dia das pessoas. É importante fixar a atenção da cobertura não mais nos políticos e em suas estratégias de comunicação, mas nos problemas de que os cidadãos estão reclamando.
Repórteres carentes de informação especializada e de documentação apropriada acabam sendo instrumentalizados pela fonte. Sobra declaração leviana, mas falta apuração rigorosa. A incompetência foge dos bancos de dados. Na falta da pergunta inteligente, a ditadura das aspas ocupa o lugar da informação. O jornalismo de registro, burocrático e insosso, é o resultado acabado de uma perversa patologia: o despreparo de repórteres e a obsessão de editores com o fechamento. Quando editores não formam os seus repórteres, quando a qualidade é expulsa pela ditadura do deadline, quando o planejamento é uma abstração, quando as pautas não nascem da vida real, quando não se olha nos olhos dos entrevistados, está na hora de repensar todo o processo.
A autocrítica interna deve, além disso, ser acompanhada por um firme propósito de transparência e de retificação dos nossos equívocos. Uma imprensa ética sabe reconhecer os seus erros. As palavras podem informar corretamente, denunciar situações injustas, cobrar soluções. Mas podem também esquartejar reputações, destruir patrimônios, desinformar. Confessar um erro de português ou uma troca de legendas é relativamente fácil. Mas admitir a prática de atitudes de prejulgamento, de manipulação informativa ou de leviandade noticiosa exige coragem moral. Reconhecer o erro, limpa e abertamente, é o pré-requisito da qualidade e, por isso, um dos alicerces da credibilidade. Só assim conseguiremos que os leitores, cada vez mais seduzidos pelas facilidades oferecidas pela informação virtual, percebam que o jornal continua sendo útil, importante, um guia insubstituível para a navegação na vida real."
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