24/06/2003 13/23

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LÍNGUA PORTUGUESA
Deonísio da Silva

"O português de Jânio Quadros", copyright Jornal do Brasil, 22/06/03

"Autorizado por meus superiores aqui no Jornal do Brasil, obtive recreio, sinônimo de intervalo. E a coluna de hoje vai ocupar-se de Jânio Quadros. Fui aluno de Guilhermino César, em Porto Alegre, na mesma turma do atual vice-governador do Rio Grande do Sul, Antônio Hohlfeldt. Pois Guilhermino César, que omitia o da Silva de seu sobrenome, jamais nos liberava para o intervalo, mas para o recreio.

Ora, intervalo veio do latim intervallum, designando espaço entre um valo e outro. Como tantas outras palavras, veio das lides militares, guerreiras. Os soldados construíam valos e paliçadas - alguns dicionários autorizam também a grafia antiga, palissada - para organizar a defesa nos campos de batalha. ‘Intervalo’ foi, pois, na origem, o espaço entre os valos ou entre as estacas. Já ‘recreio’ tem origem mais bonita. Você interrompe o que está fazendo e vai fazer outra coisa. Recreio procede de recrear, que em latim é recreare, cujo significado é fazer brotar de novo, tendo também o sentido de reanimar.

Para nós, seus alunos, era melhor ainda quando o mestre continuava o recreio na volta à sala de aula. E vice-versa. Era um encanto ouvi-lo. E assim registro que professores como Guilhermino César são lembrados a vida inteira. Vamos ao recreio e a Jânio Quadros.

Político dos mais controvertidos que o Brasil já teve, Jânio era professor de Português e de Geografia. E respeitava a norma culta de nossa língua em declarações, bilhetes, cartas, documentos, em tudo o que dizia e escrevia. Muitas de suas tiradas ficaram célebres.

Candidato a governador de São Paulo, enfrentou em Ribeirão Preto uma autêntica armadilha que lhe fora preparada por seu notório adversário, Adhemar de Barros. Também candidato, Adhemar paga um repórter para que vá à entrevista coletiva de Jânio, pedindo ao jornalista que faça uma única pergunta:

- O senhor sabe que a família interiorana é moralista e conservadora. Gostaria de lhe perguntar: por que o senhor bebe?

A resposta veio bem ao estilo de Jânio:

- Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.

O flagrante revela um cuidado específico que Jânio Quadros tinha na colocação dos pronomes, um drama para jejunos em português. ‘Comê-lo-ia’ equivale a ‘o comeria’. A síntese, desjeitosa para a fala, que prefere ‘comeria ele’, soa pernóstica. Não em Jânio apenas, aliás.

Em outra ocasião, o humorista Leon Eliachar lhe pergunta:

- Se eleito, colocará os pronomes nos seus devidos lugares?

Sua resposta:

- Os pronomes não aguardam a minha eleição para que se coloquem nos seus lugares. Estão sempre neles. A boêmia dos verbos é que mutila a boa ordem das frases. Há que lhes perdoar. Não se desgrudam da idéia de movimento. (Atualmente, é mais usual boemia, sem acento.)

E provocando o candidato, Leon alude a famoso comercial:

- Só ESSO dá ao seu carro o máximo?

Jânio:

- Não entendi a pergunta. Pressinto-a sutil como o próprio interpelante. Resta-me, pois, neste instante de perplexidade, o recurso à passagem de volta: só isso dá ao seu cargo o máximo?

Para terminar o recreio, que voltará na próxima coluna, vejamos o final da mesma entrevista. Leon Eliachar faz a última pergunta:

- O oval da ESSO é oval ou aval?

Jânio tira de letra:

- Sugiro-lhe, amistosamente, uma consulta a qualquer psicanalista. O Brasil é tão mencionado no seu questionário, quanto a ESSO.

Nelson Valente, autor do livro Luz... Câmera... Jânio Quadros em Ação (o avesso da comunicação), de onde foram extraídos os trechos aqui citados, conclui piedosamente: ‘Ele podia dormir sem essa.’

Bom domingo a todos e até de repente!"

 

TIROS EM COLUMBINE
Natalia Viana

"Michael Moore e Um Novo Jornalismo", copyright Caros Amigos, 20/06/03

"Li algumas críticas sobre o filme ‘Tiros em Columbine’, de Michael Moore, porém todas me pareceram incompletas, talvez por virem de críticos de cinema. Engana-se quem distingue o documentário do jornalismo e o aproxima da sétima arte; ele é nada mais do que uma das formas possíveis - dentre muitas - de fazer reportagem, aquela que tem se colocado na vanguarda, por explorar com maior liberdade as possibilidades técnicas e narrativas. Infelizmente, não é o que acontece com o jornalismo em geral.

Com uma câmera simplista, de imagens fáceis e quase caseiras, ‘Tiros’ traz ao espectador uma concepção de jornalismo que, sem exagero, pode-se denominar ‘anti-showrnalismo’ (referência ao conceito de José Arbex Jr). Logo de cara, foge ao fetiche das avançadas tecnologias de filmagem, edição e produção hollywoodianas em que cada vez mais a imprensa grande investe. Mas vai além, provando que uma boa história supera em muito qualquer pirotecnia visual: sem dúvida, o espectador saboreia o documentário do início ao fim. Isso porque Moore foge do padrão jornalístico predominante para tornar-se um narrador. Como poucos, ele sabe contar uma história.

Walter Benjamin lamentava a morte da arte de narrar em nosso dias nos seguintes termos: ‘São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente. É como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências.’ Por saber trocar experiências e delas tirar aprendizado, o narrador figura entre os sábios: ‘Seu dom é poder contar sua vida; sua dignidade é contá-la inteira.’

Quem vê uma notícia jornalística sabe que ali pode-se encontrar tudo, menos uma experiência; na maioria, elas se limitam a um relato insosso, quadrado, bidimensional do ocorrido. Regradas pelos manuais de redação, o que acontece com as reportagens é um achatamento da realidade, sendo muito difícil extrair a vivacidade de um acontecimento qualquer por trás da sua linguagem fria e distante. A história de uma família faminta de afegãos é relatada exatamente da mesma maneira (com as mesmas palavras, o mesmo espaço, a mesma organização de texto, construção das frases e legendas) que a falência de um banco. Nada contra a importância de noticiar a falência de um banco; porém mesmo essa notícia é construída de maneira que o leitor não pode adivinhar o reflexo disso na sua vida, ou na vida de qualquer pessoa. E o leitor, como qualquer um de nós, vive no ‘rés do chão’.

Um jornalismo que não desperta paixões é por si um fracasso, é alienante no sentido de tirar das pessoas o conteúdo da vida, das coisas da vida. No seu livro Showrnalismo, Arbex afirma que ‘fatos existem, mas não como entidades naturais (...) só podemos nos referir a eles como construções de linguagem’, mas lembra que o narrador não pode manipular a linguagem ao seu bel-prazer. Sim, deve-se seguir um conjunto de normas que aproximem o fazer jornalístico do ‘mundo possível’ que esperamos. O documentário de Michael Moore aponta novos caminhos nesta direção.

Um novo jornalismo deveria valorizar a dimensão humana de um acontecimento através das especificidades e das pessoas ali presentes como maneira de retirar o fato da esfera das coisas inalcançáveis que nos rodeiam por causa da alienação em todos os níveis (alguns exemplos são ‘o mercado’, ‘a política’, ‘as regras’, ‘o chefe’). Deixar transparecer que é uma história que poderia acontecer com qualquer um, e por isso vale a pena ser contada - isso é para mim o jornalismo. O reverso disso é, claro, o lead, e a enxurrada de dados que infesta as publicações noticiosas. Números, e não pessoas, é o que conta para uma matéria ser bem-sucedida no modelo que está aí (não é coincidência o fato de números e valores, e não pessoas, regerem o nosso sistema de governo: o jornalismo é produto e reprodutor desse sistema).

Moore sabe manter a humanidade da história com muita habilidade. A começar por si mesmo, um americano típico, inofensivo, de aparência medíocre com seu bonezinho, até os entrevistados, apanhando-os em contradições, ou enquanto jogam fliperama ou sinuca. Conversa com eles como se conversa com um vizinho sem, no entanto, ser falsamente condescendente. É notável a maneira como ele faz dois jovens admitir que faziam bombas caseiras e vendiam armas; sem agressividade, sem ar de ‘sabe-tudo’ (tão comum aos notáveis jornalistas de hoje em dia). Seu grande dom é saber ouvir.

A marca de sua comunicação é a simplicidade e a humildade (não digo que Moore seja humilde no dia-a-dia, mas em ‘Tiros’ ele mantém o foco na história e não em si próprio). O documentário só evolui porque ele se coloca desde o primeiro momento uma pergunta infantil (que muitos repórteres hoje em dia se esquecem de fazer): por quê? Aos entrevistados ele não faz perguntas maliciosas, cheias de segundas intenções, mas diretas, cara a cara, indagações de uma pessoa que realmente quer entender.

Outra coisa: durante o filme, ele explicita o processo de construção da sua investigação, narrando as impressões que teve, construindo e em seguida negando as próprias hipóteses (ao confrontá-las com outros dados), levando, enfim, o espectador junto consigo na evolução de seu raciocínio. Sem impor respostas fáceis dadas por algum ‘expert’, como muito se faz por aí. Além disso, ele usa pessoas comuns como ‘fontes’. No jornalismo, esse proceder ainda é raro: as fontes ‘confiáveis’ são, sempre, aqueles que estudam o fenômeno, aqueles que têm parecer a dar, os ‘experts’, o ‘governo’, enfim, quem detém o poder (intelectual, midiático, financeiro, governamental). Do outro lado, os espectadores/leitores não têm acesso a tais pessoas; portanto, estão impossibilitados de questionar os fatos e obter uma nesga de verdade, coisa que só os jornalistas podem fazer (Moore, por sua vez, parece afirmar o tempo todo: ‘isso é coisa que qualquer um consegue fazer’). O problema é ainda pior porque a visão que o espectador tem de si mesmo é baseada em clichês provenientes de uma cobertura jornalística desinteressada , antiética, apressada e descuidada. Ou são ‘população de baixa renda’, ou ‘preto, pobre e ladrão’, ou ‘uma senhora batalhadora’, etc. As ‘personagens’ que figuram nas notícias são sempre construídas sobre estereótipos limitados. E isso acaba afetando a própria maneira como elas se vêem.

Moore, por sua vez, não se limita a clichês. Vai conversar com os estudantes de Columbine, com Marlin Manson e até com Charlton Heston (!), a quem visivelmente odeia. A lição que esse gordinho de boné nos dá é que o bom jornalista sempre deve ouvir as pessoas, sempre as pessoas. Desta crença nasce a sua forma de jornalismo, cuja marca é, sobretudo, o resgate da narrativa e do diálogo."

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